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Outro Sentido

Outro Sentido

Habitat

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[imagem: Manuel Amado]

Sentamo-nos à mesa para almoçar. A janela recorta-nos uma imagem de árvores cheias - dois pinheiros e uma palmeira. O meu pai comenta com frequência: "gosto tanto deste quadro"; eu olho e percebo aquela tranquilidade silenciosa, um cenário natural que emoldura a refeição.

A empregada - uma brasileira bem disposta e franca que diz coisas que nos fazem rir -, comenta lá da cozinha que das seis codornizes acabadas de arranjar, só quatro tinham coração, "as outras são desalmadas", e eu quase me engasgo no copo de tinto.

Armada em filha pródiga que à casa dos pais (temporariamente) retorna, reencontro o meu quarto ainda assinalado com o meu nome na porta, olho à volta e reconheço os livros que me acompanharam durante anos, abro-os e descubro-lhes as páginas que sublinhei, os postais que lá deixei, os cantinhos dobrados para voltar à página que me encantou. São edições antigas, amareladas, usadas, absolutamente familiares.

Conheço a cor das paredes quando a manhã entra pelas frestas das portadas cor de laranja e deixo-me preguiçar no colchão que já foi meu, meia estremunhada, a identificar as pequenas coisas que fazem a vivência de um espaço que me é familiar mas onde já não encaixo, é como olhar com ternura para uma fotografia antiga.

O meu pai canta fados pela casa desde as primeiras horas do dia (como sempre fez), o elevador do prédio sussurra uma rota descendente, chinela-se pelo soalho e há um escorrer de água de um apartamento vizinho. No ar paira um cheiro a lareira e a torradas acabadas de fazer. Os meus avós olham-me do alto das estantes, há álbuns de arte empilhados em cima das colunas de som (à falta de lugar nas prateleiras), uma luz permanece sempre acesa na cozinha e outra na sala e, a meio da tarde, há um arco íris reflectido da janela que se baralha com o desenho do tapete de arraiolos.

Ainda que tentasse pintar um quadro desta casa, ele estaria sempre incompleto, é que uma casa nunca é só uma casa, são as mil e uma coisas de quem a vive.

Geografias

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A importância de termos lugares bons que nos salvam, não importa se são lugares mesmo, feitos de espaço e com localização no mapa; geografias há muitas e aquelas do coração podem levar-nos a caminhos de consolo tremendo. Há pessoas que são lugares, os melhores lugares da nossa história, voltar a elas é mergulhar em sorrisos íntimos de conforto, abraços que se dão para lá da ausência, estão sempre lá, mesmo quando já não estão. Voltamos a esses lugares porque sim, porque não, porque nim. São lugares cativos e são sempre os melhores, porque a partir deles vemos tudo e guardamos essa paisagem em fotogramas mentais a que voltamos mais tarde, num rewind de coisas boas. É assim uma espécie de cinematografia pessoal, com realização espontânea que tende a guardar instantes que até pareceram banais no momento em que os vivemos, mas que depois, vistos da plateia dos anos, são raros, espantosos, densos, saltam com uma banda sonora em crescendo e um close up de detalhes que nos surpreendem na nossa capacidade de memória.

 

Mrs. Scrooge ou isto não é uma crónica de Natal.

 

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Não me saem, este ano, as crónicas de Natal, mas a árvore está feita e até lhe mudei o poiso; já paciência para o calvário das prendas, ainda não tive e só de pensar nisso, dá-me vontade de fugir. 

Li algures que, na Islândia, a tradição é trocar livros pelo Natal - há lá coisa mais linda? Se já importamos o Halloween, o trick or treat e o Papai Noel da Coca-Cola, podíamos importar a dita tradição islandesa, tão civilizada e culta. Mas não, anda tudo a invadir centros comerciais e arrancar cabelos e a trocar SMS do tipo "qual é o tamanho da roupa do teu filho?" Canseira!

À noite, há um cheirinho a lenha que se espalha pelas redondezas e a vila ilumina-se, festiva. Gosto disso, dá vontade de me encasacar e cirandar por aí.

Ainda ninguém falou da ceia de consoada, habitualmente, por esta altura, as tarefas estão distribuídas e todos sabem quem leva o quê. Este ano estou tramada porque a senhora que me fazia os papos de anjo recusou a encomenda e, por isso, cheira-me que terei de ser eu fazê-los, a menos que me troquem a incumbência natalícia.

Numa das casas de pronto a comer de que sou cliente assídua, descobri que se pode encomendar um peru sem peru; não, não é bem assim, ele há peru mas é quase todo recheio e depois colocam umas pernas assadas ao lado, sem aquela coisa seca e desengraçada do peito de peru que fica a fazer pratos de restos até à noite de fim de ano. Vou lançar a ideia mas acho que ninguém me vai ligar nenhum.

Gostava de ir à Missa do galo - todos os anos penso para comigo que gostaria de ir à Missa do galo -, mas nunca consigo, a família não tem quórum de fé que o permita e a tradição é que à meia noite deita-se o menino nas palhinhas e vai-se para a varanda com tampas de panela e colheres de pau chamar o Pai Natal que, entretanto, toca à campainha e deixa um enorme saco de prendas à porta, antes de se evaporar pelo elevador abaixo. Houve um ano em que ele não desapareceu e ouviram-se umas vozes pequeninas a comentar que o Pai Natal era muito parecido com o Tio António, desde aí, ele deixa o saco mas ninguém lhe vê a barba.

Não me importava, ainda, que as festividades se resumissem ao dia 24, e que o 25 fosse calmamente passado com missa de Natal e tranquilidade, mas também não dá.

Há muito que tenho ganas de um Natal à margem, mas sucumbo ao amor pela família e à lembrança de Natais passados e das minhas avós e dos meus tios e, claro, aos miúdos em bando, de olhinho arregalado e expectante de ouvir o nome pronunciado com um embrulho que lhes é atirado para as mãos no ar, e à folia em redor da mesa e, sobretudo, àquele instante - que é o melhor da noite -, quando a sala da casa da minha mãe é uma bagunça de papel e fitas pelo chão e nós voltamos todos para a mesa, para aconchegar o peru com uma fatia de bolo rei e um chá ou um copo de tinto. 

A idade da indecência

 

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Eu agora faço análise, assim mesmo, como as brasileiras, que soa muito melhor: eu faço análise e aulas de pilates à hora do almoço. A minha mãe nunca fez análise e ainda criou dois filhos, mas eu não sou, definitivamente, a minha mãe.

Eu ando para aqui a atirar pedaços de vida ao ar e a tentar agarra-los ao mesmo tempo, como uma uma malabarista maltrapilha, em cima de uma corda muito bamba, pendurada lá no alto desse circo que é a vida. Tenho um show diário em horário fixo, das oito às oito, e a coisa não tem corrido mal, raramente deixo cair uma bola ao chão e, nas raras ocasiões em que isso acontece, eu vou lá apanha-la, com um pé, graciosa, super difícil, super show, parece que faz parte do número.

Lá de cima, na minha corda, eu vejo tudo - o antes, o agora e o depois (como o Caetano) - e o meu circo está muito diferente.

O antes era bom, era a idade da inocência em que eu resolvia tudo com chocolate e uma pista de dança. Nesse tempo, para aplacar as minhas angustias, o meu pai tentatava ensinar-me que a vida era feita de "setenta por cento de chatices e de trinta por cento de coisas boas", e que o importante era aprender com as primeiras e aproveitar as segundas. Para compensar, houve um dia que ele regressou de viagem com um Toblerone de meio quilo debaixo do braço; eu comi-o numa tarde e fiquei feliz por uns dias. O chocolate era como os pozinhos de perlimpimpim, tornava tudo mais doce e, quando o chocolate não chegava, a pista de dança resolvia. Na idade da inocência era fácil deslindar a vida e, no dia seguinte, o mundo acordava, igual a ele mesmo, a girar sobre o seu eixo, sossegadito, pelo menos, na extensão tranquilizadora do meu País e respectiva vizinhança.

Agora já não é assim, eu acordo de manhã e acho que o mundo perdeu o seu eixo - é que acho mesmo -, há dois dias a lua estava enorme e isso não pode ser coisa boa. Anda tudo a respirar o sobressalto do abismo - numa manhã o mundo está uma coisa e, na manhã seguinte, está outra oposta. O planeta está de pernas para o ar e o meu circo também, o que não é nada auspicioso para quem anda lá nas alturas, a equilibrar os pés numa corda agitada com ansiedades, desafios, cautelas, preocupações, ordenados para pagar, impostos para gerir, prazos para cumprir, gente que eu não entendo, egos que eu não suporto, trânsito, poluição, desencanto, sarilhos, irritações, falta de sono, dores nas costas, nos joelhos, na barriga.

Meu circo está diferente e eu tornei-me mais cautelosa. Agora, tenho uma rede enorme a flutuar debaixo dos pés, não vá o diabo tecê-las. Nessa rede, eu pus a família, a fé, as amigas, os livros, o mar, uma caixa de Angelicalm e uma tirinha de Diazepan, o voluntariado, a minha casa, as minhas plantas, o meu Moleskine, as aulas de pilates e sessões de análise (olha o Brasiu).  É isso que me salva da insanidade, é aí que eu encontro os pontos cardeais que me orientam e se cair, eu caio nessa rede, mesmo que o circo venha todo atrás.

Estou nessa idade, na velha infância que perdeu a inocência mas que vive na indecência generalizada.

O meu pai nunca mais me ofereceu um Toblerone, o que está mal; o chocolate ainda resolve muita coisa.

 

Dia de finados

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Fui uma única vez a um cemitério em dia de finados.

Era muito miúda e entregaram-me a tarefa de limpar a campa de alguém que nunca havia conhecido, mas eu limpei-a, dedicadamente, com uma amiga, um balde de água e duas vassouras. Lembro-me de o fazer com esmerado cuidado e empenho, lembro-me de o fazer como dádiva e com um profundo sentido de respeito, lembro-me de o fazer sem vislumbre de tristeza, mas atravessada por uma enorme ternura. No final do trabalho, aquela campa estava brilhante no seu mármore branco e eu levei um raspanete pelo lodaçal que a rodeava. Não liguei, achei que aquele morto, naquele dia estaria a olhar-me lá de cima, feliz e com uma gargalhada rasgada no rosto. Vi-o assim, mesmo.

Depois disso, voltei a cemitérios apenas com água nos olhos e, por umas quantas vezes, quase chorei um lodaçal semelhante, entretanto, nos dias que vão passando, falo muitas vezes com esses meus que já cá não estão, com as minhas avós em particular, ouço o que elas têm para me dizer, respondo-lhes e digo-lhes coisas de saudades. Às vezes, elas também me dão raspanetes, mas eu não ligo, acho que elas são sábias e que estão a olhar-me lá de cima, felizes e com sorrisos no rosto. Vejo-as assim, mesmo.

 

 

 

 

 

Cartas da guerra.

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Leste o livro (segunda leitura, desta feita acabada), viste o filme e, para compor ainda mais o retrato, agarraste ainda na memória de elefante, o primeiro romance publicado do autor que relata a história da separação conjugal que, nas cartas, parece invisível de qualquer horizonte.

Que vidas tão difíceis, aquelas, em contraste com o suave viver deste agora que não conhece a distância, a espera de coisa nenhuma, a dificuldade vazia do tempo, a arma ao ombro ou o sobressalto interior de um estrondo. Aquele, é o retrato de outro tempo, e importa assegurar-lhe o devido traço de testemunho histórico; ou o possível, pois é sabido (e ali referido com insistência) que o horror da guerra não podia ser contado nas cartas escritas para casa, numa imposição do regime que sacudia para trás do pano a fealdade das opções tomadas (“a maior parte das coisas não as posso contar”).

Mas como conhecer de outro modo a lama, a sujidade, a degradação, a doença, o frio, o calor, a trovoada e o vento, os aquartelamentos, o arame farpado, os laços que se criaram entre militares e entre estes e as povoações, os dias e a sua extensão, as minas que arrancavam pés, pernas e vidas ao desbarato, os festivais de “costureirinha” para embalar o sono impossível, os ratos que se passeavam no chão das camaratas e as aranhas de tamanhos inimagináveis que cirandavam no tecto, os cães famintos e doentes, os milhafres, os morcegos, os insectos de toda a sorte, o avião que trazia o correio - quando chegava -, e os quimbos, os sobas e as esconjurações da doença em cerimónias de danças e batuques, numa realidade quotidiana de alferes em comissão?

Que viver aquele, naquele papel descripto, naquelas cartas, quase diárias, que aguardam resposta durante dias e que se escrevem a esferográfica, a aerograma, a envelope e selo, numa distância dilacerante de espera e de saudade, uma panaceia de palavras que, na suspensão de um instante, ergue uma ilusão de proximidade de outro lugar e daquela que é querida, amada e desejada com todas as forças da juventude. São, por isso, cartas de tremenda intimidade que nos fazem a nós, leitores intrusivos, oscilar entre a maravilha encantatória dos amantes e a sensação usurpadora de bisbilhotar na privacidade da conjugalidade vizinha.

Cruzas-te com este mundo que, afinal, nem te é tão estranho assim, pois ouviste-o murmurado toda a vida por um pai que viveu uma Guiné. Lembras-te, de memória viva, de o veres sobressaltado a qualquer estalo de foguete ou brincadeira de balas carnavalescas, e daquela sensação de a voz se lhe calar em reticências mudas quando as memórias daquele tempo tentavam ser contadas. Tu própria tens uma imagem mental de lá teres estado e que não é provavelmente memória alguma, mas uma construção de álbum de fotografias e histórias de família. Já o teu irmão, guardou a memória olfactiva da creolina com que se desinfectava o chão da casa em que viveram em Bissau.

Entre as leituras desta guerra e o filme lindíssimo de Ivo Ferreira, vais falando com a tua mãe, que também foi mulher jovem com filhos, que escrevia aerogramas ao marido na Guerra, e dizes-lhe, em conversa, que uma das coisas que te deixou uma impressão viva, foram os relatos das noites de trovoada, talvez pelo fascínio que ainda hoje tens pelo fenómeno atmosférico. Ao teu lado, a tua mãe, sorri e conta-te que nessas noites de trovejar tropical, costumavam sair de casa e ir para um edifício ali perto – uma qualquer fábrica de cerveja – ver a trovoada desenhada no céu e que tu, pirralha minúscula de três anos, já então, te esticavas toda, maravilhada pelo espectáculo luminoso. Disto não tens memória, só o prolongar inconsciente (e até agora desconhecido) desse hábito que te arrasta para a janela mais próxima ao primeiro trovão, mas os teus pais lá guardam, também eles, as cartas que se escreveram e aquela distância que não se contava só em quilómetros mas em tempo e ausência.

Uma casa

Évora no Natal, a rua estreita e empedrada da casa da tua tia; saber que assim que puseres um pé fora do carro, levas com uma chapada de ar frio que te enregela o nariz. Bater à porta daquela casa - havia um batente, já não sabes se era uma mão de ferro ou uma argola, mas fazia-se ouvir bem; não te lembras de uma campainha -, a tua tia grita qualquer coisa lá de dentro: "já chegaram?" e aparece com o seu sorriso enorme, toda ela grande, por fora e por dentro.

Entras a bater as mãos e a sorrir a cada canto, porque há casas que contam histórias e tu, inconscientemente, tens essa noção. Logo à entrada, há um bengaleiro de madeira escura e torneada, com um espelho ao centro e lugar para bengalas e guarda-chuvas; na parede oposta, um calendário com uma imagem de Jesus e o seu coração flamejante. Há uma arca em cima da qual estão as mesmas fotografias de sempre, toda a família emoldurada em chapas de fotógrafo ou poses de ocasião; estás lá tu com o teu irmão e os teus pais num Natal açoriano, a tua mãe tem um casaco de pele de coelho. No canto, está a cristaleira - portas de madeira em baixo e portas de vidro em cima, e muita loiça lá dentro, linda, delicada. Ao centro daquele espaço, estão duas mesas redondas, uma carregada de cestos e revistas antigas e outra à espera de ser posta. Ao fundo, abrem-se portas à cozinha com uma chaminé enorme que já não é usada mas quando te pões debaixo dela - o que não gostas de fazer porque te mete medo - ainda cheira a fumo. O espaço aqui é quase todo ocupado por uma mesa com tampo de pedra e nela vêem-se os preparativos para o pequeno-almoço do dia seguinte - há pão, leite, manteiga, doce de abóbora com amêndoa, lemon curd, café instantâneo. Na mesa ao lado, há uma balança de dois pratos e, à frente dela, um bloco pesado onde encaixam os pesos por ordem crescente.

Sais da cozinha por uma porta lateral que dá para um corredor estreito, onde há uma casa de banho minúscula e, de seguida, uma sala de igual tamanho que alberga - em simultâneo - um enorme cofre com uma alavanca rotativa e um oratório profusamente decorado, este é um sítio estranho, onde também podes encontrar tabuleiros com tigelinhas de marmelada coberta com papel vegetal e umas arcas sempre tapadas por panos de padrões. Aquilo tem um bocado ar de gruta de Aladino.

A porta em frente conduz-te a outra divisão que foi sala durante muitos anos, até a tua tia já não se conseguir mexer e, nessa altura, transformou-se no seu quarto. À saída deste, já deste a volta completa à casa e tens, à tua direita, umas escadas de madeira muito íngremes. Lá em cima são os quartos, com as camas pesadas onde mergulhas em colchões que, de tão fofos, te engolem o corpo e onde tentas desesperadamente aquecer debaixo de camadas improváveis de mantas alentejanas. À noite, ouves, por vezes, um carro que rola os pneus na calçada gelada e lembras-te que há uma mercearia na porta ao lado. A luz de um candeeiro de rua entra-te pela janela e, apesar de a tua cama ficar ao lado de uma porta que dá para uma pequena arrecadação que tu imaginas cheia de aranhas, lá acabas por adormecer no aconchego daquilo tudo. Neste piso há quatro quartos e uma casa de banho e no quarto dos teus pais, há uma uma caixa de música com uma imagem de Nossa Senhora e os três pastorinhos - quando lhe dás corda com uma chave de ferro, ouve-se o cântico de Fátima.

Há mais um lanço de escadas que te andou escondido dos olhos durante um tempo; é o último, muito estreito e empinado, vai dar a um terraço onde há um tanque de lavar roupa, um estendal, vasos de plantas e pombos, e a casa acaba aí, finalmente.

É assim que a recordas e queres muito fixar essa memória, porque a tua vida - sabes isso hoje - pode ser contada através das casas que viveste e esta casa grande, sempre a crescer para cima, cheia de escadas e de imagens nas paredes e de madeiras que te rangiam debaixo dos pés, era também uma casa fascinante.

Hoje já lá não está, ou melhor, está mas já não é uma casa, são muitas, repartidas pelos pisos que conheceste e onde morreu a tua bisavó, onde aprendeste a dar os primeiros pontos de costura, onde te ensinaram uma oração infantil, onde te sentaste em família a comer os mais faustosos pequenos-almoços das tua vida, com braseiro aos pés e xailes nas costas, enquanto arrancavas postais antigos a um prato da mesa ao lado e te perdias com aquelas imagens a sépia de casais em poses fabricadas dos anos 20 e linhas de letra floreada que davam notícias de pessoas que não conhecias; onde te contaram as histórias da infância do teu pai, onde a tua avó e a tua tia te deram a conhecer uma vida diferente, vivida num monte ali perto, onde havia cavalariças e capoeiras e uma cozinha com lume de chão e trabalhadores de campo e onde viveu o teu avô, que era tão bonito que parecia um actor de cinema e que tu conheceste em quase tudo, à mesa desta casa que já lá não está.

Era assim...

Sabias que era Natal porque as ruas por onde passavas tinham um brilho festivo e as lojas se mostravam tentadoras. Sabias que era Natal porque desde o dia um que a tua mãe te contava uma história por capítulos que se abriam com os teus dedos num quadro com janelinhas de papel. Sabias que era Natal porque já tinhas feito a árvore - mais ou menos do teu tamanho - na qual penduravas (e voltavas a pendurar) bolinhas coloridas feitas de linha e uns bonecos de pano muito engraçados: havia um boneco de neve barrigudo com um chapéu preto, um pai Natal e uns duendes de veludo avermelhado, tudo mole e inquebrável para poderes mexer e enfeitar várias vezes ao dia. Sabias que era Natal porque havia um presépio que foi crescendo com os anos mas no qual faltava sempre o menino Jesus porque esse só nascia no dia 25, ou melhor, no dia 24, à meia noite em ponto, que era quando podias abrir os presentes e aparecia o menino nas palhinhas - era a noite mais longa do ano e ias dormir muito tarde. Sabias que era Natal porque apareciam uns embrulhos coloridos debaixo da árvore e iam chegando uns postais que enchiam uma prateleira da estante dos livros que virias a ler, de uma ponta à outra, alguns anos mais tarde. Sabias que era Natal porque se combinava um jantar onde viria a família toda e era uma grande festa, cheia de doces e de tios e primos todos a falar muito alto e ao mesmo tempo (há coisas que não mudam), repetida no dia seguinte em casa da tua avó.

Sabias que era Natal porque havia uma expectativa no ar, porque todos os dias pareciam de festa, como se alguém celebrasse o aniversário durante o mês inteiro, era isso mesmo, aliás.

Da gratidão

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Há uns dias atrás disse ao meu pai que lhe estava grata por algo que ele fez por mim; ele, do seu lado, descartou-me a conversa com piadas, como se a gratidão não tivesse lugar no espaço que nos une, sendo certo que tem e é lugar cativo. Aos meus pais, estou grata pela vida que tenho e tudo o que sou, pelo muito e pelo pouco que ainda vão fazendo, e não é só por mim, mas por todos os que põem debaixo de asas cuja envergadura não é mensurável.

Estou-lhes grata.

A gratidão é um dos tais sentimentos desvalorizados do nosso tempo e é, com certeza, dos menos verbalizados. Convém não confundir a gratidão com o agradecimento, são próximos mas não são iguais. O agradecimento cabe dentro da gratidão mas não a esgota. Na gratidão há o reconhecimento, a lembrança e, finalmente, o agradecimento.

Dizer-se a alguém que se está grato é usar uma daquelas palavras que, de tão antigas, parecem esquecidas num qualquer pergaminho enrolado e amarelecido pelo tempo. É uma pena.

Aquele que dá, pode não esperar gratidão, mas aquele que recebe, deve-a sempre; tão simples quanto isso.

Balzac dizia que a gratidão é uma divida que os filhos nem sempre aceitam no inventário; isto é interessante porque coloca a gratidão no plano da divida, onde, aliás, deve estar. Só não é grato aquele cuja falta de humildade desenha a dádiva num contexto de dever. A isso chama-se soberba, talvez arrogância, ambas, são lugares de desconforto quando chega o momento de se mostrar grato.

A dádiva de um pai não é só obrigação de paternidade, é muitas vezes sacrifício, gesto gratuito de bondade, palavra de abrigo, abnegação por amor, e o filho que a expressa, cumpre tanto a sua obrigação quanto o primeiro.

O mundo feroz em que vivemos e a competição desenfreada da arena a que somos lançados, não são territórios propícios a humildades. Mais depressa se constroem couraças de altiva sobranceria do que corações reconhecedores e, a estes, nunca faltam razões para encontrarem nos outros deveres que justificam a ausência de uma palavra grata. A gratidão devia, porém, ser ensinada, ao invés de ser esquecida, mas a moda é proteger os filhos do (re)conhecimento dos sacrifícios dos pais. Eles, os pais, são de outra geração, de outra safra em que a falta de muita coisa não escolhia idades, isso ensinou-lhes a gratidão que, agora, num outro tempo tem de ser instruida e, se o fosse, talvez os dias não nascessem sempre tão cinzentos, talvez houvesse mais satisfação à nossa volta, talvez encontrássemos um impulso subtil de avanço e perseverança. Talvez.

Pare, escute e olhe, era o sinal que se atravessava à frente dos meus olhos quando a campainha se fazia ouvir na passagem de nível da terra em que cresci. Nós parávamos, escutávamos e olhávamos. Aprendia-se a prudência. Faz falta, isso.

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