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Outro Sentido

Outro Sentido

"Ando com saudades da beleza"

Andrew Wyeth 1917-2009.jpg

Leio uma crónica do Arnaldo Jabor onde ele diz: "ando com uma fome de arte, ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza, paz (...)" e eu, que ando nisto, percebo-o.

O mundo anda feio, violento, desacreditado e corremos todos o risco de começar a banalizar a fealdade e resolver com um encolher de ombros os miseráveis poderes que nos governam. Há muito que deixei de acreditar em soberanias e encaro-as na perspectiva do mal menor; não creio que seja a única.

Acredito, isso sim, na força dos fazedores, dos que não se acomodam, dos que descruzam os braços, dos que fazem contracorrente, dos que não se limitam a viver vidas pequeninas feitas de prazeres próprios. Acredito na força desses milagreiros quotidianos, incapazes dessa coisa fácil que é a indiferença. Esses são os heróis, esses são os que fazem o mundo, esses são os que mudam o rumo, esses são os únicos capazes de plantar beleza nesse planeta e mudar-lhe o tom. Tento ser um deles, pertencer a esse clube, fazer coisas que dão sentido aos dias, que me fazem chegar ao fim da jornada com a noção sólida de "eu hoje fiz isso"; enraíza e é bom.

Ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza; ando a ouvir música nova, uma pitada de indie, que tem o seu quê de inocência à moda dos anos sessenta e qualquer coisa de luminoso, é boa como a comida de conforto mas não engorda, embala uma manhã de edredon e pequeno almoço na cama ou uma horinha de sol de inverno na praia mais próxima. Também ando a correr os meus álbuns de arte para encher os olhos, lavar a retina da violência televisiva. Beleza é fundamental, ora bolas.

Ando com saudade de tudo, e devo estar naquela meia idade em que se viaja para trás por dá cá aquela palha, e eu tenho a sorte de o meu rewind ser encantatório como um labirinto, fico lá, às voltas, a perder-me pela lagoa do fogo, por Verões em S. João do Estoril, por cantinhos em Sintra, pela estrada do Guincho, Évora na Páscoa, Manta Rota em Agosto, Paris. Pergunto-me se daqui a vinte anos terei lugares a que voltar e que sejam feitos deste momento de agora ... sim, terei, é seguro que terei, e com gente muito boa lá dentro.

I'll be the ghost in your smile (...),

I'm a mosquito on your lips saying grace,

you know you want it bad

driven by lust

and whatever is left from your motor skills

Esta malta da música indie deve fumar umas coisas e vive na boa, a ver belezura todos os dias, muito cool.

You got a fast car.

Estudávamos em Lisboa e saboreávamos as primeiras dentadas de liberdade; íamos às aulas - quando íamos -, e éramos os reis e as rainhas das mesas do Bar. Jantávamos em casa uns dos outros porque podíamos, porque era uma forma de estarmos sós - mas juntos -, insolentes e cúmplices. Sonhávamos com futuros variados e resolvíamos injustiças com a jovem arrogância de uma penada. Trocávamos músicas e livros, falávamos mal de muitos professores e bem de alguns, andávamos de comboio, de autocarro, de metro e ocupávamos lugares ao molho, com ruído, casacos, manuais, códigos, mochilas e castanhas assadas em cones de papel que se partilhavam entre todos. Não se estudava uma linha, isso ficava para fazer em casa, mas bebiam-se umas cervejas, cozinhava-se muito (às vezes bem), bebia-se ainda mais. Rebolávamos a rir, pelos sofás, pelas cadeiras, pelo chão. Também dormíamos ao molho, pelos sofás, pelas cadeiras, pelo chão. Provocávamo-nos incessantemente, eles contra elas, elas contra eles, eles contra eles, elas contra elas, uns contra os outros, uns na direcção dos outros, alguns irremediavelmente, até hoje. Éramos todo poderosos e não vacilávamos nesse poder, subversivos e irmãos de sangue, parvos, adoravelmente parvos, e ouvíamos Tracy Chapman, lembro-me de andarmos todos a ouvir Tracy Chapman e a cantar o fast car em coro - And I had a feeling that I belonged /  I had a feeling I could be someone, be someone, be someone.

 

Let me guide you into the purple rain

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Aqueles que me conhecem, sabem que Purple Rain do Prince é uma daquelas músicas que me define, talvez a par e passo com o Sultans of swing dos Dire Straits ou o I will always love you da Whitney Houston. São sonoridades totalmente diferentes que, porém, ficaram gravadas em mim, feito tatuagem; apoderei-me delas, com um sentido de posse emocional - são as minhas músicas e não me interessa se também o são de outros, sei que são minhas, tumultuosamente minhas, incontrolavelmente minhas, porque a música tem (sempre teve) esse poder de me comover, de me agitar, de me alegrar, de me entristecer ou, simplesmente, de me encher de uma qualquer emoção tremendamente forte que me atravessa para lá do corpo que se move sempre (um amigo dizia-me que eu era capaz de dançar ao som de pratos partidos).

Purple Rain é aquela música que começa a tocar e todos os olhos familiares se viram para mim, cúmplices, sabidos, íntimos, como que a dizer-me "olha, a tua música", e é, a minha música; uma música que dificilmente poderia ter acontecido neste século XXI, porque sendo intemporal, é também produto de uma época em que as músicas e os vídeos que as acompanhavam (na altura, chamávamos-lhes telediscos) contavam uma história, e eram longas (esta tem cerca de dez minutos) e tinham um clímax do qual, depois, se descia em notas longas que se iam apagando. No Purple Rain há uma história de reconciliações, e há um solo de guitarra arrasador do qual se descansa no final com um piano e cordas. É all in one, não lhe falta nada, intensamente perfeita.

Tenho poucos CDs the compilação, mas tenho o duplo do Prince -  The hits vol. 1 e 2 - e ouço-o com frequência por uma questão de sanidade, de necessidade de ligação a um tempo musical, e porque dançar freneticamente ao som de Kiss, when doves cry, peach ou 1999 faz bem a qualquer alma que se preze.

Aos poucos, perdem-se gigantes que nos ensinaram umas quantas coisas sobre música, e parece que há uma página que se vai virando, definitivamente, transformando o mundo para toda uma geração.

This is what it feels like, when the doves cry!

Planet earth is blue.

Há músicas e cantores que marcam muito mais do que uma época ou geração, David Bowie é transversal a muitas.
Space Odity é intemporal e Bowie não teve - nem terá - outro que se lhe aproxime em originalidade, musicalidade e transformação. Alguns evaporam-se do panorama musical ainda em vida, este permanecerá muito além dela.

Days are numbers

Houve uma vez que eu fui daqui para a Alemanha de autocarro. Tinha quinze anos e ia passar as férias de verão a casa de uma família que não conhecia e que estava lá, em Wolfsburg, à minha espera. A viagem era longa e eu nunca fui de fazer conversa com o vizinho do lado. Os silêncios sempre foram a minha praia e neles sempre couberam todas as coisas inacreditáveis que me passam pela cabeça e que, naquele tempo, faziam de mim heroína sobrevivente de um cenário catastrófico de fim do mundo. Todo o caminho, daqui até àquela terra com nome esquisito, eu acumulei histórias e saudades, medos e vitórias, fotografias em negativos que ainda guardo e um diário de viagem com uma letra redonda que implicava bolas em cima dos ii.

E porque nenhuma história se conta sem banda sonora, eu levava nos meus headphones uma única cassete gravada manhosamente em casa na semana anterior. Nela, tocava um álbum que tinha acabado de ouvir e pelo qual me havia apaixonado porque tinha qualquer coisa que me transportava para lá de sei lá onde (ou o quê) - ainda hoje não sei -, mas quando ouço isto, há qualquer coisa em mim que plana.

It runs in the family

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Esta rapariga bem apessoada faz música e parece que tem CD novo a caminho. Fui ouvi-la ao YouTube e reconheço que tem voz bonita e forte, falta saber o que aí vem. Em entrevista recente à sua própria mãe, explicou o seu processo criativo de fazer letra e musica-la, contrapondo a diferença entre escrever um poema e escrever com intenção musical, pois nem todo o poema é "musicável" e alguns poemas já têm a sua própria musicalidade e ritmo, não se lhes pode dar outros. Um texto pode ser lindo no papel e, no entanto, as palavras que o compõem podem não ser cantáveis; quando se escreve para música, tem de se considerar a musicalidade de cada palavra, a presença e ausência de vogais e consoantes.

No que respeita aos temas das suas canções, o céu é o limite e dá, literalmente, o exemplo do famoso (maravilhoso, inesquecível, intemporal) Space Oddity, de David Bowie, que fala de um astronauta, de seu nome Major Tom, e que foi inspirada no filme "2001, Odisseia no Espaço". É certo, diz ela, que talvez não se lembrasse, logo de manhã, de escrever uma música sobre um astronauta a pairar no espaço, mas, na verdade, e porque não? O importante é contar uma história, os melhores letristas arrastam-nos para uma história.

A moça em questão chama-se Sophie Auster, foi entrevistada pela mãe, Suri Hustvedt e é filha de Paul Auster... e esta, hein?

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