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Outro Sentido

Outro Sentido

Da malvadez e ternura

Filippo Indoni, Thoughts of Love (Detail)

[Filippo Indoni, Thoughts of Love - detalhe]

 

Hoje compraste uma balança nova, um esfoliante para o rosto e um spray para borrifares a cama uns minutos antes de te deitares. Tens a mania de que não acontece nada de jeito nos teus dias, mas estas insignificâncias são importantes, senão vejamos: terás (ou não) um ataque de nervos quando chegares a casa e fores ver se a balança funciona (aquilo foi tão barato que receias ter comprado uma cena para pesar a farinha dos bolos, mas adiante), terás também, e finalmente, alguma coisa que te lave efectivamente a cara e não se limite a fazer festinhas com um algodão que estás convencida que engana e, finalmente, deitar-te-ás esta noite numa bruma refrescante e levemente cheirosa que te embalará o sono, sendo certo que não há insónia que sobreviva a uma almofada cheirosa (isto é um facto cientificamente provado).

Mas para arrasar mesmo com a tua crença de que nada de relevante acontece na tua santa vidinha (o "santa" não é inocente e isso importa frisar), lembra-te ainda que uma amiga de coração te mandou a meio do dia um sms em que te chamava de "querida" e "linda"; e que outra te fez chegar um email em que apelidava de "meu anjo". Estas pequenas coisas são chamadas de instantes de ternura e cumplicidade, capazes de iluminar qualquer mulher que se preze, aliás, dirias mesmo mais - qual Dupont et Dupont -, se isto fosse um filme de uma realizadora alucinada, lá estarias tu no écrã, sentada à tua secretária, rodeada de papel por todos os lados, a receber estas mensagens, enquanto uma chuva cintilante de estrelinhas te faria sorrir no meio da treta do processo que tinhas na mão. Na verdade, tu és um bocadinho como a Ally McBeal - e aqui a geração mais nova pergunta: quem? - e fazes filmes destes a toda a hora, e até és advogada como ela, menos gira, menos magra e sem a parte do Harrison Ford.

Acorda.

Isso.

Mas por ora o que importa fixar em letra de texto, é que as amigas são para muito mais do que as ocasiões e, hoje em dia, cabe-lhes muitas vezes a elas, as declarações amorosas que nos aguentam a jornada; convenhamos, não estejas à espera que homem algum tome conta desse recado, ele há certamente um jogo de bola, ou uma jola para beber, ou isso, e como tal, saltam de lá as amigas, como pipocas (e isto é private joke, por isso não me liguem e sigam adiante) que assumem esse papel, com toda a elegância e requinte de exageros e malvadez,  para se escreverem coisas como "minha flor" ou "minha andorinha", para trocarem aquela citação do livro que acabaram de ler e que não podem mesmo deixar de partilhar, para maldizer os filhos, os maridos e os amantes, ou para se jurarem amor eterno, daquele tipo que, num futuro enrugado, as levará a todas ao mesmo lar de terceira idade, muito pingado de cocktails ou garrafas de tinto e todo o desacerto que o estatuto da idade já conferiu.

Love you too, girls.

 

Encontros

Vi-o naquele instante em que já passámos por alguém e, de repente, percebemos que esse alguém nos é familiar. Estava curvado, sentado num muro baixo, à frente de uma repartição pública. Nunca se nota em alguém curvado, sentado à frente de uma repartição pública. Parei a marcha rápida em que vivo e sentei-me ao seu lado. Estava a tratar de tretas; está-se sempre a tratar de tretas nas repartições públicas; neste caso, uma treta que talvez lhe valesse uns Euros miseráveis ao final do mês; dali a uns meses. A linha dobrada do seu corpo era isso também, a quase derrota, a vergonha, o desamor, a solidão.

Desenhei-lhe duas ou três luzes ao fundo do túnel, percebi que eram ténues, mas espero que ele as tenha vislumbrado, ainda assim, com aqueles olhos claros a controlar duramente uma lágrima. Não se vitimizou, olhou o chão da calçada e assumiu as fraquezas que lhe travavam o futuro e ancoravam a um passado irrecuperável.

Eu, ao seu lado, só lhe vi uma humildade profundamente humana - e que coragem é preciso para se ser humilde -, aquele instante em que o mundo deixa de girar no seu eixo e somos obrigados a ficar quietos, silenciosos, com tempo - muito tempo - para olhar para dentro e vermos, afinal, o que lá está. Tudo muda quando a vida pára e ficamos a sós connosco, sem outro cenário que não seja o interior. A maioria foge a sete pés, procura o que necessário for para que tudo rode novamente à rotação habitual. Mas, de vez em quando, surge um bravo que enfrenta o monstro, que cruza as mãos, que dobra as costas, que treme os dedos e que segura as lágrimas públicas, mas que olha, aguenta o espelho, revê, estilhaça-se e refaz o puzzle, reconhece, honestamente, para si, aquilo que é e o que não é. Normalmente, é este que renasce das próprias cinzas, como só os seres singulares e mitológicos conseguem, um dia, abre as asas e recomeça, não o mesmo, mas outro.

Metanóia

É costume dizer relativamente àquilo que nos é originariamente simples, que é tão fácil como respirar, mas se há coisa que aprendi nestes últimos dias, é que respirar não é fácil e que, a maioria de nós, não o sabe fazer ou faz mal. Respiramos na exacta medida dos tempos - depressa, com ansiedade, com pânico, com stress, com exigências que não são as do corpo que nos desenharam. Respiramos pela metade, seja com a de cima ou a de baixo, mas não respiramos a plenos pulmões, não conhecemos a arte de parar para encher a barriga, depois o tórax, depois o peito, deixar o ar entrar e depois deixa-lo sair, até ao fim, e senti-lo, de forma consciente.

Parar é outra questão, é que para respirarmos decentemente, temos de aprender a parar, seja lá onde for, seja lá quando for, e isto de parar e não fazer népia está cada vez menos inscrito no nosso código genético. Olha, agora vou ali sentar-me e ficar paradinho a respirar sem fazer mais nada durante quinze minutos; isto é coisa para qualquer um revirar os olhos e achar que nos falta um parafuso, ou dois, ou pior, que fomos atacado por esse mal imperdoável da preguiça. Às vezes observo os meus gatos a dormir ao sol, a encher e a esvaziar a barriga e a esticarem-se, depois, em posições desafiantes de um mestre de yoga e dou por mim a pensar que alguma sabedoria felina me está a escapar.

Estas, são questões que nos surgem - mais cedo ou mais tarde - em determinadas fases da vida, normalmente, de ruptura. Acontecem-nos quando puxamos de tal modo por nós, que algo se quebra e somos, à força, obrigados a repensar os nossos limites, os nossos propósitos, as nossas prioridades, a eterna questão do que é que andamos para aqui a fazer. É também nestes momentos que experimentamos o outro lado do espelho, que acolhemos a possibilidade daquilo de que sempre desconfiamos e até damos o benefício da dúvida a essa experiência, e eu tenho para mim que o acumular de experiências gratificantes é sempre enriquecimento pessoal e que isso, inevitavelmente, me faz feliz, ou mais feliz.

Isto para dizer, que, no fim de semana passado, rumei ao norte na companhia de três amigas; cada uma com a sua história e percurso; procurávamos, antes de mais, uns dias de fuga - que bom que é poder escapar aos lugares e companhias da nossa rotina e fazê-lo de vez em quando. Aproveitamos a viagem para pôr a cavaqueira em dia e espraiar saudavelmente o disparate, depois, recolhemo-nos ao silêncio de um lugar especial e iniciamo-nos neste treino da quietude, nesta atenção ao acto de inspirar e expirar, de estar apenas com a atenção focada nesse momento, tentando afastar qualquer pensamento que se aproximasse ou permitindo que ele ficasse ali a fazer companhia, desde que não fizesse demasiado barulho e talvez, só talvez, trouxesse respostas. Está-se e espera-se coisa nenhuma.

É uma experiência, pode ser uma revelação, pode ser uma prática, pode ser um recomeço, pode ser uma descoberta, pode ser uma desilusão, pode ser algo que se esquece daqui a uns dias mas pode, também, ser que algo tenha acordado cá dentro - não consigo deixar de sorrir ao paradoxo: ficar quieta de olhos fechados para acordar para algo de novo - mas sei que ficou a vontade, a certeza de alguma coisa necessária e que pode ser tão transformadora quanto difícil.

Assim, sendo deixo a proposta socialmente incorrecta: sente-se, deite-se e não faça rigorosamente nada!

Efeito Red Bull

De entre as amenidades e prazeres que vamos gozando, há aqueles a que nos entregamos desde sempre - porque são intrínsecamente nossos - e há os outros que se descobrem e cultivam na medida e proporção da vida que vivemos. Às vezes, com sorte, uns e outros cruzam-se e baralham-se num encontro que satisfaz o que somos mas que, ao mesmo tempo, estimula e desafia aquilo em que nos sentimos estrangeiros na própria pele. Quando tal acontece, há que reconhecer que fomos bafejados por algo de bom.

Costumo dizer que não tenho vida que chegue para tudo o que tenho para ler e procuro, em cada minuto, a companhia de um livro que arranco ao fundo da mala que carrego no ombro. É assim desde que me lembro de ser gente, esse é o meu lugar de conforto, o oásis diário que persigo, o prazer de que não prescindo e que gosto de saborear quando tudo o mais já desligou.

Li algures que a melhor coisa que um acto de aprendizagem nos pode deixar é o impulso de reflexão e questionamento e, se é verdade o que se diz - que nunca é tarde para aprender -  podemos escolher não largar a carteira da escola e persistir na pergunta de braço no ar, no deslumbramento da descoberta ou até no fastio distraído de quem desliga os sentidos porque a matéria ou o professor não acrescentam nada de interesse ao acervo que cultivamos.

A leitura passiva pode ser uma forma de passar o tempo, mas a leitura que nos faz pensar é já um salto adiante e se, a esta, juntarmos a discussão colectiva do teor do livro, acrescentamos certamente algo mais ao que já guardamos.

Hoje, terminei o dia na escola, ou melhor, à roda de uma mesa onde giravam copos de vinho, castanhas assadas e chocolates gourmet e, pelo meio, falava-se de livros e de todas as exaltações que deles decorrem. Ali, a leitura deixa de ser um acto isolado para ser um prazer de vários e é surpreendente apercebermo-nos como cada livro interpela de forma diferente aquele que o lê; no final, cada qual, guarda a sua impressão mas cresce um pouco mais ao conhecer a forma como as mesmas linhas marcaram o vizinho do lado; afinal, como diz o António Lobo Antunes, o livro só começa quando nós acabamos de o ler; é aí que aí ganhamos asas.

Do melhor

Creio que a maioria das mulheres terá passado por uma idade em que a expressão "melhor amiga" fazia e dava sentido a cada segundo dos dias. A "melhor amiga" partilhava connosco segredos em bilhetes trocados debaixo da carteira,  participava das nossas inimizades com olhares de esguelha, conhecia os nossos amores e desamores, sofria as nossas indignações, escondia as nossas pequenas vergonhas e infracções e estava, imperiosamente, no topo das nossas verdades e prioridades. As melhores amigas eram a tábua de salvação da adolescência, o refúgio seguro, a sensação heróica de "us against the world", num tempo feito de inocências que não volta mais.

Mas se é certo que a vida se encarrega de nos mudar o olhar, é certo também que nos premeia com uma multiplicidade sã de vivências, na qual, a acumulação de amizades, precisamente por se ancorar em diferentes épocas e latitudes, pode adjectivar, em permanência e em sucessão, várias amigas, de melhores, permitindo até que, se fizermos por isso, nenhuma se perca e que todas se transformem. 

Assim, quando ouço uma mulher feita usar a expressão, "as minhas melhores amigas" por referência àquelas duas ou três com quem, naquela fase, fala todos os dias por dá cá aquela palha, arrepio-me sempre ao constrangimento do que soa a colegialmente deslocado, a miúda que não cultivou ainda uma extensa e saudável rede de vida que por ela puxa em sentidos diversos, que não conheceu ainda o fenómeno incrível da tela multicolor de gente especial com quem se cruzará e que quererá, em cada momento, preservar. Sei-me pois abençoada por não ter melhores amigas mas nascem-me borboletas na barriga quando sei que, para lá da minha natureza isolada, tenho amigas que são do melhor.

A Bica é linda

Diz que a Bica nasceu de duas derrocadas de terras, primeiro do lado das Chagas na sequência de um dos muitos tremores que abalaram Lisboa e depois do lado de Santa Catarina. Muitas casas vieram ao chão e muitos ficaram debaixo delas. Assim apareceu o vale que viu nascer o Bairro e no qual se foram fixando gentes vindas da província na procura de um rendimento com profissões ligadas ao mar. A Bica é assim, desde o início, um Bairro de fado, de varinas, de ruelas, de escadinhas e de casas onde se vivem vidas inteiras. O Fado é cantado a cada esquina, com garra bairrista e respeito por quem canta. Ali nasceu e cresceu Carlos do Carmo que no dia do casamento tinha o Bairro inteiro à porta da Igreja para lhe dizer adeus.

No verão as ruas enfeitam-se com grinaldas - agora feitas de garrafas de plástico recicladas - que se cruzam no espaço estreito, de uma janela à outra, por cima das escadas e das mesas corridas de madeira. Há cheiro a sardinhas no ar e as imperiais bem tiradinhas esperam o fado cantado por quem quiser agarrar o microfone. E porque o Bairro é de quem nele vive, entre vozes conhecidas como as da Cuca Roseta ou António Pinto Basto, fazem-se ouvir outras incógnitas mas cheias de raça. Tanto se ouve o jovem tatuado com t-shirt às riscas e a barba mal feita a cantar com sentimento um amor saudoso, como a mulher arisca de xaile preto e provocação nos gestos arrancar um fado corridinho que espevita qualquer um. E se é certo que para quem visita a noite é de folia, a Bica é também e ainda Bairro de se viver, e pelas janelas abertas tanto se vêem as mesas de napperon com jarrinho de flores e uma velha à janela, como o jovem deitado na cama do Ikea com o computador ao colo a navegar no Facebook.

Para nós, foi noite de amigas, entre gargalhadas sonoras, sardinhas, febras, imperiais e ginginhas que nos fizeram cantar fados alegres cujas letras se aprendem na hora.

Oh Valentine ...

Uma miúda gira que eu conheço - gira à brava mesmo - dizia-me este fim de semana que o único presente possível do dia dos namorados é o presente mais piroso que houver na loja. Nada de jantares fora, nada de programas de mãos dadas, nada de embrulhos caros, nada de flores em celofane, nada de fins de semana fora, nado disso!

O dia dos namorados é piroso e não há volta a dar. Assim, dizia-me a tal miúda gira, o mimo em causa, para o ser em honra de S. Valentim, tem de ser proporcional à piroseira comercial celebrativa, nunca nada menos que uma almofada-coração a dizer "amo-te muito", um postal gigantesco a dizer "Adoro-te"ou uma musiquinha que se adoptou a dois enviada por mail.

S. Valentim é pindérico, é fatela mas as demonstrações amorosas podem transbordar de ternura no assumir da pirosada extrema ou, como dizia Fernando Pessoa, "todas as cartas de amor são rídiculas, não seriam cartas de amor se não fossem rídiculas".

Assim, correndo o risco de tropeçar nas próprias pernas e perder toda a pouca credibilidade que me sobra, deixo o repto - oh minha gente, soltem a saloiada que há em vós, dêem largas à pinderéquice mais íntima e encham o dia corações fofinhos, sim?

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