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Outro Sentido

Outro Sentido

Cartas da guerra.

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Leste o livro (segunda leitura, desta feita acabada), viste o filme e, para compor ainda mais o retrato, agarraste ainda na memória de elefante, o primeiro romance publicado do autor que relata a história da separação conjugal que, nas cartas, parece invisível de qualquer horizonte.

Que vidas tão difíceis, aquelas, em contraste com o suave viver deste agora que não conhece a distância, a espera de coisa nenhuma, a dificuldade vazia do tempo, a arma ao ombro ou o sobressalto interior de um estrondo. Aquele, é o retrato de outro tempo, e importa assegurar-lhe o devido traço de testemunho histórico; ou o possível, pois é sabido (e ali referido com insistência) que o horror da guerra não podia ser contado nas cartas escritas para casa, numa imposição do regime que sacudia para trás do pano a fealdade das opções tomadas (“a maior parte das coisas não as posso contar”).

Mas como conhecer de outro modo a lama, a sujidade, a degradação, a doença, o frio, o calor, a trovoada e o vento, os aquartelamentos, o arame farpado, os laços que se criaram entre militares e entre estes e as povoações, os dias e a sua extensão, as minas que arrancavam pés, pernas e vidas ao desbarato, os festivais de “costureirinha” para embalar o sono impossível, os ratos que se passeavam no chão das camaratas e as aranhas de tamanhos inimagináveis que cirandavam no tecto, os cães famintos e doentes, os milhafres, os morcegos, os insectos de toda a sorte, o avião que trazia o correio - quando chegava -, e os quimbos, os sobas e as esconjurações da doença em cerimónias de danças e batuques, numa realidade quotidiana de alferes em comissão?

Que viver aquele, naquele papel descripto, naquelas cartas, quase diárias, que aguardam resposta durante dias e que se escrevem a esferográfica, a aerograma, a envelope e selo, numa distância dilacerante de espera e de saudade, uma panaceia de palavras que, na suspensão de um instante, ergue uma ilusão de proximidade de outro lugar e daquela que é querida, amada e desejada com todas as forças da juventude. São, por isso, cartas de tremenda intimidade que nos fazem a nós, leitores intrusivos, oscilar entre a maravilha encantatória dos amantes e a sensação usurpadora de bisbilhotar na privacidade da conjugalidade vizinha.

Cruzas-te com este mundo que, afinal, nem te é tão estranho assim, pois ouviste-o murmurado toda a vida por um pai que viveu uma Guiné. Lembras-te, de memória viva, de o veres sobressaltado a qualquer estalo de foguete ou brincadeira de balas carnavalescas, e daquela sensação de a voz se lhe calar em reticências mudas quando as memórias daquele tempo tentavam ser contadas. Tu própria tens uma imagem mental de lá teres estado e que não é provavelmente memória alguma, mas uma construção de álbum de fotografias e histórias de família. Já o teu irmão, guardou a memória olfactiva da creolina com que se desinfectava o chão da casa em que viveram em Bissau.

Entre as leituras desta guerra e o filme lindíssimo de Ivo Ferreira, vais falando com a tua mãe, que também foi mulher jovem com filhos, que escrevia aerogramas ao marido na Guerra, e dizes-lhe, em conversa, que uma das coisas que te deixou uma impressão viva, foram os relatos das noites de trovoada, talvez pelo fascínio que ainda hoje tens pelo fenómeno atmosférico. Ao teu lado, a tua mãe, sorri e conta-te que nessas noites de trovejar tropical, costumavam sair de casa e ir para um edifício ali perto – uma qualquer fábrica de cerveja – ver a trovoada desenhada no céu e que tu, pirralha minúscula de três anos, já então, te esticavas toda, maravilhada pelo espectáculo luminoso. Disto não tens memória, só o prolongar inconsciente (e até agora desconhecido) desse hábito que te arrasta para a janela mais próxima ao primeiro trovão, mas os teus pais lá guardam, também eles, as cartas que se escreveram e aquela distância que não se contava só em quilómetros mas em tempo e ausência.

Os combatentes

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Um bootcamp de treino militar pode ensinar-nos que não estávamos preparados para aquela experiência, que é muito mais dura e difícil do que havíamos previsto. Mas pode ensinar-nos também a sobreviver e a aceitar que vamos ao colchão, mas que nos temos a nós e aos outros para nos levantarmos e recomeçar, não da mesma forma, mas mais bem preparados.

Um filme sobre a descoberta do amor - mesmo improvável - e o começo da vida, ou talvez a vida toda, que é quase sempre assim, recomeços, uns atrás dos outros, sempre mais bem treinados do que antes, porque, é sabido, nada nos ensina melhor do que o erro.

No escurinho do cinema

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Está a estrear filme novo, com o nome sugestivo de Vício Intrínseco e dois homens de talento que caem tão bem naquela categoria inexplicável dos feios fantásticos: Joaquin Phoenix e Benicio del Toro; que parelha! E assim de repente, já é noite de Óscares e, uma vez mais, ainda não vi quase nenhum dos filmes em competição mas, mesmo assim, torço pela Julianne Moore (em O meu nome é Alice) porque gosto dela, da pinta dela, da classe dela, da cabeleira ruiva dela, da presença dela e daquele je ne sais quoi que a aproxima de outras grandes Senhoras como Meryl Streep ou Cate Blachett.

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