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Outro Sentido

Outro Sentido

Oh what a wonderful world...

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Está frio. Diz que nevou no Algarve, em Tavira, tão próximo do local onde passo férias com temperaturas de verões quentes.

O mundo inteiro estava a precisar de um abraço quente neste momento.

Donald Trump é oficialmente Presidente dos Estados Unidos. O filho do Donald Trump faz-me lembrar a personagem do Joffrey Baratheon do Game of Thrones. A classe descontraída do casal Obama dói na despedida. Não estou optimista e vou ter de trabalhar para manter acesa em mim a tal da esperança, a fé nos homens.

Estive em Paris no início do ano, foi a terceira visita à capital francesa e a primeira vez que a vi engalanada de Natal - é um espectáculo alegre, descer os Champs Elysees iluminados em cada árvore e carregados de gente que se passeia debaixo de gorros, cachecóis, casacos e luvas ou que celebram a vida numa esplanada aquecida, numa feira de rua, numa igreja, nos cafés. Nunca vi tanta policia militar armada numa cidade. O acesso à torre Eiffel está vedado por arame e um apertado controlo de segurança. À noite, com temperaturas de gelar qualquer um, há famílias de refugiados a dormir em esquinas e passeios, deitam-se ali, simplesmente, sob camadas de cobertores, com os filhos no meio e os pais a ladear. Vi demasiadas. É de tolher o coração. Paris, linda, alegre, romântica, fria e em estado de alerta.

Entretanto, na televisão, há imagens diárias de campos de refugiados cobertos de neve por essa Europa fora, de gente enrolada em cobertores, a tremer de frio, alinhados em fila, à espera da ração do dia. Conheço imagens semelhantes mas têm 70 anos e não recordam uma época bonita da história da humanidade. A Cáritas apela à ajuda para tentar algum apoio, talvez morram menos, gelados, em pleno século XXI, na Europa!

No discurso de tomada de posse, o novo Presidente fala de proteccionismo, de mais fábricas, mais pontes, mais estradas, mais aeroportos, mais empregos, mais nacionalismos e mais muros a fazer fronteiras. Há uma multidão que o aplaude - há realmente gente que o aplaude - e ele tem um ar zangado, ele tem sempre um ar zangado. O eco do que ele diz está a ressoar pelo mundo, está a causar reacções, alastra. Uns quarteirões ao lado, há manifestações em curso, malta encapuçada a marchar, a virar caixotes do lixo e a partir algumas montras, a policia tenta encaminha-los à força de água, escoltas, carros. Também eles provocam reacções.

Penso nisso, no facto incontornável de que todas as palavras que dizemos, todos os gestos que são nossos, todas as posições que assumimos, têm, no momento em que os colocamos no mundo, uma consequência, um eco, uma mensagem que é passada para o espaço minúsculo que ocupam, é a nossa onda de choque concêntrica, construtiva ou demolidora. Nada é inócuo e tudo que fazemos ou omitimos não se limita a mostrar o que somos, mas edifica também uma ideia de mundo à nossa volta, tem um efeito gravitacional. Se muitos edificarem a indiferença, ela instala-se, se muitos edificarem a raiva, ela impõe-se, se muitos edificarem a exclusão, os muros crescem sem necessidade de tijolos que os tornem visíveis.

Quando Armstrong cantava o seu Wonderful world, ele dizia: The colors of the rainbow / So pretty in the sky / Are also on the faces / Of people going by / I see friends shaking hands / Saying: "How do you do?" / They're really saying / "I love you" -  faz-me pensar se, também ele, tinha essa ideia estranha e revolucionária de que a cara que fazemos, o bom dia que damos e a mão que estendemos têm esse poder contagiante de transformar o mundo!

Bem sei que a idade da inocência já lá vai, e que há que descer a cabeça lá do alto do arco iris para a colocar no planeta terra, mas precisamente por isso, quando acordo, todos os dias, e vou tomar café, quando atravesso a rua e me cruzo com um estranho, quando vou trabalhar e entro numa reunião, quando ligo o computador e vou às redes sociais, quando saio à noite e vou jantar com amigos, quando me enfio no carro e vou levar as crianças à escola, quando, em suma, faço o que faço e sou quem sou, eu estou a edificar mundo à minha volta.

A pergunta é, que mundo?

Os telhados da vizinha

by Hoda Rostami.jpg

As vizinhas e as galinhas e as galinhas das vizinhas e os vidros dos telhados das vizinhas e os estendais, é claro, os estendais das vizinhas onde se descobrem indecorosas nódoas nos melhores panos da vizinhança e todo o provincianismo de aldeia que alimenta a nossa cultura social e para a qual já não há pachorra. Rejubila-se no escândalo alheio, chafurda-se na falta do outro e esconde-se a falta própria, tão semelhante ou pior ainda, e se nada se encontra na vizinha que seja digno de miséria, vasculham-se as vergonhas ancestrais que servem também para alimentar palatos habituados à regularidade do líquido mais carrascão. Mexerico aqui, enredo acolá e a boa da vizinha tem de aguentar tudo e dar a outra face, e Deus nos livre se lhe salta a tampa e faz voar o microfone insolente e despudorado para o alguidar mais próximo, que logo aí perde a face e a postura e a autoridade. Pequeninos, nós, que damos palco, plateia e holofotes às vizinhas intriguistas, aos repórteres da aldeia da roupa suja que, convenhamos, se não tivessem audiência, também não tinham voz.

O cartaz do bloco de esquerda

O cartaz do bloco de esquerda não pretende discutir coisa nenhuma.

O cartaz do bloco de esquerda pretende apenas ser o que é: um acto de irreverência infantil e provocatória que é a imagem de marca do bloco de esquerda.

Com o cartaz do bloco de esquerda, a única coisa que será falada e discutida é anormalidade do cartaz do bloco de esquerda.

Com o cartaz do bloco de esquerda, aquilo que será colocado na ribalta é a lei do vale tudo, a ostensiva anarquia que se está nas tintas para todos, mesmo quando o todos é a grande maioria da população portuguesa que o bloco de esquerda supostamente representa e governa.

O cartaz do bloco de esquerda é a prova irrefutável do desgoverno do bloco de esquerda.

O cartaz do bloco de esquerda é o espelho do bloco de esquerda.

O cartaz do bloco de esquerda é o bloco de esquerda.

O cartaz do bloco de esquerda é lixo, não serve nem para reciclar e eu, pelo meu lado, fico satisfeita por, até agora, ninguém estar a discutir mais nada para além do cartaz em si mesmo; é que o bloco de esquerda deve achar que os Portugueses são todos idiotas, mas País não é o bloco de esquerda, graças a Deus. 

O inominável (Aviso)

Aviso já que o vídeo do link abaixo impressiona, não é para todos, mas ignorar o sofrimento humano porque nos dá uma má noite de sono, é coisa de que já não sou capaz.

Os muitos prisioneiros dos guetos e campos de exterminação Nazi, escreviam cartas, livros, memórias para que aquele horror fosse sabido, fosse conhecido, nunca ignorado, esquecido ou perdido numa neblina de dúvida. Era o indescritível e era real.

O inominável, porém, vive ainda em demasiados cantos deste planeta e aqueles que registam a face do horror, fazem-no pelas mesmas razões - para que saiba, para que se acredite, para que não se fique na dúvida e, ainda, no seu próprio desespero, para que se faça esperança no mundo que sobra. 

Assim, e no nada que posso fazer, deixo o LINK com o aviso de que é dor feita imagem, para que se saiba, para que não se duvide, para que circule até à exaustão.

The day after

Algumas das primeiras reacções que ouvi ontem após os ataques de Paris, foi contra a onda de refugiados que entraram na Europa. Hoje, pela manhã, li que um campo em Callais havia sido incendiado.

Para lá das mortes de centenas de inocentes às balas de loucos (e cobardes) que se armam contra contra quem não se pode defender para proclamarem uma desordem de terror, há agora que lhes somar a vitória alcançada de virar a Europa contra os inocentes que deles fugiram. 

Se não formos mais inteligentes do que isto, a insanidade já ganhou.

O desafio que temos pela frente não é só o de não ceder ao medo, é, sobretudo, o de mantermos a civilização que construímos ao longo de gerações, assegurando também a nossa segurança interna. Se a capacidade de sermos irmãos ceder ao medo, se a compaixão ceder à loucura, é porque uma brecha terrível já se abriu debaixo do nosso céu.

Sem prejuízo, este fenómeno terrorista que se autoproclama Estado - e que o mundo ocidental ainda não percebeu que tem que lhe dar outro nome, reduzindo-o à lama que é -, tem de ser encarado e combatido com uma dureza implacável e eficaz.

Para os que crêem é rezar, muito e por todos; para os que não crêem, talvez valha a pena tentar.

 

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