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Outro Sentido

Outro Sentido

...

Dás por ti a dizer que na vidinha não há botão de Rewind e que andamos para aqui todos a esbracejar em Fast Forward.

Não há pachorra para tanta metáfora vintage.

O meu momento Nora Ephron

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Há uma crónica maravilhosa da Nora Ephron intitulada I remember nothing, aliás, a crónica acabou por ser o texto introdutório de um livro bastante espirituoso - I remember nothing and other reflections - que recomendo vivamente. 

Vem isto à baila porque, desde que li o livro, não passa uma semana na minha vida sem que eu diga para mim mesma: Yeah, Nora, you're right, I remember nothing (eu faço estas coisas, falo com os autores e as personagens dos livros que leio, é uma cena algo esquizofrénica mas é também muito terapêutica).

A minha prima Catarina fez anos no domingo e eu, moça previdente, fui comprar-lhe o presente de aniversário no sábado. Mais previdente ainda, liguei à minha cunhada a perguntar se estaria interessada em oferecer um presente conjunto. Ela estava. Encontrei uma túnica muito gira e muito hippie - acho que agora se diz boho -, fotografei e enviei SMS à co-ofertante que respondeu a dizer que concordava. Mandei embrulhar, colocar talão de troca lá dentro (muito previdente) e saí dali, satisfeita, de saquinho na mão. Passei por outra loja e resolvi experimentar uns trapinhos de meia estação de que estou a precisar urgentemente mas que só vou comprar no mês que vem. Serviam todos, guardei-os na lista de compras a fazer que não irei cumprir; enfiei-me no carro e fui embora.

No dia seguinte, pronta e despachada para a festa, estive meia hora a virar a casa do avesso à procura do presente e nada; depois, mais vinte minutos a virar o carro do avesso e népia. Fui para a festa com o discurso: eu juro que comprei e logo que o encontre eu trago. Já ninguém se espanta! A minha prima sorriu e deu-me duas semanas para encontrar o saquinho.

Hoje fui ao Shopping, pouco esperançada, e perguntei nas duas lojas se não havia por lá ficado um embrulho assim e assado. Estava lá, de facto, na segunda loja. Valha-me Santa Engrácia, só precisei de 24 horas.

Numa outra ocasião, entrei numa bomba de gasolina, pedi 60 € de gasóleo para a bomba três, paguei (claro), pedi factura, saí, enfiei-me no carro e fui embora; sem meter o gasóleo no dito, naturalmente.

Já o dia-a-dia do meu despistanço, passa por coisas mais prosaicas como esquecer-me dos óculos de sol no frigorifico, as chaves de casa no escritório ou o telemóvel em todo o lado (odeio este fulaninho comunicativo).

Tenho todo um cardápio de histórias destas na minha existência, às quais deverei acrescentar, ainda, a minha total inabilidade para me lembrar de um único aniversário - seja de quem for -, de nomes de pessoas, de fisionomias pouco frequentes, ou de direcções.

Nora, amiga, estou lá!

Não me venham com a conversa de que tenho de criar mecanismos de defesa para ultrapassar estas aventuras; primeiro, porque eu fico com vontade de vos esborrachar os mecanismos pela cabeça abaixo (sim, estou a ser simpática), segundo, porque eu vou esquercer-me do mecanismo com a mesma rapidez com que me esqueci daquela anedota com que me ri a bandeiras despregadas há uma hora atrás.

O meu irmão e a minha cunhada não padecem deste mal em tão grande escala, mas como inventam competições na cabeça de um tinhoso (credo, espero que não), têm frequentemente aquele momento enervante a meio de um jantar de família, em que um diz qualquer coisa como: sabes aquele actor que fez aquele filme que se passa na segunda guerra e ele era pianista ... e depois estão à volta daquilo durante uma data de tempo, e mesmo depois de já ninguém se lembrar do tema, há um - normalmente a minha cunhada - que grita de repente: Adrian Brody! E depois faz a dança da vitória, enquanto o meu irmão se rói por dentro. Eu já nem tento competir, claro.

Há um instante da crónica da Nora Ephron em que ela quer falar de uma determinada bebida, aquela que é feita com hortelã picadinha, sabem? Pois, vocês talvez saibam mas ela não se lembrava, e por isso, interrompe o texto e diz que vai ali ao Google e já volta. O parágrafo seguinte diz apenas: The mojito!

O texto em questão conclui que o nosso momento de esquecimento senil, foi substituido pelo nosso momento de pesquisa Google, o que é muito menos deprimente, ou talvez não, porque a mim já me aconteceu ir ao Google procurar aquele filme que tinha aquela actriz cujo nome não me lembrava, que contracenava com aquele actor cujo nome estava debaixo da língua e que era realizado por aquele tipo espectacular que fez filmes de cowboys mas que agora é realizador e que uma vez disse numa entrevista que havia um tipo em Portugal realizava aos cem anos e que ele queria fazer o mesmo, aquele, sabem? Eu não sabia e fiquei no estado deploravel de não ter sequer o que googlar, sendo certo que isto virou um verbo na minha existência, claro, googlar; entretanto baptizei todos estes maravilhosos momentos da minha vida como os meus momentos Nora Ephron. Chique, não?

Cenas da vida (de) doméstica

Hoje fui fazer as compras da semana e pediram-me dez cêntimos pelos sacos de plástico. Tentei controlar a irritação emocional com o sentido ecológico que em mim habita e enfiei um robalo, uma dourada e um linguado, cada um deles, num saco de plástico da secção das frutas e legumes porque estes são legais e à borla. Depois, gastei cinquenta cêntimos num saco grande e resistente do qual me irei esquecer de cada vez que voltar às compras.

 

Cinco da manhã, hei, bem bom ...

O prédio da insónia dava um bom nome para um livro ou conversas da insónia ou a insónia da vizinha. Sei lá eu, não prego o olho desde as três da manhã e dá-me para isto. E porque raio é que se usa a expressão não pregar o olho? Coisa mais horrivel! Vou à cozinha beber um copo de água e um iogurte líquido de ameixa, sim, iogurte e ameixa, não há confusão, gosto destas coisas, deve ser por isso que tenho insónias. Espreito pela janela e descubro uma noite escondida atrás de uma cortina de nevoeiro, não se vê um palmo à frente do nariz (também gosto desta). Dois andares acima, duas vizinhas discutem os limites do universo e a probabilidade de vida fora do sistema solar. Estamos em modo E.T. phone home e já são quatro da matina. Um andar abaixo, do lado direito, um homem fala ao telemóvel na varanda, cheira-me a caso, daqueles que só permitem conversas no escurinho da noite e não quero cá saber dessas coisas. Queria mesmo era dormir, pregar o olho. Ouço uma porta a bater nas escadas. Parece que a vizinha da frente vai passear o cão. Mas ninguém dorme nesta terra? Será que a insónia é colectiva? contagiosa? Será que existe fora do planeta terra?

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