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Outro Sentido

Outro Sentido

Gente grande

de coração

Soubeste hoje de três crianças que saíram da escola a pé para casa e que, pelo caminho, se deparam com um homem enfiado dentro de um contentor de lixo, a separar montes do que se poderia aproveitar, entre restos de comida e de vida alheia.

As crianças perguntaram-lhe se ele estava com fome - assim mesmo e sem rodeios, que os miúdos não filtram as minudências que a nós adultos, nos fazem dobrar as palavras - e perante a envergonhada resposta afirmativa, esvaziaram as três lancheiras que tinham nas respectivas mochilas e estenderam-lhe sandes, iogurtes e bolachas não lanchados. Depois, disseram boa tarde, e continuaram caminho.

Às vezes, no final de um dia de trabalho demasiado longo para ser verdade, há qualquer coisa que te retempera a crença na humanidade e a ideia de que, talvez, aqui e ali, ainda haja alguém a fazer alguma coisa de certo no mundo.

A ausência deste gesto para com um desconhecido, teria sido desculpável pelo receio, pela timidez ou pela insegurança, mas o facto de tudo isto se vergar à impossibilidade da indiferença, é revelador de um impulso interior mais forte.

A misericórdia é uma palavra longa e elaborada, mas às vezes ela cria raízes profundas dentro daqueles que aprendem a trata-la por tu.

Gargalhadas e ventania

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O miúdo ri com gargalhadas que te fazem rir, são gargalhadas que riem das coisas poucas que são as melhores, é claro; ele ri por causa do número de vezes que conseguem atirar um balão ao ar sem ele cair no chão ou porque tu falas com ele com uma cara muito séria sobre coisas muito disparatadas. Ele ri à brava e chama por ti e aquilo ilumina o dia todo e aquece um Abril frio que falha a promessa de Primavera.

Esse Abril chegou cheio das águas mil do costume - April come she will, When streams are ripe and swelled with rain, diz a canção da geração anterior -, veio a tresandar a inverno quando tu já sonhas com um Maio ameno - May, she will stay resting in my arms again - um tempo mais suave e doce, mais quente. É que lá fora corre um vendaval de doidos apostado em desarrumar a rua toda - os caixotes de lixo largaram o lugar traçado no passeio e rumaram alcatrão abaixo, há vasos fugidos de varandas e pedaços de árvores pelos ares. 

"O vento sopra onde quer", ouviste isso hoje - o vento comparado à fé, um sopro sem forma, que despenteia ideias, não sabes de onde ele vem, nem para onde te empurra, mas sabes que está lá e que de repente te atravessa num arrepio que se entranha em desassossego, a desarrumar tudo por dentro. Esse vento é bom, é como aquela bola de pilates que o teu Personal Trainer te obriga a usar para fazeres uns abdominais em desequilibrio que te exercitam músculos que não sabias que tinhas mas que te fazem mais forte, ali onde é preciso, naquele centro que te sustenta a coluna vertebral, e é sabido o quão importante é ter uma boa coluna vertebral.

Mar calmo nunca fez bom marinheiro - não sabes quem disse isso, é uma daquelas coisas que apanhaste, algures, numa imagem na net -, o mar, tal como o vento de que ouviu falar Nicodemos, agita-te, obriga-te a procurar alicerces e equilibrios, a ajustar velas e a usares forças que descobres que tens. Lá, no fim da tempestade, estará o Mês de Maio, alegre e luminoso como a gargalhada de um miúdo a rir de coisas parvas. 

Era assim...

Sabias que era Natal porque as ruas por onde passavas tinham um brilho festivo e as lojas se mostravam tentadoras. Sabias que era Natal porque desde o dia um que a tua mãe te contava uma história por capítulos que se abriam com os teus dedos num quadro com janelinhas de papel. Sabias que era Natal porque já tinhas feito a árvore - mais ou menos do teu tamanho - na qual penduravas (e voltavas a pendurar) bolinhas coloridas feitas de linha e uns bonecos de pano muito engraçados: havia um boneco de neve barrigudo com um chapéu preto, um pai Natal e uns duendes de veludo avermelhado, tudo mole e inquebrável para poderes mexer e enfeitar várias vezes ao dia. Sabias que era Natal porque havia um presépio que foi crescendo com os anos mas no qual faltava sempre o menino Jesus porque esse só nascia no dia 25, ou melhor, no dia 24, à meia noite em ponto, que era quando podias abrir os presentes e aparecia o menino nas palhinhas - era a noite mais longa do ano e ias dormir muito tarde. Sabias que era Natal porque apareciam uns embrulhos coloridos debaixo da árvore e iam chegando uns postais que enchiam uma prateleira da estante dos livros que virias a ler, de uma ponta à outra, alguns anos mais tarde. Sabias que era Natal porque se combinava um jantar onde viria a família toda e era uma grande festa, cheia de doces e de tios e primos todos a falar muito alto e ao mesmo tempo (há coisas que não mudam), repetida no dia seguinte em casa da tua avó.

Sabias que era Natal porque havia uma expectativa no ar, porque todos os dias pareciam de festa, como se alguém celebrasse o aniversário durante o mês inteiro, era isso mesmo, aliás.

A bruxa sou eu.

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Por vezes, o universo premeia-nos com lógicas irrefutáveis que fecham círculos e dão sentido às pequenas coisas. No dia em que os Estados Unidos festejam o dia das bruxas e o resto do mundo acompanha - não por tradição, mas porque os tempos são tão difíceis que só um carnaval por ano já não chega -, há um mega asteróide que resolve rasar a terra, qualquer coisa como quatro campos de futebol a viajar pelo cosmos e que passam ali ao lado, apenas a quatrocentos e oitenta mil quilómetros de distância - se Deus espirrar é o apocalipse!

Por sua vez, o planeta Terra parece não vergar à provocação celeste  e transfigura o deserto do Atacama num cenário bucólico de flores. Dizem que a culpa é do El Niño, fenómeno cíclico com nome de menino, capaz de pintar a terra com outras cores.

Entre corpos extra-terrestres e desertos cor de rosa, já só faltam mesmo as bruxas empoleiradas nas vassouras a atravessar uma visão de lua cheia. Não sei se me arranjam tanto, mas é uma pena, um universo tão alinhadinho podia ter feito o jeitinho. Em vez disso, há miúdos a bater às portas e a gritar trick or treat. É certo e sabido que amanhã viram o disco e vêm moer-me o juízo com o pão por Deus. Eu que tenho um mau feitio danado e queria mesmo era ser bruxa, abro a porta com maus modos e resmungo umas coisas ou então nem abro, que os chocolates que cá houver são meus, homessa; sei lá se o mundo acaba entretanto numa colisão fatal ou se um qualquer fenómeno resolve trocar o mar com a terra em dia de todos os Santos? Não, só há estes e são para mim (o raio dos pirralhos nem devem saber o que é uma bomboca, caramba!).

A Hora do conto - sábados 12:30, na Livraria Déjà Lu

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Voltamos, neste sábado, às 12:30, à hora do conto na Livraria Déjà Lu, desta feita, com uma nova voluntária contadora de histórias. Venham de lá com a miudagem porque há enredos empolgantes de fadas, príncipes, princesas, dragões, animais que falam e muitos meninos especiais. Não raro, aparece uma marioneta e folhas e lápis de cor e fazem-se perguntas e há respostas em coro  - e outras nem tanto -, mas vale a pena, vale mesmo a pena.

Até lá, sim?

[A Livraria Déjà Lu, fica na Cidadela de Cascais, por cima do Restaurante Taberna da Praça e, por ali, vendem-se livros em segunda mão de excelente qualidade e variedade e 100% das receitas revertem a favor da Associação dos portadores de trissomia 21; e a livraria é tão gira e tem coisas tão boas, já tinha dito?] #dejalu

gato escondido com rabo de fora

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 Ouço-os no quarto ao lado, em altas gargalhadas: 

- agora o pino (risos)
- agora um salto (mais risos)
- agora o tio tem de tirar os sapatos.
- han?
- ti-ra-os-sa-pa-tossss!
- Onde é que tu estás Zé? Vá fica aí, esconde-te; agora ninguém te vê, nem a tia te consegue encontrar!
- Vá tio, agora assim, mas tens de dizer vuuuuuummmmmmm!
- Onde está o Zé? queres ver que ele foi embora ...

Batman vs Chuckie

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Quando lhe apareço à porta da sala, por volta das 17:30 de cada quinta-feira, encontro-o sempre sentado ao lado da Sara que ele protege e acarinha como a menina dos seus olhos. Às vezes, estão, literalmente, no escurinho do cinema, a partilhar bolachas e a ver filmes (esta semana era a Rapunzel), outras, estão a brincar a qualquer coisa semelhante a uma família, numa misturada de bonecas, carros e peças de jogos. Quando me vê, levanta-se de um salto e dispara a contar as novidades, a falar do desenho que fez ou do dinossauro perdido no fundo da mochila que é imperioso assegurar que segue com ele para casa. Depois, entre o casaco, os recados, o saco, os bonecos e o até amanhã largado à pressa para dentro da sala, lá seguimos rumo ao carro da tia que ele descobre num relance de olhos.

- Agora vamos onde, tia? 

- Agora vamos buscar a mana.

- Àquele sitio onde ficamos à espera?

- Sim, Zé, àquele sítio onde ficamos um bocadinho à espera.

Porque nesse sitio, onde ficamos à espera os dez minutos que demoram até ao final da aula da mana, são os dez minutos em que ele conta tudo e pede fotografias e faz perguntas.

Na quinta feira passada - debaixo de uma monumental carga de água - reclamava que não tinha guarda chuva:

- o Tiago tem guarda chuva, o Phoenix tem guarda chuva, a Sara tem guarda chuva mas eu não tenho guarda chuva, tia!

A tia - já a fazer contas ao dito -, lá diz que é preciso arranjar um guarda chuva ao petiz, mas que tem de ser um guarda chuva estiloso.

- Já sei tia, quero um guarda-chuva do Batman, eles têm um guarda chuva do homem aranha e do cars, mas um guarda chuva do batman é que é fixe.

- Boa, Zé, super cool, um guarda chuva do Batman!

- Eu já não me chamo Zé!

(pausa para assimilar a informação)

- Não te chamas Zé? (tia incrédula)

- Não, eu agora chamo-me Chuckie (tia aterrorizada a visualizar boneco  maléfico sentado na cadeirinha, empunhando faca de lâmina afiada).

- Oh, Zé que horror, Chuckie é horrivel, Zé Maria é um nome tão giro!

- Não é nada horrível, Chuckie é muito mais fixe, agora quando me chamares Zé eu não respondo, só quando disseres Chuckie.

(tia conta até dez)

- Hum, está bem Zé, tu é que sabes.

(silêncio)

- Já sei, vamos fazer um filme, e assim tu podes dizer a toda a gente como é que queres que te chamem e depois a tia manda o filme ao pai, à mãe, à mana, aos avós, às tias ...

(pausa silenciosa para digerir a sugestão)

- Olha tia, vem lá a mana.

Oh tiaaaaaaaa

Não sou mãe; creio que nos desígnios de Deus estava prevista a decisão de que eu fosse muitas coisas ao mesmo tempo, sendo que essa multiplicidade seria contida com a dedicação incondicional da maternidade. Hoje, sou a tia, a madrinha, a irmã, a amiga, a mulher, a filha, a patroa. Todo o tempo que dedicaria aos filhos, vejo-o dividido e repartido e, mesmo assim, ele nunca chega, antes pelo contrário, sobra-me sempre o telefonema que não fiz, o mail que não escrevi, a pessoa que não visitei, o gesto que faltou, a atenção que não dei, o trabalho que ficou para o dia seguinte, o projecto que se adiou.

Já a tive, mas hoje não tenho, nem uma gota de mágoa em relação à ausência da maternidade; sou feliz assim, gosto da minha vida, sinto-me inteira dentro dela. Deus lá sabe o que faz. Alguns terão de existir para que o sejam para muitos. Parece-me justo, estou de bem com esse destino.

Gosto dos meus dias e do que cabe dentro deles, gosto mais ainda do que lhes descubro, do que neles cai inadvertidamente e de tudo o que determino que neles deverá acontecer. Aprendi recentemente a gerir o tempo, a equilibrar os dias com aquilo que neles deve existir para que eu chegue ao final de cada jornada com a sensação de que valeu a pena.

Nos últimos dois dias, tive a minha sobrinha cá em casa e, neste tempo, estudei história e português, regateei horas de estudo com compensações de sobremesa, obriguei a saídas de lençóis para lavagem de dentes, impus horas, fiz massagens e cafunés e cuidei de entorses. Ouvi-a na cozinha a ajudar o tio a fazer o jantar, os dois a discutir como temperar o frango. Tentei responder a muitos "porquês", depilei meia perna com cera fria e deixei a outra porque dói, preparei lanches, acordei mais cedo para tudo estar pronto a horas de chegar à escola a tempo de ainda rever a matéria do teste da manhã.

E isto é tão precioso e rico (já sei que amanhã tenho meio mundo a querer deixar as crianças em casa da tia, e a tia não se importa porque é para isso que elas servem, as tias). Durante muitos anos odiava que me chamassem tia, soava-me sempre à mal afamada expressão: "vais ficar para tia". Se soubesse o que sei hoje, teria, desde cedo, sido tia até à medula, porque é esse o meu contexto, é esse o meu habitat, o tal em que eu respiro, existo e, ao mesmo tempo e no meio de uma outra infinidade de coisas, sou tia de coração inteiro, e gosto de saber que há dias por semana em que eles são o melhor das minhas 24 horas, e que me fazem rir e zangar e fazer as pazes e pedir desculpa e abraçar e dar beijocas e tudo mais que é bom, e ouvi-los dizer entre a pedinchice e a hesitação; "oh tiiiiiaaaaaaaaaaaaaaa".

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