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Outro Sentido

Outro Sentido

Os miseráveis

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Estive em Paris no início deste ano, um rompante decidido à mesa de um jantar, carregado da sorte de o poder fazer.

No início de Janeiro, a cidade das luzes estava mais iluminada que nunca, convidativa, festiva, animada. Paris na rua, a qualquer hora e em qualquer bairro, com lojas abertas até horas tardias, cafés, restaurantes, museus, jardins, ruas, praças, igrejas. Paris fervilha e respira cultura, arte, livros. É uma cidade encantada, estonteante.

Desta vez, porém, já em Lisboa, quando me perguntam como estava Paris, dou por mim a falar de coisas muito contrastantes com as razões que me fazem querer lá voltar, muitas vezes, amanhã, se possível.

É que há coisas que nos entram pelos olhos adentro e ficam lá, a fazer cenário e Paris estava armada até aos dentes, havia policia militar em cada esquina, de metralhadora ao peito, colete anti bala, botas de tropa e farda de camuflado; não era um ou dois, eram às centenas, em todo o lado, em todos os monumentos, em todas as avenidas, no aeroporto, nos jardins, no metropolitano. Sentimo-nos estranhos, com o coração a hesitar entre a segurança do aparato dissuasor e a eminência de o ver entrar em acção. É uma cidade sitiada, a tentar ignorar a presença militar para se encontrar a si mesma.

Depois, do outro lado das armas, há a indigência ostensiva: vemos cair a noite e, com ela, encontramos famílias inteiras de refugiados a dormir no chão, pais e filhos dobrados debaixo de camadas de cobertores, os adultos a ladear as crianças que se entretêm com um qualquer brinquedo, enquanto uma chuva miúdinha e gelada lhes cai na cama improvisada.

Nas primeiras linhas do artigo da Clara Ferreira Alves na Revista do expresso desta semana, ela diz:  "Há miseráveis a mais nas nossas ruas. Nas ruas de Londres, Paris, Madrid, Bruxelas ... Lisboa". Li isto e pensei imediatamente: será que ela também viu as famílias de refugiados em Paris? Mais baixo, ela responde-me: "Numa rua de um bairro elegante de Paris vemos famílias inteiras, pai, mãe, filhos pequenos, a dormir nas lajes".

É uma miséria adicional a somar àquela outra, a caseira, feita de desempregados e toda a sorte abandonados que se acumulam pelos cantos e que a nossa sociedade, agora, chama de sem abrigo, como se isso mascarasse a miséria humana à nossa porta, já a roçar a invisibilidade aos nossos olhos.

Eu tive a sorte de poder ir a Paris, de bilhete comprado e hotel marcado, mas trago de lá um excesso de bagagem com o qual não contava - a imagem daquela família deitada no chão a duas ruas do meu hotel, não me larga a retina, por isso, sempre que ouço um louco qualquer a falar em fechar fronteiras como quem fecha os olhos e empurra a poeira para debaixo do tapete, a minha reacção é emocional, uma raiva a crescer com a loucura do mundo.

O inominável (Aviso)

Aviso já que o vídeo do link abaixo impressiona, não é para todos, mas ignorar o sofrimento humano porque nos dá uma má noite de sono, é coisa de que já não sou capaz.

Os muitos prisioneiros dos guetos e campos de exterminação Nazi, escreviam cartas, livros, memórias para que aquele horror fosse sabido, fosse conhecido, nunca ignorado, esquecido ou perdido numa neblina de dúvida. Era o indescritível e era real.

O inominável, porém, vive ainda em demasiados cantos deste planeta e aqueles que registam a face do horror, fazem-no pelas mesmas razões - para que saiba, para que se acredite, para que não se fique na dúvida e, ainda, no seu próprio desespero, para que se faça esperança no mundo que sobra. 

Assim, e no nada que posso fazer, deixo o LINK com o aviso de que é dor feita imagem, para que se saiba, para que não se duvide, para que circule até à exaustão.

Alicerces

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Quando entrei em Mafra o termómetro marcava oito graus e o Palácio recebia-me com uma chuva miudinha de se entranhar nos ossos. Tentei fotografar aquele colosso com o telemóvel a escorregar das luvas, ao mesmo tempo que equilibrava o guarda-chuva entre o pescoço e o ombro; armar-me em turista dá uma trabalheira, mas é impossível passar por aquele edifício imenso e não parar para o admirar; é impressionante. Disse para mim mesma que tenho de lá voltar, com tempo para uma visita guiada, aliás, puxando pela memória, creio que ali não entro desde uma visita de estudo no meu nono ano e, dessa, recordo sobretudo o lanche de travesseiros e as fotografias à frente do palácio da pena algumas horas mais tarde. As visitas de estudo eram motivo para uma data de coisas que não tinham nada a ver com estudo. As visitas de estudo implicavam viagens de autocarro com grande estardalhaço, lanche embalado na mochila com pacotes de sumo e uns trocos para doces ou gelados. Nas visitas de estudo tirávamos fotografias desfocadas e riamos à gargalhada com um novelo de disparates que parecia não ter fim. Comprávamos uns postais para mostrar à família e depois puxávamos pelos neurónios, para nos lembrarmos de alguma coisa vagamente ouvida e que poderia ser utilizada num trabalho sobre o tema do estudo que servia de pano de fundo ao dia. Muitos neurónios distraídos devem resultar em qualquer coisa próxima de poucos neurónios atentos, porque, em conjunto, os trabalhos lá saiam com referências catrapiscadas por este ou aquele, curiosidades que era impossível não serem lembradas por mentes jovens que adoram histórias paralelas à história.

Hoje fui a Mafra em trabalho, um julgamento no Tribunal minúsculo que fica ali mesmo ao lado (ao pé daquilo tudo é minúsculo, é certo) e que terminou com um Despacho a indiciar a prática de crime. Uma daquelas chatices que tentamos evitar a todo o custo, chamando à razão, alertando para as consequências, dando oportunidades sem fim para a correcção, para que a verdade venha ao de cima. Mas, como dizia Saramago no célebre livro que fala da construção do convento vizinho: "pode a verdade estar na boca das crianças, mas para a dizerem têm de crescer primeiro, e então passam a mentir". Assim é, por vezes, esquecemos a visita de estudo à sala maior da consciência ou a aula que falava da verticalidade da coluna que sustenta o corpo. Só um edifício com grandes alicerces consegue manter-se erguido em cima de corredores onde - alegadamente; lenda ou verdade, sabe-se lá - circulam ratazanas do tamanho de coelhos; sem isso, é a ruina.

Falun Gong ou uma história de horror

Acabei de ver uma reportagem assustadora sobre uma realidade longínqua de nós e  que - não apenas por isso - é ignorada e abafada, mesmo que conhecida há vários anos. O Falun Gong é uma prática meditativa que nasceu na China por volta de 1992  e que assenta em 5 exercícios – 4 de pé e um sentado – pelos quais se procura um equilíbrio entre a mente e o corpo através da assimilação de valores morais universais e que assentam em três pilares – verdade, benevolência e tolerância; a ideia é a de que um individuo para ter saúde física, deverá começar por ter saúde moral, um carácter construído em princípios de humanidade.

Inicialmente, foi uma práctica protegida e até divulgada pelos meios de comunicação chineses mas, desde o final da década de 90, começou a ser abafada, depois proibida e, finalmente, violentamente perseguida, ao ponto de ser considerada crime e traição contra o Governo. Afinal, que regime de bem pode permitir que os seus cidadãos trabalhem as respectivas personalidades na persecução de valores de verdade, benevolência e tolerância?

Em 23 de Abril de 1999, forças policiais  espancaram centenas de praticantes e prenderam dezenas de outros de forma brutal. Esta postura mantém-se até hoje. O seguidores e praticantes de Falun Gong são brutalmente presos, espancados, torturados e mantidos em campos de trabalho enquanto aguardam, pasme-se, a pena de morte.

O espanto e a revolta que corre nas veias de qualquer civilização conhecedora do valor da vida e da dignidade humana, poderia quedar-se aqui, mas não, o cenário piora. Uma investigação internacional seguiu sobreviventes, entrevistou refugiados, dissecou comunicados oficiais e sites de clínicas e hospitais públicos para concluir e provar que os presos – praticantes de um exercício que visa a construção de um ser moral, recorde-se - são sujeitos a análises clínicas e outros detalhados e dispendiosos exames médicos. São usados em inúmeros campos de trabalho escravo com a respectiva pena de morte pendente. Depois, são executados e os seus órgão são colhidos, – coração, fígado, pâncreas, pele, córnea, tudo. Os órgãos são, depois, vendidos internacionalmente. Mas, como fazê-lo, se os órgãos têm um tempo de aproveitamento de apenas umas curtas horas quando retirados do corpo humano? Simples, as execuções são feitas consoante as necessidades de órgãos. Se um norte americano não conseguiu um coração a tempo de ser transplantado na sua terra Natal, vai à China e pela módica quantia de 145.000 dólares é-lhe assegurado que terá um coração compatível em duas meras semanas. Isso mesmo é anunciado pelos hospitais públicos que sabem, antecipadamente, que o vão ter e em que prazo.

É grotesco, é um filme de terror, é um retorcido argumento de ficção cientifica, mas é, também, uma realidade internacionalmente conhecida e consequentemente aceite, com a devida vénia a interesses que falam mais alto, pois não há País que não tenha um investimento a proteger nesta câmara de horrores.

Os relatos, as imagens, as provas são indescritíveis mas de que vale a desumanização, a imoralidade, a verdade, quando e sempre, money makes the world go around, ou virar-se do avesso, de pernas para o ar, enfiar-se no lodo nojento e incompreensível da história que insiste em repetir-se nas suas piores cores.

[O relatório de 2007]

Hello Goodbye

Quem passe vinte minutos na plataforma de chegadas de um aeroporto sentirá de imediato que aí se desenha um cenário de alegrias sem fim que nos toca necessariamente. Percebo bem a cena de abertura do filme love actually e da última vez que fui buscar os meus pais ao aeroporto, entreti-me e deliciei-me com cada história que se desenrolava à minha frente. Grupos de amigos barulhentos que correm em bando para abraçar outros, filhos pendurados nos carrinhos da bagagens a esbracejar para que o pai os encontre no meio da confusão, maridos que esperam as mulheres e que cruzam um olhar cúmplice e sorridente, familiares que choram a alegria do reencontro, amigas a esbracejar sacos de compras para outras que as esperam aos pulos e por aí adiante. A porta de chegadas de um aeroporto é certamente o anti-depressivo mais eficaz de sempre e devia ser vendido em frasquinhos, uma prescrição de abraços e beijos e sorrisos e comoção daquela que faz bem a qualquer hora do dia ou da noite.

 

Num registo totalmente oposto, encontrei esta espantosa colecção de fotografias de 1944 tiradas na Estação da Pennsylvania. São imagens não de reencontro mas de despedida, no cenário duro de uma guerra. Imagens de uma ternura indescritível, de um abandono ao instante que conta, um beijo de adeus a tentar cristalizar o tempo e, não raro, o desespero da incerteza. São imagens poderosas e magníficas, as pequenas histórias da História em fotogramas a preto e branco. 

[colecção completa no link acima e vale bem a pena espreitar]

"Shangri-La"

Com o deserto televisivo do costume, parei no canal 2 onde apanhei um documentário fabuloso, com o cunho "National Geographic", sobre as descobertas recentes num conjunto infindável de grutas escavadas na rocha, no Reino (livre) de Mustang, no Tibete, considerado zona sagrada da cultura Tibetana e, durante séculos, totalmente proibida e altamente protegida. Hoje, há quem se lhe refira como "Shangri-La".

Nesta região, existem escavadas na montanha, milhares de grutas, algumas ligadas entre si, constituindo secções com vários andares e passagens. Muitas destas grutas foram, ao longo da história, usadas como habitações, refúgios, locais sagrados ou câmaras funerárias. Numa delas, recentemente explorada, foi encontrada uma biblioteca com escritos datados de muitos e muitos anos antes de Cristo.

Para lá do interesse enorme de todo o documentário e da noção cristalina do muito que fica por descobrir depois de os arqueólogos terem explorado cerca de seis das dez mil grutas que provavelmente existem, retive um instante em que é explicado que, no Budismo, não existe a palavra "religião". O vocábulo mais próximo para denominar o "sagrado" corresponde ao nosso "livro" o que faz com que, para os Budistas, todo o escrito - leia-se tudo o que é reduzido a escrito - seja sagrado, toda a palavra escrita vem já, à nascença, marcada pelo cunho do sagrado.

Achei isto lindo ...

[Aqui um vislumbre do documentário e vale a pena espreitar o vídeo para se ficar com uma ideia].

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