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Outro Sentido

Outro Sentido

O que procuramos nos livros?

 

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Nunca, em circunstância alguma, diminuam uma obra de ficção, tentando transformá-la numa cópia fiel da vida real. Aquilo que nós procuramos na ficção não é tanto a realidade, mas sim a epifania da verdade.

Azar Nafisi, em Ler Lolita em Teerão.

 

Girl Power.

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No percurso de aprendizagem social e no despertar de questões cívicas, nós somos o resultado do meio em que crescemos e, por isso, é natural que haja temas que nos são próximos e outros nem tanto, consoante a vivência que tivemos. Ora, eu tenho a sorte de ter crescido numa família em que as mulheres sempre tiveram - e ainda têm - uma presença forte e alicerçante. Se tantas vezes falo das minhas avós, não o faço apenas por uma aconchegante saudade, faço-o também movida por uma sólida admiração, fundada na consciência da sua força e coragem perante a adversidade. Talvez por isso, falar de feminismo, nunca tenha sido o prato do dia à mesa do jantar, simplesmente porque a presença feminina sempre se impôs com natural, reconhecido e incontestado mérito.

Ora, isto justifica que já muito tarde eu tenha acordado para as questões de género e mais tarde ainda tenha despertado para a necessidade efectiva de as mesmas serem debatidas e colocadas debaixo dos holofotes. Hoje, eu, neta de minhas avós, vivo num mundo de conquistas no que aos direitos das mulheres diz respeito e, simultaneamente, num mundo em que se torna necessário, todos os dias, impor essas conquistas como um lembrete persistente.

Já perdi a conta ao número de vezes em que sou profissionalmente confrontada com comentários sexistas de toda a sorte e creio que não há semana que passe sem que uma amiga me venha com mais uma história de sofrível paternalismo machista, não raro, a roçar - ou ultrapassar - a mais rude boçalidade. Às vezes, dá-nos para rir, outras vezes para responder, outras ainda, para manipular o ego desses homens que encontram na humilhação do outro, a âncora da sua imaginária superioridade. Não são muitos, é certo, a maioria respeita e admira as mulheres que os acompanham, mas há demasiados ainda que encontram no jocoso tratamento desdenhoso, uma forma de violência de género que, muitas vezes, nem identificam como tal. Numa sala de reuniões ou numa sala de Tribunal, já vi mulheres a serem comparadas a tudo, desde burros de carga a sacos de pancada, de sacos de farinha a caixas de Pandora, de histéricas a demónios sinuosos e porque esta é a realidade do mundo dito civilizado deste século XXI, temos um candidato a Presidente a gabar-se de "grabing them by the pussy" só porque é uma estrela e pode.

Assim, aquilo que, para mim, nunca foi um tema da minha formação pessoal, surge, na meia idade, como uma tecla que insisto em tocar. É por isso que celebro e honro cada mulher que arrisca a felicidade para não ceder à chantagem do companheiro que a ameaça, usando para isso a cartada cruel dos filhos ou a força de um punho fechado, ou as mulheres que comprometem um percurso profissional para não ceder ao assédio sexual de um patrão, as mulheres que saem altivas e dignas de divórcios em que foram usadas e mentidas, as mulheres que se viram para o seu interlocutor para o lembrar que a cara delas está acima do pescoço e não na linha do decote, as mulheres que viram costas à imposição de um dress code e que se apresentam femininas e mulheres que são. É por isso que honro mulheres como Malala Yousafzai cuja história conhecemos, ou Shamim Akhtar uma paquistanesa que desafiou a ordem local e é condutora de veículos pesados, ou Nadia Murad uma activista Yazidi que foi feita escrava pelo auto proclamado estado Islâmico e que, conseguindo escapar, não se escondeu no medo, antes dando a cara pela luta contra as atrocidades do monstro, ou Darya Safai, a mulher iraniana que nestes Jogos Olímpicos foi notícia por hastear uma bandeira que simbolizava a luta pelo direito das mulheres iranianas de entrarem num estádio, ou as anónimas raparigas indianas que passaram a viajar de autocarro em grupos para se defenderem ruidosa e ostensivamente dos homens que as assaltam sexualmente. Estas são as nossas heroínas quotidianas, mulheres do nosso século que usam capas invisíveis e que têm super poderes que só existem dentro delas, são as bruxas das fogueiras que queimaram soutiens e que ainda hoje conjuram as forças do mundo. Destas, lembro, por último, as mulheres curdas que formam  milícias militares para combater terroristas misóginos e extremistas que as temem para lá da morte, porque no entendimento distorcido da sua ideologia, um homem que tenha sido morto por uma mulher perde o seu lugar no Paraíso das virgens, é que muitas vezes é assim - Karma is not a bitch, it's a woman!

Snu

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Li a biografia de Snu Abecassis escrita pela própria mãe - Jytte Bonnier -, apenas seis anos após a morte da filha. É um pequeníssimo livro que justifica a mulher que mais tarde conhecemos, tocando aqui e acolá episódios da sua infância e juventude, mas que nos dá, também, o olhar nórdico da sociedade portuguesa entre os anos 60 e 80.

Snu, na verdade, não se chamava Snu, mas sim Ebba, nome do qual não gostava e que, por isso, mudou para aquilo que já lhe chamavam em casa - Snu, ou seja, a espertalhona. Isto já diria muito sobre a mulher que nasceu dinamarquesa, viveu na Suécia, estudou em Londres, conheceu um ano de vida nos Estados Unidos e, finalmente, ancorou em Portugal, trazendo com ela um mundo que não cabia no País pequenino que a recebeu. Mas porque, às vezes, o Rossio cabe na rua da betesga, fundou a Editora D. Quixote em plena ditadura, publicando livros e autores avessos ao regime e lutando sempre contra a dislexia que, desde jovem, a obrigou ao dobro do esforço para impor uma voz e uma presença.

A imagem que nos deixou - a de uma aura de serenidade altiva e mundana - é também reflexo de uma dicotomia fracturante: a da mulher controlada e racional, que é também sonhadora e idealista; a alquimia própria daqueles que fazem a roda do mundo girar. Creio que uma existência plena pode ser coerente, suave e redonda, mas dificilmente acrescenta algo mais ao acervo próprio ou irradia impulso exterior; já aquela que persiste na divisão, vive da colisão constante de si, da luta ininterrupta de duas faces da mesma alma, uma a questionar a outra, num duelo íntimo que obriga à definição pessoal pelo lado vencedor, e porque o desafio é constante, a descoberta, o estímulo, a curiosidade e a busca não cessam, assim como o sonho para o qual a razão procura caminho.

Neste olhar de mãe, há muita coisa que se explica ou que se cria, mas é um história que merece ser contada para lá do homem que Snu escolheu.

Listagem

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E eu que gosto tanto de listas e tenho cadernos cheios delas e, nos últimos tempos, devoro tudo o que esta mulher escreveu e, às listas que já tenho, acrescento outras inspiradas por ela, e encho cadernos com colunas verticais e escrevo diários, vários diários: um diário de preces, um diário de vida, um diário de instantes, um diário de imagens, um diário de palavras; listas e mais listas. It's a Susan Sontag kind of love.

Falar de um filme para falar da vida

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 Na vida tapamos, escondemos os nossos tiros.

Beatriz Batarda

Tão boa esta entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Beatriz Batarda e Margarida Cardoso a respeito do novo filme Yvone Kane.

Realmente, à volta de um filme, pode-se falar de muitas coisas e de muitas vidas, basta, para tal, reunir mulheres interessantes, também elas cheias de vidas. Aqui fala-se de tudo, porque o filme a estrear fala de muito, mas também porque os olhos sabem descobrir e interpretar muito mais e a questão da identidade dá pano para mangas.

Num pequeno passo desta conversa, achei muito curioso este detalhe sobre a escolha de tons e guarda roupa das personagens do filme:

Beatriz — Há uma evolução na cor. A Rita vai ficando cada vez mais clara. Começa por ser cinzenta e acaba de branco.

Margarida — Foi uma coisa deliberada, claro. São sempre tons pastel. O não ter padrões. E roupa em várias camadas.

Beatriz — Camadas a esconder o corpo e a proteger. Só há um momento em que as cores de mãe e filha se aproximam: é quando a Rita se apercebe de que a mãe está doente. Ficam as duas com tons terra.

Até que ponto esta intenção cinematográfica é real? Não serão, de facto, as nossas roupas - as nossas camadas -, o reflexo do que somos ou vamos sendo ou a máscara do que queremos esconder debaixo delas?

Olhem para o que eu visto e vejam o que eu sou, ou olhem para o que eu visto para não verem o que eu sou?

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