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Outro Sentido

Outro Sentido

E se fosses tu?

Eu, que tenho medo de tudo, desde baratas a aviões, estou convencida de que estava enfiada debaixo de uma mesa quando Deus distribuiu a coragem e, por isso,  quando ouço testemunhos feitos dessa matéria, arregalo os olhos de admiração e tento expandir o coração para lá do espaço que o contém.
As histórias que a irmã Guadalupe tem para contar são reais e feitas de gente do nosso tempo, de jovens, de crianças e de famílias inteiras que vivem diariamente o indizível sem se arredarem do quotidiano possível, sem negarem uma fé que constitui sentença de morte, e mantendo, ainda assim, um sorriso no rosto.
A história é longa mas tem de ser ouvida, até porque mostra bem que aquilo que nos chega já filtrado pela comunicação social não é nunca a verdade toda, mas sim uma versão que nos protege no conforto do nosso sofá ocidental.
Tive, há uns dias, a oportunidade de ir ouvir a irmã Guadalupe ao vivo e, no entanto, não fui, porque já conhecia os contornos deste relato e sei o quanto isto me abala - nunca aprendi a não sofrer com os outros e visto-lhes a pele quando me confrontam com estas vidas - mas volto a elas porque o mais importante é reconhecer a sua existência, é mostra-las e não virar a cabeça como quem enxota o que nos é incómodo e desinstala, não há outra reação possível ao que se segue. 
 

Gente grande

de coração

Soubeste hoje de três crianças que saíram da escola a pé para casa e que, pelo caminho, se deparam com um homem enfiado dentro de um contentor de lixo, a separar montes do que se poderia aproveitar, entre restos de comida e de vida alheia.

As crianças perguntaram-lhe se ele estava com fome - assim mesmo e sem rodeios, que os miúdos não filtram as minudências que a nós adultos, nos fazem dobrar as palavras - e perante a envergonhada resposta afirmativa, esvaziaram as três lancheiras que tinham nas respectivas mochilas e estenderam-lhe sandes, iogurtes e bolachas não lanchados. Depois, disseram boa tarde, e continuaram caminho.

Às vezes, no final de um dia de trabalho demasiado longo para ser verdade, há qualquer coisa que te retempera a crença na humanidade e a ideia de que, talvez, aqui e ali, ainda haja alguém a fazer alguma coisa de certo no mundo.

A ausência deste gesto para com um desconhecido, teria sido desculpável pelo receio, pela timidez ou pela insegurança, mas o facto de tudo isto se vergar à impossibilidade da indiferença, é revelador de um impulso interior mais forte.

A misericórdia é uma palavra longa e elaborada, mas às vezes ela cria raízes profundas dentro daqueles que aprendem a trata-la por tu.

Let me guide you into the purple rain

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Aqueles que me conhecem, sabem que Purple Rain do Prince é uma daquelas músicas que me define, talvez a par e passo com o Sultans of swing dos Dire Straits ou o I will always love you da Whitney Houston. São sonoridades totalmente diferentes que, porém, ficaram gravadas em mim, feito tatuagem; apoderei-me delas, com um sentido de posse emocional - são as minhas músicas e não me interessa se também o são de outros, sei que são minhas, tumultuosamente minhas, incontrolavelmente minhas, porque a música tem (sempre teve) esse poder de me comover, de me agitar, de me alegrar, de me entristecer ou, simplesmente, de me encher de uma qualquer emoção tremendamente forte que me atravessa para lá do corpo que se move sempre (um amigo dizia-me que eu era capaz de dançar ao som de pratos partidos).

Purple Rain é aquela música que começa a tocar e todos os olhos familiares se viram para mim, cúmplices, sabidos, íntimos, como que a dizer-me "olha, a tua música", e é, a minha música; uma música que dificilmente poderia ter acontecido neste século XXI, porque sendo intemporal, é também produto de uma época em que as músicas e os vídeos que as acompanhavam (na altura, chamávamos-lhes telediscos) contavam uma história, e eram longas (esta tem cerca de dez minutos) e tinham um clímax do qual, depois, se descia em notas longas que se iam apagando. No Purple Rain há uma história de reconciliações, e há um solo de guitarra arrasador do qual se descansa no final com um piano e cordas. É all in one, não lhe falta nada, intensamente perfeita.

Tenho poucos CDs the compilação, mas tenho o duplo do Prince -  The hits vol. 1 e 2 - e ouço-o com frequência por uma questão de sanidade, de necessidade de ligação a um tempo musical, e porque dançar freneticamente ao som de Kiss, when doves cry, peach ou 1999 faz bem a qualquer alma que se preze.

Aos poucos, perdem-se gigantes que nos ensinaram umas quantas coisas sobre música, e parece que há uma página que se vai virando, definitivamente, transformando o mundo para toda uma geração.

This is what it feels like, when the doves cry!

Planet earth is blue.

Há músicas e cantores que marcam muito mais do que uma época ou geração, David Bowie é transversal a muitas.
Space Odity é intemporal e Bowie não teve - nem terá - outro que se lhe aproxime em originalidade, musicalidade e transformação. Alguns evaporam-se do panorama musical ainda em vida, este permanecerá muito além dela.

Os valentes

 

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E de repente percebo que na vida nem sempre cabe tudo o queremos e que mesmo os projectos que me são mais queridos, podem ficar largados ao abandono sem que eu goste, sequer, da ideia. É assim, não vale a pena remoer a coisa que o caminho é para adiante e está cheio de possibilidades.

Ontem tomava café com um amigo que não via há muito e que me contava ter conseguido alcançar o patamar profissional dos seus sonhos. Falava dos projectos que tinha, das viagens a fazer, do uso dado à formação paga e recebida para fazer profissão naquilo que sempre quis; depois, rematava com um: mas se me perguntares se sou feliz, não, não sou, alcancei isto à custa de um falta tremenda que me custa todos os dias. Não há muito que se possa responder a isto, a vida tem destas coisas e só passam por elas os que não desistem, os que não se acomodam, os que se vêm obrigados a fazer escolhas, mesmo as que doem em cada recanto da consciência e nos arrancam muito para lá dos simples lugares de conforto. Esses são os que se reinventam, os que fazem, os que avançam, os que acreditam, os que juntam gestos e acções às palavras que em outras bocas são ditas à laia de slogan oco, feito de nada e coisa nenhuma. Esses, são. Podia dizer que são poucos, mas a sorte ou a crise ou talvez o cansaço fazem-me perceber que são bem mais do que se pensa, e aparecem, assim, de repente, na surpresa do que não lhes imaginávamos mas que por ali já germinava. Nunca é fácil, muitas vezes implica abdicar de uma parte de si mesmos que os torna mancos, muitas vezes implica ficarem sós, muitas vezes implica recomeçarem a meio a corrida que já estava quase ganha, mas é possível.

Hoje, soube de uma colega que se cansou dos códigos e dos labirintos não mapeados da justiça para se dedicar à agricultura biológica; parece quase anedota, mas não é, trata-se apenas de mais uma reviravolta impressionante num rumo de vida traçado, construído, estudado e vivido para ser uma coisa e que vai desembocar noutra completamente diferente, porque da ideia ao fazer está apenas a decisão tramada de cortar com tudo e o percurso assustadoramente desafiante de começar do zero.

Bem hajam, esses valentes que arregaçam as mangas, que lambem as feridas, que continuam em frente, que se dividem e que se multiplicam, que se redescobrem, que se reconstroem, que se reescrevem.

Dos bravos reza a história

"Life after 7 July attacks" podia ser só mais um artigo de jornal a lembrar uma data terrível, neste caso, o dia em que o metro de Londres explodiu com um ataque terrorista; mas, como às vezes acontece com as histórias contadas na primeira pessoa, é-nos impossível afastar os olhos dos relatos destes homens e mulheres que viveram para contar.

Ao lembrarem aquele dia, muitos deles começam num ponto comum: entraram na metropolitano a correr, estavam atrasados, estavam com pressa, iam a galgar escadas e tempo e stress ("it was such a busy day"), como andamos todos, afinal, em cada manhã, em piloto automático e à velocidade de rotação própria do começar de cada dia. Para alguns, aquela, foi a última vez que correram na vida. 

Entraram na sua carruagem, sentaram-se a ler o jornal ou um livro de ficção cientifica, apertaram-se contra os restantes que já enchiam o espaço e suspiraram de alívio quando as portas se fecharam com eles lá dentro. Alguns, folgaram o lugar encontrado para saberem mais tarde que o vizinho do lado levava uma bomba numa mochila.

Todos se lembram de um estrondo metálico, de uma luz intensa e de serem elevados no ar. Depois, há o silêncio e, espantosamente, para os que foram gravemente feridos, a ausência de dor. É surpreendente, porém, como em cada caso relatado, o instinto de sobrevivência se sobrepõe ao pânico, estropiados, amputados de membros, pensam apenas no que é preciso fazer para viverem. 

Dez anos depois, é visível o trauma, mas também a superação, a força tremenda de ultrapassar o medo e reconquistar a vida. É importante ver o que estes homens e mulheres fizeram com a experiencia pela qual passaram, aquilo a que se dedicaram e, inevitavelmente, o que aprenderam a priorizar. Depois daquele dia, apressaram-se (correram) para outras vidas - para casamentos, para filhos, para campeonatos desportivos paralímpicos, para livros que se impunha escrever, para associações de ajuda, para uma consciência cristalina da bênção de estar vivo. Creio que era Platão que dizia que a coragem é uma espécie de salvação e o simples viver é, muitas vezes e em si, um acto de coragem; estas são, pois, histórias de salvação.

Listagem

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E eu que gosto tanto de listas e tenho cadernos cheios delas e, nos últimos tempos, devoro tudo o que esta mulher escreveu e, às listas que já tenho, acrescento outras inspiradas por ela, e encho cadernos com colunas verticais e escrevo diários, vários diários: um diário de preces, um diário de vida, um diário de instantes, um diário de imagens, um diário de palavras; listas e mais listas. It's a Susan Sontag kind of love.

Falar de um filme para falar da vida

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 Na vida tapamos, escondemos os nossos tiros.

Beatriz Batarda

Tão boa esta entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Beatriz Batarda e Margarida Cardoso a respeito do novo filme Yvone Kane.

Realmente, à volta de um filme, pode-se falar de muitas coisas e de muitas vidas, basta, para tal, reunir mulheres interessantes, também elas cheias de vidas. Aqui fala-se de tudo, porque o filme a estrear fala de muito, mas também porque os olhos sabem descobrir e interpretar muito mais e a questão da identidade dá pano para mangas.

Num pequeno passo desta conversa, achei muito curioso este detalhe sobre a escolha de tons e guarda roupa das personagens do filme:

Beatriz — Há uma evolução na cor. A Rita vai ficando cada vez mais clara. Começa por ser cinzenta e acaba de branco.

Margarida — Foi uma coisa deliberada, claro. São sempre tons pastel. O não ter padrões. E roupa em várias camadas.

Beatriz — Camadas a esconder o corpo e a proteger. Só há um momento em que as cores de mãe e filha se aproximam: é quando a Rita se apercebe de que a mãe está doente. Ficam as duas com tons terra.

Até que ponto esta intenção cinematográfica é real? Não serão, de facto, as nossas roupas - as nossas camadas -, o reflexo do que somos ou vamos sendo ou a máscara do que queremos esconder debaixo delas?

Olhem para o que eu visto e vejam o que eu sou, ou olhem para o que eu visto para não verem o que eu sou?

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