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Outro Sentido

Outro Sentido

Os anéis de saturno

Há uma música antiga que te embala a tarde chuvosa e houve uma manhã que não cumpriu o sol do feriado passado. Há uma amiga que te pede o ombro e, ao dá-lo, percebes que os ombros se cruzam, como as vidas, e que nessa linha invisível, há histórias escondidas que se entrelaçam em reflexos de espelho.

Há uma palavra que não disseste e que vive encalhada na tua garganta e há lugares sem chão a que voltas constantemente com sorrisos que sorris para dentro. Há um castelo lá no alto, há uma lagoa lá no fundo, há uma janela onde bate o sol, há uma piscina iluminada onde não mergulhaste, há uma praia de ondas fortes, há uma estrada comprida que te conhece desde menina e há mãos pequeninas que se agarram à tua até já não o serem.

Há uma saudade que irradia em muitas latitudes e que tu sacodes como quem enxota mosquito pois sabes que tens uma âncora melancólica à qual não queres ceder e, por isso, empinas o nariz, engoles uns pirolitos e enrolas um carrapito no alto do cocuruto, como quem diz a si mesma, embora lá.

Há uma oração que guardas e de que gostas muito, voltas a ela para que cada palavra se enraíze em ti e aí fique a repetir um eco de sílabas finais; a verdade é que acreditas em anunciações e sabes que elas te surpreendem nos dias. Lembras-te do desabafo provocatório de Woody Allen: Se quiseres fazer Deus rir, conta-lhe os teus planos, mas tu contas à mesma, contas-lhe tudo e ele não ri mas diz-te coisas importantes que te mudam o azimute.

E, regressando à música - que foi onde começaste -, há esta mania dos headphones que voltaste a usar freneticamente como se tivesses vinte anos e andasses de comboio todos os dias a caminho da faculdade e quando dás por ti estás a dançar Coldplay, a gaguejar Bowie (ch ch ch ch changes), a valsar Cohen ou a cantarolar a Rita Lee enquanto ela promete: por você vou roubar os anéis de Saturno.

 

Gargalhadas e ventania

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O miúdo ri com gargalhadas que te fazem rir, são gargalhadas que riem das coisas poucas que são as melhores, é claro; ele ri por causa do número de vezes que conseguem atirar um balão ao ar sem ele cair no chão ou porque tu falas com ele com uma cara muito séria sobre coisas muito disparatadas. Ele ri à brava e chama por ti e aquilo ilumina o dia todo e aquece um Abril frio que falha a promessa de Primavera.

Esse Abril chegou cheio das águas mil do costume - April come she will, When streams are ripe and swelled with rain, diz a canção da geração anterior -, veio a tresandar a inverno quando tu já sonhas com um Maio ameno - May, she will stay resting in my arms again - um tempo mais suave e doce, mais quente. É que lá fora corre um vendaval de doidos apostado em desarrumar a rua toda - os caixotes de lixo largaram o lugar traçado no passeio e rumaram alcatrão abaixo, há vasos fugidos de varandas e pedaços de árvores pelos ares. 

"O vento sopra onde quer", ouviste isso hoje - o vento comparado à fé, um sopro sem forma, que despenteia ideias, não sabes de onde ele vem, nem para onde te empurra, mas sabes que está lá e que de repente te atravessa num arrepio que se entranha em desassossego, a desarrumar tudo por dentro. Esse vento é bom, é como aquela bola de pilates que o teu Personal Trainer te obriga a usar para fazeres uns abdominais em desequilibrio que te exercitam músculos que não sabias que tinhas mas que te fazem mais forte, ali onde é preciso, naquele centro que te sustenta a coluna vertebral, e é sabido o quão importante é ter uma boa coluna vertebral.

Mar calmo nunca fez bom marinheiro - não sabes quem disse isso, é uma daquelas coisas que apanhaste, algures, numa imagem na net -, o mar, tal como o vento de que ouviu falar Nicodemos, agita-te, obriga-te a procurar alicerces e equilibrios, a ajustar velas e a usares forças que descobres que tens. Lá, no fim da tempestade, estará o Mês de Maio, alegre e luminoso como a gargalhada de um miúdo a rir de coisas parvas. 

Como barro nas mãos de oleiro.

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Diz que a primavera chegou mas do lado de cá da janela não parece nada; é domingo de ramos e há uma música cantada após a comunhão que te comove sempre, é  um pedido de fortaleza que te enche inteirinha, até aos ossos e para lá deles, faz-te tremer cada fibra do corpo como as cordas da guitarra dedilhada que, logo ao primeiro acorde, te recolhem a cabeça ao peito e te obrigam a um fechar de olhos. Já sabes que vem dali um aperto, um sorriso mal disfarçado e uma lágrima rolada que limpas à socapa.

Gostas de ver aquela Igreja à cunha, como sempre está, gostas de ouvir o Pai nosso rezado como o ressoar de trovão, porque são muitas as vozes que o dizem, são tão diferentes os timbres que o rezam, e ele vem com uma força surpreendente, como se cada palavra dita tivesse um peso tremendo e batesse naquelas paredes com estrondo, violência.

Nem sempre és barro maleável nas mão de oleiro e sentes que obrigas muitas vezes ao esforço de cinzel, mas é precisamente nas tuas arestas mais difíceis que lhe pedes para não te largar, mesmo quando foges e crias distancia entre e ti e tudo, entre ti e tudo, entre ti e tudo, e depois ouves aquelas notas e aquela frase tremenda: "sozinho eu não posso mais / sozinho eu não posso mais viver", e sabes que aquilo é em ti o pilar, a primeira pedra que te define, a estrutura viva que te faz andar e nunca - mas nunca - sais só.

Ainsi soient-ils ou os homens da fé

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Terminou na passada semana, na RTP 2, uma das melhores séries que a nossa TV apresentou nos últimos tempos. Em três temporadas, estes Homens da fé mostraram-nos um pouco o que é ser isso, homens de fé, no mundo de hoje, num País de pouca religiosidade, como a França, num ambiente em que os desafios que se colocam àqueles que são Igreja, são muitos e verdadeiros. Estes, como tantos outros fora das telas, são padres e são homens, são gente com medo e com coragem, com desejos e com esperanças, com inspiração ou sem ela, com pecados, com virtudes, com ambições, com dons, com Deus e muitas vezes longe dele.

Pensamos demasiado nestes homens como seres endeusados e distantes, é bom lembrar que são homens, apenas isso, homens entregues a uma missão mais forte do que eles e demasiadas vezes muito sós, no meio de uma Igreja que se debate, que encerra guerras de poder, mas que também é ainda o motor de demasiada coisa boa que fica perdida no meio daquilo que faz notícia. A bondade dificilmente vende jornais, já a infâmia - venha de onde vier - faz tilintar moedas em qualquer canto.

Hoje, sentada numa Igreja só porque sim, vejo entrar um miúdo que se dirige à nave, claramente à procura de um Padre para se confessar. No último momento, porém, perdeu a coragem e escondeu a cara no colo do pai, já choroso. O Padre que estava sentado um pouco mais à frente viu aquilo e interrompeu o silêncio do lugar com um "oh tu, anda cá, pá!". O miúdo levantou os olhos, percebeu que era com ele e foi. Cumprimentaram-se com um high five bem estalado e sentaram-se a conversar. Não sei se houve confissão, mas houve umas boas gargalhadas e umas quantas orações e no fim, houve um daqueles apertos de mão elaborados que começam com os punhos fechados a bater um no outro e depois as mãos abertas a virarem-se ao contrário e mais um high five no fim. O mesmo miúdo que entrou a chorar, saiu dali - literalmente - aos pulinhos, sem penitência, só com um sorriso enorme na cara, a virar-se várias vezes para o Padre com quem tinha estado a conversar, de braço no ar, com um adeus animado. Há disto - graças a Deus - há homens de fé que fazem estas coisas e que, depois se recolhem novamente, à espera do cliente seguinte, caso apareça, porque se não aparecer também está ok.

Profunda admiração, imenso respeito.

Hoje rezei, também, por eles.

Como uma canção ou uma criança.

São tantas as manifestações que se seguem a um acontecimento tão monstruoso como um ataque terrorista, são tantas as certezas, as proclamações, as reacções em cadeia, as explicações, as futurologias, as incongruências, as perplexidades e as conclusões que qualquer ser ligado ao mundo se vê puxado em mais direcções do que é capaz ou sequer devia.

A minha bússola interior oscila louca no seu eixo e eu vejo a minha humanidade, a minha fé, a minha razão, a minha compaixão, o meu medo (sim, muito humanamente, o meu medo), a minha força, a minha sobrevivência, a minha civilidade, o meu azimute existencial a serem chocalhados, desorientados e postos à prova.

Desligo.

Paro.

Há um instante que tem de ser apenas para as vitimas e para as suas famílias, há um segundo que tem de ser apenas isso, ausente de todo o ruído exterior. Não me interessa a localização dos que morreram - se em Paris, Beirute, Síria, Iraque, Sudão ou Quénia. São mortos de uma morte violenta que não conhecem as razões cegas de quem puxou o gatilho, e é necessário esse momento cândido de quietude que os invoca em irmandade e respeito, um infantil e essencial voto de paz.

A trave e o argueiro ou um exercício pessoal.

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Porque vês tu, pois, o argueiro no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu olho? Ou como dizes a teu irmão: Deixa-me tirar-te do teu olho o argueiro, quando tens no teu uma trave? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás como hás de tirar o argueiro do olho de teu irmão. (Mateus, VII: 3-5).

Dá-se pouco valor ao poder da repetição quando esta, na verdade, tem algumas virtudes. Uma das coisas difíceis de acompanhar diariamente o Evangelho, é não cair na leitura horizontal de quem já ouviu a mesma história centenas de vezes e acha que lhe conhece os cantos e os meandros; é como a paisagem diária do percurso que nos leva ao trabalho - já a sabemos de cor, olhamos mas não vemos.

A repetição, porém, é uma ferramenta de enraizamento importante, a palavra repetida é como a palavra cantada, fica no ouvido e fixa-se em nós. Quando se crê que o Evangelho transforma, é disso que se fala, dessa capacidade de aquelas palavras escorrerem dos ouvidos para o sangue, para os ossos, para as articulações, para os ligamentos.

Ninguém é perfeito porque crê (ninguém é perfeito, ponto), mas permitir que a palavra lida produza em nós alguma ressonância, transforma-nos. Quem goste de livros, perceberá o que digo, a literatura tem esse poder de espelho ou de escavadora em nós, e se não o tiver, alguma coisa está mal - o livro ou o leitor.

Ler os Evangelhos a cada dia que passa, é notar a sua repetição, é certo, mas é também sermos, amiúde, surpreendidos por aquela esquina para a qual não tínhamos olhado ainda, porque subitamente  o sol incidiu obliquamente numa vírgula até então ignorada e será essa partícula que, naquele dia especial, nos faz abrir a pestana e corar até à medula, ou sorrir, ou chorar, ou esperar, ou apaziguar. Não me torno, então, um plano liso de imperfeições, mas nasce em mim um desconforto que é bom porque me move, porque me agita; não deixarei de meter a pata na poça, mas estarei mais atenta aos meus charcos interiores (porque são meus, não são dos outros).

Se seria mais fácil passar pelos dias sem isto? Sim, claro, mas não era a mesma coisa, eu não era a mesma pessoa. Prefiro a consciência cristalina do espinho ferrado dos meus erros, do que a veleidade descomprometida da máscara, e se há coisa que a Leitura daquele livro grande me ensinou é que a hipocrisia mais íntima é o pior dos males, uma coisa é dizer e não fazer, outra, pior ainda, é sentir-me confortável nesse carnaval.

"Um percurso de formação do coração"

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Leio a página de Tolentino Mendonça na Revista E e surpreendo-me sempre com este dom de uma voz capaz de chegar a todos - crentes e não crentes - falando de temas que são de religião, de humanidade, de arte, de vida. É tempo de Quaresma e Tolentino lembra-o, apontando três gestos importantes que explica e desmistifica: oração, jejum e esmola. Depois, remete para as palavras certeiras do Papa Francisco, que nos faz um pedido tão essencial e estruturante, quanto esquecido, para a sociedade de hoje e para a nossa construção pessoal: "Gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração"  e "a Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal - mesmo pequeno, mas concreto - da nossa participação na humanidade que temos em comum".

Na passada sexta feira, um grupo de amigas reuniu-se à volta de uma taça de amendoins torrados - coisinha viciante -, chá e biscoitos, para discutir, entre outros, o mandamento antigo que diz não roubarás. Apercebemo-nos da sua amplitude, do comando negativo expresso pelo não, mas também do seu reverso positivo - o da exigência de uma justiça distributiva dos bens da terra, dos rendimentos, das riquezas ou até do tempo que dispomos e que podemos dar a outros. A importância actual de mandamentos escritos em pedra, num tempo AC, baralha-nos, surpreende-nos, reverte-nos para vivências de voluntariado que, é sabido, assumiram, nos últimos anos, uma dimensão social importante, num povo que já, de si, é generoso de alma e coração. A Quaresma e o verbo dar andam de mãos dadas, e formas de dar há muitas.

Arrumar

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Levanto-me da mesa, terminado o almoço numa dessas praças de restaurantes de uma grande superfície. Olho à volta a tentar perceber se devo deixar o tabuleiro em algum lado ou se alguém o faz por mim. Fico sempre na dúvida se devo arrumar o tabuleiro ou não; não por preguiça, mas porque, em tempos, alguém me travou o braço, a olhar para a senhora fardada ao meu lado, e sussurrou-me ao ouvido: se o fizeres por ela, pode perder o emprego porque alguém a achará dispensável. Esta chamada de atenção aconteceu-me há anos mas nunca me esqueço dela no momento em que termino o almoço num destes espaços.

Mas, dizia eu, olhei à volta à procura de resposta à questão da arrumação do tabuleiro e os meus olhos param numa mesa, onde está sentado um rapaz com a refeição intocada à sua frente, de olhos baixos e mãos juntas no colo. Passados uns segundos, ergue então a cabeça de olhos fechados, faz o sinal da cruz e arranca para o prato do dia.

Fiquei, literalmente, especada, não é cena habitual nos dias que correm, menos ainda no meio da confusão de um centro comercial, e ainda menos quando em causa está um homem novo com ar de surfista.

O gesto tocou-me, confesso, pela raridade, pela reclusão, pela honestidade discreta com que foi feito. 

Dar graças por uma refeição é um gesto gratuito de fé, é um obrigado certo de que é devido e encontrará destinatário, é gratidão em estado puro. Eu hoje vi isto e foi importante.

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