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Outro Sentido

Outro Sentido

O que procuramos nos livros?

 

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Nunca, em circunstância alguma, diminuam uma obra de ficção, tentando transformá-la numa cópia fiel da vida real. Aquilo que nós procuramos na ficção não é tanto a realidade, mas sim a epifania da verdade.

Azar Nafisi, em Ler Lolita em Teerão.

 

Raízes

"Os Estados Unidos adoram a ideia da imigração, que é o fundamento do sonho americano - um pobre diabo que chega a estas paragens com uma mala de cartão pode tornar-se milionário -, mas detestam os imigrantes. Esse ódio, de que foram vítimas escandinavos, irlandeses, italianos, judeus, árabes e outros imigrantes, é pior contra as pessoas de cor, e em especial contra os hispânicos, porque são muitos e não há maneira de os deter".

 

In, A soma dos dias, Isabel Allende, 2007.

Dos livros

Livros, meu estimado tenente - sublinha. Meus ou de outros, tanto faz ... Basta ouvir a sua agradável conversa para saber que não lhe são alheios. E, voltando ao assunto de antes, ninguém pode ser sábio sem ter lido pelo menos uma hora por dia, sem ter biblioteca, por mais modesta que seja, sem professores aos quais respeitar, sem ser suficientemente humilde para formular perguntas e atentar com proveito nas respostas.

In, Homens Bons, Arturo Pérez-Reverte

A vida no campo.

a vida no campo

A minha amiga Xica que me conhece bem - e que sorte eu tenho de ter esta amiga Xica -, ligou-me há umas semanas só para me dizer: «Tens de ler este livro. É a tua cara»!

Eu, por acaso, já tinha comprado o livro mas andava com outras leituras em mãos e não lhe tinha agarrado ainda.

Comecei-o ontem. Acabei-o hoje. Vou deixa-lo repousar uns dias na mesa de cabeceira. Vou lá voltar.

Quem por aqui passa, sabe que sou apaixonada pelo Arquipélago dos Açores, que tenho com aquelas ilhas uma relação emocional de colo.

Com A vida no Campo, de Joel Neto, houve logo uma saudade intensa a encaracolar-se por mim acima. Depois, veio o ferrão, porque há quem tenha a coragem de trocar a vida continental pelos dias vividos numa ilha que se diz Terceira mas que no coração do Autor é claramente a primeira. Depois, ainda, ali no cimo da página 36, ao falar de Angra do Heroísmo, ele diz isto: " ... e nem por por um instante esmorece esse encantamento que só tem uma cidade que nos é, ao mesmo tempo, profundamente familiar e um nadinha estranha, como uma divisão lá de casa que não povoamos há muito". Aqui, foi quando eu me torci toda, porque compreendo bem este regressar a uma cidade que é de tal maneira nossa, que continua a sê-lo, mesmo depois de a termos deixado há muito tempo. Ponta Delgada é a minha divisão não povoada, São Miguel é a minha ilha primeira e os Açores são o meu arquipélago casa.

Este livro é um passeio que se dá com o autor e o seu cão, ou talvez um espreitar pela janela da casa onde vive e, por isso, tudo parece palpável e íntimo, estamos lá quando aparece a motorizada do correio, quando se ouvem os sinos da Igreja ou o apito da carrinha do peixe, e até nos entra pelas narinas o cheiro a "erva húmida e bosta de vaca".

Dou por mim a pensar nisto e apuro o ouvido: ouço carros a descer a rua, uma ocasional gaivota em terra, os gritos dos miúdos na piscina em frente, um arrastar de móveis uns andares acima, uma televisão ligada. Já é tudo tão habitual que tive de parar uns segundos para ver o que estava a ouvir afinal. Em contrapartida, há no ar um cheiro a verduras cozidas, a vizinha deve ter feito sopa e eu não gosto do cheiro de couves, acho que prefiro a bosta de vaca. 

Entretanto, enquanto estou para aqui a escrever, há uma música que toca no youtube, não conheço a intérprete (mas gosto), chama-se Soley e na última canção do álbum, ela diz assim: "one day I'll move to an island ..."! Eu não acredito em sinais, mas se calhar devia.

Do amor aos livros

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Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequido como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de prateleira e segurava-o um instante com as suas mãos grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, da capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os seus dedos hirtos virando páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitados, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.

John Williams, in Stoner.

Cartas da guerra.

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Leste o livro (segunda leitura, desta feita acabada), viste o filme e, para compor ainda mais o retrato, agarraste ainda na memória de elefante, o primeiro romance publicado do autor que relata a história da separação conjugal que, nas cartas, parece invisível de qualquer horizonte.

Que vidas tão difíceis, aquelas, em contraste com o suave viver deste agora que não conhece a distância, a espera de coisa nenhuma, a dificuldade vazia do tempo, a arma ao ombro ou o sobressalto interior de um estrondo. Aquele, é o retrato de outro tempo, e importa assegurar-lhe o devido traço de testemunho histórico; ou o possível, pois é sabido (e ali referido com insistência) que o horror da guerra não podia ser contado nas cartas escritas para casa, numa imposição do regime que sacudia para trás do pano a fealdade das opções tomadas (“a maior parte das coisas não as posso contar”).

Mas como conhecer de outro modo a lama, a sujidade, a degradação, a doença, o frio, o calor, a trovoada e o vento, os aquartelamentos, o arame farpado, os laços que se criaram entre militares e entre estes e as povoações, os dias e a sua extensão, as minas que arrancavam pés, pernas e vidas ao desbarato, os festivais de “costureirinha” para embalar o sono impossível, os ratos que se passeavam no chão das camaratas e as aranhas de tamanhos inimagináveis que cirandavam no tecto, os cães famintos e doentes, os milhafres, os morcegos, os insectos de toda a sorte, o avião que trazia o correio - quando chegava -, e os quimbos, os sobas e as esconjurações da doença em cerimónias de danças e batuques, numa realidade quotidiana de alferes em comissão?

Que viver aquele, naquele papel descripto, naquelas cartas, quase diárias, que aguardam resposta durante dias e que se escrevem a esferográfica, a aerograma, a envelope e selo, numa distância dilacerante de espera e de saudade, uma panaceia de palavras que, na suspensão de um instante, ergue uma ilusão de proximidade de outro lugar e daquela que é querida, amada e desejada com todas as forças da juventude. São, por isso, cartas de tremenda intimidade que nos fazem a nós, leitores intrusivos, oscilar entre a maravilha encantatória dos amantes e a sensação usurpadora de bisbilhotar na privacidade da conjugalidade vizinha.

Cruzas-te com este mundo que, afinal, nem te é tão estranho assim, pois ouviste-o murmurado toda a vida por um pai que viveu uma Guiné. Lembras-te, de memória viva, de o veres sobressaltado a qualquer estalo de foguete ou brincadeira de balas carnavalescas, e daquela sensação de a voz se lhe calar em reticências mudas quando as memórias daquele tempo tentavam ser contadas. Tu própria tens uma imagem mental de lá teres estado e que não é provavelmente memória alguma, mas uma construção de álbum de fotografias e histórias de família. Já o teu irmão, guardou a memória olfactiva da creolina com que se desinfectava o chão da casa em que viveram em Bissau.

Entre as leituras desta guerra e o filme lindíssimo de Ivo Ferreira, vais falando com a tua mãe, que também foi mulher jovem com filhos, que escrevia aerogramas ao marido na Guerra, e dizes-lhe, em conversa, que uma das coisas que te deixou uma impressão viva, foram os relatos das noites de trovoada, talvez pelo fascínio que ainda hoje tens pelo fenómeno atmosférico. Ao teu lado, a tua mãe, sorri e conta-te que nessas noites de trovejar tropical, costumavam sair de casa e ir para um edifício ali perto – uma qualquer fábrica de cerveja – ver a trovoada desenhada no céu e que tu, pirralha minúscula de três anos, já então, te esticavas toda, maravilhada pelo espectáculo luminoso. Disto não tens memória, só o prolongar inconsciente (e até agora desconhecido) desse hábito que te arrasta para a janela mais próxima ao primeiro trovão, mas os teus pais lá guardam, também eles, as cartas que se escreveram e aquela distância que não se contava só em quilómetros mas em tempo e ausência.

Assim para nós haja perdão.

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Neste livro poderoso, há vidas em farrapos, encalhadas, desviadas, sonâmbulas e indiferentes; também há famílias destruídas por eventos violentos, chocalhadas pela degradação moral proporcionada pela sociedade moderna, pelo silêncio dos gadjets, pelo desemprego, pela doença, pela solidão, pelas drogas, pelo sexo e, acima de tudo, pelo vazio feito de gente sem rumo.

Neste livro, há tudo isto logo nas primeiras dez páginas, e depois, há o resto – o caminho que se faz quando a vida desaba e nos obriga a descobrir, finalmente, quem somos e quem queremos ser, porque demasiadas vezes, para muitos de nós, só o limite extremo tem o dom de mostrar a direcção.

A dada altura, alguém diz: “Antes de tudo isto ter acontecido, eu tinha uma vida. Ou pelo menos, pensava que tinha. Uma vida cujos êxito e qualidade não eram postos em questão. Preparava-me para fazer alguma coisa.”

Mas não fazia, e no tal caminho em que se vê após o cataclismo, este homem vai, aos poucos e aos tropeções, acordando para outra realidade, uma em que nunca tinha pensado ou perspectivado sequer, porque nós planeamos de acordo com as cartas que temos na mão e nunca com o facto de nos ser dado um baralho novo a meio do jogo.

Para lá da acutilante crítica social dos tempos modernos, este livro é feito de um longo, hesitante, cómico e inspirador caminho de redenção, em que há uma família que se constrói muito para lá dos laços de sangue e há vidas que se aproximam e fundem na lógica de que a vida se faz caminhando, a lembrar as lições de Rilke, que dizia, em suma, que não vale a pena procurarmos respostas onde e quando elas não podem ser dadas, rematando: “viva apenas as suas interrogações. Talvez vivendo-as simplesmente acabe um dia por penetrar insensivelmente nas respostas” – assim para nós haja perdão.

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