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Outro Sentido

Outro Sentido

Equinócio de Outono

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Entra hoje o Outono nos dias do calendário, a acompanhar semanas de trabalho que já fizeram esquecer as férias. Não é coisa que te assuste, pois gostas da alternância das estações e gostas do Outono, com os seus vários tons de amarelo e dias que vão encurtando, apesar de o sol se fazer sentir ainda, numa teimosia  hesitante que já não aquece, mas ilumina.

Deparaste-te ontem com uma imagem das ilhas Faroe, da aldeia de Elduvík, em particular. A legenda dizia que a povoação gozava os últimos raios de sol directo até que este se esconda, por largos meses, atrás das montanhas. A fotografia é linda, como aliás, o devem ser as ilhas, mas isto mostra a sorte que temos, nós portugueses, neste canto da Europa, à beira mar plantado. Temos Outonos e Invernos, é certo, mas temos também um sol luminoso que se mostra presente o ano inteiro, resguardando-nos de prolongadas hibernações sombrias.

Não tarda, o chão das ruas por onde passas habitualmente, estará atapetado de folhas, o céu mostrar-se-á, por vezes, carregado de nuvens e aparecerá, também, aquela primeira chuva que traz com ela um cheiro bom a terra molhada que gozas com a satisfação de alguma coisa que reconheces e que associas a recomeços, mas nunca terás dias de escuridão completa pela ausência do astro rei.

Venha de lá este Outono e, com ele, dias diferentes, com todas as coisas novas que fazemos por causa deles.

Gargalhadas e ventania

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O miúdo ri com gargalhadas que te fazem rir, são gargalhadas que riem das coisas poucas que são as melhores, é claro; ele ri por causa do número de vezes que conseguem atirar um balão ao ar sem ele cair no chão ou porque tu falas com ele com uma cara muito séria sobre coisas muito disparatadas. Ele ri à brava e chama por ti e aquilo ilumina o dia todo e aquece um Abril frio que falha a promessa de Primavera.

Esse Abril chegou cheio das águas mil do costume - April come she will, When streams are ripe and swelled with rain, diz a canção da geração anterior -, veio a tresandar a inverno quando tu já sonhas com um Maio ameno - May, she will stay resting in my arms again - um tempo mais suave e doce, mais quente. É que lá fora corre um vendaval de doidos apostado em desarrumar a rua toda - os caixotes de lixo largaram o lugar traçado no passeio e rumaram alcatrão abaixo, há vasos fugidos de varandas e pedaços de árvores pelos ares. 

"O vento sopra onde quer", ouviste isso hoje - o vento comparado à fé, um sopro sem forma, que despenteia ideias, não sabes de onde ele vem, nem para onde te empurra, mas sabes que está lá e que de repente te atravessa num arrepio que se entranha em desassossego, a desarrumar tudo por dentro. Esse vento é bom, é como aquela bola de pilates que o teu Personal Trainer te obriga a usar para fazeres uns abdominais em desequilibrio que te exercitam músculos que não sabias que tinhas mas que te fazem mais forte, ali onde é preciso, naquele centro que te sustenta a coluna vertebral, e é sabido o quão importante é ter uma boa coluna vertebral.

Mar calmo nunca fez bom marinheiro - não sabes quem disse isso, é uma daquelas coisas que apanhaste, algures, numa imagem na net -, o mar, tal como o vento de que ouviu falar Nicodemos, agita-te, obriga-te a procurar alicerces e equilibrios, a ajustar velas e a usares forças que descobres que tens. Lá, no fim da tempestade, estará o Mês de Maio, alegre e luminoso como a gargalhada de um miúdo a rir de coisas parvas. 

Diário visual das férias

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Há sempre aquela hora tardia em que o areal se esvazia e uma aragem mais fresca pede um casaco, em que as dunas se desfazem levemente em pequenas nuvens de areia arrastadas para a ria, em que a maré vaza e deixa a descoberto lagoas espelhadas e esquecidas. É a essa hora que aparecem as gaivotas em voos planantes de asas largas, a marcar o território que é delas ou a rasar as ondas à procura de alimento, é a essa hora que pousa um sossego de tela e as sombras ficam compridas e o mar se faz ouvir.

Essa, é a melhor hora.

A boniteza das coisas.

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Vou começar no lugar comum do sol que se abrilhanta lá fora numa Primavera anunciada mas, depois disso, tudo pode acontecer, porque normalmente eu começo sem saber onde vou dar. Estou sentada com uma janela nas minhas costas e o tal do sol reflectido no vidro está a aquecer-me o lombo e sabe bem, espalha uma indolência mansa que dá vontade de não fazer nada, mas ainda agora é terça-feira e a semana mal começou e eu sei que tenho uma data de recados na secretária. A vida parece jogar-se neste equilíbrio nunca alcançado, de sol lá fora e telefonemas para responder, e, pelo meio, há uns fotogramas suspensos de libelinhas empoleiradas nas cordas de acesso a uma barragem alentejana onde já me banhei quase nua, enquanto me diziam que podia haver cobras de água a roçarem-me as pernas. Gosto de boiar de barriga para cima quando as águas o permitem, ficar ali, suspensa, a ouvir o que se ouve quando se tem os ouvidos abaixo da linha da água e os olhos fixos no céu e a sensação de ausência de peso. Agora ainda não é verão e dói-me o pescoço, não o consigo virar para o lado direito e a dor arrasta-se à omoplata, contorna-a e não me deixa rodar os braços num ângulo de trezentos e sessenta graus, total e aberto; não que eu precise de abrir e rodar os braços num ângulo total e aberto de trezentos e sessenta graus, mas irrita-me não conseguir fazê-lo.
Hoje vi uma jarra cheia de ramos longos de orquídeas cor de champanhe que caiam em cachos para cima de uma mesa antiga. Estava lindo e eu não fotografei, esqueci-me; acontece-me, às vezes, ficar tão pasmada com a boniteza súbita de uma coisa que me esqueço de a fotografar, logo eu que gosto tanto de fotografar a boniteza das coisas súbitas e banais.
Houve muitas Páscoas em que o sol se abrilhantava tal como agora e em que nós resgatávamos as t-shirts às gavetas fora de época para as irmos passear para a praia. Instalávamo-nos na Azarujinha ou na praia da Poça a ver o mar rebentar, molhávamos os pés e jogávamos a qualquer coisa na areia ou tirávamos fotografias de grupo; uma data de carinhas larocas, brancas e leves de preocupações (em cima da secretária ou fora dela). Comiam-se gelados, trocavam-se bolachas, enrolavam-se e desenrolavam-se toalhas e discorríamos horas a fio na arte de não fazer nada, só porque podíamos. Depois, agarrávamos nos ténis com dois dedos e sacudíamos a areia dos pés, enquanto nos empurrávamos, à má fila, a desafiar o equilíbrio, até que alguém se estatelava com uma meia mal enfiada no pé, e os restantes rebentavam num coro de gargalhadas próprio de quem se ria a bandeiras despregadas com parvoíces deste calibre. Ouvia-se a Madonna, toda ela like a virgin, com os seus colares saltitantes numa gôndola veneziana e os Foreigner cantavam que queriam saber o que era o amor, e nós cantávamos com eles, porque também não sabíamos, mas suspirávamos: I want you to show me!
Aqueles dias de sol não eram só dias de sol fora de época, eram um prenúncio de verões que pareciam não ter fim, mais uns meses, e chegavam as férias, em que o tempo se arrastava e nós com ele e aquilo parecia que não acabava. Era isto.
Agora vou ali tratar de uns prazos e responder a uns telefonemas.

 

Setembro

 

[Imagem, ontem, em Lisboa, via Instagram]

Eu gosto do mês de Setembro; é o mês que marca o final das férias e, quase sempre -dizem que este ano não será assim - a época em que, aos poucos, os dias vão refrescando. É também o mês em que regresso ao trabalho, alegadamente, mais descansada e com a cabeça arejada. Este ano, o mês de Setembro começou com a minha única e fundamental plataforma de trabalho, o Citius - que, para quem não sabe, é site que nos permite entregar e receber notificações judiciais - sem funcionar durante uns dias e a funcionar mal nos restantes. Não me queixei.

Setembro é também o mês em que me dão ataques de renovação generalizada: da casa, da secretária, do guarda roupa, do corte de cabelo, das rotinas anuais, dos horários de trabalho. Ando a "iogar" como se a minha vida dependesse disso (depende?), ando a controlar o meu horário diário de forma espartana - de ora em diante, acabaram-se dias desorganizados que me obrigam a sair do escritório depois - ou a caminho - da hora do jantar (eu sei que o inferno está cheio de boas intenções, mas não me estraguem o balanço, sim?).

Setembro é ainda o mês em que decido que vou dar asas à criatividade em alguma coisa, mesmo que ainda não saiba qual ela seja; é uma forma de não enlouquecer com o cinzentismo dos meses que se seguem e a rotina dos dias. Ando a pensar em tudo, desde colagens, a temas de escrita e até o tricot - para as meninas que ainda não agarraram nas revistas com as tendências de Outono/Inverno, aqui fica o alerta: as malhas estão em grande, e as sobreposições, e um revival dos anos 60/70, e os veludos, e o verde tropa, e o vermelho (no tom maroon), e as botas altas, e o pêlo, e os sapatinhos ao estilo Mary Jane e, the last, but not the least, os chapéus largos (uma vez mais, à maneira dos anos 60). Pronto está tudo, escusam de comprar a revistinha da moda.

O Instagram é o meu novo vício e não há desafio fotográfico em que não participe. Decidi também fazer um mood board, tenho saudades desse placard de cortiça sempre pendurado ao lado da minha secretária em casa e cheio de imagens que me agradam. Acho que tive um quadro desses durante todos os anos em que vivi em casa dos meus pais e decidi voltar, em suma, está-me a dar um ataque teenager, mas que se dane, deve ser uma daquelas cenas dos quarentas.

Eu e a minha sobrinha começamos a escrever postais uma à outra de cada vez que saímos da nossa Vila; acho que vou alargar a ideia a umas quantas amigas e surpreendê-las com um postaleco de vez em quando, daqueles com imagens turísticas e selo carimbado no canto superior direito.

E é isto, ou talvez não, e ainda haja mais qualquer coisa, mas para iniciar este mês marcante, não está mal.

Escusado será dizer que marimbo completamente nas resoluções de ano novo; Setembro é que é.

Sim, sim, eu sei que é politamente incorrecto regozijar-me com o primeiro dia de chuva a seguir ao verão...

Mas eu gosto; gosto deste cheirinho maravilha a terra molhada, desta humidade ainda quente que paira no ar, deste início outonal em câmara lenta, de constatar que as árvores à frente do escritório começam a deixar um manto de folhas na calçada.

Sempre gostei da alternância das estações e não me despeço do verão com lágrimas saudosas.

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