Segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Querido mês de Agosto

Neste mês de Agosto descobri que há mais Algarve para além da praia e que, largado o areal e abraçada a serra - qualquer delas, tanto faz - há dias lentos que se gozam entre casas caiadas de azul e branco, rios de canaviais (chamam-lhes praias pluviais) e barragens isoladas de cores e transparências inesperadas. Há restaurantes onde nos recebem como se estivéssemos em casa e onde se almoça ao lado das cozinheiras que nos confessam que o prato do dia saiu uma belíssima feijoada porque havia que "aproveitar uns restos de carne que para ali havia". Abençoada interioridade onde não chegam as normas da ASAE. Numa outra aldeia, toda ela branca de luz e paz, entra-se na Igreja se se for buscar a chave à Sra. que está à entrada do museu da água, o que até vale a pena porque o pequeno altar dourado e recentemente restaurado é encantador e o baptistério tem um uma rústica ânfora de barro - a fazer as vezes de pia baptismal - à frente de um S. João Baptista lindo que só ele. Mais abaixo, almoça-se à sombra de um alpendre fresquinho com vista até onde a serra deixa. Na mesa ao lado, um casal de estrangeiros pede um bocadinho de água para o cão sentado debaixo da mesa e lá vem uma tigela cheia de água fresquinha que ali bicho também é cliente. No final, pede-se a conta e o dono do restaurante - outrora carpinteiro de profissão e agora cozinheiro, agricultor, relações públicas, empregado de mesa e dono do espaço -, olha para nós de soslaio e diz que "isso" - leia-se: dois pratos, jarro de vinho branco, garrafa de água, melão e digestivo - "dá mais ou menos 22 Euros que os Senhores nunca cá vieram e eu quero é que voltem". É assim, lá para dentro desse outro Algarve.

Mais para o lado do Guadiana, a estrada ladeia a água e a vizinha Espanha na margem oposta; há embarcações ancoradas e caiaques, escavações romanas por todos os lados e velhos sentados à sombra a conversar em portinhol, que ali vale tudo. E se uma pessoa se perde no meio daqueles montes e o GPS se baralhar nas estradas que o satélite nunca se dignou a descobrir, há sempre a velhota de avental de flores e chapéu preto na cabeça grisalha, que rasga um sorriso desdentado e lá nos indica as esquerdas e as direitas com as mão engelhadas, rematando com um "e se se perderem, gritem que eu vou lá acudi-los". Não nos perdemos, mas andamos por ali, muitas vezes à procura do marco da estrada - a sério, há quanto tempo não procuram um marco de estrada? Daqueles feitos de pedra a dizer EN - com muitas paragens para fotografias, para ouvir aquele nada que se ouve onde nada se passa ou para trincar uma sandwich de farnel, enquanto se refrescam os pés na barragem. As voltas são tantas que o sinal do combustível vai acusando sede, só que no quartel dos bombeiros avisam-nos logo que o posto mais próximo nunca tem gasóleo, mas podemos tentar. Chegados à bomba, baixamos o vidro e um homem bonacheirão, sem pedir licença, pendura os braços na janela e pergunta sem rodeios: "então, contem lá, há gasóleo para quantos quilómetros?". Desatamos a rir, e ficamos a saber que uma vez ele resolveu seguir a volta a Portugal com problema idêntico, mas o carro lá lhe fez o favor de só parar à porta de um amigo para dali não mais sair. Parece que há bomba com gasóleo garantido dali a 20 km de estrada e um restaurante mesmo em frente que até se recomenda, pelo que dois problemas se resolvem de uma vez só. Lá no alto há parques eólicos que não acabam e ainda encontramos uma larga extensão de painéis solares que devem alimentar muita energia nas redondezas.

Vale a pena, este outro Algarve feito de gente boa cá da terra que não tem nada a ver com o turista de praia e noites dançantes, mas que nos abre um sorriso e uma paisagem surpreendente e as portas das Igrejas e dos castelos medievais, e há lagoas escondidas e terras floridas com lojas artesanais arrancadas às telas de cinema.

Se o Algarve podia ser só praia? Podia, mas eu juro que não era a mesma coisa.

By Leonor às 21:15
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