Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Outro Sentido

Outro Sentido

Mau feitio.

All Stars.jpg

Ouço que tens mau feitio, que às vezes és antipática, que ignoras sobranceiramente o mundo ou que entras muda e sais calada. São vozes que te adoram mas que te conhecem desde pequenina e para quem, agora, esta miúda cheia de adolescência, às vezes, fere e dá saudades daquela outra que ria com covinhas doces e pedia sempre mais de nós.

São as mesmas vozes que dizem que és parecida comigo, não apenas nas maleitas articulares dos joelhos, mas também nessa fama de mau feitio que, convenhamos, acompanha o mulherio da família.

Na verdade, eu com a tua idade não era especialmente afável, não gostava de beijoquices (aqui entre nós, ainda não gosto), de cenas melosas, da constante exigência da minha presença e atenção. Em contrapartida, gostava mesmo muito do meu mundo que eu achava que era à parte e, por isso, isolava-me, fazia-me ilha (tu sabes que eu gosto de ilhas) e fazia-o sem telemóvel (não havia cá disso), sem computador (também não) e sem Ipad (ainda menos). Isolava-me nos livros e na música com headphones e nas amigas com quem falava ao telefone (uma coisa fixa à parede, pasme-se) e a quem escrevia cartas (papel e caneta) apesar de as ver todos os dias. Eu andava no banco de trás do carro sem dizer uma palavra a quem quer que fosse, quer a viagem durasse dez minutos ou cinco horas. É que eu ainda me lembro de a minha cabeça ser toda a companhia de que precisava e de a paisagem do lado de lá do vidro me acompanhar lindamente, sem necessidade de mais nada, e de ficar profundamente irritada e impaciente quando me arrancavam a esse mundo feito de mim e das minhas amigas e da minha música e dos meus livros. A impaciência traduzia-se muitas vezes num insolente rolar de olhos que, confesso, ainda uso com muita frequência.

Hoje eu sei que era, realmente, antipática, assim como também sei que me era tremendamente difícil ser de outro modo porque tudo o mais era uma contrariedade, uma chatice e eu queria saltar fora, viver, forçar limites, ignorar o mundo; é que, sabes, eu fui aquela miúda há mais de trinta anos, mas juro - juro mesmo - que parece que foi ontem!

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.