Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Outro Sentido

Outro Sentido

Oh what a wonderful world...

63730915_Laundry-of-Syrian-refugees-is-covered-wit

Está frio. Diz que nevou no Algarve, em Tavira, tão próximo do local onde passo férias com temperaturas de verões quentes.

O mundo inteiro estava a precisar de um abraço quente neste momento.

Donald Trump é oficialmente Presidente dos Estados Unidos. O filho do Donald Trump faz-me lembrar a personagem do Joffrey Baratheon do Game of Thrones. A classe descontraída do casal Obama dói na despedida. Não estou optimista e vou ter de trabalhar para manter acesa em mim a tal da esperança, a fé nos homens.

Estive em Paris no início do ano, foi a terceira visita à capital francesa e a primeira vez que a vi engalanada de Natal - é um espectáculo alegre, descer os Champs Elysees iluminados em cada árvore e carregados de gente que se passeia debaixo de gorros, cachecóis, casacos e luvas ou que celebram a vida numa esplanada aquecida, numa feira de rua, numa igreja, nos cafés. Nunca vi tanta policia militar armada numa cidade. O acesso à torre Eiffel está vedado por arame e um apertado controlo de segurança. À noite, com temperaturas de gelar qualquer um, há famílias de refugiados a dormir em esquinas e passeios, deitam-se ali, simplesmente, sob camadas de cobertores, com os filhos no meio e os pais a ladear. Vi demasiadas. É de tolher o coração. Paris, linda, alegre, romântica, fria e em estado de alerta.

Entretanto, na televisão, há imagens diárias de campos de refugiados cobertos de neve por essa Europa fora, de gente enrolada em cobertores, a tremer de frio, alinhados em fila, à espera da ração do dia. Conheço imagens semelhantes mas têm 70 anos e não recordam uma época bonita da história da humanidade. A Cáritas apela à ajuda para tentar algum apoio, talvez morram menos, gelados, em pleno século XXI, na Europa!

No discurso de tomada de posse, o novo Presidente fala de proteccionismo, de mais fábricas, mais pontes, mais estradas, mais aeroportos, mais empregos, mais nacionalismos e mais muros a fazer fronteiras. Há uma multidão que o aplaude - há realmente gente que o aplaude - e ele tem um ar zangado, ele tem sempre um ar zangado. O eco do que ele diz está a ressoar pelo mundo, está a causar reacções, alastra. Uns quarteirões ao lado, há manifestações em curso, malta encapuçada a marchar, a virar caixotes do lixo e a partir algumas montras, a policia tenta encaminha-los à força de água, escoltas, carros. Também eles provocam reacções.

Penso nisso, no facto incontornável de que todas as palavras que dizemos, todos os gestos que são nossos, todas as posições que assumimos, têm, no momento em que os colocamos no mundo, uma consequência, um eco, uma mensagem que é passada para o espaço minúsculo que ocupam, é a nossa onda de choque concêntrica, construtiva ou demolidora. Nada é inócuo e tudo que fazemos ou omitimos não se limita a mostrar o que somos, mas edifica também uma ideia de mundo à nossa volta, tem um efeito gravitacional. Se muitos edificarem a indiferença, ela instala-se, se muitos edificarem a raiva, ela impõe-se, se muitos edificarem a exclusão, os muros crescem sem necessidade de tijolos que os tornem visíveis.

Quando Armstrong cantava o seu Wonderful world, ele dizia: The colors of the rainbow / So pretty in the sky / Are also on the faces / Of people going by / I see friends shaking hands / Saying: "How do you do?" / They're really saying / "I love you" -  faz-me pensar se, também ele, tinha essa ideia estranha e revolucionária de que a cara que fazemos, o bom dia que damos e a mão que estendemos têm esse poder contagiante de transformar o mundo!

Bem sei que a idade da inocência já lá vai, e que há que descer a cabeça lá do alto do arco iris para a colocar no planeta terra, mas precisamente por isso, quando acordo, todos os dias, e vou tomar café, quando atravesso a rua e me cruzo com um estranho, quando vou trabalhar e entro numa reunião, quando ligo o computador e vou às redes sociais, quando saio à noite e vou jantar com amigos, quando me enfio no carro e vou levar as crianças à escola, quando, em suma, faço o que faço e sou quem sou, eu estou a edificar mundo à minha volta.

A pergunta é, que mundo?

2017 Take off

tumblr_o8zixrueWl1s6zqvxo1_500.jpg

Ir ao ginásio de manhã. Arranjar as mãos uma vez por semana. Ter mais do que um iogurte no frigorífico. Beber dois litros de água por dia. Sair do escritório às sete. Entrar no escritório às dez. Ligar às amigas. Dormir uma sesta. Aprender a dizer não.

Não revirar os olhos quando o telefone toca. Pintar o cabelo. Fazer uma viagem por ano - ir aos Açores não conta como viagem, é pilar de felicidade. Não ter vontade de transformar em estátua de sal quem faz conversa de circunstância que não interessa nem ao menino Jesus. Rezar mais ao menino Jesus. Fazer tricot. Não cair em colapsos de insegurança se não foste o melhor que idealizaste. Tentar sempre ser o melhor que consegues. Estudar mais. Aprender a dizer não.

Fazer depilação definitiva. Aceitar o que não és. Gostar do que és. Ir para fora cá dentro. Ler os clássicos. Ler os modernos. Ir a museus. Procurar música nova para ouvir. Lavar o carro. Dormir sem Angelicalm. Definir o que é realmente urgente e dar resposta em verdadeira conformidade. Não testar limites. Fazer o passaporte com um propósito. Usar as escadas e não o elevador - são dois andares, caramba. Duas aulas de pilates por semana. Musculação. Cardio. Telefonar à mãe.

Não carregar a culpa do mundo. Fazer um puzzle. Escrever mais. Lacar as madeiras da casa e pintar as paredes. Arrancar os quadros e reordena-los. Só pôr o pé na balança uma vez por mês. Não pensar que a vida está a meio e desligar o tic tac na cabeça. Parar de olhar para trás e aceitar. Cortar no chocolate. Beber mais vinho. Cozinhar. Telefonar à mãe.

Dançar. Rir de coisas parvas até doer a barriga. Ir mais ao teatro. Fotografar. Ter flores em casa. Ir ao Mercado aos sábados de manhã. Voltar a nadar. Comprar creme de contorno dos olhos. Usar batom vermelho. Perdoar-te. Perceber que, na maioria das vezes, a malta hipócrita é só insegura. Não desprezar a malta hipócrita, reduzindo-a a pó.  Aprender uma coisa nova. Tomar a vacina da gripe. Desligar o ar condicionado. Lembrar aniversários. Retomar as temporadas da Companhia Nacional de Bailado. Fazer um PPR. Dar tempo aos teus. Compensar os dias. Aprender a dizer não.

Não te esqueças, amor.

IMG_20161201_201111.jpg

Ver o amor, assim, largado ao chão e esperar que não o seja numa rua de amargura. Tropeço nele, a caminho do trabalho, e reparo nas rodas e nos pés que lhe passam por cima, a fazer voar as folhas de outono.

Pergunto-me se o autor saiu de casa com uma lata de tinta só para fixar em letras grandes o amor que escasseia ao mundo ou se esperava realmente que ela acordasse de manhã e batesse o nariz no amor declarado, talvez da janela de um prédio vizinho ou no percurso de todos os dias.

Gosto disso, um lembrete à laia de post it mas com letras garrafais largadas no alcatrão, não vá ela esquecer-se ou perde-lo no caminho.

 

 

"Ando com saudades da beleza"

Andrew Wyeth 1917-2009.jpg

Leio uma crónica do Arnaldo Jabor onde ele diz: "ando com uma fome de arte, ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza, paz (...)" e eu, que ando nisto, percebo-o.

O mundo anda feio, violento, desacreditado e corremos todos o risco de começar a banalizar a fealdade e resolver com um encolher de ombros os miseráveis poderes que nos governam. Há muito que deixei de acreditar em soberanias e encaro-as na perspectiva do mal menor; não creio que seja a única.

Acredito, isso sim, na força dos fazedores, dos que não se acomodam, dos que descruzam os braços, dos que fazem contracorrente, dos que não se limitam a viver vidas pequeninas feitas de prazeres próprios. Acredito na força desses milagreiros quotidianos, incapazes dessa coisa fácil que é a indiferença. Esses são os heróis, esses são os que fazem o mundo, esses são os que mudam o rumo, esses são os únicos capazes de plantar beleza nesse planeta e mudar-lhe o tom. Tento ser um deles, pertencer a esse clube, fazer coisas que dão sentido aos dias, que me fazem chegar ao fim da jornada com a noção sólida de "eu hoje fiz isso"; enraíza e é bom.

Ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza; ando a ouvir música nova, uma pitada de indie, que tem o seu quê de inocência à moda dos anos sessenta e qualquer coisa de luminoso, é boa como a comida de conforto mas não engorda, embala uma manhã de edredon e pequeno almoço na cama ou uma horinha de sol de inverno na praia mais próxima. Também ando a correr os meus álbuns de arte para encher os olhos, lavar a retina da violência televisiva. Beleza é fundamental, ora bolas.

Ando com saudade de tudo, e devo estar naquela meia idade em que se viaja para trás por dá cá aquela palha, e eu tenho a sorte de o meu rewind ser encantatório como um labirinto, fico lá, às voltas, a perder-me pela lagoa do fogo, por Verões em S. João do Estoril, por cantinhos em Sintra, pela estrada do Guincho, Évora na Páscoa, Manta Rota em Agosto, Paris. Pergunto-me se daqui a vinte anos terei lugares a que voltar e que sejam feitos deste momento de agora ... sim, terei, é seguro que terei, e com gente muito boa lá dentro.

I'll be the ghost in your smile (...),

I'm a mosquito on your lips saying grace,

you know you want it bad

driven by lust

and whatever is left from your motor skills

Esta malta da música indie deve fumar umas coisas e vive na boa, a ver belezura todos os dias, muito cool.

Dos livros

Livros, meu estimado tenente - sublinha. Meus ou de outros, tanto faz ... Basta ouvir a sua agradável conversa para saber que não lhe são alheios. E, voltando ao assunto de antes, ninguém pode ser sábio sem ter lido pelo menos uma hora por dia, sem ter biblioteca, por mais modesta que seja, sem professores aos quais respeitar, sem ser suficientemente humilde para formular perguntas e atentar com proveito nas respostas.

In, Homens Bons, Arturo Pérez-Reverte

Mrs. Scrooge ou isto não é uma crónica de Natal.

 

IMG_20161203_122612.jpg

Não me saem, este ano, as crónicas de Natal, mas a árvore está feita e até lhe mudei o poiso; já paciência para o calvário das prendas, ainda não tive e só de pensar nisso, dá-me vontade de fugir. 

Li algures que, na Islândia, a tradição é trocar livros pelo Natal - há lá coisa mais linda? Se já importamos o Halloween, o trick or treat e o Papai Noel da Coca-Cola, podíamos importar a dita tradição islandesa, tão civilizada e culta. Mas não, anda tudo a invadir centros comerciais e arrancar cabelos e a trocar SMS do tipo "qual é o tamanho da roupa do teu filho?" Canseira!

À noite, há um cheirinho a lenha que se espalha pelas redondezas e a vila ilumina-se, festiva. Gosto disso, dá vontade de me encasacar e cirandar por aí.

Ainda ninguém falou da ceia de consoada, habitualmente, por esta altura, as tarefas estão distribuídas e todos sabem quem leva o quê. Este ano estou tramada porque a senhora que me fazia os papos de anjo recusou a encomenda e, por isso, cheira-me que terei de ser eu fazê-los, a menos que me troquem a incumbência natalícia.

Numa das casas de pronto a comer de que sou cliente assídua, descobri que se pode encomendar um peru sem peru; não, não é bem assim, ele há peru mas é quase todo recheio e depois colocam umas pernas assadas ao lado, sem aquela coisa seca e desengraçada do peito de peru que fica a fazer pratos de restos até à noite de fim de ano. Vou lançar a ideia mas acho que ninguém me vai ligar nenhum.

Gostava de ir à Missa do galo - todos os anos penso para comigo que gostaria de ir à Missa do galo -, mas nunca consigo, a família não tem quórum de fé que o permita e a tradição é que à meia noite deita-se o menino nas palhinhas e vai-se para a varanda com tampas de panela e colheres de pau chamar o Pai Natal que, entretanto, toca à campainha e deixa um enorme saco de prendas à porta, antes de se evaporar pelo elevador abaixo. Houve um ano em que ele não desapareceu e ouviram-se umas vozes pequeninas a comentar que o Pai Natal era muito parecido com o Tio António, desde aí, ele deixa o saco mas ninguém lhe vê a barba.

Não me importava, ainda, que as festividades se resumissem ao dia 24, e que o 25 fosse calmamente passado com missa de Natal e tranquilidade, mas também não dá.

Há muito que tenho ganas de um Natal à margem, mas sucumbo ao amor pela família e à lembrança de Natais passados e das minhas avós e dos meus tios e, claro, aos miúdos em bando, de olhinho arregalado e expectante de ouvir o nome pronunciado com um embrulho que lhes é atirado para as mãos no ar, e à folia em redor da mesa e, sobretudo, àquele instante - que é o melhor da noite -, quando a sala da casa da minha mãe é uma bagunça de papel e fitas pelo chão e nós voltamos todos para a mesa, para aconchegar o peru com uma fatia de bolo rei e um chá ou um copo de tinto. 

Manifesto pessoal.

Uma tarte de cogumelos, uma tarte de tomate com oregãos, um frango de caril, filetes com arroz de tomate, feijoada de chocos, frango com coentros, lulas à americana, coelho na púcara, legumes gratinados, sopa de ervilhas com coentros. Isto deve arrumar uma semana de refeições sem que eu tenha de agarrar numa colher de pau. Valha-me essa grande invenção que é o pronto a comer caseiro e que me livrou dos grilhões da cozinha. Há muito que perdi o ânimo culinário que alimentou o meu passado de mulher casada. Aí, qual sonho do lar, eu cozinhava favas à portuguesa, arroz de pato e alcatra à moda terceira enquanto o diabo esfrega um olho. Hoje, tenho de mentalizar-me para fazer sopa na Bimby ou, como diz o meu pai, "estragaste-te toda". A verdade, porém, é que nesta existência maculada pela inexperiência culinária e a mais completa falta de interesse em tal, sou infinitamente mais feliz - enquanto o puder ser -, e isto de ter duas casas de bom pronto a comer nas redondezas, foi dos milagres genuínos que me aconteceram na vida.

Vivam as ligeirezas mundanas que nos facilitam os dias e que são variadas e assumem muitas formas - viva o Angelicalm, viva o Sinutab, viva a opção do MEO que permite gravar séries e revê-las em dose contínua ao fim de semana de manhã, viva o serviço de homebanking, via a engomadoria que se instalou no prédio ao lado, viva o jantar à segunda feira em casa da mãe, viva o continente online, viva o spotify, viva o instagram, viva o botão de silenciar o telemóvel (mega viva), viva o alerta de aniversários do Facebook, viva os jornais online, viva a wook, viva o chocolate Lindt flor de sal, viva tardes de chuva em casa e viva o dia em que decidi ter um tapete amarelo na sala - sim amarelo -, viva as gargalhadas entre amigos e os disparates via whatsapp.

É que isto de cá andar não fica mais fácil com os anos e se vos impingiram essa tanga, aviso já que é mesmo isso - uma grande tanga -, mas se formos construindo o nosso kit de primeiros socorros, isto fica bem melhor.

Cada qual procura o seu, há quem recorra ao jogging, a um copo de bom tinto ao final do dia, a um xanax na mala, a música a bombar a caminho de casa, aula de bike, aula kick boxing, aula de zumba, aula de yoga, tricot, crochet, puzzle, costura, bicicleta, prancha de surf, há até, pasme-se, quem se enfie na cozinha feliz e contente a cozinhar para um batalhão.

Eu cá, enfiei nove refeições feitas no congelador e respirei logo muito melhor.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.