Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Outro Sentido

Outro Sentido

O que procuramos nos livros?

 

IMG_20170420_161322_104.jpg

Nunca, em circunstância alguma, diminuam uma obra de ficção, tentando transformá-la numa cópia fiel da vida real. Aquilo que nós procuramos na ficção não é tanto a realidade, mas sim a epifania da verdade.

Azar Nafisi, em Ler Lolita em Teerão.

 

Meias tintas

Neste Abril soalheiro a anunciar primavera e dias quentes, abro a janela de manhã para um cenário de ventania forte a fazer rodopiar uma chuva leve. Estranhamente, está quente, como acontece nas manhãs tropicais das ilhas. Cheira a terra e eu gosto disso; se fechar os olhos vem-me à cabeça uma imagem de muros de pedra cobertos de musgo, as escadas escorregadias da nossa casa na Fajã de Baixo. Aqui não se vê pedra em lado nenhum, para isso, tenho de ir a Sintra, onde em tantos recantos vislumbro um lampejo que me faz voltar a S. Miguel. Vou lá às vezes, matar saudades de muitas coisas.

Agora já não chove, mas ficou no ar uma humidade quente e boa.

Há dias, no noticiário, havia um alerta para elevadas concentrações de pólen atmosférico, ou como dizia o Senhor da Uber que me trouxe a casa, níveis de fechar a garganta de qualquer um e fritar o nariz de tristes alérgicos como ele. Os mesmos pólens que lhe encheram o carro com uma carapaça de pó leve que se misturou com a chuvinha da manhã, numa argamassa pouco apresentável para um motorista que se preze – não se ganha para as lavagens, dizia ele.

Eu, que não gosto de calores excessivos, nem de frios cortantes, viveria lindamente com estes dias de meias tintas, com leves camadas de roupa que se vestem e despem ao sabor das horas.

Habitat

20160630_120248.jpg

[imagem: Manuel Amado]

Sentamo-nos à mesa para almoçar. A janela recorta-nos uma imagem de árvores cheias - dois pinheiros e uma palmeira. O meu pai comenta com frequência: "gosto tanto deste quadro"; eu olho e percebo aquela tranquilidade silenciosa, um cenário natural que emoldura a refeição.

A empregada - uma brasileira bem disposta e franca que diz coisas que nos fazem rir -, comenta lá da cozinha que das seis codornizes acabadas de arranjar, só quatro tinham coração, "as outras são desalmadas", e eu quase me engasgo no copo de tinto.

Armada em filha pródiga que à casa dos pais (temporariamente) retorna, reencontro o meu quarto ainda assinalado com o meu nome na porta, olho à volta e reconheço os livros que me acompanharam durante anos, abro-os e descubro-lhes as páginas que sublinhei, os postais que lá deixei, os cantinhos dobrados para voltar à página que me encantou. São edições antigas, amareladas, usadas, absolutamente familiares.

Conheço a cor das paredes quando a manhã entra pelas frestas das portadas cor de laranja e deixo-me preguiçar no colchão que já foi meu, meia estremunhada, a identificar as pequenas coisas que fazem a vivência de um espaço que me é familiar mas onde já não encaixo, é como olhar com ternura para uma fotografia antiga.

O meu pai canta fados pela casa desde as primeiras horas do dia (como sempre fez), o elevador do prédio sussurra uma rota descendente, chinela-se pelo soalho e há um escorrer de água de um apartamento vizinho. No ar paira um cheiro a lareira e a torradas acabadas de fazer. Os meus avós olham-me do alto das estantes, há álbuns de arte empilhados em cima das colunas de som (à falta de lugar nas prateleiras), uma luz permanece sempre acesa na cozinha e outra na sala e, a meio da tarde, há um arco íris reflectido da janela que se baralha com o desenho do tapete de arraiolos.

Ainda que tentasse pintar um quadro desta casa, ele estaria sempre incompleto, é que uma casa nunca é só uma casa, são as mil e uma coisas de quem a vive.

Raízes

"Os Estados Unidos adoram a ideia da imigração, que é o fundamento do sonho americano - um pobre diabo que chega a estas paragens com uma mala de cartão pode tornar-se milionário -, mas detestam os imigrantes. Esse ódio, de que foram vítimas escandinavos, irlandeses, italianos, judeus, árabes e outros imigrantes, é pior contra as pessoas de cor, e em especial contra os hispânicos, porque são muitos e não há maneira de os deter".

 

In, A soma dos dias, Isabel Allende, 2007.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.