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Outro Sentido

Outro Sentido

You got a fast car.

Estudávamos em Lisboa e saboreávamos as primeiras dentadas de liberdade; íamos às aulas - quando íamos -, e éramos os reis e as rainhas das mesas do Bar. Jantávamos em casa uns dos outros porque podíamos, porque era uma forma de estarmos sós - mas juntos -, insolentes e cúmplices. Sonhávamos com futuros variados e resolvíamos injustiças com a jovem arrogância de uma penada. Trocávamos músicas e livros, falávamos mal de muitos professores e bem de alguns, andávamos de comboio, de autocarro, de metro e ocupávamos lugares ao molho, com ruído, casacos, manuais, códigos, mochilas e castanhas assadas em cones de papel que se partilhavam entre todos. Não se estudava uma linha, isso ficava para fazer em casa, mas bebiam-se umas cervejas, cozinhava-se muito (às vezes bem), bebia-se ainda mais. Rebolávamos a rir, pelos sofás, pelas cadeiras, pelo chão. Também dormíamos ao molho, pelos sofás, pelas cadeiras, pelo chão. Provocávamo-nos incessantemente, eles contra elas, elas contra eles, eles contra eles, elas contra elas, uns contra os outros, uns na direcção dos outros, alguns irremediavelmente, até hoje. Éramos todo poderosos e não vacilávamos nesse poder, subversivos e irmãos de sangue, parvos, adoravelmente parvos, e ouvíamos Tracy Chapman, lembro-me de andarmos todos a ouvir Tracy Chapman e a cantar o fast car em coro - And I had a feeling that I belonged /  I had a feeling I could be someone, be someone, be someone.

 

Os elementos & os Açores – um bailado sobre o basalto.

Na sua página de facebook, o escritor Joel Neto publicou este video e texto do respectivo autor. É impossível não partilhar.

Os elementos & os Açores – um bailado sobre o basalto. Um filme do meu amigo Filipe Tavares.

«Segunda Feira, 23 de Outubro de 2016. Há chuva e vento para todos e a previsão anuncia ondas que podem atingir os 18 metros. Agarro a câmara e saio de casa na esperança de captar boas imagens da tempestade. Visito a “Concha”, a escultura do projeto LAPA - Land Art Project Azores, construída no calhau da praia de Santa Bárbara na Ribeira Grande. Deparo-me com um cenário absolutamente mágico, parece um sonho. Na fúria da tempestade encontrei a dança, a espuma voa e dá forma ao vento, reduzo o tempo e gravo a 400 imagens por segundo, assim posso apreciar o bailado que a natureza esconde. O bom tempo do mau tempo é lento. Filipe Tavares»

Pois é

Saio do escritório já noite cerrada. A rua está escorregadia debaixo de uma chuva miudinha e as folhas amarelas dos plátanos alcatifam o alcatrão. O frio já pede mais uma camada em volta do pescoço e eu equilibro como posso uma mala, uma pasta de trabalho e um guarda chuva. No café empilham-se cadeiras e limpa-se o balcão, um grupo ocupa ainda a última mesa da esplanada e demora-se numa cavaqueira de final de dia. Paira no ar um cheiro bom a lenha queimada, a fazer adivinhar lareiras crepitantes nas casas em volta, vislumbro salas e cozinhas nas janelas iluminadas e gente que as cruza lá na vida delas. Há um homem que verifica os vasos da varanda e outro que desce a rua com um cão agasalhado com um tecido de xadrez; diz-me boa noite e eu respondo: "pois é". Ele ri.

 

 

Por causa de um retrato

Olhas para ti na imagem fotográfica que tens na mão e não te reconheces, estás tão diferente, é como aquela sensação distorcida de ouvires a tua própria voz gravada - sabes que és tu, mas não pareces tu.

Ali, naquele retrato, notas que os anos vão deixando a sua marca, que há umas cãs que se insinuam e que o contorno dos olhos se fez mais fundo, apareceram também uns vincos ao lado da boca e uns riscos na testa que, em boa verdade, já lá andam há uns anos. O que mais estranhas, porém, é a forma do rosto, a estrutura óssea mais estreita e angulosa, é como se o teu rosto tivesse perdido um contorno redondo de doçura, um equilíbrio rechonchudo de inocência. A natureza tem estas coerências terríveis, desenha-se a ela mesma, implacável, resta-te cultivar o resto, por dentro, e esperar que essa parte interior se revele, de algum modo, pelas frestas de uma qualquer janela.

12.10.2016

 

Primeira chuveirada de Outono

Às 15:07h, o telemóvel tocou; no visor apareceu uma fotografia da minha cunhada com a cabeça coberta por um lenço cor de rosa. Gosto desta fotografia. Do lado de lá da linha, ouvi a voz de alguém que não cosia com a imagem:

- A Senhora deixou este telefone no restaurante.

- desculpe?

- daqui fala do restaurante Hipopotamus, estamos a ligar para Senhora D. Nônô para informar que a dona deste telemóvel o deixou aqui no restaurante, fala do Hipopotamus.

Fiquei a saber algumas coisas: 1) que não sou a única a padecer de um certo - e creio que saudável - desprendimento telefónico; 2) que a minha cunhada me identifica na lista de contactos por "Nônô" e não a "chata-da-cunhada", 3) que existe um restaurante em Lisboa com o nome de Hipopotamus; 4) que à semelhança de um amigo que uma vez me ligou para o escritório a dizer que "queria falar com a Dra. Nônô", há quem ainda faça o mesmo, antecedendo o diminutivo de um adorável Senhora Dona.

A Senhora desligou. Eu mandei mail à cunhada que não o recebeu mas que foi buscar o telemóvel à mesma.

A cunhada terá almoçado a horas razoavelmente decentes; eu engoli uma sandes de carne assada às 16:30, com o tempo de mastigação rigorosamente cronometrado para a consulta do dentista às 17:00 (incluindo aqui cinco minutos para lavar os dentes mal chegasse ao consultório).

Na mesa em frente do meu almoço/lanche/snack, duas adoráveis senhoras muito reformadas discutiam as notícias do dia: a caça ao homem que matou duas pessoas- "como é possível que ele ande a monte e ninguém o apanhe?" -, "a impossibilidade de o País receber mais refugiados quando já não tem sequer para os seus" - "mas já aconteceu antes", lembra uma delas, "sim, mas os tempos eram outros" responde a outra -, "e os taxistas, visto aquilo dos taxistas"?

Termino com um café cheio e uma bolacha de chocolate com o formato do Rato Mickey - um mimo da casa.

Já a pagar a conta, a Wook informa-me que o livro do José Sócrates está com 10% de desconto e portes grátis. Faço delete, rápido, ainda agora comi uma sandes, caramba.

Saio do dentista com um sorriso todo Pepsodent e volto para o escritório. Tinha um telefonema de uma conservatória a pedir-me passar por lá amanhã de manhã. Estive lá hoje, esperei cerca de 45 minutos para ser atendida. Não exerci o direito de atendimento prioritário a que profissionalmente tenho direito. Nunca exerço. Ao meu lado, uma mulher menos paciente e não tão bem acompanhada por um livro, levantou-se várias vezes para mandar bocas à funcionária que a estava a atender. Foi mesmo mandar bocas, nunca se lhe dirigiu directamente, vociferava umas coisas para o ar, à laia de mensagem e sentava-se com afirmações do tipo: "às vezes é preciso levantar-lhes a voz". A funcionária, paciente, revirava os olhos. Eu ria-me. A Senhora achava-se o máximo.

Entretanto, hoje choveu, uma chuva de céu cinzento que largou aquele cheirinho maravilhoso da primeira chuveirada do Outono. Lembrei-me de S. Miguel - lembro-me sempre de S. Miguel -, o ar evaporado e adocicado da terra, as árvores a pingar, o piso escorregadio. Não senti saudades do Verão, devo ser a única.

Escrevo agora para contrariar a ideia de que os dias da minha rotina nunca têm nada de jeito lá dentro. Não é verdade, e esta podia ser a página de um diário que eu não tenho tempo para escrever, mas vivo-o, atenta. Não falta tudo, às vezes preciso é de me levantar a voz.

 

A vida no campo.

a vida no campo

A minha amiga Xica que me conhece bem - e que sorte eu tenho de ter esta amiga Xica -, ligou-me há umas semanas só para me dizer: «Tens de ler este livro. É a tua cara»!

Eu, por acaso, já tinha comprado o livro mas andava com outras leituras em mãos e não lhe tinha agarrado ainda.

Comecei-o ontem. Acabei-o hoje. Vou deixa-lo repousar uns dias na mesa de cabeceira. Vou lá voltar.

Quem por aqui passa, sabe que sou apaixonada pelo Arquipélago dos Açores, que tenho com aquelas ilhas uma relação emocional de colo.

Com A vida no Campo, de Joel Neto, houve logo uma saudade intensa a encaracolar-se por mim acima. Depois, veio o ferrão, porque há quem tenha a coragem de trocar a vida continental pelos dias vividos numa ilha que se diz Terceira mas que no coração do Autor é claramente a primeira. Depois, ainda, ali no cimo da página 36, ao falar de Angra do Heroísmo, ele diz isto: " ... e nem por por um instante esmorece esse encantamento que só tem uma cidade que nos é, ao mesmo tempo, profundamente familiar e um nadinha estranha, como uma divisão lá de casa que não povoamos há muito". Aqui, foi quando eu me torci toda, porque compreendo bem este regressar a uma cidade que é de tal maneira nossa, que continua a sê-lo, mesmo depois de a termos deixado há muito tempo. Ponta Delgada é a minha divisão não povoada, São Miguel é a minha ilha primeira e os Açores são o meu arquipélago casa.

Este livro é um passeio que se dá com o autor e o seu cão, ou talvez um espreitar pela janela da casa onde vive e, por isso, tudo parece palpável e íntimo, estamos lá quando aparece a motorizada do correio, quando se ouvem os sinos da Igreja ou o apito da carrinha do peixe, e até nos entra pelas narinas o cheiro a "erva húmida e bosta de vaca".

Dou por mim a pensar nisto e apuro o ouvido: ouço carros a descer a rua, uma ocasional gaivota em terra, os gritos dos miúdos na piscina em frente, um arrastar de móveis uns andares acima, uma televisão ligada. Já é tudo tão habitual que tive de parar uns segundos para ver o que estava a ouvir afinal. Em contrapartida, há no ar um cheiro a verduras cozidas, a vizinha deve ter feito sopa e eu não gosto do cheiro de couves, acho que prefiro a bosta de vaca. 

Entretanto, enquanto estou para aqui a escrever, há uma música que toca no youtube, não conheço a intérprete (mas gosto), chama-se Soley e na última canção do álbum, ela diz assim: "one day I'll move to an island ..."! Eu não acredito em sinais, mas se calhar devia.

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