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Outro Sentido

Outro Sentido

Os telhados da vizinha

by Hoda Rostami.jpg

As vizinhas e as galinhas e as galinhas das vizinhas e os vidros dos telhados das vizinhas e os estendais, é claro, os estendais das vizinhas onde se descobrem indecorosas nódoas nos melhores panos da vizinhança e todo o provincianismo de aldeia que alimenta a nossa cultura social e para a qual já não há pachorra. Rejubila-se no escândalo alheio, chafurda-se na falta do outro e esconde-se a falta própria, tão semelhante ou pior ainda, e se nada se encontra na vizinha que seja digno de miséria, vasculham-se as vergonhas ancestrais que servem também para alimentar palatos habituados à regularidade do líquido mais carrascão. Mexerico aqui, enredo acolá e a boa da vizinha tem de aguentar tudo e dar a outra face, e Deus nos livre se lhe salta a tampa e faz voar o microfone insolente e despudorado para o alguidar mais próximo, que logo aí perde a face e a postura e a autoridade. Pequeninos, nós, que damos palco, plateia e holofotes às vizinhas intriguistas, aos repórteres da aldeia da roupa suja que, convenhamos, se não tivessem audiência, também não tinham voz.

Um solavanco na rodinha do hamster.

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Acontece, às vezes, que um qualquer lugar deste mundo nos arranca, à força, a paisagem que conhecíamos do espaço moldado da nossa janela. Por alguma razão que não ouso discernir, isso tem acontecido com frequência neste cenário desordenado que é o planeta terra. Lembro-me de um poema da Matilde Campilho que nos primeiros versos diz: "O mundo está absurdamente esquisito, já ninguém confia nas imposições dos perfeitos" e creio que todos sentimos isso, cada vez mais, a cada notícia de jornal, a cada passo dado na rua, a cada pausa que nos concedemos para pensar um pouco na ordem inversa da importâncias das coisas.

Paras um pouco para pensar nisso - está metade do mundo a pensar no futuro e a outra metade a dormir um sono profundo. Todos acordarão, no fuso horário que lhes couber, para uma alteração do panorama habitual. Ajustamo-nos a tudo, meio apáticos, meio efusivos, meio conformados, meio revoltados, meio dormentes, meio expectantes. Para além desses, há sempre aquelas células inquietas, verdadeiras teimosias de luz - são os loucos, aqueles que vivem no intervalo ténue entre o sono e a agilidade e que, simplesmente, persistem no amor, porque tudo o resto, é desarrumação.

"A esta hora na terra

é metade Carnaval, metade conspiração,

metade medo, metade fé,

metade folia, metade desespero

E, provavelmente, a esta hora

uma metade do mundo está dançando

e a outra metade dormindo,

há ainda outra metade limpando as armas

outra, limpando o pó das flores.

Mas por causa do que me ensinou o místico

eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado.

Alguém que esteja vivendo no intervalo ténue entre o sono e a agilidade.

Supondo que ele saiba perfeitamente que este começo de século

será nosso baptismo de voo para a persistência no amor"

 

Matilde Campilho, in Fevereiro [excerto].

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