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Outro Sentido

Outro Sentido

Nowhere fast.

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Sabes que gostas de árvores e de bancos de jardim, ambos carregam uma solidão que é tua, sempre foi, aquele lugar vazio no conforto dos silêncios é o teu habitat. Podes sentar-te neles a ver a rua correr ou largar a cabeça para trás e ficar a olhar o intrincado de ramos que divide o céu. Percebes os velhos, parece que nada fazem na apatia da vida mas sabes lá que romances e aventuras se desenham por detrás dos olhos. Os velhos, as tuas velhotas e a saudade delas - falas sempre disto -, tu própria um pouco velha sem te importares minimamente com isso, és velha e adoras essa velhice que vive paredes meias com a menina perdida e a mulher que tudo quer, incluindo paz, silêncio e poder dançar desenfreadamente ao som de nowhere fast nos intervalos. 

Bancos de jardim são oportunidades, são convites, são como a tela em branco que aguarda o primeiro risco; e agora vais calar-te porque estás aqui estás a falar do ano novo e dos projectos e dessas coisas todas que não te interessam nada e a verdade é que nem sabes como aqui vieste parar, não era em nada disto que estavas a pensar, mas as palavras têm vida própria e escolhem o seu próprio caminho, ou escondem-no, depende dos dias.

Ser Natal

O que é isso de ser Natal?

Ser Natal é sermos esperança - coisa vaga, não é? Mas ser esperança é encarnar o conceito em gestos do quotidiano, é não ignorar e virar costas, é dar tempo aos outros, é engolir orgulho e as irritações, é dar um ouvido, uma mão, um ombro, é dar a força dos braços e a vontade do intelecto, é acender a luz onde (todos os dias) só há sombra e escuridão, é fazer alegria, é abrir a porta, é trazer surpresas, é pormo-nos de lado porque os outros precisam, é lembrarmo-nos de quem é sempre esquecido.

Sim, Natal é ser esperança, todos os dias, é fazer nascer um bocadinho de vida em cantinhos pequenos, é dizer bom dia a um desconhecido, dar uma moeda ao corpo enrolado no chão que nunca ninguém vê, não ignorar o homem que nos vende a revista Cais no semáforo vermelho ou a cigana à porta da Igreja, o amigo perdido na vida e os velhotes escondidos em casas comuns.

Sim, o Natal é todos os dias, com sinais pequenos de esperança que se dão, simplesmente, como forma de cá andar - Oh what a wonderful world it would be!

Ser Natal é, também, ser alegria porque os gestos certos têm o dom gerar sorrisos, já repararam? Ser Natal é plantar sorrisos, é andar meio mundo a beijocar o outro e toda a gente abraçada - abraço forte e bem batido nas costas. Ser Natal é a gargalhada que interrompe a resmunguice de fundo, porque se acendem umas luzes e se encontram aqueles que não vemos há muito e há sempre uma razão extra para nos dirigirmos ao outro com uma palavra feliz de felicitação.

Mr. Chaplin sabia-o bem quando cantava um hino ao poder de um sorriso: If you smile through your fear and sorrow / Smile and maybe tomorrow / You'll see the sun come shining through / For you. Logo ele, figurinha pobre, miserável, de sapatos esburacados e calças remendadas. Que personagem tão poderosa! Na escola da minha infância, durante a época Natalícia, sentavam-nos a todos numa sala e punham uma câmara a rodar filmes a preto e branco deste Chaplin que ora nos fazia rir, ora fazia chorar, sem nunca dizer uma palavra, e nós adorávamos e percebíamos que havia ali qualquer coisa de muito especial, uma mistura de vida, esperança e sorrisos. Era Natal e aquela figurinha de bengala comovia-nos e arrancava sonoras (e inocentes) gargalhadas àquele bando de miúdos de olhos arregalados.

Tenho sorte - é certo -, tenho a sorte de me lembrar destas e de muitas outras coisas que me fazem uma vida feliz, para lá das perdas, das dificuldades, dos momentos em que fui menos do que gostaria. E tenho a sorte de viver neste País cheio de paz, de ter família e amigos, oportunidades, trabalho. Tenho a sorte de poder ter fé e de vivê-la sem que isso implique um acto de extrema coragem, tenho a sorte de poder rezar por aqueles que não sabem o que isso é. Gratidão, isso também é ser Natal.

Ser Natal é acordarmos para a melhor versão de nós mesmos porque essa versão tem o poder tremendo de, em pequenos gestos, mudar o mundo sem esperar que outros o mudem por nós, creio que isso torna o Natal um projecto em permanente construção, e eu gosto disso, de fazer parte de projectos que acrescentam alguma coisa ao tempo em que vivo.

A todos, deixo assim, os votos de um Feliz Natal, que o agarrem, com unhas e dentes, todo o ano, todos os dias.

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Ainsi soient-ils ou os homens da fé

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Terminou na passada semana, na RTP 2, uma das melhores séries que a nossa TV apresentou nos últimos tempos. Em três temporadas, estes Homens da fé mostraram-nos um pouco o que é ser isso, homens de fé, no mundo de hoje, num País de pouca religiosidade, como a França, num ambiente em que os desafios que se colocam àqueles que são Igreja, são muitos e verdadeiros. Estes, como tantos outros fora das telas, são padres e são homens, são gente com medo e com coragem, com desejos e com esperanças, com inspiração ou sem ela, com pecados, com virtudes, com ambições, com dons, com Deus e muitas vezes longe dele.

Pensamos demasiado nestes homens como seres endeusados e distantes, é bom lembrar que são homens, apenas isso, homens entregues a uma missão mais forte do que eles e demasiadas vezes muito sós, no meio de uma Igreja que se debate, que encerra guerras de poder, mas que também é ainda o motor de demasiada coisa boa que fica perdida no meio daquilo que faz notícia. A bondade dificilmente vende jornais, já a infâmia - venha de onde vier - faz tilintar moedas em qualquer canto.

Hoje, sentada numa Igreja só porque sim, vejo entrar um miúdo que se dirige à nave, claramente à procura de um Padre para se confessar. No último momento, porém, perdeu a coragem e escondeu a cara no colo do pai, já choroso. O Padre que estava sentado um pouco mais à frente viu aquilo e interrompeu o silêncio do lugar com um "oh tu, anda cá, pá!". O miúdo levantou os olhos, percebeu que era com ele e foi. Cumprimentaram-se com um high five bem estalado e sentaram-se a conversar. Não sei se houve confissão, mas houve umas boas gargalhadas e umas quantas orações e no fim, houve um daqueles apertos de mão elaborados que começam com os punhos fechados a bater um no outro e depois as mãos abertas a virarem-se ao contrário e mais um high five no fim. O mesmo miúdo que entrou a chorar, saiu dali - literalmente - aos pulinhos, sem penitência, só com um sorriso enorme na cara, a virar-se várias vezes para o Padre com quem tinha estado a conversar, de braço no ar, com um adeus animado. Há disto - graças a Deus - há homens de fé que fazem estas coisas e que, depois se recolhem novamente, à espera do cliente seguinte, caso apareça, porque se não aparecer também está ok.

Profunda admiração, imenso respeito.

Hoje rezei, também, por eles.

Uma casa

Évora no Natal, a rua estreita e empedrada da casa da tua tia; saber que assim que puseres um pé fora do carro, levas com uma chapada de ar frio que te enregela o nariz. Bater à porta daquela casa - havia um batente, já não sabes se era uma mão de ferro ou uma argola, mas fazia-se ouvir bem; não te lembras de uma campainha -, a tua tia grita qualquer coisa lá de dentro: "já chegaram?" e aparece com o seu sorriso enorme, toda ela grande, por fora e por dentro.

Entras a bater as mãos e a sorrir a cada canto, porque há casas que contam histórias e tu, inconscientemente, tens essa noção. Logo à entrada, há um bengaleiro de madeira escura e torneada, com um espelho ao centro e lugar para bengalas e guarda-chuvas; na parede oposta, um calendário com uma imagem de Jesus e o seu coração flamejante. Há uma arca em cima da qual estão as mesmas fotografias de sempre, toda a família emoldurada em chapas de fotógrafo ou poses de ocasião; estás lá tu com o teu irmão e os teus pais num Natal açoriano, a tua mãe tem um casaco de pele de coelho. No canto, está a cristaleira - portas de madeira em baixo e portas de vidro em cima, e muita loiça lá dentro, linda, delicada. Ao centro daquele espaço, estão duas mesas redondas, uma carregada de cestos e revistas antigas e outra à espera de ser posta. Ao fundo, abrem-se portas à cozinha com uma chaminé enorme que já não é usada mas quando te pões debaixo dela - o que não gostas de fazer porque te mete medo - ainda cheira a fumo. O espaço aqui é quase todo ocupado por uma mesa com tampo de pedra e nela vêem-se os preparativos para o pequeno-almoço do dia seguinte - há pão, leite, manteiga, doce de abóbora com amêndoa, lemon curd, café instantâneo. Na mesa ao lado, há uma balança de dois pratos e, à frente dela, um bloco pesado onde encaixam os pesos por ordem crescente.

Sais da cozinha por uma porta lateral que dá para um corredor estreito, onde há uma casa de banho minúscula e, de seguida, uma sala de igual tamanho que alberga - em simultâneo - um enorme cofre com uma alavanca rotativa e um oratório profusamente decorado, este é um sítio estranho, onde também podes encontrar tabuleiros com tigelinhas de marmelada coberta com papel vegetal e umas arcas sempre tapadas por panos de padrões. Aquilo tem um bocado ar de gruta de Aladino.

A porta em frente conduz-te a outra divisão que foi sala durante muitos anos, até a tua tia já não se conseguir mexer e, nessa altura, transformou-se no seu quarto. À saída deste, já deste a volta completa à casa e tens, à tua direita, umas escadas de madeira muito íngremes. Lá em cima são os quartos, com as camas pesadas onde mergulhas em colchões que, de tão fofos, te engolem o corpo e onde tentas desesperadamente aquecer debaixo de camadas improváveis de mantas alentejanas. À noite, ouves, por vezes, um carro que rola os pneus na calçada gelada e lembras-te que há uma mercearia na porta ao lado. A luz de um candeeiro de rua entra-te pela janela e, apesar de a tua cama ficar ao lado de uma porta que dá para uma pequena arrecadação que tu imaginas cheia de aranhas, lá acabas por adormecer no aconchego daquilo tudo. Neste piso há quatro quartos e uma casa de banho e no quarto dos teus pais, há uma uma caixa de música com uma imagem de Nossa Senhora e os três pastorinhos - quando lhe dás corda com uma chave de ferro, ouve-se o cântico de Fátima.

Há mais um lanço de escadas que te andou escondido dos olhos durante um tempo; é o último, muito estreito e empinado, vai dar a um terraço onde há um tanque de lavar roupa, um estendal, vasos de plantas e pombos, e a casa acaba aí, finalmente.

É assim que a recordas e queres muito fixar essa memória, porque a tua vida - sabes isso hoje - pode ser contada através das casas que viveste e esta casa grande, sempre a crescer para cima, cheia de escadas e de imagens nas paredes e de madeiras que te rangiam debaixo dos pés, era também uma casa fascinante.

Hoje já lá não está, ou melhor, está mas já não é uma casa, são muitas, repartidas pelos pisos que conheceste e onde morreu a tua bisavó, onde aprendeste a dar os primeiros pontos de costura, onde te ensinaram uma oração infantil, onde te sentaste em família a comer os mais faustosos pequenos-almoços das tua vida, com braseiro aos pés e xailes nas costas, enquanto arrancavas postais antigos a um prato da mesa ao lado e te perdias com aquelas imagens a sépia de casais em poses fabricadas dos anos 20 e linhas de letra floreada que davam notícias de pessoas que não conhecias; onde te contaram as histórias da infância do teu pai, onde a tua avó e a tua tia te deram a conhecer uma vida diferente, vivida num monte ali perto, onde havia cavalariças e capoeiras e uma cozinha com lume de chão e trabalhadores de campo e onde viveu o teu avô, que era tão bonito que parecia um actor de cinema e que tu conheceste em quase tudo, à mesa desta casa que já lá não está.

Era assim...

Sabias que era Natal porque as ruas por onde passavas tinham um brilho festivo e as lojas se mostravam tentadoras. Sabias que era Natal porque desde o dia um que a tua mãe te contava uma história por capítulos que se abriam com os teus dedos num quadro com janelinhas de papel. Sabias que era Natal porque já tinhas feito a árvore - mais ou menos do teu tamanho - na qual penduravas (e voltavas a pendurar) bolinhas coloridas feitas de linha e uns bonecos de pano muito engraçados: havia um boneco de neve barrigudo com um chapéu preto, um pai Natal e uns duendes de veludo avermelhado, tudo mole e inquebrável para poderes mexer e enfeitar várias vezes ao dia. Sabias que era Natal porque havia um presépio que foi crescendo com os anos mas no qual faltava sempre o menino Jesus porque esse só nascia no dia 25, ou melhor, no dia 24, à meia noite em ponto, que era quando podias abrir os presentes e aparecia o menino nas palhinhas - era a noite mais longa do ano e ias dormir muito tarde. Sabias que era Natal porque apareciam uns embrulhos coloridos debaixo da árvore e iam chegando uns postais que enchiam uma prateleira da estante dos livros que virias a ler, de uma ponta à outra, alguns anos mais tarde. Sabias que era Natal porque se combinava um jantar onde viria a família toda e era uma grande festa, cheia de doces e de tios e primos todos a falar muito alto e ao mesmo tempo (há coisas que não mudam), repetida no dia seguinte em casa da tua avó.

Sabias que era Natal porque havia uma expectativa no ar, porque todos os dias pareciam de festa, como se alguém celebrasse o aniversário durante o mês inteiro, era isso mesmo, aliás.

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