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Outro Sentido

Outro Sentido

Como uma canção ou uma criança.

São tantas as manifestações que se seguem a um acontecimento tão monstruoso como um ataque terrorista, são tantas as certezas, as proclamações, as reacções em cadeia, as explicações, as futurologias, as incongruências, as perplexidades e as conclusões que qualquer ser ligado ao mundo se vê puxado em mais direcções do que é capaz ou sequer devia.

A minha bússola interior oscila louca no seu eixo e eu vejo a minha humanidade, a minha fé, a minha razão, a minha compaixão, o meu medo (sim, muito humanamente, o meu medo), a minha força, a minha sobrevivência, a minha civilidade, o meu azimute existencial a serem chocalhados, desorientados e postos à prova.

Desligo.

Paro.

Há um instante que tem de ser apenas para as vitimas e para as suas famílias, há um segundo que tem de ser apenas isso, ausente de todo o ruído exterior. Não me interessa a localização dos que morreram - se em Paris, Beirute, Síria, Iraque, Sudão ou Quénia. São mortos de uma morte violenta que não conhecem as razões cegas de quem puxou o gatilho, e é necessário esse momento cândido de quietude que os invoca em irmandade e respeito, um infantil e essencial voto de paz.

The day after

Algumas das primeiras reacções que ouvi ontem após os ataques de Paris, foi contra a onda de refugiados que entraram na Europa. Hoje, pela manhã, li que um campo em Callais havia sido incendiado.

Para lá das mortes de centenas de inocentes às balas de loucos (e cobardes) que se armam contra contra quem não se pode defender para proclamarem uma desordem de terror, há agora que lhes somar a vitória alcançada de virar a Europa contra os inocentes que deles fugiram. 

Se não formos mais inteligentes do que isto, a insanidade já ganhou.

O desafio que temos pela frente não é só o de não ceder ao medo, é, sobretudo, o de mantermos a civilização que construímos ao longo de gerações, assegurando também a nossa segurança interna. Se a capacidade de sermos irmãos ceder ao medo, se a compaixão ceder à loucura, é porque uma brecha terrível já se abriu debaixo do nosso céu.

Sem prejuízo, este fenómeno terrorista que se autoproclama Estado - e que o mundo ocidental ainda não percebeu que tem que lhe dar outro nome, reduzindo-o à lama que é -, tem de ser encarado e combatido com uma dureza implacável e eficaz.

Para os que crêem é rezar, muito e por todos; para os que não crêem, talvez valha a pena tentar.

 

A trave e o argueiro ou um exercício pessoal.

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Porque vês tu, pois, o argueiro no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu olho? Ou como dizes a teu irmão: Deixa-me tirar-te do teu olho o argueiro, quando tens no teu uma trave? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás como hás de tirar o argueiro do olho de teu irmão. (Mateus, VII: 3-5).

Dá-se pouco valor ao poder da repetição quando esta, na verdade, tem algumas virtudes. Uma das coisas difíceis de acompanhar diariamente o Evangelho, é não cair na leitura horizontal de quem já ouviu a mesma história centenas de vezes e acha que lhe conhece os cantos e os meandros; é como a paisagem diária do percurso que nos leva ao trabalho - já a sabemos de cor, olhamos mas não vemos.

A repetição, porém, é uma ferramenta de enraizamento importante, a palavra repetida é como a palavra cantada, fica no ouvido e fixa-se em nós. Quando se crê que o Evangelho transforma, é disso que se fala, dessa capacidade de aquelas palavras escorrerem dos ouvidos para o sangue, para os ossos, para as articulações, para os ligamentos.

Ninguém é perfeito porque crê (ninguém é perfeito, ponto), mas permitir que a palavra lida produza em nós alguma ressonância, transforma-nos. Quem goste de livros, perceberá o que digo, a literatura tem esse poder de espelho ou de escavadora em nós, e se não o tiver, alguma coisa está mal - o livro ou o leitor.

Ler os Evangelhos a cada dia que passa, é notar a sua repetição, é certo, mas é também sermos, amiúde, surpreendidos por aquela esquina para a qual não tínhamos olhado ainda, porque subitamente  o sol incidiu obliquamente numa vírgula até então ignorada e será essa partícula que, naquele dia especial, nos faz abrir a pestana e corar até à medula, ou sorrir, ou chorar, ou esperar, ou apaziguar. Não me torno, então, um plano liso de imperfeições, mas nasce em mim um desconforto que é bom porque me move, porque me agita; não deixarei de meter a pata na poça, mas estarei mais atenta aos meus charcos interiores (porque são meus, não são dos outros).

Se seria mais fácil passar pelos dias sem isto? Sim, claro, mas não era a mesma coisa, eu não era a mesma pessoa. Prefiro a consciência cristalina do espinho ferrado dos meus erros, do que a veleidade descomprometida da máscara, e se há coisa que a Leitura daquele livro grande me ensinou é que a hipocrisia mais íntima é o pior dos males, uma coisa é dizer e não fazer, outra, pior ainda, é sentir-me confortável nesse carnaval.

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