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Outro Sentido

Outro Sentido

A bruxa sou eu.

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Por vezes, o universo premeia-nos com lógicas irrefutáveis que fecham círculos e dão sentido às pequenas coisas. No dia em que os Estados Unidos festejam o dia das bruxas e o resto do mundo acompanha - não por tradição, mas porque os tempos são tão difíceis que só um carnaval por ano já não chega -, há um mega asteróide que resolve rasar a terra, qualquer coisa como quatro campos de futebol a viajar pelo cosmos e que passam ali ao lado, apenas a quatrocentos e oitenta mil quilómetros de distância - se Deus espirrar é o apocalipse!

Por sua vez, o planeta Terra parece não vergar à provocação celeste  e transfigura o deserto do Atacama num cenário bucólico de flores. Dizem que a culpa é do El Niño, fenómeno cíclico com nome de menino, capaz de pintar a terra com outras cores.

Entre corpos extra-terrestres e desertos cor de rosa, já só faltam mesmo as bruxas empoleiradas nas vassouras a atravessar uma visão de lua cheia. Não sei se me arranjam tanto, mas é uma pena, um universo tão alinhadinho podia ter feito o jeitinho. Em vez disso, há miúdos a bater às portas e a gritar trick or treat. É certo e sabido que amanhã viram o disco e vêm moer-me o juízo com o pão por Deus. Eu que tenho um mau feitio danado e queria mesmo era ser bruxa, abro a porta com maus modos e resmungo umas coisas ou então nem abro, que os chocolates que cá houver são meus, homessa; sei lá se o mundo acaba entretanto numa colisão fatal ou se um qualquer fenómeno resolve trocar o mar com a terra em dia de todos os Santos? Não, só há estes e são para mim (o raio dos pirralhos nem devem saber o que é uma bomboca, caramba!).

Os valentes

 

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E de repente percebo que na vida nem sempre cabe tudo o queremos e que mesmo os projectos que me são mais queridos, podem ficar largados ao abandono sem que eu goste, sequer, da ideia. É assim, não vale a pena remoer a coisa que o caminho é para adiante e está cheio de possibilidades.

Ontem tomava café com um amigo que não via há muito e que me contava ter conseguido alcançar o patamar profissional dos seus sonhos. Falava dos projectos que tinha, das viagens a fazer, do uso dado à formação paga e recebida para fazer profissão naquilo que sempre quis; depois, rematava com um: mas se me perguntares se sou feliz, não, não sou, alcancei isto à custa de um falta tremenda que me custa todos os dias. Não há muito que se possa responder a isto, a vida tem destas coisas e só passam por elas os que não desistem, os que não se acomodam, os que se vêm obrigados a fazer escolhas, mesmo as que doem em cada recanto da consciência e nos arrancam muito para lá dos simples lugares de conforto. Esses são os que se reinventam, os que fazem, os que avançam, os que acreditam, os que juntam gestos e acções às palavras que em outras bocas são ditas à laia de slogan oco, feito de nada e coisa nenhuma. Esses, são. Podia dizer que são poucos, mas a sorte ou a crise ou talvez o cansaço fazem-me perceber que são bem mais do que se pensa, e aparecem, assim, de repente, na surpresa do que não lhes imaginávamos mas que por ali já germinava. Nunca é fácil, muitas vezes implica abdicar de uma parte de si mesmos que os torna mancos, muitas vezes implica ficarem sós, muitas vezes implica recomeçarem a meio a corrida que já estava quase ganha, mas é possível.

Hoje, soube de uma colega que se cansou dos códigos e dos labirintos não mapeados da justiça para se dedicar à agricultura biológica; parece quase anedota, mas não é, trata-se apenas de mais uma reviravolta impressionante num rumo de vida traçado, construído, estudado e vivido para ser uma coisa e que vai desembocar noutra completamente diferente, porque da ideia ao fazer está apenas a decisão tramada de cortar com tudo e o percurso assustadoramente desafiante de começar do zero.

Bem hajam, esses valentes que arregaçam as mangas, que lambem as feridas, que continuam em frente, que se dividem e que se multiplicam, que se redescobrem, que se reconstroem, que se reescrevem.

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