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Outro Sentido

Outro Sentido

Na cauda do cometa

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Ainda ontem quase voava num extremo de terra onde reza a lenda que Nossa Senhora apareceu; nesse lugar, ergueram uma ermida, meia empoleirada no abismo de uma arriba que um sinal a desfear a paisagem avisava ser instável.  Mais atrás, ajoelhei-me numa igreja, baixei os olhos aos frescos gastos do tecto e rezei, porque o mundo está a precisar que rezem por ele, que rezem muito, que rezem de todos os pontos extremos e ventosos do planeta. Li algures que os monges budistas penduram bandeiras coloridas lá do alto das montanhas íngremes que habitam e que sempre que a ventania se levanta, abrem sorrisos enormes, porque o vento leva as preces de cada pano para o céu. Acho que é isto, não sei bem se é isto, mas tenho esta ideia e acho-a linda. Dá vontade de atravessar meia terra e ir lá, às montanhas dos monges budistas pendurar uma bandeira com uma prece de paz, não o fazendo, ajoelho-me numa capela pendurada num penhasco, com um mar sem fim a desmanchar-se lá em baixo.

As paisagens derradeiras provocam em mim esta sensação de casa, creio que há  ainda muito de Açores numa camada escondida da minha meninice, deve ser a única migalha vulcânica da minha natureza.

À saída, entre o convento e o Farol, um homem estendeu uma bancada de recordações ao lado de uma rulote de cachorros. O som dos espanta-espíritos de conchas chamou-me a atenção e o homem que me viu o olhar, gritou: leve menina, que o mundo está a acabar. Eu não trouxe nenhum, não me apeteceu pendurar na janela uma recordação do apocalipse, mas se calhar o homem tinha razão, se calhar vem daí um cometa gigante com rota de colisão apontada à terra e na cauda traz escrito em inglês - que é para todos perceberem - "Dear rulers of the world, this is on you"; ao menos quando tal acontecesse, eu teria o meu espanta-espíritos na varanda, e estaria a sorrir ao homem das conchas, cá do lado do segundo que me evapora.

Da gratidão

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Há uns dias atrás disse ao meu pai que lhe estava grata por algo que ele fez por mim; ele, do seu lado, descartou-me a conversa com piadas, como se a gratidão não tivesse lugar no espaço que nos une, sendo certo que tem e é lugar cativo. Aos meus pais, estou grata pela vida que tenho e tudo o que sou, pelo muito e pelo pouco que ainda vão fazendo, e não é só por mim, mas por todos os que põem debaixo de asas cuja envergadura não é mensurável.

Estou-lhes grata.

A gratidão é um dos tais sentimentos desvalorizados do nosso tempo e é, com certeza, dos menos verbalizados. Convém não confundir a gratidão com o agradecimento, são próximos mas não são iguais. O agradecimento cabe dentro da gratidão mas não a esgota. Na gratidão há o reconhecimento, a lembrança e, finalmente, o agradecimento.

Dizer-se a alguém que se está grato é usar uma daquelas palavras que, de tão antigas, parecem esquecidas num qualquer pergaminho enrolado e amarelecido pelo tempo. É uma pena.

Aquele que dá, pode não esperar gratidão, mas aquele que recebe, deve-a sempre; tão simples quanto isso.

Balzac dizia que a gratidão é uma divida que os filhos nem sempre aceitam no inventário; isto é interessante porque coloca a gratidão no plano da divida, onde, aliás, deve estar. Só não é grato aquele cuja falta de humildade desenha a dádiva num contexto de dever. A isso chama-se soberba, talvez arrogância, ambas, são lugares de desconforto quando chega o momento de se mostrar grato.

A dádiva de um pai não é só obrigação de paternidade, é muitas vezes sacrifício, gesto gratuito de bondade, palavra de abrigo, abnegação por amor, e o filho que a expressa, cumpre tanto a sua obrigação quanto o primeiro.

O mundo feroz em que vivemos e a competição desenfreada da arena a que somos lançados, não são territórios propícios a humildades. Mais depressa se constroem couraças de altiva sobranceria do que corações reconhecedores e, a estes, nunca faltam razões para encontrarem nos outros deveres que justificam a ausência de uma palavra grata. A gratidão devia, porém, ser ensinada, ao invés de ser esquecida, mas a moda é proteger os filhos do (re)conhecimento dos sacrifícios dos pais. Eles, os pais, são de outra geração, de outra safra em que a falta de muita coisa não escolhia idades, isso ensinou-lhes a gratidão que, agora, num outro tempo tem de ser instruida e, se o fosse, talvez os dias não nascessem sempre tão cinzentos, talvez houvesse mais satisfação à nossa volta, talvez encontrássemos um impulso subtil de avanço e perseverança. Talvez.

Pare, escute e olhe, era o sinal que se atravessava à frente dos meus olhos quando a campainha se fazia ouvir na passagem de nível da terra em que cresci. Nós parávamos, escutávamos e olhávamos. Aprendia-se a prudência. Faz falta, isso.

Elogio da insónia

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 (René Magritte)

Já passei pela fase de a minha cabeça ser incapaz de desligar no momento em que os olhos deviam fechar e procurar repouso, acabava, assim, noites seguidas sem dormir ou a dormir mal e parcamente. Uma disciplina mais rígida de horários, algum exercício e cuidados alimentares ajudaram a repor o ciclo normal e regular do meu sono, mas, ainda assim, de vez em quando, lá dou por mim a abrir os olhos de madrugada com a clara noção de que não vou voltar a adormecer. Quando tal acontece, tenho uma de duas soluções: ou me irrito às voltas na cama ou levanto-me e aproveito as horas.

Optando pela segunda alternativa, percebi a tendência dos noctívagos. 

A noite é um tempo de silêncios, é um tempo suspenso, sereno, intimista, propício à introspecção, ao pensar, à procura. De noite, não temos solicitações de ninguém, os telefones não tocam, não há reuniões marcadas, nem horários de expediente. À noite, o tempo e o espaço são nossos e é aí, quando a nossa cabeça está livre de qualquer pressão - saibamos nós aprender a desligar do facto de não estarmos a dormir quando todos os demais o estão e abraçarmos tal facto como benéfico - que grandes coisas podem acontecer na nossa mente, que se encontram soluções, que a criatividade dispara, que a vontade de fazer encontra tela para se expressar, longe de constrangimentos ou julgamentos de qualquer espécie. 

Ontem, dei por mim às cinco da manhã a ler artigos de pesquisa que me interessavam e a escrever meia dúzia de textos que estavam ancorados há alguns meses. Com a janela aberta nas minhas costas e os sons de um dia que acorda devagar a entrarem pela cortina, fiz até as pazes com pequenas irritações, com as impaciências que me assolam, desbravando caminho para compreender contextos e desembocar em alguns perdões. A noite tem isto também, ajuda a reposicionar as coisas e a dar-lhes a devida dimensão, a transformar alguns medos em esperanças, porque à noite sou mais corajosa que um gladiador e mais criativa que o Picasso, dou uma voltinha e sou a wonder woman e, às vezes, até converto aflições em super poderes, numa alquimia cá minha, ultra secreta e poderosa.

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