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Outro Sentido

Outro Sentido

Da espera

A aguardar consulta no Centro de saúde, lembrei-me desta maravilhosa tisana da Ana Hatherly:

Era uma vez uma sala de espera. Havia várias pessoas que esperavam, mas calmamente. Porém, a certa altura começou a nascer a impaciência, A sala diminuiu imediatamente de tamanho.

Ana Hatherly, in 463 tisanas.

 

Gargalhadas de fazer rir

É uma mulher baixinha e de pele bastante escura, a contrastar com o branco da farda da Empresa de limpezas que a recrutou. Trabalha num ginásio que limpa e relimpa de alto a baixo, arrastando consigo uma enorme esfregona, uma vassoura e muitos panos. Puxa lustro ao chão, às bancadas, às sanitas, ao espelhos, aos cacifos, às paredes, às portas e a tudo o mais que o trabalho impõe, sempre com um sorriso luminoso e cheio de dentes, que dispara um bom dia a cada alma com que se cruza.

Hoje, andava cabisbaixa e, a meio da lide do chão, alguém lhe perguntou o que se passava, afinal. Lá explicou que o filho tinha voltado para Moçambique e tinha levado com ele os netos que havia acabado de conhecer. Teve a sorte de os ter lá por casa durante duas semanas que lhe iluminaram a existência com mãos pequeninas e gargalhadas de fazer rir. Tinha sido um consolo, uma coisa boa, mais boa que manga madura, que enche a casa e o coração.

Ontem à noite tinha voltado a falar com as crianças, já instaladas na terra natal e, do lado de lá do telefone, disseram-lhe: oh avó, temos muita saudade, vó, e agora, numa manhã de trabalho, a avó conta a saudade dos netos a uma plateia de mulheres de calções preocupadas em enfiar uma hora de exercício na rotina matinal; mistura duas lágrimas com a água do balde e abre novamente aquele sorriso grande para dizer que daqui até ao Natal é um suspiro e não tarda está com todos outra vez, mas lá, no Moçambique, que no Natal é mais quentinho.

 

Dos bravos reza a história

"Life after 7 July attacks" podia ser só mais um artigo de jornal a lembrar uma data terrível, neste caso, o dia em que o metro de Londres explodiu com um ataque terrorista; mas, como às vezes acontece com as histórias contadas na primeira pessoa, é-nos impossível afastar os olhos dos relatos destes homens e mulheres que viveram para contar.

Ao lembrarem aquele dia, muitos deles começam num ponto comum: entraram na metropolitano a correr, estavam atrasados, estavam com pressa, iam a galgar escadas e tempo e stress ("it was such a busy day"), como andamos todos, afinal, em cada manhã, em piloto automático e à velocidade de rotação própria do começar de cada dia. Para alguns, aquela, foi a última vez que correram na vida. 

Entraram na sua carruagem, sentaram-se a ler o jornal ou um livro de ficção cientifica, apertaram-se contra os restantes que já enchiam o espaço e suspiraram de alívio quando as portas se fecharam com eles lá dentro. Alguns, folgaram o lugar encontrado para saberem mais tarde que o vizinho do lado levava uma bomba numa mochila.

Todos se lembram de um estrondo metálico, de uma luz intensa e de serem elevados no ar. Depois, há o silêncio e, espantosamente, para os que foram gravemente feridos, a ausência de dor. É surpreendente, porém, como em cada caso relatado, o instinto de sobrevivência se sobrepõe ao pânico, estropiados, amputados de membros, pensam apenas no que é preciso fazer para viverem. 

Dez anos depois, é visível o trauma, mas também a superação, a força tremenda de ultrapassar o medo e reconquistar a vida. É importante ver o que estes homens e mulheres fizeram com a experiencia pela qual passaram, aquilo a que se dedicaram e, inevitavelmente, o que aprenderam a priorizar. Depois daquele dia, apressaram-se (correram) para outras vidas - para casamentos, para filhos, para campeonatos desportivos paralímpicos, para livros que se impunha escrever, para associações de ajuda, para uma consciência cristalina da bênção de estar vivo. Creio que era Platão que dizia que a coragem é uma espécie de salvação e o simples viver é, muitas vezes e em si, um acto de coragem; estas são, pois, histórias de salvação.

A proximidade de duas cadeiras

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Um gabinete de um Juiz é apenas isso, um espaço construído e organizado para o trabalho, onde se encontra sempre uma cadeira giratória atrás de uma secretária enorme e um candeeiro de mesa, a lembrar que por ali também se trabalha até horas em que a luz escasseia. Há, quase sempre, um armário com portas de vidro que protegem lombadas cosidas a cordel e códigos. Pode haver - ou não - mais uma mesa. Há uma janela e, às vezes, uma planta. Para além disto, há duas a quatro cadeiras, normalmente desirmanadas e entrincheiradas na parede em frente à secretária grande, muito juntinhas e seguidas. 

É isto, quase banal, espartano e monótono. É aí que, normalmente, no início de um processo, as partes são convidadas a entrar para uma tentativa de conciliação e, nesses instantes dou por mim, muitas vezes, a pensar que aquele espaço tem, em si mesmo, um papel a desempenhar, para além das personagens que o ocupam.

Entram ali as partes desavindas com as suas razões; entram os ódios, os desprezos, as impaciências, as irritações, as vinganças, as incoerências, os extremismos, as cegueiras, as mentiras, as manipulações, as fraquezas, as avarezas. Entra ali toda a artilharia e toda a emoção. Entram, e são convidados a sentar-se, nas cadeiras juntinhas e desiguais, coladas à parede em frente à secretária; todos seguidos, todos juntos e meticulosamente encaixados num espaço exíguo. No simples acto de se sentarem, vêem-se as partes obrigadas a organizar-se, há andanças entre a parede e a secretária, há pastas que chocam umas com as outras, há braços que se tocam e movimentos inadvertidos de pernas que obrigam a um pedido de desculpa. Quando, finalmente, se instalam, barricados em frente à autoridade, há uma fracção da atitude bélica que já se esvaiu e uma leve percepção de que não há espaço para o ego. 

Não creio que, no momento em que foram desenhados, tenha havido um génio arquitectural capaz de alcançar o efeito que um gabinete pequeno e austero teria no desenlace possível de um litígio, mas quem ande nestas lides, já sentiu certamente que este cenário pequeno, intimista e próximo de um juiz que se saiba impor com mestria, pode influenciar o modo como as partes se aproximam.

Há casos, como aquele que me aconteceu hoje, em que isto é de tal modo ostensivo que não só o acordo se alcança, como a comunicação cortada há meses se reacta, tão próxima como duas cadeiras.

 

Snu

Snu Abecassis1.jpg

Li a biografia de Snu Abecassis escrita pela própria mãe - Jytte Bonnier -, apenas seis anos após a morte da filha. É um pequeníssimo livro que justifica a mulher que mais tarde conhecemos, tocando aqui e acolá episódios da sua infância e juventude, mas que nos dá, também, o olhar nórdico da sociedade portuguesa entre os anos 60 e 80.

Snu, na verdade, não se chamava Snu, mas sim Ebba, nome do qual não gostava e que, por isso, mudou para aquilo que já lhe chamavam em casa - Snu, ou seja, a espertalhona. Isto já diria muito sobre a mulher que nasceu dinamarquesa, viveu na Suécia, estudou em Londres, conheceu um ano de vida nos Estados Unidos e, finalmente, ancorou em Portugal, trazendo com ela um mundo que não cabia no País pequenino que a recebeu. Mas porque, às vezes, o Rossio cabe na rua da betesga, fundou a Editora D. Quixote em plena ditadura, publicando livros e autores avessos ao regime e lutando sempre contra a dislexia que, desde jovem, a obrigou ao dobro do esforço para impor uma voz e uma presença.

A imagem que nos deixou - a de uma aura de serenidade altiva e mundana - é também reflexo de uma dicotomia fracturante: a da mulher controlada e racional, que é também sonhadora e idealista; a alquimia própria daqueles que fazem a roda do mundo girar. Creio que uma existência plena pode ser coerente, suave e redonda, mas dificilmente acrescenta algo mais ao acervo próprio ou irradia impulso exterior; já aquela que persiste na divisão, vive da colisão constante de si, da luta ininterrupta de duas faces da mesma alma, uma a questionar a outra, num duelo íntimo que obriga à definição pessoal pelo lado vencedor, e porque o desafio é constante, a descoberta, o estímulo, a curiosidade e a busca não cessam, assim como o sonho para o qual a razão procura caminho.

Neste olhar de mãe, há muita coisa que se explica ou que se cria, mas é um história que merece ser contada para lá do homem que Snu escolheu.

Lá vai Lisboa...

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Lá vai Lisboa, ou, neste caso, lá foi, em cada canto da cidade apinhado de gente e sardinhas que constam que estavam pequenas e nada famosas.

Eu não fui (vou arranjar um crachá a dizer isto ...), mas caí na asneira de parar dez minutos no canal 1 da RTP; dez minutos de incredulidade pura e nem mais um minuto, que a paciência tem limites. Mudei de programa, pareceu-me que meio filme no canal Hollywood era menos doloroso.

Do pouco que consegui ver, em mais um directo televisivo ao melhor estilo do que hoje se faz, as marchas populares de Santo António, simplesmente, já não são as marchas populares de Santo António, mas sim um desfile carnavalesco onde vale tudo, incluindo, marchas da ilha da Madeira e de Macau - esses típicos bairros lisboetas - ou do Agrupamento CPLP, com direito a temas de consciência tão socialmente correctos como o trabalho infantil (que ideia brilhante: vamos descer a avenida a cantar e a dançar, todos de trajes coloridos e em ambiente de festa e um grande cartaz a dizer não ao trabalho infantil!). 

Como diz o meu pai no seu jeito muito alentejano, tudo tem o seu preceito, e quem quer que seja que organiza as marchas de Lisboa, esqueceu-se do preceito das mesmas. Qual é a alma lisboeta que considera boa ideia ver batuques africanos e demonstrações de capoeira a descer a avenida em noite de Santo António? Really? Não que eu não goste de uns e outros e note-se que já dei dinheiro para ver demonstrações de ambos, mas convenhamos, nas marchas populares?

Todo o espectáculo é de tal modo vendido e culturalmente abrangente que mete dó. Creio que o pior que podia acontecer às festas de Lisboa era descaracteriza-las ao ponto do comercialmente desconhecido; pois bem, o pior aconteceu.

Perante isto, ergui os olhos ao céu (para não os revirar à impaciência) e lancei uma prece ao Santo Padroeiro, pedi-lhe que, ao menos, nos Bairros que viram nascer a festa lá no início do século passado, ainda houvesse bailarico e arraial, manjericos engalanados de flores de papel colorido e quadras pirosas, ruelas estreitas com varandas que quase se tocam, enfeitadas com balões e bandeirinhas de cores, bancadas de sardinhas e febras, colunas que disputam cantares entre si num espaço de meia dúzia de metros e gente que, neste dia, dança aos pares e rodopia e tropeça no pé alheio e bebe mais do que devia. Ámen.

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