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Outro Sentido

Outro Sentido

Companhia de pequeno almoço

Montserrat Gudiol.jpg

 

[Montserrat Gudiol]

Porque é que escolhemos certas imagens em vez de outras? Porque é que, numa galeria de arte, torcemos o nariz a um quadro e ficamos deslumbrados com outro? 

Cada obra transmite algo com que nos identificamos ou não. Podemos admirar a técnica artística, mas a estética, essa, é pessoal, e a mensagem que um lê, pode ser diferente daquela que o olhar vizinho interpreta e ambos podem nada ter a ver com aquilo que o pintor quis dar.
Ao olharmos, por exemplo, para um quadro de Vermeer, podemos ver apenas a representação, a magia dos jogos de luz, a mestria das sombras, dos detalhes, das cores. Mas se lermos um pouco sobre a pintura da época, percebemos que aquelas personagens nunca são apenas gente captada num instante; há, quase sempre, uma mensagem que os olhos daquele tempo sabiam ler, mas que os nossos, habituados que estão a legendas, têm de procurar, aprender e interpretar.
Esse, é um trabalho que gosto de fazer, buscar o sentido de um quadro; a leitura íntima que é minha, a mensagem pessoal do artista e aquilo que outros olhos vêem.
Hoje, logo de manhã, entre o galão e duas fatias de pão de mistura com queijo flamengo, tropecei nesta obra de Montserrat Gudiol. É um daqueles quadros em que me fixo imediatamente à procura de sentido, porque a estética e o ambiente em que se desenvolve, têm já tudo a ver comigo. Começo a pensar se o silêncio que lá está tão bem pintado, existe dentro da mulher de joelhos, quase caída, uma mão à frente e outra a amparar as costas. O conjunto parece transmitir serenidade, até o rosto dela  se mostra tranquilo, mas é a postura do corpo que me coloca a pergunta. Uma mulher calma que se prostra caída de joelhos ao chão, terá uma qualquer tempestade interior que a lança nessa atitude, num local isolado, cheio de quietude. Quantas vezes procuramos lugares assim, para estarmos, simplesmente, virados para dentro, sozinhos, desprendidos, em sigilo.

A propósito das Estrelas

2014-10-22 13.17.53[1].jpg

Adília Lopes, in Dobra, poesia reunida.

A lembrar que, às vezes, no Verão, parece que as estrelas se exibem em várias profundidades de noite, vaidosas e frequentemente cadentes, e que nós, podemos sentar-nos debaixo delas, em duas espreguiçadeiras próximas, a contar os traços que caêm do céu e a formular desejos infantis, enquanto os grilos se fazem ouvir e os mosquitos procuram alimento. Noites dessas ficam guardadas na memória, para que as busquemos quando é preciso, só para esboçar um sorriso, algures, no meio de um dia insignificante.

Já estás a sorrir?

 

Tatuagem

Tatoo & books.jpg

E depois de jantarada de amigas em que as tatuagens foram, entre outros, tema de conversa, não resisto à provocação.

It runs in the family

2014-10-18 11.14.48.jpg

Esta rapariga bem apessoada faz música e parece que tem CD novo a caminho. Fui ouvi-la ao YouTube e reconheço que tem voz bonita e forte, falta saber o que aí vem. Em entrevista recente à sua própria mãe, explicou o seu processo criativo de fazer letra e musica-la, contrapondo a diferença entre escrever um poema e escrever com intenção musical, pois nem todo o poema é "musicável" e alguns poemas já têm a sua própria musicalidade e ritmo, não se lhes pode dar outros. Um texto pode ser lindo no papel e, no entanto, as palavras que o compõem podem não ser cantáveis; quando se escreve para música, tem de se considerar a musicalidade de cada palavra, a presença e ausência de vogais e consoantes.

No que respeita aos temas das suas canções, o céu é o limite e dá, literalmente, o exemplo do famoso (maravilhoso, inesquecível, intemporal) Space Oddity, de David Bowie, que fala de um astronauta, de seu nome Major Tom, e que foi inspirada no filme "2001, Odisseia no Espaço". É certo, diz ela, que talvez não se lembrasse, logo de manhã, de escrever uma música sobre um astronauta a pairar no espaço, mas, na verdade, e porque não? O importante é contar uma história, os melhores letristas arrastam-nos para uma história.

A moça em questão chama-se Sophie Auster, foi entrevistada pela mãe, Suri Hustvedt e é filha de Paul Auster... e esta, hein?

A Regra nº 10

IMG_20141019_012126[1].jpg

Fim de semana a encontrar coisas fabulosas nas revistas e jornais que me rodeiam. Para já, fica este recorte da Porter, e a décima "golden life rule" de Melinda Gates.

Tenho a sorte de saber, por experiência, que isto é um bom princípio de vida, e sei porque cresci a discutir livros em casa; fui, desde cedo, desafiada a ler livros e autores que nunca teria conhecido, em tão tenra idade, se não tivesse uma mãe com raízes culturais bem assentes na literatura e na cultura francesas e um pai curioso com uma visão mais alargada da história e da ciência. Com ela, travei conhecimento com Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Sartre, Zola e tantos outros, mas li também Jorge Amado, Kundera, Stendhal, Durrel, Eça; com ele, interessei-me pelo Cosmos e Carl Sagan, e assuntos sobre Ovnis e a possibilidade de vida para além da terra, e história de Portugal e o National Geographic. Estes, sempre foram - e são - assuntos de conversa à mesa.

Hoje, tenho ainda a benção - porque o é, uma benção - de dar continuidade a este exercício com um grupo de mulheres tão incrível, quanto diversificado; mulheres leitoras, à séria, cada uma dentro dos seus estilos e dos seus gostos pessoais; umas a puxar aos clássicos, outras aos contemporâneos, umas ao romances, outras aos contos, umas à poesia, outras à prosa, mas todas a puxar umas pelas outras. Falar sobre livros neste contexto é uma aprendizagem colectiva em modo continuo, é um crescimento inestimável, porque o olhar de cada uma é diferente e, com isso, acrescentamos algo àquilo que já era nosso. Cresce a lista de leituras em direcções que nunca teríamos imaginado e amadurece o nosso olhar sobre os livros, aguça-se a exigência.

Por isso, sim, concordo com Melinda Gates, ler colectivamente é uma regra de ouro para a vida, profunda e subtilmente enriquecedora.

As outras nove?

Aqui ficam:

  1. Confie em si próprio, cada um tem uma verdade interior e é preciso saber ouvi-la.
  2. Arranje tempo para reflectir em silêncio.
  3. Cultive grandes amigos e mantenha-os por perto, partilhe com eles experiências e lições.
  4. Seja um eterno aprendiz, arranje novos interesses, volte às matérias da escola, ficará surpreendido com aquilo que não sabe e com o que o mundo tem para dar.
  5. Alargue os seus horizontes em relação ao que se passa à sua volta.
  6. Procure uma ligação profunda com o outro, a nossa humanidade é aquilo que temos em comum.
  7. Durma bem e, já agora, faça exercício.
  8. Ria bem alto, tantas vezes quanto possível, ria com outros e ria de si mesmo.
  9. Ensine os seus valores aos seus filhos, ensine-os a pensar sobre as coisas realmente importantes da vida...

e a 10ª: Leia livros com os seus amigos e com a sua família e fale sobre eles. Aprenderá e crescerá mais quando o fizer colectivamente.

...

Into the Dark by Leah Gunn.jpg

 

[Into the dark, Leah Gun] 

O desentendimento é uma muralha entre duas pessoas, às vezes, mais densa do que se fosse feita de betão, e a incapacidade de calçar os sapatos do outro e ver a vida do lado de lá, é o arame farpado que a alteia.

Neste contexto, só há silêncios frios e torres de vigia, olhos atentos aos passos em falta que imediatamente se apontam com um foco luminoso, todo ele denunciador, lá do alto dos telhados de vidro.

Para derrubar este muro, é necessária uma revolução de cedências, de aceitações, de respeitos, de perspectivas, que permitam, finalmente, ver o outro do lado de lá, vê-lo mesmo, como um espelho, talvez, vê-lo nos seus contornos e não querer derruba-lo, não querer expropria-lo; chegar-lhe apenas, uma ponte e uma bandeira branca, aberta a conversações.

The New Yorker

CoverStory-Fall-Library-Tom-Gauld-690-938.jpg

 

Em comentário à deliciosa capa que a revista The New Yorker escolheu para a edição desta semana, pode ler-se: When Tom Gauld sent the first sketch for this week’s cover, “Fall Library,” we discussed a variant where the woman was holding an electronic-book reader. “But I decided against the e-reader,” Gauld says. The image “ended up having too much going on, which made it less interesting. I think the fact that she’s holding one of her millions of books is what’s nice.” 

Concordo.

 

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