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Outro Sentido

Outro Sentido

leite e legumes para a sopa

[Manhã de setembro na Marina de Cascais - instagram]

 

É certo e sabido que os dias estão mais curtos e que, de manhã, há um fresco inesperado que obriga a uma echarpe no pescoço e uma malha de agasalho. Mas, depois, o céu compõe-se, vem de lá um sol morninho que arrasta um verão hesitante para dias de Outono já assinalados no calendário. Baralham-se as sandálias com as botas, as mangas curtas com as compridas e parece que só as alças foram, irremediavelmente, lançadas para o fundo da gaveta. De resto, vive-se. Às vezes, madruga-se, para um footing matinal que dias chuvosos poderão não permitir em breve, e arranca-se para o trabalho, de seguida, ali ao lado, dois minutos de carro, dez, se for a pé.

Sinto a falta dos transportes públicos dos meus tempos de faculdade, das histórias que se desenhavam diariamente à minha volta, da viagem bem aproveitada com um livro ao colo, da paisagem que se desenrolava do lado de fora da janela - encostar a cabeça ao vidro e deixar o filme rodar, quer a cabeça o acompanhasse, quer estivesse a anos luz.

Agora a vida existe encaixotada em horários cirurgicamente calculados, com início às 07:30 e sempre em fast forward, mas a teimosa que em mim persiste, arranja projectos, objectivos, iniciativas, colaborações e metas; rebenta o horário, espatifa o espartilho, desarranja as horas de sono e grita por uma sesta nas horas de trabalho.

Hei-de chegar a velha e, como todos, conseguirei, finalmente, dormir apenas quatro ou cinco horas, mas, até lá, na ternura do quarenta, durmo mal e porcamente e esforço-me por espevitar o sono durante o dia que nunca chega para tudo, sobrando, pois a noite, onde as gatas são pardas, as palavras mais soltas e o escurinho (que não é do cinema) embala histórias, afazeres, projectos adiados e listas de compras; a propósito, falta-me o leite e legumes para sopa.

Americanah

"Porque é que as pessoas perguntavam «sobre o que é?» como se um romance tivesse de ser só sobre uma coisa?"*

É verdade - é tão verdade - e convenhamos, quão fraquinho e pobre, é o romance que o seja só sobre uma coisa.

Americanah não é só um romance sobre a raça, ainda que seja bastante um romance sobre a raça, mas, ao atravessar esse campo, Chimamanda Ngozi Adichie, semeia outros temas, como o sonho, a ambição, o amor, o desejo de se ser mais, a estranheza de se ser estrangeiro, o crescimento, a subtileza frágil e espinhosa dos sentimentos, as culturas, a identidade. 

Será que sorrimos ao olhar para o nome da autora inscrito na capa do livro? Tivemos de o ler duas vezes e pensamos com os nossos botões, «que nome tão africano?» Surpreendemo-nos com a beleza da fotografia da contracapa e exclamamos «que preta bonita?». E nós, portugueses do século XXI, que agora conhecemos a necessidade de deixar para trás um país que afoga os nossos sonhos em desesperança, será que sabemos realmente o que é sentirmo-nos estrangeiros?

Este, é um livro que nos arranca à forma confortável como olhamos e sentimos a humanidade e a identidade. Que lugar tão liberalmente comum, esse, de responder que «não há raças e que a única raça é a raça humana»; tão politica, social e intelectualmente correcto. Mas será verdade? A autora relata com uma lucidez implacável o facto de nunca ter sentido a questão da raça, até ter saído da sua terra natal, do mesmo modo que nunca mais a voltou a sentir a partir do momento em que regressou. Que estranha universalização é esta afinal? Será que o contrário é também verdade? Pergunto-o honestamente - porque é impossível não o fazer depois de ter lido este livro - será que nós, brancos, carregamos em nós, nos confins do nosso código genético, algo que nos faz sentir superiores ao ponto de não descobrirmos a raça branca no momento em que temos de viver num país de negros? Não sei, não tenho resposta para isto e confesso, jamais, em momento algum, considerei existir em mim um grão sequer de racismo.

É atordoante pensar estas questões, sentir os alicerces daquilo que nos define a tremer um pouco.

Lembro-me de, há uns anos, me ter cruzado num casamento com um preto especialmente bonito. Achei-o deslocado e, com toda a ligeireza da boa vontade, fui meter conversa para o integrar numa mesa. Foi ele que me mostrou, com elegante condescendência, que não precisava de mim para nada, que estava ali, tal e qual como eu, e, com uma presença serena e uma nada subtil cabeça de rastas, arrasou o mulherio da festa. Lembrei-me, várias vezes, desta situação ao ler este livro. 

Vivemos tempos de globalização e, no entanto, estas questões estão pouco resolvidas nesse cenário. Quem sai do seu País Natal, começa por sentir a solidão da deslocação, depois, há o desejo de integração e, finalmente, no fim da linha, há, quase sempre, a estranheza do regresso, quando a experiência estrangeira já modificou a identidade que era.

Este é um livro enorme que fala ainda de amor, que se assemelha um pouco a essa sensação de se estar em casa, na pele certa, no dialecto correcto, no País de origem que nos enlaça no silêncio de um reconhecimento íntimo, que se coloca na vida daquele modo que reconhecemos como nosso, que nos conhece as ruas, as esquinas, o tempo e que nos diz "entra" e nós entramos, porque ali não há fronteiras.

 

(*Americanah)

Setembro

 

[Imagem, ontem, em Lisboa, via Instagram]

Eu gosto do mês de Setembro; é o mês que marca o final das férias e, quase sempre -dizem que este ano não será assim - a época em que, aos poucos, os dias vão refrescando. É também o mês em que regresso ao trabalho, alegadamente, mais descansada e com a cabeça arejada. Este ano, o mês de Setembro começou com a minha única e fundamental plataforma de trabalho, o Citius - que, para quem não sabe, é site que nos permite entregar e receber notificações judiciais - sem funcionar durante uns dias e a funcionar mal nos restantes. Não me queixei.

Setembro é também o mês em que me dão ataques de renovação generalizada: da casa, da secretária, do guarda roupa, do corte de cabelo, das rotinas anuais, dos horários de trabalho. Ando a "iogar" como se a minha vida dependesse disso (depende?), ando a controlar o meu horário diário de forma espartana - de ora em diante, acabaram-se dias desorganizados que me obrigam a sair do escritório depois - ou a caminho - da hora do jantar (eu sei que o inferno está cheio de boas intenções, mas não me estraguem o balanço, sim?).

Setembro é ainda o mês em que decido que vou dar asas à criatividade em alguma coisa, mesmo que ainda não saiba qual ela seja; é uma forma de não enlouquecer com o cinzentismo dos meses que se seguem e a rotina dos dias. Ando a pensar em tudo, desde colagens, a temas de escrita e até o tricot - para as meninas que ainda não agarraram nas revistas com as tendências de Outono/Inverno, aqui fica o alerta: as malhas estão em grande, e as sobreposições, e um revival dos anos 60/70, e os veludos, e o verde tropa, e o vermelho (no tom maroon), e as botas altas, e o pêlo, e os sapatinhos ao estilo Mary Jane e, the last, but not the least, os chapéus largos (uma vez mais, à maneira dos anos 60). Pronto está tudo, escusam de comprar a revistinha da moda.

O Instagram é o meu novo vício e não há desafio fotográfico em que não participe. Decidi também fazer um mood board, tenho saudades desse placard de cortiça sempre pendurado ao lado da minha secretária em casa e cheio de imagens que me agradam. Acho que tive um quadro desses durante todos os anos em que vivi em casa dos meus pais e decidi voltar, em suma, está-me a dar um ataque teenager, mas que se dane, deve ser uma daquelas cenas dos quarentas.

Eu e a minha sobrinha começamos a escrever postais uma à outra de cada vez que saímos da nossa Vila; acho que vou alargar a ideia a umas quantas amigas e surpreendê-las com um postaleco de vez em quando, daqueles com imagens turísticas e selo carimbado no canto superior direito.

E é isto, ou talvez não, e ainda haja mais qualquer coisa, mas para iniciar este mês marcante, não está mal.

Escusado será dizer que marimbo completamente nas resoluções de ano novo; Setembro é que é.

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