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Outro Sentido

Outro Sentido

Jews and arabs refuse to be enemies

É a página de Facebook do momento e dá voz a uma campanha criada por Abraham Gutman, estudante israelita a viver em Nova Iorque, e por uma amiga síria, Dania Darwish.A página já tem mais de dezasseis mil seguidores e partilha fotografias de árabes e judeus que destacam o carácter humanitário do conflito, usando a “hashtag” #jewsandarabsrefusetobeenemies.

 

Filomena

Só hoje vi este monumental "Philomena" e, sabendo embora que já meio mundo falou dele – sendo certo e sabido que só esse  meio mundo o viu - é-me impossível ficar calada e nada dizer. É isto que acontece aos que escrevinham: aquilo que nos impacta, sai-nos pelos dedos.

Este, podia ser um filme sobre a revolta, a mágoa, a vingança, o rancor, a tristeza ou a vergonha. Podia ser um filme destinado a atear a controvérsia ou  a provocação religiosa. Podia ser ainda um filme piegas e melodramático, daqueles que arrastam a dor pela lama e que exploram a veracidade da história até ao tutano dilacerante das nossas emoções.

Mas este filme não é desses, sendo certo e sabido que a interpretação estrondosa de Judi Dench contribui bastante para o contraste temático e vivencial da história.

É sabido que a maldade vive neste mundinho e habita em nós - em todos nós - e pode, sob o estandarte do rigoroso princípio moral, devassar vidas e trucidar rumos. É sabido que o extremismo religioso - seja ele qual for - se alimenta dessa escuridão e procura, não raro, a desforra pessoal em vida alheia. É sabido que a rectidão ética é um caminho trabalhoso, muitas vezes íntimo e cheio de solavancos, é uma renda de bilros, linda de morrer mas difícil e facilmente substituível por máquinas modernas que tentam imitar o labor das mãos. A perseverança na construção do nosso eu pessoal é um tremendo desafio diário e requer toda a nossa dedicação. Em suma, este é um filme sobre esse dom monumental que é o perdão - o perdão mesmo, aquele que se dá de coração porque nasce cá dentro, porque foi semeado no sangue e esculpido em cada osso até à alma. Ora aí está um trabalho genuíno de fé - leia-se de esperança - e porque essa fé está escolhida na história que se conta, este é, também e ainda, um relato de construção cristã.

Nocturno

No dia 13 de Abril de 1948, Susan Sontag escrevia no seu diário que "as ideias perturbam o equilíbrio da vida". Eu, tenho para mim, que as ideias perturbam o equilíbrio do sono, pois é à noite que me apodero da totalidade egoísta do silêncio, do espaço que não me me limita os gestos, do campo livre de onde saltam lembranças como pipocas. À noite teço conversas imaginárias que nunca terei, construo lógicas que vou rebater na lua seguinte e desconstruo as minhas próprias razões. À noite sou parda, invisível e muda e nessa coisa nenhuma, há uma luz que se acende e que coloca estradas de possibilidades no meu horizonte. À noite, tenho um cansaço imenso no corpo, um peso terrível nos olhos, uma lentidão de câmara lenta nas mãos e, no entanto, a minha cabeça gira a 75 rotações, a plantar coisas na retina, a semear representações nos imaginários que crio, a responder às perguntas que me coloco, a lembrar tudo - mas mesmo tudo -, nos detalhes insignificantes que o tempo se encarregou de fossilizar sem que eu perceba sequer porquê. A noite é má conselheira, dizem, mas faz óptima companhia.

Sou toda tua, coração.

[Travis Bedel ]

 

Sabes que o coração é só um músculo, não sabes? Às vezes arrancam-no do corpo, enfiam-no em caixas geladas e ele sobrevive, fora de nós, dentro de uma coisa plástica, cheia de gelo. É bom lembrar estas minudências da ciência, lembrar que, por exemplo, nos podem extirpar o coração, congela-lo e enxerta-lo noutro corpo, que não é o nosso, e ele continua a bater; um músculo, apenas, sem apego ao dono do qual foi desenraizado.

Reconheço que há corações gelados dentro da quentura de um corpo, imagino que ali só sobrevivam microrganismos e algumas ervas daninhas, talvez. São corações tristes, cheios de agruras e secretas aversões. Acho que esses corações são diferentes dos outros, acho que bombeiam lama em vez de sangue - sim, lama -, que quando é canalizada para as veias, transforma-as em troncos de esforço - retorcidas e disformes - e que depois alastram o lodo aos órgãos vizinhos - ao estômago, aos pulmões, à pele, aos mistérios labirínticos do cérebro. Imagina, um cérebro de lama, uma pele de lama, uma voz de lama.

Mas também acredito na força imprevisível da natureza que faz rebentar plantas nas arestas mais cortantes da junção de duas pedras, acredito nas flores do deserto (porque já as vi), acredito nos pedaços de relva que surgem no meio da neve a anunciar a primavera e acredito na beleza silenciosa das paisagens vazias, varridas por ventos glaciares.

Sim, também acredito nisso, acredito com todas as forças do meu coração (se calhar, acredito para lá delas), e eu sei que o meu coração também tem esquinas sombrias, não está imune à penumbra e, de vez em quando, lá sinto a lama a encaracolar-se pela aorta acima, a querer entupir veias, artérias, ventrículos e aurículas. É uma sensação terrível, essa, a de sentir essa coisa escura a subir por nós adentro, eu sei. Foi por isso que instalei um alarme - sabes o que dizem, casa arrombada, trancas à porta, e esse fel não o quero mais dentro de mim - quando ele me grita ao ouvido, eu faço marcha atrás, e toda a lama se dissolve no nada que é.

Às vezes, ainda me batem à porta, a quererem doutrinar-me o rancor, mas eu mando-os pastar para o vizinho de cima que faz uma barulheira danada a gritar com os filhos e com a mulher, pelo que cheira-me que deve comprar daquilo às paletes para sair mais barato.

Em bom rigor, é isto, o nosso coração é o que nós fazemos dele, é o uso que lhe damos e tu é que escolhes, se queres uma varanda castanha a escorrer humidade e porcaria ou uma cadeira ao sol rodeada de cor e luz. É claro que isto dá uma trabalheira danada e é um gasto de cif e esfregão que não tem fim, uma canseira, mas que hei-de eu fazer? Gosto de flores, pá!

Vendaval de madrugada.

(Para a Fernanda)

 

O relógio bateu o minuto vinte e oito das três da manhã e eu continuo a arrancar linhas ao sono para tentar chegar lá. Levanto-me, saco mais um livro da estante e continuo à procura de um sentido em páginas verticais. Não estou habituada a páginas verticais. A prosa é horizontal, escorrida, derramada, deitada. A prosa embala-nos e leva-nos com ela, é como um passeio, uma paisagem. Mas hoje, é o poema que me mantém acordada, ou pelo menos o poema em verso, pois ao que parece também o existe em prosa e, uma vez mais, não percebo porquê. O poema não é um passeio, é uma esquina inclinada, é uma montanha escarpada, uma gruta escura que me obriga a usar martelo, lanterna e cordas. Tenho um tio que se vai zangar comigo, eu sei, ele que anda a convidar-me à poesia - própria e alheia - desde que comecei a ler duas palavras seguidas. Mas perdoem-me os entendidos - não compreendo a verticalidade do poema, o corte da frase, a lógica da grafia inacabada que recomeça na linha seguinte, o ritmo. Se tal não bastasse, raramente assimilo um poema inteiro, parece que o poeta escreve para ele e só para ele e, nós, leitores mortais, temos de decifrar os mistérios insondáveis do que lhe vai na alma. Apetece-me extirpar partes soltas a poemas, bocados que se me colaram aos olhos porque, soltos, são únicos, mas inseridos no poema, perdem-se. Pudesse eu dissecar poemas e dizia-me já leitora de poesia. Ah, aquele fim do O'Neill, aquelas quatro linhas da Matilde, aquele primeiro verso de Tolentino, aquela ideia de Rilke, aquelas duas palavras de Hamilton, aquela pergunta de Sophia, aquele passo dançante de Vinicius. Mas não se pode gostar de poesia às fatias, pois não? Ou pode? O relógio aproxima-se perigosamente das seis da manhã e eu nisto. Lá fora um bêbado canta sozinho na noite e antes dele passaram os camiões do lixo a bombardear o silêncio. Assim de repente, talvez isto desse um poema, sei lá eu. Leio, algures, a palavra "overwhelming". Por mais que se tente, há palavras que não encontram tradução aproximadamente capaz, "overwhelming" é uma delas; gosto desta palavra e da forma como ela se enrola na boca, gosto mais da palavra do que do poema onde a encontrei. Sim, também há palavras únicas no português, a saudade e tal, e, sim, eu sei que não é a única, e sei porque tenho uma lista delas. Eu gosto de listas, faço listas de tudo e faço listas das palavras de que gosto. Gosto de listas, deve ser a única escrita vertical que compreendo.

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