Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Outro Sentido

Outro Sentido

A velha infância

 

Num dos seus muitos aforismos, Kafka diz que "quem possui a faculdade de ver a beleza não envelhece". Leio a frase e pergunto-me, afinal, que velha serei eu, se lá chegar, se a meia idade não der cabo de mim entretanto; se é que estou na meia idade, não sei já se ela acontece aos 30 ou aos 40, se é real, se é um tempo de dores nas costas, pequenos-grandes prazeres e uma plácida serenidade toda ela feita de estou-me nas tintas.

Costumo dizer que já nasci velha, sinto-me assim, muitas vezes, como se já tivesse muitos anos em cima, como se, desde cedo, as exaltações me passassem ao lado como um revirar de olhos. Devia achar que isto é mau, mas não acho, deve ser isso, a velhice.

Lembro uma conversa com um amigo de família que me contava da veneração e respeito que os chineses têm pelos seus anciãos, os mais novos tratam os mais velhos com deferência porque está entranhada no tecido social a noção de que os anos trazem sabedoria de vida, prudência, equilíbrio.

Mas a velhive traz também uma fragilidade que nos transporta à infância, não raro, à dependência, à necessidade de mimo, à birra e ao beicinho. No fim, voltamos ao princípio.

É sabido que este país não é para velhos e que a maioria deles vive por aí, aos caídos, mas eu não consigo deixar de me comover com as rugas marcadas, com o olhar condescendente, com as mãos torcidas e as costas curvadas. Sorrio à persistência com que os velhos evocam a alegria, o prazer, a ternura e não raro, o disparate de quem ganhou a autoridade de o estender a bom gosto.

Queira Deus que eu tenha a saúde e a dignidade de lá chegar assim, meio velha, meio criança, com a curiosidade a agitar-me a alma, mesmo que os óculos fundo de garrafa – se não a lupa – me obriguem a um esforço acrescido para olhar o mundo à minha volta, sabendo assumir a velhice num equilíbrio elegante entre o mau exemplo e o bom conselho, eu sei que já tive velhotas assim.

A cor da força

[Kris Lewis]

 

E, de repente, o cinzento do céu que nos escureceu os olhos, ruboriza-se; abre-se a boca ao espanto e tudo assume a dimensão da esperança - contida que o seja, ou talvez não, na verdade, já nem interessa, porque cada segundo é uma conquista e cada conquista é um assombro.

De repente, há um milhafre que se atravessa à minha frente na A5, e olha que isto não é uma metáfora para poeta ver, era um milhafre mesmo, de asas largas a planar em cima do alcatrão; eu agarro-me ao volante, com vontade de esfregar os olhos porque há coisas que só acontecem nos filmes do David Lynch e não em percursos rotineiros de auto-estrada. Mas, logo de manhã, encontrei uma borboleta preta e amarela pousada na buganvília da varanda, devia ter percebido, logo ali, que este era um dia de possibilidades e expectativas.

 

O mero vislumbre de um pequeno milagre pode ter mais força que todas as certezas da ciência e esse impulso anímico dá cor a qualquer dia chuvoso.

Viagens na minha terra

Uma bela manhã de verão, passeio pelas ruas da Vila, a admirar os murais recentemente pintados no âmbito do Festival Muraliza (aconselho vivamente).

Numa esquina, dois pintores (com um ar muito hippie), terminam uma paisagem Cascalense, enquanto um fulano de calções e copo na mão - que depois esclareceu estar regressado dos Santos populares, curando a bebedeira com mais vodka -, vê passar duas estrangeiras muito louras e grita para o lado oposto da rua:

- Ladies, ladies, talk to me; are you hungry? Let's have lunch.

As ladies, olham uma para outra com cara de é-melhor-sairmos-daqui-quanto-antes, mas o nosso tuga insiste:

- Ladies, ladies, pay attention...

As ladies - moças novas e de vestido curto, continuam em frente. Eu tento concentrar-me na fotografia que vai ficando a meio com a risada.

O Tuga:

- Ladies, ladies, pay attention; you pay the attention, I pay the sushi!

As moças riêm, finalmente, eu desisto da fotografia, o Romeu, ispirado, continua:

- Do you see that big yellow ball in the sky? That's only the sun, but you are the light of my life!

Ergue o copo e brinda à vida, afinal, é feriado, são só onze da manhã, ainda o dia é uma criança.

Viva o Santo António, meus amigos!

Mitomania

Sabes que inventaste a tua história, sabes que a arquitectaste à tua volta, pedra a pedra, esquina a esquina,  passo a passo. Sabes que preferes as meias verdades ou as mentiras absolutas, mas precisas de umas e outras para te escudares. Crias o teu cenário, dás-lhe cores, datas, enredos e personagens, constróis diálogos e alinhavas acontecimentos trágicos e violentos, alternados de ternuras e proximidades que gostarias que o fossem. Crias grandes feitos, humildades, gestos nobres. Ergues esta muralha e escondes-te lá dentro. Sabes que se tocarem a trombeta em sete voltas em teu redor, ela cairá por si mesma e vives no pavor dessa ruína, mas não recuas, tudo menos o espelho que te dá, tão somente, o reflexo do que é, mesmo que o reflexo posa ser mais do que tu vês.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.