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Outro Sentido

Outro Sentido

Heroínas dos tempos modernos

Leio na Porter uma entrevista à actriz Molly Ringwald em que a mesma é confrontada com a questão de saber o que é uma heroína dos tempos modernos. Dou por mim a pensar no assunto, procurando, tal como ela, fugir à resposta de identificar imediatamente as grandes mulheres que tenho a sorte de ter na minha vida, essas mulheres fortes, determinadas, focadas, de bom coração, sempre na alçada de mais e melhor, mulheres - de todas as idades e gerações - que me abençoam a existência e a acumulam de riquezas.

Tentei lembrar-me da heroína da minha infância - deverei tê-la tido, algures - mas não me recordo dela e, convenhamos, que a wonder woman com a sua coroa e fatinho sexy nunca me convenceu. Em menina, se alguma personagem literária assumiu, a meus olhos, contornos de heroína, terá sido, talvez, a Zé, dos cinco, toda ela Maria rapaz, corajosa e inconveniente.

Com o passar dos anos, fui construindo uma imagem mais definida de personalidades femininas relevantes, de início, muito guiada por quem me vestia a roupa e colocava o prato na mesa. Com efeito, a minha mãe, fruto de uma geração de marcadamente francófona, acabou por ter uma influência determinante na formação original de algumas ideias da minha cabeça; à medida que fui crescendo em estatura, fui também alcançando as prateleiras superiores das estantes de livros lá de casa e cedo me vieram parar às mãos os autores preferidos da minha mãe. Assim, se tivesse de escolher a minha primeira heroína dos tempos modernos, seria certamente Simone de Beauvoir, a menina bem comportada que tanto me marcou, precisamente, porque deixou de o ser, transformando-se numa mulher absolutamente singular e exigente no que à condição feminina dizia respeito, filósofa e escritora, era acima de tudo, uma mulher muito à frente do seu tempo e uma pensadora admirável, sedenta do que a vida tinha para lhe dar, questionando-se a cada instante e colocando no plano intelectual e emocional os detalhes da vida.

Numa aproximação crescente ao mundo das artes, apaixonei-me, irremediavelmente, por Frida Kahlo, pelas suas cores garridas, pelas indumentárias floridas e  de forte presença étnica, pelos seus amores mas, acima de tudo, pela forma como encarou a dor fisica tremenda resultante de um brutal acidente rodoviário  que lhe desfez a coluna, o pescoço, as costelas e uma perna que, no final da sua vida, acabou por lhe ser parcialmente amputada. Começou a pintar nesse estado desconstruido, deitada na cama, com a tela suspensa por cima dela. Pintou-se martirizada, na sua realidade, com uma espinha transformada em coluna romana rachada e o corpo cravejado de pregos a mostrar o que é a dor, pintou-se no sofrimento de não poder engravidar, pintou-se no amor por Diego Rivera e no desamor por Diego Rivera, mas pintou-se também numa altivez rica e profunda. Pintava-se a si mesma porque era a pessoa que melhor conhecia e pintava-se na sua dualidade de vida e morte, de alegria e dor, de amor e tristeza, de candura e insolência, de serenidade e explosão, de ingenuidade e revolução, de enraizamento à vida da terra em que nasceu e procura intelectual pelos tempos que a acolhiam. Em todos os sentidos possíveis, Frida Kahlo foi uma heroína, uma mulher que se fez mulher, nas palavras de Simone de Beauvoir. 

Há uns anos atrás - ainda pela mão da minha mãe - li os Diários de Etty Hillesum que me marcaram para a vida; se tivesse de escolher a heroína da minha fase adulta, seria certamente esta, pela espititualidade buscada e encontrada no cenário tremendo de um campo de concentração, pelo exemplo da imensidão de coração, da dádiva, da coragem, da perseverança que não se deixa contagiar pela maldade do mundo. Etty é a heroína em estado puro, toda ela mulher, toda ela positiva, toda ela esperança, toda ela querer.

Já mais recentemente, senti-me tocada com a história de Malala Yousafzai, uma heroína tão jovem, a lutar por algo que damos como adquirido no mundo ocidental mas que, para ela, nascida numa sociedade que menospreza a dignidade da mulher, o simples direito à educação é algo porque vale a pena arriscar a vida e a impossibilidade de regressar a casa. Malala sabe que educar é formar cidadãos e que cidadãos formados são uma ameaça a regimes opressores. Na sua caminhada, já a ouvimos dizer: "We realize the importance of our voice, when we are silenced"; assim é.

O que faz então uma heroína dos tempos modernos?

Provavelmente, aquilo que faz uma heroína de qualquer tempo: o foco, a verdade interior assumida como estandarte, o esforço, uma genuína e válida hierarquia de valores, a sede de vida, de originalidade, de presença, a coragem.

Assinar, divulgar, não deixar cair no esquecimento é o pouco que podemos fazer.

Meriam Yehya Ibrahim, a cristã ortodoxa condenada à morte no Sudão, deu hoje à luz no corredor da morte, onde passou os últimos meses acorrentada. Na véspera os seus advogados tinham interposto recurso à sentença que lhe fora pronunciada pelo “crime” de apostasia.
Mais de meio milhão de pessoas em todo o mundo fizeram-se já ouvir em defesa de #Meriam, assinando a petição da Amnistia Internacional que insta à sua libertação imediata e incondicional. Mas é preciso manter a pressão sobre as autoridades sudanesas! Aqui fica o apelo da Amnistia Internacional para assinar a petição: http://bit.ly/Meriam_Ibrahim

Das curvas

Não é o ângulo recto que me atrai, nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher bonita. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.
Oscar Niemeyer

Na vida dos outros, às vezes, vemos a nossa.

Logo de manhã, num Hospital local, uma fila de espera para análises ao sangue; tira a senha, saca do livro, aguarda, ouve-se o pling do écran a avisar o número seguinte, espera-se.

Ao meu lado, uma mulher da minha idade dá a mão a uma velhota de cabeleira branca bem arranjada, toda ela dobradinha, debaixo da camisa composta e do casaco de malha impecável e de cor pérola.

A velhota, a fazer conversa, pergunta se estão em Cascais e a rapariga - que entretanto percebi ser a neta da primeira -, responde que sim, deita-lhe um sorriso e puxa-lhe a mão para o colo. A velhota pergunta ainda se é um hospital público, e a neta responde que não, que as análises eram urgentes e que, por isso, optaram por um privado. Instala-se o silêncio durante alguns minutos e eu avanço umas páginas no livro. A neta pergunta então: A avó está bem? precisa de alguma coisa? Ao que a velhota, toda sorridente, responde: "oh querida, então, ao teu lado, é lá possível estar mal!". A neta puxa-lhe mais a mão e cobre-a de festinhas.

Eu, do meu banco, sorrio para dentro e choro um bocadinho também, tolhida de saudades de momentos assim, de mãos dadas, festinhas, segredos, confissões seguidas sempre de bons conselhos e algumas gargalhadas.

É certo e sabido que, se fosse eu a perguntar à minha avó se estava bem, a resposta, acompanhada de um caprichoso encolher de ombros, seria qualquer coisa como: estaria melhor se tivesse menos trinta anos e estivesse a tomar café em vez de estar aqui sentada à espera que me enfiem uma agulha num braço.

Certinho, certinho!

Mas eu, tolhida de ternura por aquele mau feitio familiar, teria puxado a mão dela para o meu colo e teria coberto de festinhas aquela pele enrugada a terminar nas unhas compridas pintadas de vermelho.

Saudades, tantas!

No dia Internacional dos Museus

Agora sei que começamos tudo de novo, que é um projecto de raiz que nos transforma; tu transportas-te para mim e eu devolvo-me naquilo que sou e que não existe ainda em ti. Nenhum dos dois sai incólume e parece que, a cada dia, se sedimenta mais uma camada de nova matéria dentro de nós. Tomo consciência do processo, adormeço a pensar que não sou a mesma que acordou e não quero que a metamorfose acabe, sinto um formigueiro de expectativa face àquilo que virá e que eu não sei ainda o que é. Pergunto-me se será possível a continuidade, desejo-a, projecto-a, tenho vontade de a colocar no papel para não me esquecer, uma cábula futurista de nós dois.

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