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Outro Sentido

Outro Sentido

No dia Mundial do Livro

"Uma das muitas coisas que adoro em relação aos livros encadernados é a sua pura existência fisica. Os livros electrónicos vivem longe da vista e do coração, mas os livros impressos possuem corporalidade, presença".

Will Schwabe, Os livros do final da tua vida.

Metanóia

É costume dizer relativamente àquilo que nos é originariamente simples, que é tão fácil como respirar, mas se há coisa que aprendi nestes últimos dias, é que respirar não é fácil e que, a maioria de nós, não o sabe fazer ou faz mal. Respiramos na exacta medida dos tempos - depressa, com ansiedade, com pânico, com stress, com exigências que não são as do corpo que nos desenharam. Respiramos pela metade, seja com a de cima ou a de baixo, mas não respiramos a plenos pulmões, não conhecemos a arte de parar para encher a barriga, depois o tórax, depois o peito, deixar o ar entrar e depois deixa-lo sair, até ao fim, e senti-lo, de forma consciente.

Parar é outra questão, é que para respirarmos decentemente, temos de aprender a parar, seja lá onde for, seja lá quando for, e isto de parar e não fazer népia está cada vez menos inscrito no nosso código genético. Olha, agora vou ali sentar-me e ficar paradinho a respirar sem fazer mais nada durante quinze minutos; isto é coisa para qualquer um revirar os olhos e achar que nos falta um parafuso, ou dois, ou pior, que fomos atacado por esse mal imperdoável da preguiça. Às vezes observo os meus gatos a dormir ao sol, a encher e a esvaziar a barriga e a esticarem-se, depois, em posições desafiantes de um mestre de yoga e dou por mim a pensar que alguma sabedoria felina me está a escapar.

Estas, são questões que nos surgem - mais cedo ou mais tarde - em determinadas fases da vida, normalmente, de ruptura. Acontecem-nos quando puxamos de tal modo por nós, que algo se quebra e somos, à força, obrigados a repensar os nossos limites, os nossos propósitos, as nossas prioridades, a eterna questão do que é que andamos para aqui a fazer. É também nestes momentos que experimentamos o outro lado do espelho, que acolhemos a possibilidade daquilo de que sempre desconfiamos e até damos o benefício da dúvida a essa experiência, e eu tenho para mim que o acumular de experiências gratificantes é sempre enriquecimento pessoal e que isso, inevitavelmente, me faz feliz, ou mais feliz.

Isto para dizer, que, no fim de semana passado, rumei ao norte na companhia de três amigas; cada uma com a sua história e percurso; procurávamos, antes de mais, uns dias de fuga - que bom que é poder escapar aos lugares e companhias da nossa rotina e fazê-lo de vez em quando. Aproveitamos a viagem para pôr a cavaqueira em dia e espraiar saudavelmente o disparate, depois, recolhemo-nos ao silêncio de um lugar especial e iniciamo-nos neste treino da quietude, nesta atenção ao acto de inspirar e expirar, de estar apenas com a atenção focada nesse momento, tentando afastar qualquer pensamento que se aproximasse ou permitindo que ele ficasse ali a fazer companhia, desde que não fizesse demasiado barulho e talvez, só talvez, trouxesse respostas. Está-se e espera-se coisa nenhuma.

É uma experiência, pode ser uma revelação, pode ser uma prática, pode ser um recomeço, pode ser uma descoberta, pode ser uma desilusão, pode ser algo que se esquece daqui a uns dias mas pode, também, ser que algo tenha acordado cá dentro - não consigo deixar de sorrir ao paradoxo: ficar quieta de olhos fechados para acordar para algo de novo - mas sei que ficou a vontade, a certeza de alguma coisa necessária e que pode ser tão transformadora quanto difícil.

Assim, sendo deixo a proposta socialmente incorrecta: sente-se, deite-se e não faça rigorosamente nada!

Ali na rua, num dia de Primavera

Cruzo-me, a meio da Rua, com uma mulher a passear um cão pela trela.

A mulher tem uma perna mais comprida do que a outra e um sapato pesado, de sola compensada, que a obriga a um balançar do corpo.

Ao cão, falta-lhe uma pata.

A mulher sorri ao sol e está feliz.

O cão abana a cauda e saltita à volta dela.

Penso para comigo que nos aproximamos sempre do nosso semelhante, que nos apaixonamos sempre por nós mesmos.

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