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Outro Sentido

Outro Sentido

Pai

Pai é a tempo inteiro, quando está perto e quando está longe e até quando já cá não está, mas ainda se ouve, como um eco que ressoa cá dentro. Pai é porto de abrigo, é protecção que não acaba com a infância, com a adolescência ou com a idade adulta. Pai é a bússola, é o conselho de sempre, a opinião superior carregada da autoridade de quem nos conhece e sabe mais da existência. Pai é querer ainda dançar em cima dos pés dele e é a voz mais forte que se impõe a ordenar o caos e a ajeitar os alicerces que a vida se encarrega de chocalhar. Pai é o disparate que nos faz rir mais do que os outros só porque vem dele e é sempre o melhor pai do mundo.


A todos os pais, àqueles que me rodeiam e de que tanto me orgulho, ao meu, em particular, um feliz dia do pai.

Ao virar de uma esquina

Tropeçar assim, numa obra de arte, ao virar da esquina, numa parede esquecida de um prédio sem graça e achar que a cidade pode ser uma galeria à borla e que a arte de rua é uma forma artística de valor, capaz de embelezar os cantos mais deprimentes da nossa vivência urbana. Não é por cá, fica algures na vizinha Espanha e continuo a gostar disto, muito mesmo.

Cinzas

Acordo, já noite, para a recordação de que é quarta feira de cinzas. Ao meu lado, alguém pergunta: porquê as cinzas?

Vem-me à cabeça a imagem de um pó fininho, a perder-se entre os dedos de uma mão, milhões de partículas de nada, que se perdem no ar a um suspiro de brisa.

Cinzas, ou aquilo que sobra de nós quando nos deixamos arder em coisa nenhuma, a poeira que se varre para a calçada e que se perde na terra à qual voltamos. Cinzas, a lembrar que a vida é efémera - não tarda nada, já acabou - e nós, esquecidos, olhamos para ela com um misto de ternura e desperdício, afinal de contas, amanhã também é dia, até ao dia em que já não for.

Cinzas que são matéria queimada, para que, entre silêncios, percebamos que o tempo é agora, é aqui; uma lição de humildade - coisa pouco em voga nestes tempos - a vanglória da altivez sobranceira dos holofotes, ao invés da modéstia construtiva dos bastidores; já nem o bem sabemos fazer sem o anunciar ao mundo, como criançolas à procura de recompensa, uma palmadinha nas costas e um doce a premiar o quadro de honra. Porém, o tal livro mais vendido e menos lido do mundo, lá diz: Guardai-vos de fazer as vossas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles (...), como fazem os hipócritas (...) a fim de serem louvados pelos homens (Mateus 6, 1-2) - caminhos difíceis, estes.

No grande grande Ecran, o diabo interpretado por Al Pacino, pisca um olho, dá um estalo com a língua e confessa: "Vanity, definitely, my favorite sin"*. Assim é, cinzas, ou uma lição antiga segundo a qual, tudo é vaidade e vento que passa (Eclesiastes) e por isso, há que fincar o pé e criar raízes em algo mais que nos transforme, porque desde tempos imemoriais há histórias contadas que nos falam de um renascer das cinzas, de uma renovação que acontece quando chegamos a esse ponto minusculo do nada humano.

 

[*O Advogado do Diabo, 1997].

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