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Outro Sentido

Outro Sentido

Das ausências.

Há essa coisa estranha de ter ver a circular, intermitentemente, nos espaços femininos que habito; ver-te, predador, a avançar pela tela branca que é a minha casa, primeiro curioso, depois à vontade, a espalhar presença a cada canto, com os jornais de fim de semana estendidos pelo chão, a esconder os florões do Arraiolos. Há esse instinto felino que se impõe, a marcar território, desordeiro, todo ele gajo, comme il faut. Descubro que a televisão por cabo tem canais desportivos cuja existência eu nem suspeitava e que se grelham, cozem e fritam salsichas, assim como há mil formas de fazer omeletas e que não se perdoa a uma dispensa a ausência de malaguetas. Descubro que o policial é um género literário e que o Expresso não é só feito da Única e da Actual. Descubro que há uma linha de formalismo que separa os pólos das T-shirts e que uns e outros são sempre poucos. Descubro que um jantar leve não é sopa e fruta, mas sim sopa e um sandes de presunto com queijo e um copo de tinto - leve, claro. E depois, há a questão dos interruptores que andas a fechar a cada passo que eu dou, a resmungar com o gasto desnecessário - "estás aqui ou estás lá dentro"? -, e eu lá vou assimilando a coisa, do mesmo modo que me conformo com a janela da varanda sempre aberta, como se estivéssemos em Agosto e na Rua não caísse uma chuva desalmada que se entranha nas paredes e nos ossos, com um frio cortante de hibernar qualquer um debaixo de várias mantas mas que, a ti, te passa ao lado, sempre a cirandar em mangas de t-shirt, enquanto eu me enrodilho em camadas de camisolas interiores e exteriores. Há essas coisas todas, quando apareces e, depois, há ausência delas quando não estás.

Quando é que uma ausência se torna ausência?

A relevância (e a actualidade) das primeiras linhas de um livro.

"Nem todas as mortes são iguais. Mesmo no crime, existe um sistema de castas. A morte à facada de um miserável condutor de riquexó não passa de uma estatística, enterrada nas páginas interiores do jornal. Mas o assassínio de uma celebridade torna-se instantaneamente assunto de primeira página. Porque os ricos e os famosos raramente são assassinados. Vivem vidas de cinco estrelas e, a não ser que morram de uma overdose de cocaína ou de um acidente insólito, têm normalmente uma morte de cinco estrelas numa boa idade avançada, tendo entretanto aumentado tanto estirpe como a fortuna."

Seis suspeitos, Vikas Swarup.

Ah, o amor!

[Os amantes, de René Magritte]

 

Todos sabemos aquilo que o Miguel Esteves Cardoso diz que o amor é e, no entanto, não há quem escreva mais e melhor sobre o seu amor pela Maria João. A alquimia do amor é assim, difícil e boa, trabalhosa e compensadora, inesperada e rotineira, amarga e doce, infinita enquanto dura e dilacerante quando acaba; mas todos rondamos e persistimos na procura desse santo Graal, mesmo que ele nos leve ao colchão um número incontável de vezes ao longo da vida.

Se histórias de amor há muitas, de desamor, há outras tantas e de amores em banho Maria, então nem se fala.

A estranha pintura de Magritte não é um turn off amoroso, é um aviso, um daqueles sinais de estrada que devíamos manter debaixo de olho no nosso percurso amoroso. O amor gasta-se, sofre erosão como tudo o mais neste mundo e sobrevive, às vezes, de gestos mecânicos, beijos dados como apertos de mão, palavras ditas por hábito que já nem se lhes lembra mais o sentido. Os panos que cobrem as cabeças dos amantes dizem-nos que amor pode ser solidão e que não há solidão maior do que aquela que se sente quando se está acompanhado, dizem-nos que as frustrações amorosas somos nós também que as construímos ao impormos barreiras e limites à conquista do outro e à descoberta da nossa natureza mais íntima.

O amor é feito dessa conquista e descoberta e, depois, é desbravar a dois através do tempo e da vidinha que é uma chata e que tudo engole, e é persistência, uma prova atlética de endurance, perseverança e consciência dela, para que os panos se desfaçam e um beijo seja realmente um beijo, e que a inadvertida ausência de um  aparente gesto de rotina seja finalmente notada como um vazio que faz falta, para que aquela volta que o lenço dá no pescoço do homem se desenlace e não sufoque ninguém, porque o amor também é espaço de liberdade alicerçada em confiança.

Por isso, não, este não é um texto para estragar S. Valentim; aliás, andei a pesquisar e descobri que o tal do Valentim foi um Bispo que, alegadamente, celebrava casamentos contra a Lei Romana que os proibia pois queria homens desimpedidos do vínculo matrimonial para preencher as fileiras de exércitos.  Porque violou a norma, o Valentim foi preso e, no cárcere, foi visitado por uma mulher cega por quem se apaixonou. O milagre desse amor devolveu a visão à mulher e permitiu que o Valentim lhe escrevesse missivas amorosas em que assinava: "Seu, Valentim". O nosso herói foi morto, como tantas vezes acontece aos trágicos amores impossíveis, mas a história ficou, e a 14 de Fevereiro, o mundo celebra o amor, essa força anímica que move montanhas e que devolve a capacidade de ver com outros olhos e que nos embala e consola os dias difíceis e ilumina todos os outros.

A relevância das primeiras linhas de um livro

"Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer de brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as cerejas, dizem que são como as pitangas. Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas a rirem-se umas com as outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias".

 

O Retorno, Dulce Maria Cardoso.

Falun Gong ou uma história de horror

Acabei de ver uma reportagem assustadora sobre uma realidade longínqua de nós e  que - não apenas por isso - é ignorada e abafada, mesmo que conhecida há vários anos. O Falun Gong é uma prática meditativa que nasceu na China por volta de 1992  e que assenta em 5 exercícios – 4 de pé e um sentado – pelos quais se procura um equilíbrio entre a mente e o corpo através da assimilação de valores morais universais e que assentam em três pilares – verdade, benevolência e tolerância; a ideia é a de que um individuo para ter saúde física, deverá começar por ter saúde moral, um carácter construído em princípios de humanidade.

Inicialmente, foi uma práctica protegida e até divulgada pelos meios de comunicação chineses mas, desde o final da década de 90, começou a ser abafada, depois proibida e, finalmente, violentamente perseguida, ao ponto de ser considerada crime e traição contra o Governo. Afinal, que regime de bem pode permitir que os seus cidadãos trabalhem as respectivas personalidades na persecução de valores de verdade, benevolência e tolerância?

Em 23 de Abril de 1999, forças policiais  espancaram centenas de praticantes e prenderam dezenas de outros de forma brutal. Esta postura mantém-se até hoje. O seguidores e praticantes de Falun Gong são brutalmente presos, espancados, torturados e mantidos em campos de trabalho enquanto aguardam, pasme-se, a pena de morte.

O espanto e a revolta que corre nas veias de qualquer civilização conhecedora do valor da vida e da dignidade humana, poderia quedar-se aqui, mas não, o cenário piora. Uma investigação internacional seguiu sobreviventes, entrevistou refugiados, dissecou comunicados oficiais e sites de clínicas e hospitais públicos para concluir e provar que os presos – praticantes de um exercício que visa a construção de um ser moral, recorde-se - são sujeitos a análises clínicas e outros detalhados e dispendiosos exames médicos. São usados em inúmeros campos de trabalho escravo com a respectiva pena de morte pendente. Depois, são executados e os seus órgão são colhidos, – coração, fígado, pâncreas, pele, córnea, tudo. Os órgãos são, depois, vendidos internacionalmente. Mas, como fazê-lo, se os órgãos têm um tempo de aproveitamento de apenas umas curtas horas quando retirados do corpo humano? Simples, as execuções são feitas consoante as necessidades de órgãos. Se um norte americano não conseguiu um coração a tempo de ser transplantado na sua terra Natal, vai à China e pela módica quantia de 145.000 dólares é-lhe assegurado que terá um coração compatível em duas meras semanas. Isso mesmo é anunciado pelos hospitais públicos que sabem, antecipadamente, que o vão ter e em que prazo.

É grotesco, é um filme de terror, é um retorcido argumento de ficção cientifica, mas é, também, uma realidade internacionalmente conhecida e consequentemente aceite, com a devida vénia a interesses que falam mais alto, pois não há País que não tenha um investimento a proteger nesta câmara de horrores.

Os relatos, as imagens, as provas são indescritíveis mas de que vale a desumanização, a imoralidade, a verdade, quando e sempre, money makes the world go around, ou virar-se do avesso, de pernas para o ar, enfiar-se no lodo nojento e incompreensível da história que insiste em repetir-se nas suas piores cores.

[O relatório de 2007]

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