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Outro Sentido

Outro Sentido

Fato e gravata

[imagem via]

A profissão que exerço e o meio em que me movo são intensamente povoados por esse acessório de moda masculino que é a gravata e, não sei se é pelo cinzentismo próprio do meio ou, simplesmente, um algo generalizado mau gosto, olho para a maioria dos homens que rematam a farpela com um nó de pescoço - mais ou menos vistoso - e acho-os com ar de enfiados num fato que resvala a farda, sem qualquer nuance que o torne especialmente elegante ou com aquela nota de garbo dissonante que nos faça olhar duas vezes.

É certo que não é a gravata que faz o homem (mas sim o contrário) e, no entanto, é certo também que, na sua maioria, as gravatas e os homens parecem todos iguais a eles mesmos, enfiados nos habituais fatos cinzentos ou azuis escuros, com os sapatos da praxe e nada mais do que isso.

Ainda assim, de quando em vez, por muito normal que seja a gravata, há uns quantos homens que fogem à carneirada, e é inevitavel que os olhos femininos por lá se fixem. Isto pode ser coisa da idade, mas o traje habitual do homem profissional em terras lusas, faz-me sempre lembrar aquela cena do filme A Idade da Inocência em que o realizador, Martin Scorsese, num inspirado rasgo de arte fotográfica, nos mostra uma rua repleta de fatos pretos e chapéus de coco, todos inclinados para o mesmo lado e todos iguais, numa coreografia tão ensaiada quanto a vestimenta.

Individualistas? Nós?

Habituamo-nos a gritar frases feitas que, na maioria das vezes, ancoram na regra colectiva, na norma histórica a que nos habituámos, no desvio que já não choca ninguém, nem faz tinir, sequer, uma fibra de indignação, porque sempre foi assim e sempre será e, quer queiramos quer não, habita em nós o gene do velhinho do Restelo, sentado à beira Rio, a ver os dias passar, iguais a eles mesmos.

Só que, de vez em quando, também há algo que confirma essa verdade subterrânea e a tal revolta íntima, esquecida algures, emerge um pouco, talvez metamorfoseada de tristeza, porque não há ânimo que não se desgaste em angústia quando o peso do tempo e da inevitabilidade mostra as suas cores.

Diz um estudo da universidade Católica que "Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos", diz também que "as pessoas que têm muito baixos rendimentos, abaixo dos 500 euros, têm níveis de felicidade mais baixos" apenas igualáveis "aos dos níveis de rendimento mais elevados", e que a explicação desta realidade está na "educação e formação que está a ser dada às pessoas", pois, segundo o estudo, continuamos "a educar para o domínio material, para o domínio técnico", para "formar profissionais competentes, que dominem bem as técnicas de cada área, e os currículos são cada vez mais técnicos. Mas na realidade não é isso que faz as pessoas mais ou menos felizes. É a dimensão humana, relacional, que está cada vez mais afastada dos currículos; (...) quanto mais se avança na escala de instrução, mais os currículos são técnicos e desprovidos da dimensão humana: As pessoas tornam-se cada vez mais competitivas, cada vez mais insensíveis ao sofrimento dos outros, cada vez se sentem menos responsáveis pelo bem comum. Acabam por ter as ferramentas de decisão, mas não têm as competências pessoais e sociais para serem bons líderes".

E chateia, um bocado (lá está, a ofensa a lamber-me a pele), porque é a educação dos nossos filhos que está em causa, é a sociedade deles e é o mundo em que nós, já velhinhos, iremos viver também - se lá chegarmos - e porque nos habituamos já a chutar para canto a máxima de que o dinheiro não compra a felicidade e porque a ideia poeirenta de que a riqueza cria em nós hedonismos que nos distraem do essencial da vida, e que a menor abundância nos centra no que é realmente importante, também - já a nós - cheira a bafio e não apetece ir por aí.

Mas, como dizia a voz da rádio, talvez valha a pena pensar nisto, porque a forma como pensamos molda-nos colectivamente, devagarinho, com o tempo, o hábito, o costume, a regra social.

[Notícia completa aqui].

Novas terapias ...

Ora, aqui está, finalmente, uma terapia antidepressiva, sem efeitos secundários, sem riscos de sobredosagem e sem prescrição médica a aviar na farmácia; pode ser interrompida a qualquer momento e retomada em qualquer altura e a qualquer hora; não afecta a condução de veículos (embora se recomende que não seja realizada enquanto se está ao volante) e pode ser usada por crianças a partir dos doze meses, por grávidas e lactantes. Diz que ajuda à cura da depressão, mas são igualmente reconhecidos os seus benefícios no acompanhamento de muitas outras maleitas.

Para quem dela faça uso habitualmente, a notícia sugere apenas um enorme rolar de olhos, acompanhado daquele suspiro muito em voga e que, traduzido à letra escrita, dá qualquer como: "duh"!

Chamam-lhe biblioterapia e este livro fala do assunto de forma extensa e com o exemplo de um caso real.

sulfúrico

Procurou a vida toda naquela cidade mas não a encontrou; por ali só habitava betão e tudo soava a desencontros, como o dela, que se adiava a cada dia. Voltou a olhar, pensou no homem que ali vivia e achou-o igual à vista à sua frente - alto como os prédios, coração de aço, olhos de azulejo, pele de tinta gasta e mãos sujas de nada. Sentiu um nevoeiro cortante atravessar-lhe o corpo e tentou enxotar a dor para um canto esquecido onde não fizesse eco. Tudo era frio naquelas paragens e as mãos de bisturi que agora largava estavam em harmonia com aquele lugar de ângulos rectos e cortes precisos. Achou que já tinha a sua dose incoerente de relação asséptica numa cidade suja. Virou as costas desmanchando para trás o ramo de flores largado nessa manhã na sua mesa de trabalho - sem qualquer mensagem ou cartão ilustrado -,  como se flores suavizassem a corrosão daquele planeta de desdém.

Despediu-se assim, como se faz com os mortos, atirou-lhe flores.

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