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Outro Sentido

Outro Sentido

Calendário do advento ... vamos tentar!

A vida anda rápida, azafamada, desconcertada, cheia de coisas boas e rotinas nem sempre fáceis de articular, numa ginástica permanente de fazer caber tudo em cada dia; mas, ainda assim, vou tentar - e este ano, terei mesmo de me ficar pelo verbo tentar - cumprir, uma vez mais, o calendário do advento. Assim, a partir do dia 1 de Dezembro e à semelhança dos anos anteriores (desde 2010 que cumpro esta festa), procurarei, com palavras minhas ou emprestadas, videos ou fotografias de ocasião, abrir uma janela diária do advento que se aproxima.

As janelas estão aqui e o link abaixo de cada janela abre para ali.

Até que a morte nos separe

Podia ter sido o jantar do dia anterior ou o telefonema do chefe às 20:30, a informar que não precisava de chegar tão cedo como haviam planeado; podia ser a ansiedade com a asma persistente do Rui ou as notas do Luís que, do alto dos seus 14 anos, insistia em trabalhar na oficina do tio em vez de enfiar o nariz nos livros; podia ser a instabilidade financeira em que viviam e quantidade de mês que sobrava ao fim do dinheiro; podia ser a morte do pai, no ano anterior, que lhe arrancou as raízes e o farol vital do caminho certo; podia ter sido uma palavra esquerda que lhe tivesse saído da boca sem ela dar por isso; podia até ser ela, que tinha engordado um pouco, que se esgotava nos filhos mas que, ainda assim, tentava chegar a casa para o jantar na mesa, a conversa de família e um carinho de sofá.

Podia ser tudo isso ou não ser nada também, e haver nele algo escuro e violento que o impelia a partir-lhe cadeiras nas costas, a espetar-lhe cigarros nos braços, a ameaça-la de morte, a escavacar-lhe a cara com socos negros de raiva, a baixar-lhe a cabeça e o corpo e a dignidade com um braço férreo na nuca ou a apertar-lhe os pulsos ao ponto de lhe cravar tatuagens escuras que não saravam nunca e que nenhuma das pulseiras oferecidas no dia seguinte conseguia esconder.

Mas podia ser também o facto de ter nascido baixote e de o ego tolhido se ter transformado em carácter torcido e desfigurado, ou podia ser culpa da educação recebida ao ritmo de cinto no lombo e pontapé no rabo.

Podia ser o negócio que corria mal e o álcool que servia de bálsamo lhe alimentar um bicho escondido que aparecia, feio e cheio de força, ao fim de três whiskys e dois berros a propósito de uma ninharia absurda. Podia ser a conta da água, da luz, do gás ou da TV por cabo. Podia ser o telefonema de um amigo a contar a promoção conquistada, ou o mail do irmão a convidar para um fim de semana no monte.

Podia ser tanta coisa, ou podia não ser nada e tudo se resumir apenas a um prazer inconcebível de a saber só neste mundo, sem ajuda a que gritar, nem família ali à mão. Os seus estavam longe, do lado de lá do Atlântico, perguntavam-lhe pela vida, pelos filhos, pela casa, pelo marido. A tudo ela respondia com o casamento que não tinha.

Os gritos à frente dos miúdos, de mão cerrada e o corpo atirado para a frente, a televisão no chão, a ameaça constante, os berros que a reduziam a nada, abaixo de nada, a menos de nada, a lama; as portas aos estrondos – a do quarto, a da sala, a da rua, a do armário. A roupa dela por todo o lado, pela janela, pelo contentor do lixo.

E aos olhos do mundo, um Senhor, um compincha, um gajo porreiro, um marido impecável, um pai extremoso. Na internet, todo ele era fotos dos filhos, fotos de casamento, de férias, de Natais passados e dizeres de alma íntegra, ao mesmo tempo que engatava gajas nas salas de chat e nas várias páginas de facebook.

Foi assim até ela dizer basta. Até ela agarrar nos filhos e sair. Até ela descobrir que podia crescer para ele, que tinha ajuda mesmo sem ter família, que havia casas de acolhimento, que havia gente dedicada a ajudar mulheres iguais a ela, com histórias iguais às dela, piores que a dela. Nessas casas, descobriu também que havia outros iguais a ela; descobriu que as vítimas da violência de trazer por casa também são homens que tudo calam e consentem em prol dos filhos, que conhecem a vergonha dos vizinhos, as ameaças das mulheres, a loiça no chão, a aliança pelo ar, a gritaria desvairada, a roupa às tiras, a redução diária à condição do verme.

Depois, descobriu ainda que havia vida para lá do medo, para lá do anonimato em que teve de viver durante dois anos e das muitas casas por onde passou para que não lhe soubessem o paradeiro; descobriu que as feridas saram, que as nódoas negras desaparecem, que o corpo descobre forças e esperanças em cantos improváveis e que os olhos reaprendem novos olhares; descobriu que os filhos há muito o desejavam, que rezavam pela separação e que as fugas da escola eram, antes de mais nada, fugas da vida que andava, tal como o ânimo e a vontade, aos empurrões de corações indecisos e de emoções que nem sempre compreendiam.

Descobriu tudo, descobriu-se e recomeçou.

 

[Hoje é o dia internacional pela eliminação da violência contra as mulheres; hoje é um dia que tem de ser assinalado com a consciência do que é.

Conheci, ao longo da minha vida profissional, várias mulheres - grandes mulheres - que foram acolhidas pela APAV, num tempo em que a APAV era ainda um projecto embrionário, alimentado pela força corajosa e teimosa de gente alertada para o problema. À sombra do anonimato, condensei aqui todas as histórias que vivi e que me marcaram para sempre. A violência doméstica é um problema real e crescente do nosso país que mata cada vez mais mulheres e que marca um nº incalculável de outras. Via de regra, os agressores são homens - e não raro, mulheres - marcados por sérios problemas de auto-estima. A violência doméstica contra idosos, está a assumir níveis de preocupação social urgente. Este, é um problema de todos nós e acontece debaixo dos nossos narizes, todos os dias e começa sempre com um grito.]

O desafio inédito do Papa Francisco

Deixo abaixo o link para o questionário que o Papa nos pede para respondermos com vista à preparação do Sínodo da Família. É uma acção inédita de um Papa, também ele, inédito. Aos que quiserem participar, arranjem um tempinho. Nesta versão online da Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa, a resposta é mais simples e pode ser enviada também online.

Creio que a participação nesta iniciativa é um contributo importante que cada um de nós pode dar para o futuro da Igreja e seria uma pena deixarmos um pedido destes sem resposta.

O Link: http://familia.patriarcado-lisboa.pt/sinodofamilia

Inaugurar a época

Acabamos de nos lambuzar com o primeiro bolo Rei do ano. Sim, um bolo inteiro, a servir de sobremesa ao jantar familiar que inaugura a semana.

Descobrimos que o petiz gosta de frutas cristalizadas. Não é para todos. Cada quadradinho colorido que ficou no prato da mãe foi aspirado a preceito.

No lado oposto da mesa, a irmã e a prima contam uma à outra que "antigamente" - leia-se, quando eu tinha a idade delas - o bolo Rei trazia uma fava e uma prenda embrulhada em papel e que quem ficava com a fava, tinha de pagar o bolo seguinte. Uma das miúdas levanta-se e vai buscar uma caixa prateada, esquecida numa mesa qualquer da casa de jantar. Tira-lhe a tampa com cuidado e dá a conhecer à outra o seu conteúdo: dezenas de prendas do bolo Rei que eu e o meu irmão fomos guardando ao longo dos anos. Sai de lá uma mola da roupa, uma medalha, uma chupeta, um burro, uma flor, uma luva, uma menina, um dado. Coisas do antigamente, de um tempo sem normas de segurança alimentar que asseguram que, em momento algum (passado, presente ou futuro) alguém vá desta para melhor com um galo de Barcelos atravessado no gasganete.

Haja paciência!

Mas soube bem, o bolo, quentinho e com manteiga. Não sobraram nem as migalhas.

Dos dias

Descobri ontem que Pierre Bonnard pintou a mulher dezenas de vezes ao longo da vida. Retratou-a pela casa, muitas vezes, na nudez própria da intimidade doméstica. O casamento foi inspiração para um acervo artístico arrancado ao quotidiano, às coisas banais, que estão lá, inexoravelmente, todos os dias. A mulher ao acordar, a tomar banho, a trocar de roupa, a pentear o cabelo, a por a mesa, a ler um livro. 

Há um quadro em que a retrata de pé, à frente de uma lareira, com uma esponja na mão, num ritual de banho. A imagem parece quase encenada mas na casa do pintor havia, efectivamente, uma lareira na casa de banho e um espelho por cima da mesma. Tudo é verdade neste quadro, excepto o corpo da mulher que, à data em que foi pintado, já tinha mais de cinquenta anos e, porém, Bonnard continuava a retrata-la como se estivesse na frescura da juventude, como a dizer que a vida de ambos guardava ainda a doçura dos primeiros tempos, a mesma linha esguia e recta de um amor recente, um reflexo de encantamento de uma vida que ainda agora começou a ser partilhada. Às vezes, as coisas do amor não se dizem com palavras grandes e inequívocas, mas encontram-se no avesso, na leitura enviesada que requer a atenção.

Hospedeira

[2012, numa chegada a Lisboa]

Se, na minha meninice, me perguntassem o que queria ser quando fosse grande, eu responderia, convicta: Hospedeira!

Era assim, num tempo em que secretárias de tampos largos e cobertas de livros, ainda não exerciam em mim uma atracção irresistível, mas, sobretudo, num tempo em que as viagens de avião não implicavam exercícios relaxantes, terços repetidos, rezas e ladainhas e, não raro, metade de um comprimido calmante partilhado com a amiga sentada no banco do lado.

"Hospedeira", porque em miúda viajava entre ilhas açorianas como quem apanha o autocarro e, nas viagens a Lisboa - quando não eram feitas no funil barulhento de um aviocar da armada -, eu olhava para aquelas mulheres que flutuavam o corpinho pelo corredor e pensava com os meus botões que aquilo não devia ser má vida, andar por ali a distribuir sorrisos e sumos de laranja, com a cabeça nas nuvens e os pés pelo mundo.

Depois aconteceu aquela coisa fatal como o destino, ou seja, cresci e, com a idade, veio o medo das alturas, dos poços de ar, das turbulências, das hélices, dos ventos, dos pássaros que insistem em sobrevoar a pista. Com a idade, desapareceu aquela adrenalina que me fazia sorrir quando o avião acelerava os motores ou metia os travões a fundo. Com a idade, aconteceu ainda ficar colada ao tecto de um avião, três vezes, algures entre as Caraíbas e Nova Iorque e aterrar numa pista em miniatura na ilha das Flores, com o mar a rematar o asfalto. Com a idade, descobri ainda que não há hospedeira que se preze que não tenha as pernas castigadas de varizes e que não se queixe da dificuldade de manter uma vida familiar normal ou da burocracia dos vistos para poder cumprir viagens para certos destinos. Como em tantas outras vertentes da vida, a idade faz destas coisas às pessoas, o medo em vez da adrenalina, a maleita circulatória em vez do glamour.

Hoje, viajo porque encaro a viagem como uma bênção elástica para a alma, um trampolim expansivo de mim mesma, uma oportunidade para gozar amigas e família em cenário de descoberta, mas regresso sempre, feliz e grata, por ter aterrado e ver-me de pés assentes no solo, onde - aprendi com a idade - voos altos também acontecem.

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