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Outro Sentido

Outro Sentido

Lis(boa)

Saio a porta de uma reunião difícil e dou de caras com os bancos verdes do Jardim do Príncipe Real; penso com os meus botões que não há chatice que perdure em certas zonas da cidade de Lisboa - não é possível, simplesmente.

Recordo-me que ainda ontem ao jantar, a minha mãe relatava a conversa tida com um brasileiro a passar férias em Portugal que dizia que Lisboa, para além de ser cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, é uma cidade assumidamente emoldurada pelo Tejo, ficando-lhe gravada a impressão de que, de qualquer canto, é possível vislumbrar o Rio que assume assim papel principal e estruturante na beleza urbana que nele ancora.

Quem, como eu, se sinta sempre turista em Lisboa, percebe esta verdade a cada instante.

Saio pois da reunião - a caminho do carro estacionado num beco que não foi pensado para estacionar carros -, dou dois passos pelo meio do jardim que fervilha de vida à hora do almoço e lá está ele, o Rio, no fim de uma ruela cuja inclinação justifica as famosas colinas, com a ponte altiva a erguer-se ao céu, como se fosse uma grinalda ondulante, pendurada no ar em dia de festa. Se não bastasse o cenário pitoresco da correnteza de fachadas descendentes, com as suas varandas de ferro forjado, teríamos sempre o Tejo, lá ao fundo, a dar à cidade a certeza de um remate único.

Hannah Arendt

 

Quem viva das lides do direito, sabe que o exercício intelectual de colocar um homem médio no lugar de determinado sujeito concreto para avaliar um acto, é argumento frequente de qualquer alegação de recurso que se preze; pretende-se, com tal raciocínio, colocar uma qualquer pessoa, no mesmo ambiente, no mesmo lugar, no mesmo tempo do sujeito da acção, para, assim, avaliar o seu comportamento à luz da Lei - não de uma lei qualquer, mas da lei aplicável àquele momento em particular.

Esta forma de pensar é epidémica e facilmente transferível para tudo na vida, é como se ganhássemos uma estranha inclinação para calçarmos os sapatos do vizinho e simularmos os nossos próprios passos depois de apertados os atacadores.

Talvez por isto, sempre que penso o tema do extermínio nazi - e confesso que é assunto em que tropeço bastante -  questiono-me o que teria eu feito, se fosse judia a viver na Alemanha do início dos anos quarenta, ou seja, em que momento é que eu teria percebido que tinha que largar tudo e fugir. Do mesmo modo, obrigo-me a vestir a pele do lobo e a pensar o que teria eu feito, se fosse alemã ariana a viver naquela mesma Alemanha.

Acontece que eu sou portuguesa a viver no despontar do século XXI e pensar desta forma, deve-se, tão somente, à formação jurídica que me moldou o pensamento e a uma família que me ensinou a questionar a vida à mesa do jantar.

 

Vem isto a propósito do filme sobre Hannah Arendt, uma judia alemã que conheceu um campo de concentração em França durante a segunda guerra, que viu morrer os seus e que sobreviveu para contar, que sentiu na pele e na alma a amputação nunca sarada daquele horror e que dedicou grande parte da sua vida a pensa-lo.

O filme, não podendo - não querendo, certamente - transportar para a sala de cinema o imenso acervo filosófico que Hannah produziu, procura, não obstante, fazer-se suporte de memória colectiva, lembrete daquilo que uma mulher, sendo-o ainda, pode trazer à forma como pensamos a monstruosidade de que somos capazes.

É o ano de 1961, e Hannah está em Jerusalém, na qualidade de repórter, a assistir ao julgamento de Adolf Eichmann, um oficial das SS responsável pela organização dos transportes de judeus para diferentes campos de concentração; um Nazi a ser julgado em Jerusalém, menos de vinte anos após o fim da guerra, quando todas as feridas estão abertas, a memória permanece viva, e a maioria dos sobreviventes do Holocausto regressou, precisamente, àquela cidade.

É nesta condição e neste contexto que Hannah escreve cinco artigos para o jornal The New Yorker nos quais explora as suas impressões sobre o julgamento, lançando pelo mundo uma onda de revolta que a apelidou de anti-semita e traidora do seu próprio povo. De facto, ao invés de condenar apenas os actos do homem sentado no banco dos réus - e apesar de os condenar efectivamente -, Hannah dá por si a questionar-se sobre as razões desses actos, ou seja, a fazer o exercício de colocar um homem médio no lugar de Adolf Eichmann e perguntar-se o que esse homem teria feito numa sociedade profundamente culturizada para odiar judeus até ao limite da lei que, ao invés de dizer "não matarás", excepcionava, por escrito: àqueles, matarás. Hannah ouve o Réu dizer repetidamente que cumpria ordens, percebendo que ele era uma peça de uma engrenagem infinitamente maior, que se movia toda ela sequencialmente numa única e tenebrosa direcção. Aquele homem era, como a própria disse, um burocrata, educado para não questionar, não procurar nada para além da ordem que lhe é dada, um homem de um regime totalitarista onde o medo exerceu - também nos seus - um papel importante de negação do ser humano, o impedimento de pensar para além da ordem imposta.

Se tal não bastasse, Hannah vai mais longe ainda e, apoiando-se no depoimento de judeus registado neste julgamento e no julgamento de Nuremberg, admite ainda que no medo e na impossibilidade de resistência ao monstro enorme, os próprios judeus desempenharam um papel na morte dos seus, ao colaborarem, também eles com a máquina imbatível, através de comissões que não tinham outra alternativa que não existir.

 

Foi isto que Hannah ousou dizer ao mundo: não que aquele homem era inocente, porque não era - o próprio admitiu em julgamento a divisão interior entre a moral e a ordem a cumprir -, mas que valia a pena questionar as razões dos seus actos, que valia a pena pensar no que está por trás do mal, naquilo que o dilui e banaliza. As páginas que escreveu são de uma coragem tremenda, de uma força intelectual galvanizante, são páginas de viragem na forma como hoje pensamos um momento negro da nossa história, porque pensar o mal é rever o caminho que a ele conduziu, para que não se repita.

Bom dia

Sentar-me a tomar o pequeno almoço num café perto de casa, olhar à minha volta e constatar que há muita coisa a acontecer no mundo logo de manhã, que se podem contar histórias à volta de uma mesa com dois galões e duas torradas com manteiga. Já houve quem escrevesse romances magistrais que começam precisamente assim, com um casal a tomar o pequeno almoço, no mesmo sítio, na mesma mesa, todas as manhãs.

Um dia bom, como na música do Djavan.

Não sei ao certo o que é que faz um dia bom e creio que a bondade dos dias varia consoante as semanas, os meses e as estações do ano, mas sei que hoje não fiz nada de relevo e o dia foi bom; sei que um dia pode ser bom sem um especial desvio à regra, sem sair dos seus lugares habituais, sem aspirar a voos altos e sem procurar outras distracções que não aquelas que estão ali, à mão de semear.

Hoje, pintei a mesa da varanda e replantei canteiros, descobri que consigo manter uma micro horta com hortelã, manjericão, alecrim e alfazema. Li um livro, uma revista e um jornal, vi um documentário sobre jaguares que ficaram órfãos e que foram acolhidos por um casal brasileiro que os deixou crescer em cativeiro para depois os libertar à mercê de uma selva rodeada de criadores de gado que lhes dará um tiro ao primeiro avistamento. Cozinhei o jantar de hoje e o de amanhã e organizei a comida do resto da semana. Lavei louça, brinquei com o meu gato, arrumei coisas na arrecadação e sim, tive um dia bom.

Acredito que um dia bom pode ser banal e que, às vezes, é preciso sairmos do plano dessa banalidade para reconhecermos a paz de um dia bom, a quietude, a serenidade e a lentidão do tempo. Um dia bom pode ser feito de trabalhos mecânicos que nos dão prazer porque trazem consigo a sensação de cuidado e criação, um resultado que perdura e, no meio dos gestos que trabalham, também nos vêem ideias à cabeça. Dizem que pensamos melhor quando mecanizamos uma tarefa - também li isso hoje num jornal qualquer durante este dia que foi bom - há essa ideia de que a criatividade se desenvolve quando o nosso cérebro está desocupado mas o resto do corpo não e, assim, num dia bom surgem ideias para livros, soluções para problemas de trabalho, memórias inquietantes, lembranças de pessoas queridas a quem temos vontade de telefonar, só porque sim, e ao falarmos com elas, o nosso dia bom fica ainda melhor. Um dia bom pode ser surpreendente pela quantidade de coisas que cabem dentro dele, sobretudo, se as fizermos sem horários e sem prazos a cumprir. Chegada ao fim de um dia bom, olho para as horas decorridas e tenho a sensação reconfortante de que hoje não fiz nada de especial e de que valha a pena falar, mas o meu dia foi tão bom!

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