Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Outro Sentido

Outro Sentido

Zaragata

Hoje de manhã, a acompanhar o café-de-abrir-a-pestana-e-acordar-para-avida - gosto muito quando me chego ao balcão e me perguntam já com o café a entrar na máquina; cheio? - li no livro da mala - isto é, o livro leve que carrego sempre comigo dentro da mala - a palavra zaragata.

É, creio, das tais palavras que caíram em desuso; ouve-se falar de andar à pêra, andar ao murro, da bela da pancadaria, da carga de porrada, da tareia ou do tareão mas há muito que não tropeçava na palavra zaragata.

Deixo-a sair da boca a arrastar o "z"; zzzzzaaaaaragata; tem qualquer coisa de cortante e brejeiro, é uma palavra indefinida, não se vêem socos a esborrachar lábios nem joelhadas indignas, é mais um arrufo, palavras gesticuladas, confronto e empurrões mas nada de especialmente violento, como se um grupo de arruaceiros se encontrasse com toda a preguiça para fazer mais e melhor.

Parece-me uma boa palavra para segunda feira em rescaldo de eleições, imagino aquela gente todas dos partidos a zaragatearem uns com os outros e a perguntarem com maus modos quem é aquele independentezinho impertinente e filho da mãe que lhes roubou os votos. Em todo o lado, excepto na Madeira, claro, estou em crer que o Alberto João vai partir para a porrada mesmo!

Sim, sim, eu sei que é politamente incorrecto regozijar-me com o primeiro dia de chuva a seguir ao verão...

Mas eu gosto; gosto deste cheirinho maravilha a terra molhada, desta humidade ainda quente que paira no ar, deste início outonal em câmara lenta, de constatar que as árvores à frente do escritório começam a deixar um manto de folhas na calçada.

Sempre gostei da alternância das estações e não me despeço do verão com lágrimas saudosas.

Ser mais alto

[Setembro, Largo de Camões, Lisboa]

Vejo-as daqui, as gentes de agora, entre caravelas e sereias de calçada, esquecidas dos perigos e das guerras esforçados de outros séculos. Vejo-as zangadas com o Reino; com as suas figuras curvadas, os seus gestos bruscos, a sua pressa apressada para coisa nenhuma e um fado arrastado que carregam na sombra. Às vezes, gritam uma coisa próxima da indignação, usam palavras de ordem desinspiradas e rebuscadas de revoluções feitas de flores lá no passado recente; hasteiam bandeiras e dizeres mas tudo aquilo é nada, só um arrastar colectivo, o desalento de muitos em vez de ser de um só.

Quando os pombos não me cagam o olho que me sobra, vejo ainda o outro poeta, embalsamado no meio da rua. Pessoínha enfiada e magrela, com um bigodinho insignificante e óculos finos perdidos na entrada do Metropolitano. Dali, não vislumbra o rio, o castelo, a baixa, os teatros, as igrejas, as ruas que palmilhou e a cidade que conheceu. Deixa-se fotografar por gente que abusa do seu colo, do seu lado, do seu chapéu e do fato composto, que sorriem em pose feita e "vv" de vitória nos dedos para a posteridade estática. Já os vi a perguntarem pela estátua do poeta; estão ali, aos meus pés, mas perguntam pelo fulano bipolar, tripolar, quadripolar - que um só homem não lhe chegava e mesmo assim dizia que não era nada, que nunca seria nada, que não podia ser nada. Pobre homem, que queria todos os sonhos do mundo e ficou sentado ao nível do chão, de olhos postos numa Rua inacessivel a todos os pensamentos.

É o que eu vejo daqui, mas eu estou cansado e velho e esquecido. Sei que me leram na escola, durante muitos anos, mas não sei se me lêem ainda. Pesa-me a espada caída, a coroa de louro (será louro?) própria das divindades do tempo, Rei do Reino de Áquem e de Além dor. Pesam-me até as páginas que guardo junto ao peito que dizem ilustre e que sabem lusitano. Podia cessar tudo, ficar-me, apenas, mendigo, que agora, as eras são outras e valores mais altos se alevantam.

O poder de um segredo

[Do filme, O Leitor, de Stephen Daldry, 2008, o filme que revi no fim de semana passado]

 

 

Há filmes que merecem ser revistos, não só porque são extraordinários - literalmente, fora do ordinário ou comum - mas também porque, numa primeira visualização, somos de tal modo envolvidos na teia do argumento - e, no caso em apreço, das interpretações -, que nos podem escapar os detalhes, as mensagens subliminares largadas no écran como um caminho de migalhas para olhos atentos; algo que se anuncia, que se avisa.

 

Logo no início desta história, há um momento em que se mostra o rapaz, Michael Berg, numa aula de literatura na qual o professor, desenha a giz num quadro preto, a palavra "Odisseia" e diz o seguinte: 

«A noção de segredo é o pilar da literatura ocidental. Pode dizer-se que toda a ideia de personagem é definida por gente escondendo informações específicas que, por várias razões, umas vezes perversas, outras vezes, nobres, estão decididas a não revelar».

Neste pedaço minúsculo do filme, enquanto aquele estudante sai da aula e foge da escola, por entre corredores e escadas, para ir a correr ao encontro da mulher mais velha que o seduziu - guardando, como tal, ele próprio, o seu segredo -, é-nos dado um lampejo de toda a história que nos espera e que envolve essa mulher, Hannah, que esconde um ou mais segredos por revelar.

De facto, este é um filme sobre o valor dos segredos, da importância que lhes damos, das imagens que construimos e das máscaras que colocamos para os ocultar, com receio da forma como poderiamos ser julgados, olhados, caso essa infâmia assomasse ao mundo.

Aquela mulher guardou com ela - até à morte - um segredo íntimo, alicerçado numa vergonha para ela inconfessável. Muito embora nos apercebamos, em determinada fase do filme, que cada gesto dela nos revela esse segredo, ele nunca é exposto, certamente sugerido, mas nunca confirmado.

Há, porém, um momento crucial em que Michael - então estudante de Direito - assiste ao Julgamento de Hannah que se vê na iminência de ser condenada pelo seu passado sombrio enquanto guarda em Auschwitz (segredo que Michael também só descobre aí) e tem de tomar a decisão de revelar, ou não, o segredo que dela conhece, podendo assim salva-la de uma condenação certa ou, simplesmente, nada dizer.

Creio que fica no ar a razão que o levou a agir da forma que agiu; ficamos sem saber se o segredo de Hannah é mantido porque Michael decidiu respeitar a vontade dela ou se Michael decidiu, também ele, manter em segredo a relação amorosa que teve com aquela que fora, afinal, uma colaboradora Nazi, razão de vergonha para ele próprio. A verdade é que, no momento em que um colega o confronta com o facto de conhecer a arguida, a resposta de Michael é rápida e ríspida: «Eu não conheço aquela mulher», como que a dizer, eu não me envolvi com a monstruosidade dos campos de extermínio, eu não amei uma mulher que fez o que esta fez, que colaborou com semelhante horror.

O segredo mantém-se, mas com as suas consequências. A relação proibida dos dois fica em segredo mas marca Michael para o resto da vida. O segredo de Hannah permanece mas esta é condenada a prisão perpétua.

No fim do filme, Michael vai ter com a sobrevivente de Auschwitz que depôs contra Hannah e conta-lhe, finalmente, o segredo guardado durante mais de vinte anos. Aliviado desse fardo, comenta: «eu nunca tinha contado isto a ninguém»; ao que aquela responde: «se calhar devia».

É neste final, neste braço que Hannah estende através de Michael, que se fecha o círculo, que aquele homem - que em miúdo amou uma mulher proibida com um segredo-, começa, então, a contar à própria filha, a história verdadeira desse amor, recuperando através das suas palavras, as primeiras imagens do filme, e encontrando, assim, para ele e para ela, uma absolvição final.

Cai o pano. 

Pág. 1/2

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.