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Outro Sentido

Outro Sentido

Um bikini pequenino às bolinhas amarelas

- Um biquino novo?

- É, pai.

- Você comprou um no ano passado!

- Não serve mais, pai. Eu cresci.

- Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.

- Não serve, pai.

- Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.

- Maior não, pai. Menor.

 

Aquele pai, também, não entendia nada.

 

Luis Fernando Veríssimo, O melhor das comédias da vida privada.

Espantalho

Digo coisas de espantalho, coisas que afugentam quem de mim se aproxima com a cartilha habitual do amor, enformada e cozinhada à moda de sempre, como se não houvesse outras receitas capazes de compor a travessa e dar ao prato um gosto doce. A olhos menos atentos, pode parecer que vivo fora do amor, sempre paralela, avessa, pedra.

Nunca quis ser o Oásis do deserto de ninguém, a última coca-cola, o ar que se respira; não quero ser a razão, o impulso, a necessidade (aterroriza-me a necessidade de mim). Não quero que terminem as minhas frases, não quero ouçam a mesma canção, não quero que me digam que sou a primeira ou a última, que depois de mim não há nada, não quero ser dona, não quero ser tudo, o extremo de coisa nenhuma. Não quero ser a armadilha poética do desespero; My north, my south, my east, my west, my working week, my sunday rest, my noon, my midnight, my talk, my song. Não quero esse crude, essa anilha.

Para seres grande, sê inteiro, precisamente para que nada em ti seja exagero ou exclusão, para que o encontro de dois seja a bênção do acrescento do outro, a sorte da acumulação, a possibilidade infinita da continuação porque a inteireza de um conhece a inteireza do outro, enriquecem-se, misturam-se, ampliam-se, explodem. Quero que a frase que encontra a minha já esteja formada para que nela coincida ou a questione, quero que a minha bússola se desbaratine nos azimutes porque alguém se orienta pelas estrelas e elas levam a outro caminho, sem pontos cardeais marcados no mapa; não quero ser o fim mas a possibilidade, não quero posse nem latifúndio, mas quero terra fértil e um arado com duas cordas ou então um mar calmo que nos deixa boiar, porque a deriva balançante é sinónimo de confiança e, de resto, quero o dia de hoje, apenas, sem norma.

Da natureza construtora dos livros

Os seres humanos têm necessidade de histórias, provavelmente por estas serem tijolos de aprendizagem sem os quais não haveria verdadeira sabedoria. O processo narrativo existe em todas as culturas e a nossa civilização criou um acervo literário de alta complexidade, que pode ser lido de muitas formas, em sequências diversificadas, que moldam pessoas diferentes entre si. Esta tradição é a nossa maior riqueza e cada um de nós, tantas vezes de forma involuntária, cria e recria em cada leitura a sua própria consciência. Os leitores crescem e mudam. A sua memória dos livros também se transforma. Os volumes alinham-se numa biblioteca mental onde se casam objectos que, para outro leitor, estarão estranhamente associados.

Pedro Rolo duarte, aqui.

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