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Outro Sentido

Outro Sentido

Take this waltz

A versão portuguesa recebeu o nome infeliz de "Notas de amor", mas no original, o filme vem baptizado com a música de Leonard Cohen, Take this waltz que, por sua vez, encontra raízes num poema de Garcia Lorca. O filme dança à volta do tema das relações amorosas e o estar entre duas coisas, entre o ponto de partida e o de chegada, aquele meio em que se faz escala num aeroporto para trocar de avião, é nesse entretanto, é nessa terra de ninguém - suspensa - que as decisões se tomam, é aí que o medo ou o impulso de avançar são pesados e ponderados, vezes sem conta, é nesse espaço de tempo que somos malabaristas a tentar manter as duas bolas no ar. O estar entre coisas é uma consequência de estar vivo, diz-se a dada altura, mas ninguém fica aí muito tempo. Tenta-se diariamente agitar as águas calmas do nosso mar rotineiro mas há sempre a adrenalina daquele carrocel que gira a uma velocidade alucinante, com a música muito alto e cores rápidas a deslizar por todo o lado, os corpos a serem lançados um contra o outro, sempre mais depressa, sempre mais alto, video killed the radio star, In my mind and in my car, we can't rewind we've gone to far, mais depressa, mais à roda, estonteante, soltam-se os braços ao alto, a música sobe de tom e, subitamente, pára, esgotou-se o tempo, parou a música, cessou o rodopiar, acenderam-se as luzes e à nossa volta há apenas uma geringonça metálica, num buraco escuro e sinistro onde um homem gordo abre a portinhola de segurança para sairmos. Vem de lá o medo, novamente, e resta-nos encaracolar e rebolar para a nossa toca de conforto, uma vez mais, até a dormência nos incomodar e ser preciso correr, mergulhar, decidir, para lá do medo, para lá da pena, para lá de tudo, porque é preciso, porque estar vivo é preciso mesmo que o outro ainda não tivesse visto sequer que o chão se estava a quebrar debaixo dos pés, porque é sempre assim, há quem escolha nunca ver que o tsunami está na costa. E então abraça-se a vertigem, é-se feliz na vertigem, take this waltz, take this waltz, take this waltz it's been dying for years e dança-se, roda-se, num espaço aberto e vazio, expectante de possibilidades, onde cama é o centro de tudo e é usada, é mesmo muito usada, e à volta dela vai nascendo uma casa, uma cozinha, um candeeiro, uns cortinados, todos os adereços que tornam um espaço nosso e a cama lá no centro daquele open space, e a vida a girar à volta dela, a rodopiar à volta dela, depressa, take this waltz, take this waltz, With it's "I'll never forget you, you know", até que a vida toma conta de tudo - toma sempre conta de tudo porque não fomos desenhados para viver a rodopiar e a certa altura temos de parar -a vida invade a casa, remete a cama para o seu lugar a um canto e no centro instala-se um sofá e um televisor, um lugar de aconchego, com mantas e almofadas e é tempo de se segredarem coisas do coração ao ouvido, num conforto estagnado que é bom. E a vida avança (não rodopia) até ao dia em que o passado bate à porta e somos confrontados com aquilo que largamos lá para trás, os estragos que fizemos, o que de bom lá ficou. E aí percebemos que a única solução é seguir em frente e que o carrocel somos nós que o fazemos, somos nós que o procuramos, ele está lá, sempre à nossa espera, dentro de nós, take this waltz.

[IMDB]

Eu gosto é do verão

Não sei se estão trinta e tal graus lá fora mas sei que está um calor danado. Há dois dias atrás o meu termómetro marcava trinta e tal graus e não saía da minha boca nenhum som audível a ouvidos humanos. Dizem que os gatos sentem quando os donos estão em baixo e eu acredito porque há dias que não me largam a peúga e esticam-se no chão da cozinha, com as patas estateladas aos lados para absorverem o máximo de fresco e depois rebolam sobre o corpo e esticam a barriga à corrente de ar. Ninguém conhece melhor a preguiça do que os gatos. Assim sendo, estou em casa, não na praia ou na piscina ou no campo; em casa, a curar uma bela gripe, resultado da tecnologia de um ar condicionado em ambiente de trabalho. Tenho as janelas abertas e ouço lá fora os mergulhos na piscina do prédio da frente misturados com o Clair de lune de Debussy tocado pelo meu vizinho pianista. É estranho, mas é lindo. Estou em casa num dia quente de verão, ouço o barulho de miúdos a mergulhar na água, música clássica e passarinhos - parece piroso, eu sei - mas é o que se ouve a esta hora, música, crianças, água e passarinhos.

A silly season

A silly season aproxima-se a passos de gigante e as temporadas televisivas de algum interesse rumam ao seu fim, sem misericórdia e, quase sempre, com um personagem relevante a ir desta para melhor.

Final da Anatomia de Grey, da temporada 1 da Guerra dos Tronos, de The Good Wife, do Era uma Vez, do Da Vinci's Deamons, do Sherlock, do chamem a parteira, do Bones. Vêm aí os queridos meses de Julho e Agosto, preenchidos de repetições e programas made in Portugal, em directo de uma qualquer Praça Pública do País, carregados de gente com o panamá no alto do cocuruto ou o boné com o alto patrocínio de uma cervejeira, as criancinhas ao colo dos pais a espreitar do canto do televisor, muita música pimba e os directos do Marcelo a ser transmitidos de uma Marina algures ao sul. Valha-nos o sol, a estante de livros e os filmes pirateados ao longo destes meses de hibernação.

A Biblioteca da Universidade

Visitei esta biblioteca magnífica há bem pouco tempo. Uma das curiosidades apontadas pelo guia da visita é a de que, todas as noites, os funcionários da biblioteca cobrem as mesas com mantos resistentes para que a belíssima madeira de que são feitas não seja manchada pelos morcegos que entram e ajudam - de forma bastante ecológica - a matar tudo o que é bicho que possa danificar os milhares de livros deste espólio. Verdade ou não - e admito que o seja - é curioso. As estantes são construídas em madeiras exóticas oriundas do Brasil (a própria qualidade das estantes contribui para a preservação dos livros) profusamente decoradas com motivos orientais e talhas douradas. O estilo Barroco é riquíssimo e faz desta, uma das mais celebres e maravilhosas Bibliotecas do mundo.

[mais aqui]

Do absurdo

Sei de uma escola onde hoje se fizeram exames aos alunos cujas iniciais do nome começavam pelas letras "A" a "R"; assim, safaram-se os Antónios, as Anas, as Marias e os Mários, os Ruis, as Saras, os Filipes, os Joões e as Katias. Mas lixaram-se os Vascos, as Veras, os Tiagos, as Teresas, as Sofias ...

Feito tatuagem

Quero ficar no teu corpo

Feito tatuagem

Que é para te dar coragem

Para seguir viagem

Quando a noite vem.

 

E também para me perpetuar

Em tua escrava

Que você pega, esfrega

Nega, mas não lava.

 

Quero brincar no teu corpo

Feito bailarina

Que logo se alucina

Salta e te ilumina

Quando a noite vem

 

E nos músculos exaustos

Do teu braço

Repousar frouxa, murcha

Farta, morta de cansaço.

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