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Outro Sentido

Outro Sentido

Gostar de homens

(Paul Newman e Joanne Woodward)

Há uma etiqueta que vai circulando por blogs de variados autores - vá, são mais autoras - que se chama "gostar de homens", veja-se, a título de exemplo, este caso da Bomba inteligente, que (inteligentemente) fala de homens que são uns grandes borrachos, que correspondem às expectativas das mulheres e que são giros e fortes, cavalheiros e corajosos. Podia ser apenas aquela versão conhecida da visão de um jogo de bola relatado por uma mulher que diz que aquele jogador louro passou a bola ao moreno de olhos verdes, que fintou o outro com belos abdominais e que marcou golo ao coitado do guarda-redes que era alto e tinha uma boca linda, apesar de namorar com aquela convencidona metida a boa que faz entrevistas nos balneários, mas não, é bem mais do que isso, é a perspectiva de quem vê o filme ciente de que o realizador é uma mulher que, já agora, também gosta de homens e que aproveita para colorir a tela de uma história que tinha tudo para ser cinzenta. Convenhamos, afinal de contas, no mundo do cinema há muitos homens assim, indecorosa e escandalosamente bonitos, a corresponderem às expectativas das mulheres que deles gostam e um homem bonito não faz a história necessariamente má, antes pelo contrário.

Tereza Baptista

Tereza Baptista cansada da Guerra era o Jorge Amado que me faltava porque, na idade em que li o autor, este ficou retido na prateleira dos livros proibidos, alegadamente, porque demasiado violento para olhos e sensibilidades tão jovens. Nessa época, marcharam outros - Jubiabá, os pastores da Noite, os velhos marinheiros, o maravilhoso capitães da areia. Li agora, finalmente, a Tereza Baptista (sim, no título, vem com "Z") que, nas últimas páginas do livro, é finalmente, cansada da Guerra pois até lá é ainda Tereza Mel de Engenho, Tereza com medo, Tereza medo acabou, Tereza favo de mel, Tereza boa de briga, Tereza Navalhada, Tereza de Bamboleio, Tereza dos sete suspiros, Tereza do pisar macio, Tereza de Omolu, entre outros. Esta será uma das perspectivas engraçadas na construção do livro, a de contar a história da mulher pela sucessão dos nomes pelos quais foi conhecida. No demais, é um Jorge Amado típico, a história de mais uma mulher épica, se a ela lhe juntarmos as antecessoras Gabriela e Dona Flor e a sucessora Tieta do Agreste; o autor gosta, definitivamente, do universo feminino e cria personagens que se elevam a heroínas centrais de livro. Com isto dito e tendo já lido outros, este não me marcou e achei mesmo que a história é mastigada e arrastada até à exaustão, apressei o final, já ao cansaço. Por outro lado, confirma-se como a história violenta que me anunciaram, validando-se a opção de livro proibido em idades menos preparadas. Mas é também um livro marcado pelo erotismo e pelo cunho político, tanto mais que foi escrito em plena ditadura militar brasileira.

Começamos aos treze anos, com uma Tereza arrancada a uma infância despreocupada para ser vendida a um fazendeiro pedófilo e brutal que decide ensinar-lhe o respeito e o medo. Este quebrar da vontade de Tereza é violento e assim descobrimos a personagem com medo que amadurece de forma precoce para se tornar depois numa mulher de índole valente, corajosa e decidida, que conhece o amor, a amizade, a alegria, o sofrimento, o samba, a saudade. Tereza não se conta a si própria mas pela voz daqueles que a vão conhecendo e que assumem o papel de narradores. É assim que, com a dela, se vão contando ainda as histórias de outros que se entrelaçam na periferia. É um Romance rico, cantado em português brasileiro, com ritmo, piada, balanço no pé. Desta história só tenho mesmo a lamentar a sua extensão. É um Romance inteiro, história de vida, cheio, mas creio que, mais do que há uns anos atrás, noto a frase que está a mais, sinto quando o livro se conduz à força para o que já não é necessário, em suma, a falta de síntese, de depuração de texto é sentida de forma mais evidente e, neste caso, pesou na leitura do que podia ter sido uma grande história.

[Li o mesmíssimo livro que esteve guardado na prateleira durante tantos anos;  numa edição de 1973 das Publicações Europa América cuja capa é a que está acima]

D-J-A-N-G-O ... the D is silent!

Django, unchained, o novíssimo de Tarantino, é o Western Spaghetti no seu melhor, onde a marca do realizador aparece bem vincada nas cenas cuja violência sumarenta (muito molho e sangue e cabeças a explodir e etc e tal) é alternada com diálogos inverosímeis de humor subtil a que muitos poderão não achar piada nenhuma mas que a mim, arrancam gargalhadas sonoras. Opinião viciada, dirão, pois sou fã confessa de Mr.Quentin Tarantino, só que este filme é verdadeiramente bom e, ainda por cima, conta com a participação do inesquecível Christoph Waltz (o nazi afectado e perseguidor Judeus do Inglorious Bastards do mesmo realizador) que, aqui, faz o papel de um dentista caçador de prémios que mata gente a troco de dinheiro e cujo veículo é uma carroça desengonçada no topo da qual exibe um molar balançante anunciador do falso ofício. Nestes detalhes, Tarantino é imbatível, como o é também, nos preciosismos dos diálogos em que se explica e se diz aquilo que dificilmente sairia da boca das personagens em causa. A cena dos encapuçados em busca do preto a abater é um jóia, como o é também a história que relata a lenda de Broomhilda ou a cena em que Django se apresenta e soletra o próprio nome. Para além disto, voltamos ao absurdo das cabeças desfeitas e banhos de sangue à moda do Kill Bill. É sabido que a intenção do Realizador foi criar um filme que lidasse com o passado terrível da escravatura na América, sendo que o quis fazer à sua maneira e este é o resultado. De salientar ainda as interpretações maravilhosas de Leonardo DiCaprio, Jamie Foxx (na pele do Próprio Django), Christoph Waltz  e Samuel L. Jackson, sendo que, lá pelo meio, ainda se ressuscita Don Johnson (o tal do Miami Vice ...).

A relevância das primeiras linhas de um livro

"A dada altura depois de ele dizer a palavra pausa , enlouqueci e fui parar a um hospital. Ele não disse Não quero voltar a ver-te ou Acabou-se, mas ao fim de trinta anos de casamento, pausa foi o suficiente para me transformar numa lunática cujos pensamentos explodiam, ricocheteavam e chocavam uns contra os outros como pipocas num saco de micro-ondas. Cheguei a esta triste conclusão deitada na minha cama na Unidade Sul, tão carregada de Haldol que detestava até a ideia de me mexer. As vozes rítmicas e más tinham baixado de tom, mas não tinham desaparecido, e quando fechava os olhos via personagens de desenhos animados a correrem por colinas cor-de-rosa e a desaparecerem em florestas azuis. No fim, o Dr. P. diagnosticou-me um Transtorno Psicótico Breve, também conhecido como Psicose reactiva Breve, o que significa que somos genuinamente malucos mas não por muito tempo. Se a coisa dura mais de um mês, precisamos de outro rótulo. Aparentemente, é muitas vezes necessário um gatilho, ou, em jargão psiquiátrico, «um stressor», para esta forma particular de loucura. No meu caso, foi o Boris, ou, para ser mais exacta, o facto de ter deixado de haver Boris, de o Boris estar a ter a sua pausa."

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