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Outro Sentido

Outro Sentido

Calendário do Advento

Uma das memórias Natalícias mais queridas da minha infância é a do Calendário do Advento, cheio de janelas para abrir em cada dia até ao Natal.

Naquela época, atrás das portas de cada janela escondia-se uma imagem que, por sua vez, correspondia a mais um episódio da história do nascimento de Jesus. Os calendários do advento não vinham carregados de chocolates, mas sim de histórias e aquilo era, durante a época do Natal a minha bed time story, uma crónica um bocadinho encantada e contada entre pijamas quentinhos, luzes a piscar, cobertores, fitas brilhantes e bolas coloridas.

Em tempos, e num outro blog, resolvi fazer a minha versão do calendário do advento, ou seja, todos os dias, publicava um post com uma janela, e clicando em cima dela, ia-se parar a uma imagem alusiva à época

 

Este ano vou repetir a experiência [em principio sem links e tudo nesta mesma plataforma que não há tempo para começar outro] e assim, a partir do dia 1 de Dezembro (e até ao dia 24), terei aqui a minha versão actual de uma memória de infância, não para contar histórias mas para fazer um post diário alusivo à época, com a alegria e a nota positiva que este tempo pede.

O silêncio das noites de domingo

Lareira a crepitar, frio lá fora e cá dentro, lê-se disto:

"Em fins de Fevereiro, Beauvoir foi passar cinco semanas a Portugal. A sua irmã, Poupette, casara com o namorado, Lionel de Roulet. Roulet trabalhava no Instituto Francês em Lisboa e convidara Beauvoir para dar lá algumas palestras. Ela escreveu vários artigos sobre Espanha e Portugal, que sairam no Combat.

As duas irmãs não se viam há quase cinco anos. Poupette ficou chocada ao ver a roupa coçada de Simone e os seus tamancos de madeira e levou-a às compras de roupas novas. Portugal era um País rico em comparação com França, com abundância de comida, cabedal, sedas e outros bens de qualidade, «Nunca em toda a minha vida me entreguei a tal deboche», escreveria Beauvoir nas suas memórias. «As minhas palestras foram muito bem pagas e, numa tarde, reuni um guarda-roupa completo». Regressou a Paris com xailes e camisolas para as amigas e camisas para os amigos. Estava-se no princípio de Abril e para consternação de Beauvoir, Sartre ainda não voltara para casa".

[Sartre e Beauvoir - a história de uma vida em comum, Hazel Rowley.]

Slow motion ou talvez não

Dizem-me que a prática regular da meditação faz milagres, aproxima-nos mais da consciência de nós mesmos, permite alcançar uma serenidade própria de quem dedica tempo a uma procura orientada para dentro e que isso se reflecte por fora, na presença e na postura de quem sabe as suas fronteiras e prioridades. Dizem-me que torna a nossa vida melhor e que, de algum modo, atrai-nos a uma vivência espiritual que nos é inacta , que vive em nós, debaixo da pele, à espera de ser acordada.

Dizem-me.

Eu já tentei, confesso, mas o meu botão de off vem avariado de origem. Aquela de coisa de me sentar quieta e visualizar um espaço de conforto ou procurar o ritmo e a noção da minha respiração ou ainda tentar encontrar cada um dos pontos de energia vital, é um esforço cadencialmente interrompido pela lista de compras, o prazo do dia, o telefonema da tarde, o jantar da noite, a roupa que é preciso ir buscar à lavandaria, a musiquinha que estava a tocar no rádio logo de manhã, o outro que não telefona, a outra que não pára de telefonar e por aí adiante. Não há imagem de praia azul e ondas a desmanchar na areia que me ajude, convenhamos que sol e verão é cenário propício a muita coisa que não passa propriamente por estar quieta a olhar para os meus botões (ou alças de bikini ou whatever).

A chatice é que eu gostava realmente de tentar a coisa.

Do que me lembro, julgo que a vivência mais próxima que tive da experiência meditativa, foi fazer jogging no paredão. Só aí eu conseguia realmente limpar a cabeça e centrar-me apenas na minha respiração, vazio total, descanso absoluto, apenas mais um passo e a regularidade da inspiração e expiração [S. João, inspira-expira, Estoril, inspira-expira, Monte-Estoril, inspira-expira, Cascais (ai, uma caimbra, não lhe ligues, inspira-expira), Estoril novamente, inspira-expira, giro aquele, podia dar a volta (...), não, ignora, inspira-expira, S. João à vista, desacelera, ligeiramente, inspira-expira].

Mas com a coluna desalinhada e um joelho fora do lugar, jogging está fora do plano, pelo que me sobra qualquer outra alternativa, digamos, mais chata serena.

O Yoga é aquilo de que todos me falam. Já lá andei mas aquela coisa de repetir um mantra em voz alta não me convenceu nem um bocadinho, até porque, à boa maneira portuguesa, ficava a aula toda à espera que o vizinho do lado começasse e quando alguém se atrevia, o mantra era timidamente sussurrado, não fosse acordar a postura do socialmente correcto.

A tentativa caseira da disciplina meditativa não é assumidamente compatível com presenças felinas que consideram sempre uma dona imóvel, um óptimo local de repouso, independentemente da posição em causa, vale tudo.

Como porém, sou teimosa (capricórnio com ascendente em touro e mais não digo), agradeço, qualquer conselho para encarar este assunto de frente. Eu vivo a 100/h e preciso parar, mas parar mesmo, por dentro e por fora.

 

(OOOOOOOOhhhmmmmmmmm)

"Não te peço mapas, peço-te caminhos"

Às vezes, tropeço numa oração que me toca.

 

"O que te peço, Senhor, é a graça de ser.

Não te peço mapas, peço-te caminhos.

O gosto dos caminhos recomeçados,

com as suas surpresas, as suas mudanças, a sua beleza.

Não te peço coisas para segurar,

mas que as minhas mãos vazias

se entusiasmem na construção da vida.

Não te peço que pares o tempo na minha imagem predilecta,

mas que ensines os meus olhos a encarar cada tempo

como uma nova oportunidade.

Afasta de mim palavras,

que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.

Que eu não pense saber já tudo acerca de mim e dos outros.

Mesmo quando eu não posso ou quando não tenho,

sei que posso ser, ser simplesmente.

É isso que te peço, Senhor:

a graça de ser de novo."

 

(Padre José Tolentino de Mendonça)

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