Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Outro Sentido

Outro Sentido

Yo-Yo

Existem formas incriveis de acabar o fim de semana e ouvir Yo-Yo Ma e Kathryn Stott tocar Schubert, Chostakovitch, Piazzolla, Gismonti e Franck, num auditório da Gulbenkian cheio até no palco, é uma delas. 

Que grande concerto!

 

Aqui, um pouco da história contada pelo próprio com imagens de uma actuação aos seis anos (e Keneddy na assistência) pelo miúdo que começou a aprender a tocar violoncelo aos quatro.

 

Aqui, Yo-Yo Ma a tocar Astor Piazzolla.

Arquivo de memória ou violação de dignidade?

Há um misto de repulsa e magnetismo nas imagens jornalísticas de uma desgraça humana de grandes proporções como aquelas a que temos vindo a assistir nos últimos meses, tanto na televisão, como nos jornais.

 

"Repulsa" porque é impossível ficarmos indiferentes à evidente exploração da miséria alheia em proveito de um qualquer recorde de vendas ou audiências. "Magnetismo" porque, de uma forma ou de outra, somos inconscientemente atraídos pelo horror do que nos poderia acontecer a nós.

 

Pessoalmente, dou por mim a virar os olhos a algumas dessas imagens, recuso-me a fazer parte do aproveitamento sensasionalista de um falso jornalismo de reportagem que viola até à humilhação aquilo que é notícia, em que uma catástrofe é transformada em dias de novela dramática, onde se suga até à última gota a lástima de quem sofre, onde se abusa até ao último fotograma o limite da dignidade de quem tem o medo estampado nos olhos e a morte por todos os lados. É simplesmente, algo que me embaraça.

 

Talvez por isso, a tal fotografia vencedora do world press photo deste ano, o seja, em tudo, uma grande fotografia de reportagem.

  

Em contrapartida, a já tão falada capa da Revista Visão desta semana, é o cúmulo da vergonha, o desmanchar inútil do que já era conhecido, a definição última da linha que uma publicação noticiosa não pode ultrapassar, a profanação do distanciamento mínimo do sofrimento alheio em prol do valor maior do respeito.

 

A questão que se coloca é a de saber onde fixar esse limite ou se, por exemplo, ele deverá ser diferente para a catástrofe que tem causa humana e para aquela outra que tem causa natural. Poderá a imagem do primeiro caso ir mais longe do que aquela do segundo?

Entre a fotografia da menina nua queimada por napalm e a dos corpos enlameados que são resgatados de um automóvel após as cheias da Madeira, há diferenças quanto à admissibilidade da sua publicação?

 

Algo dentro de mim diz que sim. Aquilo que voluntária e intencionalmente é feito pelo homem é algo bem diferente daquilo que lhe é infligido sem intervenção humana.

 

Há um dever jornalístico de denúncia do horror e do mal que os homens causam uns aos outros, uma obrigação de mostrar o que não pode ser esquecido e a imposição de criar um arquivo inolvidável do que não é repetível na história. Isso é relevante para a nossa formação humana, para a nossa memória colectiva, para a educação do homem enquanto tal, para a tentativa de que gerações vindouras saibam e, por isso, não esqueçam e, assim, não errem no que não é admissível de erro à luz da condição humana.

 

Tudo o resto é parasitismo, sensacionalismo, desinformação e deseducação.

 

Talvez esteja aí a linha, ténue, é certo, mas talvez esteja aí.

Amigo é

Tenho cá para mim que o grande amigo o é em cada uma das nossas arestas mal limadas, em cada farpa que se esconde debaixo da máscara, aquele que sabe que é assim e que não finge o contrário, aceita, mete o dedo na ferida mas está lá, para o que der e vier.

Amigo é o porto seguro de um ombro e a certeza de que o passo em falso será apontado como tal, sem manhas ou artificios que o justifiquem. Amigo é sempre o lugar onde se está bem, o conforto da terra de ninguém onde se procura direcção, paz, conselho. Amigo é sempre uma viagem, é sempre um destino, um terreno a semear, um abraço à espera.

 

Le chat

 

 
 
Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux;
Retiens les griffes de ta patte,
Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux,
Mêlés de métal et d'agate.
 
Lorsque mes doigts caressent à loisir
Ta tête et ton dos élastique,
Et que ma main s'enivre du plaisir
De palper ton corps électrique,
 
Je vois ma femme en esprit. Son regard,
Comme le tien, aimable bête
Profond et froid, coupe et fend comme un dard,
 
Et, des pieds jusques à la tête,
Un air subtil, un dangereux parfum
Nagent autour de son corps brun.

— Charles Baudelaire

A minha mão (e) nas tuas mãos

"

  Sob a forma de uma mão apareceu a ternura,

                                         um dia, no teu queixo.

             (...)


   Com as duas mãos apodero-me de ti,

               retomo o teu corpo e com ele me entendo.

 

"

(Alexandre O'Neill)

Pág. 1/5

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.