Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Outro Sentido

Outro Sentido

"Amar uma ilha"

IMG_20160725_184018.jpg

Passei uma parte das minhas férias na minha querida - e saudosa - ilha de S. Miguel.

Levei comigo este livro da Helena Marques que me fez a melhor das companhias e onde se contam dez histórias de ilhas e das pessoas que nelas se encontram; pessoas como eu, que estava em S. Miguel de visita, depois de ter vivido em S. Miguel na infância; pessoas como eu, que são um pouco ilhas também.

Na contracapa pode ler-se: "Ilhas contadas fala de pessoas e ilhas, de pessoas em ilhas que visitam ou onde vivem. E essa particularidade - visitar ou residir - estabelece toda a diferença no olhar, nas percepções e nos estímulos. Amar uma ilha é um verbo com dois tempos, o breve e o longo, o da passagem e o da permanência. E cada tempo tem o seu segredo e o seu tesouro" - eu percebo isto até à medula.

Os animais ... chamaram a polícia!

Um momento histórico, mais de mil italianos invadem um criadouro e salvam Beagles de testes!
Não foi meia dúzia de activistas mascarados, foi uma comunidade inteira.
O que aconteceu neste sábado (28/04/12) em Itália mostra que os testes em animais não têm mais espaço nos tempos em que vivemos. Mais de mil pessoas participaram de uma enorme manifestação contra a empresa Green Hill, um criadouro multinacional que 'fabrica' animais para testes em laboratórios em redor do mundo.
À luz do dia, donas de casa e activistas corriam abraçados aos animais
A multidão andou pelas ruas gritando e protestando contra a Green Hill e, quando chegou em frente ao criadouro de cães, simplesmente não parou. As pessoas ignoraram todos os avisos de propriedade privada e continuaram andando, escalando e cortando arame farpado.
Aos poucos, filhotes, fêmeas esperando bebés e cães maiores iam passando de mão em mão para uma nova vida, longe dos horrores dos laboratórios de testes. Homens e mulheres corriam abraçados aos animais enquanto a polícia tentava dispersar a multidão.
Resultado: No fim do dia, 12 pessoas estavam presas e mais de 40 beagles estavam a salvo.
Estima-se que existam mais de 2.500 beagles no criadouro da Green Hill, mas esta açcão deixou bem claro que a sociedade italiana não vai mais tolerar a presença desta empresa que vive da tortura de animais em suas terras."

O que procuramos nos livros?

 

IMG_20170420_161322_104.jpg

Nunca, em circunstância alguma, diminuam uma obra de ficção, tentando transformá-la numa cópia fiel da vida real. Aquilo que nós procuramos na ficção não é tanto a realidade, mas sim a epifania da verdade.

Azar Nafisi, em Ler Lolita em Teerão.

 

Meias tintas

Neste Abril soalheiro a anunciar primavera e dias quentes, abro a janela de manhã para um cenário de ventania forte a fazer rodopiar uma chuva leve. Estranhamente, está quente, como acontece nas manhãs tropicais das ilhas. Cheira a terra e eu gosto disso; se fechar os olhos vem-me à cabeça uma imagem de muros de pedra cobertos de musgo, as escadas escorregadias da nossa casa na Fajã de Baixo. Aqui não se vê pedra em lado nenhum, para isso, tenho de ir a Sintra, onde em tantos recantos vislumbro um lampejo que me faz voltar a S. Miguel. Vou lá às vezes, matar saudades de muitas coisas.

Agora já não chove, mas ficou no ar uma humidade quente e boa.

Há dias, no noticiário, havia um alerta para elevadas concentrações de pólen atmosférico, ou como dizia o Senhor da Uber que me trouxe a casa, níveis de fechar a garganta de qualquer um e fritar o nariz de tristes alérgicos como ele. Os mesmos pólens que lhe encheram o carro com uma carapaça de pó leve que se misturou com a chuvinha da manhã, numa argamassa pouco apresentável para um motorista que se preze – não se ganha para as lavagens, dizia ele.

Eu, que não gosto de calores excessivos, nem de frios cortantes, viveria lindamente com estes dias de meias tintas, com leves camadas de roupa que se vestem e despem ao sabor das horas.

Habitat

20160630_120248.jpg

[imagem: Manuel Amado]

Sentamo-nos à mesa para almoçar. A janela recorta-nos uma imagem de árvores cheias - dois pinheiros e uma palmeira. O meu pai comenta com frequência: "gosto tanto deste quadro"; eu olho e percebo aquela tranquilidade silenciosa, um cenário natural que emoldura a refeição.

A empregada - uma brasileira bem disposta e franca que diz coisas que nos fazem rir -, comenta lá da cozinha que das seis codornizes acabadas de arranjar, só quatro tinham coração, "as outras são desalmadas", e eu quase me engasgo no copo de tinto.

Armada em filha pródiga que à casa dos pais (temporariamente) retorna, reencontro o meu quarto ainda assinalado com o meu nome na porta, olho à volta e reconheço os livros que me acompanharam durante anos, abro-os e descubro-lhes as páginas que sublinhei, os postais que lá deixei, os cantinhos dobrados para voltar à página que me encantou. São edições antigas, amareladas, usadas, absolutamente familiares.

Conheço a cor das paredes quando a manhã entra pelas frestas das portadas cor de laranja e deixo-me preguiçar no colchão que já foi meu, meia estremunhada, a identificar as pequenas coisas que fazem a vivência de um espaço que me é familiar mas onde já não encaixo, é como olhar com ternura para uma fotografia antiga.

O meu pai canta fados pela casa desde as primeiras horas do dia (como sempre fez), o elevador do prédio sussurra uma rota descendente, chinela-se pelo soalho e há um escorrer de água de um apartamento vizinho. No ar paira um cheiro a lareira e a torradas acabadas de fazer. Os meus avós olham-me do alto das estantes, há álbuns de arte empilhados em cima das colunas de som (à falta de lugar nas prateleiras), uma luz permanece sempre acesa na cozinha e outra na sala e, a meio da tarde, há um arco íris reflectido da janela que se baralha com o desenho do tapete de arraiolos.

Ainda que tentasse pintar um quadro desta casa, ele estaria sempre incompleto, é que uma casa nunca é só uma casa, são as mil e uma coisas de quem a vive.

Raízes

"Os Estados Unidos adoram a ideia da imigração, que é o fundamento do sonho americano - um pobre diabo que chega a estas paragens com uma mala de cartão pode tornar-se milionário -, mas detestam os imigrantes. Esse ódio, de que foram vítimas escandinavos, irlandeses, italianos, judeus, árabes e outros imigrantes, é pior contra as pessoas de cor, e em especial contra os hispânicos, porque são muitos e não há maneira de os deter".

 

In, A soma dos dias, Isabel Allende, 2007.

Gente com nome e ruas com nome de gente.

A rua onde vivo tem nome de varina, diz lá mesmo isso - Fulana de tal e, entre parêntesis, "varina".

Gosto tanto do nome da minha rua que sempre que me perguntam a morada, faço questão de salientar o ofício da senhora inscrito no marco de azulejo que assinala o início da estrada - Varina -, não é Presidente da República, da Junta ou do clube da bola, é mulher de trabalho que eu imagino arisca, brincalhona, sem papas na língua, uma saia rodada e um pregão rasgado. 

Quando eu era miúda em S. João do Estoril, havia uma outra Senhora que vendia peixe numa carrinha com um balcão de madeira e uma janela que se abria à freguesia; estacionava à entrada da praceta e atendia aí as clientes que já conhecia pelo nome. Não sei se esta inspirou nome de rua, mas lembro-me de a ver a escamar peixe com vigor, das lâminas prateadas a saltarem por todos os lados e de trazer de lá pescadinhas para serem fritas com rabo na boca e arroz de tomate - há que tempos que não como pescadinhas com rabo na boca, e se calhar, quando comia, não eram vendidas pela peixeira da carrinha, mas a memória é um bicho intrincado e caprichoso, lembra-se do que consegue e constrói o que lhe falha, numa amálgama indistinta, meio verdade, meio invenção.

Nesse tempo, o gás era entregue à porta por um gigante de sorriso afável que carregava as bilhas escadas acima e, para além dele, apareciam mensalmente o Senhor do Círculo de Leitores e o dos Bombeiros Voluntários a cobrar as quotas. 

Os sapatos arranjavam-se no Senhor António, um velhinho curvado que exercia o ofício numa toca escura de porta aberta para a marginal, forrada de sapatos e a cheirar a graxa e cabedal, a mercearia era do Sr. Mendes, a papelaria era do Sr. Bolota, o gás era encomendado no Sr. Pinheiro e muitos anos antes, havia ainda o Sr. Manuel que nos entregava o jornal em casa (arremessado para a varanda?).

É que o comércio era muito isto, tinha nome e cara de gente.

Já pareço as velhotas do anúncio, no meu tempo ...

 

 

Geografias

IMG_20160219_182035.jpg

A importância de termos lugares bons que nos salvam, não importa se são lugares mesmo, feitos de espaço e com localização no mapa; geografias há muitas e aquelas do coração podem levar-nos a caminhos de consolo tremendo. Há pessoas que são lugares, os melhores lugares da nossa história, voltar a elas é mergulhar em sorrisos íntimos de conforto, abraços que se dão para lá da ausência, estão sempre lá, mesmo quando já não estão. Voltamos a esses lugares porque sim, porque não, porque nim. São lugares cativos e são sempre os melhores, porque a partir deles vemos tudo e guardamos essa paisagem em fotogramas mentais a que voltamos mais tarde, num rewind de coisas boas. É assim uma espécie de cinematografia pessoal, com realização espontânea que tende a guardar instantes que até pareceram banais no momento em que os vivemos, mas que depois, vistos da plateia dos anos, são raros, espantosos, densos, saltam com uma banda sonora em crescendo e um close up de detalhes que nos surpreendem na nossa capacidade de memória.

 

Os miseráveis

IMG_6227.JPG

Estive em Paris no início deste ano, um rompante decidido à mesa de um jantar, carregado da sorte de o poder fazer.

No início de Janeiro, a cidade das luzes estava mais iluminada que nunca, convidativa, festiva, animada. Paris na rua, a qualquer hora e em qualquer bairro, com lojas abertas até horas tardias, cafés, restaurantes, museus, jardins, ruas, praças, igrejas. Paris fervilha e respira cultura, arte, livros. É uma cidade encantada, estonteante.

Desta vez, porém, já em Lisboa, quando me perguntam como estava Paris, dou por mim a falar de coisas muito contrastantes com as razões que me fazem querer lá voltar, muitas vezes, amanhã, se possível.

É que há coisas que nos entram pelos olhos adentro e ficam lá, a fazer cenário e Paris estava armada até aos dentes, havia policia militar em cada esquina, de metralhadora ao peito, colete anti bala, botas de tropa e farda de camuflado; não era um ou dois, eram às centenas, em todo o lado, em todos os monumentos, em todas as avenidas, no aeroporto, nos jardins, no metropolitano. Sentimo-nos estranhos, com o coração a hesitar entre a segurança do aparato dissuasor e a eminência de o ver entrar em acção. É uma cidade sitiada, a tentar ignorar a presença militar para se encontrar a si mesma.

Depois, do outro lado das armas, há a indigência ostensiva: vemos cair a noite e, com ela, encontramos famílias inteiras de refugiados a dormir no chão, pais e filhos dobrados debaixo de camadas de cobertores, os adultos a ladear as crianças que se entretêm com um qualquer brinquedo, enquanto uma chuva miúdinha e gelada lhes cai na cama improvisada.

Nas primeiras linhas do artigo da Clara Ferreira Alves na Revista do expresso desta semana, ela diz:  "Há miseráveis a mais nas nossas ruas. Nas ruas de Londres, Paris, Madrid, Bruxelas ... Lisboa". Li isto e pensei imediatamente: será que ela também viu as famílias de refugiados em Paris? Mais baixo, ela responde-me: "Numa rua de um bairro elegante de Paris vemos famílias inteiras, pai, mãe, filhos pequenos, a dormir nas lajes".

É uma miséria adicional a somar àquela outra, a caseira, feita de desempregados e toda a sorte abandonados que se acumulam pelos cantos e que a nossa sociedade, agora, chama de sem abrigo, como se isso mascarasse a miséria humana à nossa porta, já a roçar a invisibilidade aos nossos olhos.

Eu tive a sorte de poder ir a Paris, de bilhete comprado e hotel marcado, mas trago de lá um excesso de bagagem com o qual não contava - a imagem daquela família deitada no chão a duas ruas do meu hotel, não me larga a retina, por isso, sempre que ouço um louco qualquer a falar em fechar fronteiras como quem fecha os olhos e empurra a poeira para debaixo do tapete, a minha reacção é emocional, uma raiva a crescer com a loucura do mundo.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.