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Outro Sentido

Outro Sentido

Sinais de fumo

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Hoje mandei um avião riscar o céu para ti.

Viste?

Fotografia antiga

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(Foto:Miriam Sitchinava)

 

Tu vagueias na profundidade do campo

Que vem dar ao quarto onde eu dantes trabalhava

E de tempos em tempos

Olhas para cima para ver se te estou a espreitar.

Até hoje

Os teus braços estão cheios de flores silvestres

De que estavas tão enamorada.

 

[Fotografia antiga - Ian Hamilton]

Um caso sério de Paixão

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É um caso sério de paixão, e é sabido que nos casos de paixão - sérios, ainda para mais -, andamos por aí, aos caídos, a inspirar, a expirar e a suspirar o objecto da nossa predilecção, queremos estar com ele todas as horas do dia e, a cada instante, foge-nos o coração e o pensar naquela direcção. Ora, no meu caso - pasme-se - apaixonei-me por uma livraria, toda ela cheia de ambiente, de recantos vintage, de máquinas de escrever antigas, de móveis de cores e expositores de tinteiros. À nossa volta, há muitos livros, mas não são livros quaisquer, estes têm o gabarito de já terem sido lidos e, por isso, trazem com eles os olhos, as mãos e o colo daqueles que já os acarinharam, e porque leitores há muitos, não é raro folhearmos as páginas e por lá encontrarmos uma ilustração oriental, a critica de jornal que falou sobre o título, um bilhete de autocarro já picado ou o postal das férias onde o mesmo foi lido. Estes livros já trazem com eles uma vida, mas como uma só não lhes chega, andam à procura de mais. Na verdade, ao arrumarmos cada lombada no seu lugar, podíamos ter arrancado estas lembranças aos livros que as guardavam, mas, convenhamos, como diz o cliché publicitário, sim, podíamos, mas não era a mesma coisa.

E, não sei se repararam, mas eu usei o plural majestático, "podíamos", porque eu, mera voluntária da Livraria Déjà Lu, fiz o que fazem os apaixonados e agora trato-a por minha, que não é, entenda-se (fora do coração, claro).

Na noite de inauguração e no meio do meu enlevo, tão babaca andava eu de sorriso no rosto (o que uma mulher faz para escrever a palavra babaca) que cumprimentei uma jornalista que leio com frequência, com a proximidade de um "olá, boa noite, tudo bem?" e, alguma horas mais tarde, apresentada que fui a uma escritora cujo livro repousa, com lugar cativo, na minha mesa de cabeceira, olho para ela, com aquele cabelo comprido lindo e um sorriso doce de arrasar, e tratei-a por tu, sem dá cá aquela palha como se fossemos amigas de longa data. Creio que depois disto, qualquer ideia de RP está determinantemente afastada por quem realmente manda na (minha) livraria.

Só falta dizer que na Déjà Lu, os livros exibem-se, orgulhosos, em caixas de vinho e que, por isso, às vezes, dançam por ali, meio inebriados com os vapores que ainda se soltam da madeira. Acho mesmo que, quando a loja fecha e as luzes se apagam, há por lá rave séria e ruidosa, e como numa livraria não existem questões fronteiriças, de raça ou religião, aquilo deve ser uma loucura de samba, mornas, fado e  sevilhanas, com os policiais a encenar cenas de facada em chuveiros só para assustar os vizinhos da literatura arrebatadora. Mas isto já sou eu a fazer filmes, é outra cena da malta apaixonada, fazemos filmes a toda a hora. 

Girl Power

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Déjà Lu - Livraria solidária

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Em fase de preparativos finalíssimos na livraria Déjà Lu que está linda e acolhedora e recheada de livros à vossa espera. Inaugura a 28 de Fevereiro, a partir das 18h, na Pousada de Cascais – Cidadela Historic Hotel & Art District, mesmo por cima do restaurante Taberna da Praça - Cidadela Cascais. Está agendado, certo?

 

(trabalho gráfico executado por Halfstudio Signs)

No escurinho do cinema

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Está a estrear filme novo, com o nome sugestivo de Vício Intrínseco e dois homens de talento que caem tão bem naquela categoria inexplicável dos feios fantásticos: Joaquin Phoenix e Benicio del Toro; que parelha! E assim de repente, já é noite de Óscares e, uma vez mais, ainda não vi quase nenhum dos filmes em competição mas, mesmo assim, torço pela Julianne Moore (em O meu nome é Alice) porque gosto dela, da pinta dela, da classe dela, da cabeleira ruiva dela, da presença dela e daquele je ne sais quoi que a aproxima de outras grandes Senhoras como Meryl Streep ou Cate Blachett.

Cenas da vida (de) doméstica

Hoje fui fazer as compras da semana e pediram-me dez cêntimos pelos sacos de plástico. Tentei controlar a irritação emocional com o sentido ecológico que em mim habita e enfiei um robalo, uma dourada e um linguado, cada um deles, num saco de plástico da secção das frutas e legumes porque estes são legais e à borla. Depois, gastei cinquenta cêntimos num saco grande e resistente do qual me irei esquecer de cada vez que voltar às compras.

 

"Um percurso de formação do coração"

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Leio a página de Tolentino Mendonça na Revista E e surpreendo-me sempre com este dom de uma voz capaz de chegar a todos - crentes e não crentes - falando de temas que são de religião, de humanidade, de arte, de vida. É tempo de Quaresma e Tolentino lembra-o, apontando três gestos importantes que explica e desmistifica: oração, jejum e esmola. Depois, remete para as palavras certeiras do Papa Francisco, que nos faz um pedido tão essencial e estruturante, quanto esquecido, para a sociedade de hoje e para a nossa construção pessoal: "Gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração"  e "a Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal - mesmo pequeno, mas concreto - da nossa participação na humanidade que temos em comum".

Na passada sexta feira, um grupo de amigas reuniu-se à volta de uma taça de amendoins torrados - coisinha viciante -, chá e biscoitos, para discutir, entre outros, o mandamento antigo que diz não roubarás. Apercebemo-nos da sua amplitude, do comando negativo expresso pelo não, mas também do seu reverso positivo - o da exigência de uma justiça distributiva dos bens da terra, dos rendimentos, das riquezas ou até do tempo que dispomos e que podemos dar a outros. A importância actual de mandamentos escritos em pedra, num tempo AC, baralha-nos, surpreende-nos, reverte-nos para vivências de voluntariado que, é sabido, assumiram, nos últimos anos, uma dimensão social importante, num povo que já, de si, é generoso de alma e coração. A Quaresma e o verbo dar andam de mãos dadas, e formas de dar há muitas.

Era uma vez ...

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Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue.

Ana Hatherly, 463 Tisanas.

 

Falar de um filme para falar da vida

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 Na vida tapamos, escondemos os nossos tiros.

Beatriz Batarda

Tão boa esta entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Beatriz Batarda e Margarida Cardoso a respeito do novo filme Yvone Kane.

Realmente, à volta de um filme, pode-se falar de muitas coisas e de muitas vidas, basta, para tal, reunir mulheres interessantes, também elas cheias de vidas. Aqui fala-se de tudo, porque o filme a estrear fala de muito, mas também porque os olhos sabem descobrir e interpretar muito mais e a questão da identidade dá pano para mangas.

Num pequeno passo desta conversa, achei muito curioso este detalhe sobre a escolha de tons e guarda roupa das personagens do filme:

Beatriz — Há uma evolução na cor. A Rita vai ficando cada vez mais clara. Começa por ser cinzenta e acaba de branco.

Margarida — Foi uma coisa deliberada, claro. São sempre tons pastel. O não ter padrões. E roupa em várias camadas.

Beatriz — Camadas a esconder o corpo e a proteger. Só há um momento em que as cores de mãe e filha se aproximam: é quando a Rita se apercebe de que a mãe está doente. Ficam as duas com tons terra.

Até que ponto esta intenção cinematográfica é real? Não serão, de facto, as nossas roupas - as nossas camadas -, o reflexo do que somos ou vamos sendo ou a máscara do que queremos esconder debaixo delas?

Olhem para o que eu visto e vejam o que eu sou, ou olhem para o que eu visto para não verem o que eu sou?