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Outro Sentido

Outro Sentido

Estou além

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Vês-te a ti mesma como um labirinto onde se perdem e chocam coisas muito contraditórias, todas elas deambulam por ali, às voltas, regressando sempre aos mesmos lugares mas a acharem que estão num sitio completamente novo - nunca estão - e demoram imenso tempo a reencontrar caminho, falham sempre a saída e por ali permanecem, caminhantes, às turras, com as aproximações fatais dos pólos opostos.

Achas piada àquele filme animado em que as emoções assumem a forma de personagens e imaginas os bonequinhos esquizofrénicos que em ti habitam, achas que andam cheios de nódoas negras, reviram os olhos uns aos outros e convivem criando fronteiras visuais que lhes dão espaço para respirar. Gostas de espaços de respirar, precisas de espaços de respirar. Vá, respira.

Andas a ler vidas reais como se as imaginárias já não chegassem, estás farta de romances e queres saber de gente de carne  e osso, de mulheres extraordinárias, mas também de homens, como Lobo Antunes que dá uma entrevista longa em forma de livro que já vai na segunda leitura. Ele fala lá dos antagonismos íntimos, da "coexistência interior de pulsões tão contraditórias" que se tornam incompreensíveis mas que existem sempre em nós; a tão badalada coerência é uma contradição de termos no que à natureza humana diz respeito. Lembra-te disso, há demasiadas incoerências que tens de encaixar algures e uma bengala deste calibre ajuda, o homem, afinal, até é médico, psiquiatra, ainda por cima.

 

Planet earth is blue.

Há músicas e cantores que marcam muito mais do que uma época ou geração, David Bowie é transversal a muitas.
Space Odity é intemporal e Bowie não teve - nem terá - outro que se lhe aproxime em originalidade, musicalidade e transformação. Alguns evaporam-se do panorama musical ainda em vida, este permanecerá muito além dela.

46

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Mais um ano que passou no calendário e nos números que acrescentas à idade que tens. Não costumas pensar muito nisso, mas este ano foi diferente, há uma proximidade de um número redondo que te faz abrir os olhos. Não gostas. Lembras-te de olhares para os teus pais com a mesma idade e de os achares quase velhos. Hoje não achas, e tal pode dever-se tanto à sorte de os saberes novos por dentro, como ao desejo de te fazeres pequena, deitares a cabeça no colo da tua mãe e esperares cafuné. Sabes que a maioria dos teus dias são feitos de uma calma profunda, mas sabes também que há nascentes de tristeza, de efusiva alegria, de espanto e surpresa e, acima de tudo, de vontade; é estranho como a vontade em ti parece crescer na mesma proporção dos anos que acumulas, é sempre mais. Dantes achavas que tinhas muito tempo à tua frente, engolias os dias com avidez e distracção; agora, porém, a consciência de que esse caminho se come a si mesmo, faz nascer em ti a vontade de muitas coisas, sentes-te mais viva, atenta, consciente e carregas contigo um querer que não te larga, é como um formigueiro à procura de material de construção. Não tiveste filhos, não plantaste uma árvore, não escreveste um livro mas tens, ainda assim, várias aproximações a cada uma dessas metas; mesmo que três seja a conta que Deus fez, essas não chegam e, por isso, vives de antenas no ar, com a noção cristalina do passar dos minutos e do que neles cabe. A vida pode não ser enorme, mas é tão rica.

O inominável (Aviso)

Aviso já que o vídeo do link abaixo impressiona, não é para todos, mas ignorar o sofrimento humano porque nos dá uma má noite de sono, é coisa de que já não sou capaz.

Os muitos prisioneiros dos guetos e campos de exterminação Nazi, escreviam cartas, livros, memórias para que aquele horror fosse sabido, fosse conhecido, nunca ignorado, esquecido ou perdido numa neblina de dúvida. Era o indescritível e era real.

O inominável, porém, vive ainda em demasiados cantos deste planeta e aqueles que registam a face do horror, fazem-no pelas mesmas razões - para que saiba, para que se acredite, para que não se fique na dúvida e, ainda, no seu próprio desespero, para que se faça esperança no mundo que sobra. 

Assim, e no nada que posso fazer, deixo o LINK com o aviso de que é dor feita imagem, para que se saiba, para que não se duvide, para que circule até à exaustão.

Nowhere fast.

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Sabes que gostas de árvores e de bancos de jardim, ambos carregam uma solidão que é tua, sempre foi, aquele lugar vazio no conforto dos silêncios é o teu habitat. Podes sentar-te neles a ver a rua correr ou largar a cabeça para trás e ficar a olhar o intrincado de ramos que divide o céu. Percebes os velhos, parece que nada fazem na apatia da vida mas sabes lá que romances e aventuras se desenham por detrás dos olhos. Os velhos, as tuas velhotas e a saudade delas - falas sempre disto -, tu própria um pouco velha sem te importares minimamente com isso, és velha e adoras essa velhice que vive paredes meias com a menina perdida e a mulher que tudo quer, incluindo paz, silêncio e poder dançar desenfreadamente ao som de nowhere fast nos intervalos. 

Bancos de jardim são oportunidades, são convites, são como a tela em branco que aguarda o primeiro risco; e agora vais calar-te porque estás aqui estás a falar do ano novo e dos projectos e dessas coisas todas que não te interessam nada e a verdade é que nem sabes como aqui vieste parar, não era em nada disto que estavas a pensar, mas as palavras têm vida própria e escolhem o seu próprio caminho, ou escondem-no, depende dos dias.

Ser Natal

O que é isso de ser Natal?

Ser Natal é sermos esperança - coisa vaga, não é? Mas ser esperança é encarnar o conceito em gestos do quotidiano, é não ignorar e virar costas, é dar tempo aos outros, é engolir orgulho e as irritações, é dar um ouvido, uma mão, um ombro, é dar a força dos braços e a vontade do intelecto, é acender a luz onde (todos os dias) só há sombra e escuridão, é fazer alegria, é abrir a porta, é trazer surpresas, é pormo-nos de lado porque os outros precisam, é lembrarmo-nos de quem é sempre esquecido.

Sim, Natal é ser esperança, todos os dias, é fazer nascer um bocadinho de vida em cantinhos pequenos, é dizer bom dia a um desconhecido, dar uma moeda ao corpo enrolado no chão que nunca ninguém vê, não ignorar o homem que nos vende a revista Cais no semáforo vermelho ou a cigana à porta da Igreja, o amigo perdido na vida e os velhotes escondidos em casas comuns.

Sim, o Natal é todos os dias, com sinais pequenos de esperança que se dão, simplesmente, como forma de cá andar - Oh what a wonderful world it would be!

Ser Natal é, também, ser alegria porque os gestos certos têm o dom gerar sorrisos, já repararam? Ser Natal é plantar sorrisos, é andar meio mundo a beijocar o outro e toda a gente abraçada - abraço forte e bem batido nas costas. Ser Natal é a gargalhada que interrompe a resmunguice de fundo, porque se acendem umas luzes e se encontram aqueles que não vemos há muito e há sempre uma razão extra para nos dirigirmos ao outro com uma palavra feliz de felicitação.

Mr. Chaplin sabia-o bem quando cantava um hino ao poder de um sorriso: If you smile through your fear and sorrow / Smile and maybe tomorrow / You'll see the sun come shining through / For you. Logo ele, figurinha pobre, miserável, de sapatos esburacados e calças remendadas. Que personagem tão poderosa! Na escola da minha infância, durante a época Natalícia, sentavam-nos a todos numa sala e punham uma câmara a rodar filmes a preto e branco deste Chaplin que ora nos fazia rir, ora fazia chorar, sem nunca dizer uma palavra, e nós adorávamos e percebíamos que havia ali qualquer coisa de muito especial, uma mistura de vida, esperança e sorrisos. Era Natal e aquela figurinha de bengala comovia-nos e arrancava sonoras (e inocentes) gargalhadas àquele bando de miúdos de olhos arregalados.

Tenho sorte - é certo -, tenho a sorte de me lembrar destas e de muitas outras coisas que me fazem uma vida feliz, para lá das perdas, das dificuldades, dos momentos em que fui menos do que gostaria. E tenho a sorte de viver neste País cheio de paz, de ter família e amigos, oportunidades, trabalho. Tenho a sorte de poder ter fé e de vivê-la sem que isso implique um acto de extrema coragem, tenho a sorte de poder rezar por aqueles que não sabem o que isso é. Gratidão, isso também é ser Natal.

Ser Natal é acordarmos para a melhor versão de nós mesmos porque essa versão tem o poder tremendo de, em pequenos gestos, mudar o mundo sem esperar que outros o mudem por nós, creio que isso torna o Natal um projecto em permanente construção, e eu gosto disso, de fazer parte de projectos que acrescentam alguma coisa ao tempo em que vivo.

A todos, deixo assim, os votos de um Feliz Natal, que o agarrem, com unhas e dentes, todo o ano, todos os dias.

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