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Outro Sentido

Outro Sentido

Georgia on my mind.

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São jarros, Senhor, são jarros; flores da época de que gosto particularmente e que me fazem lembrar os quadros de Georgia O'Keefe, uma artista tão à frente da sua época que pintava imagens gigantescas de flores em close up, que atraiam o olhar para o centro do quadro e que levaram rapidamente a uma visualização sensual da sua pintura.

Consta que da primeira vez que Georgia enviou os seus desenhos ao fotógrafo Alfred Stieglitz - seu futuro marido -, este terá exclamado: "Finalmente, uma mulher no papel".

Mau feitio.

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Ouço que tens mau feitio, que às vezes és antipática, que ignoras sobranceiramente o mundo ou que entras muda e sais calada. São vozes que te adoram mas que te conhecem desde pequenina e para quem, agora, esta miúda cheia de adolescência, às vezes, fere e dá saudades daquela outra que ria com covinhas doces e pedia sempre mais de nós.

São as mesmas vozes que dizem que és parecida comigo, não apenas nas maleitas articulares dos joelhos, mas também nessa fama de mau feitio que, convenhamos, acompanha o mulherio da família.

Na verdade, eu com a tua idade não era especialmente afável, não gostava de beijoquices (aqui entre nós, ainda não gosto), de cenas melosas, da constante exigência da minha presença e atenção. Em contrapartida, gostava mesmo muito do meu mundo que eu achava que era à parte e, por isso, isolava-me, fazia-me ilha (tu sabes que eu gosto de ilhas) e fazia-o sem telemóvel (não havia cá disso), sem computador (também não) e sem Ipad (ainda menos). Isolava-me nos livros e na música com headphones e nas amigas com quem falava ao telefone (uma coisa fixa à parede, pasme-se) e a quem escrevia cartas (papel e caneta) apesar de as ver todos os dias. Eu andava no banco de trás do carro sem dizer uma palavra a quem quer que fosse, quer a viagem durasse dez minutos ou cinco horas. É que eu ainda me lembro de a minha cabeça ser toda a companhia de que precisava e de a paisagem do lado de lá do vidro me acompanhar lindamente, sem necessidade de mais nada, e de ficar profundamente irritada e impaciente quando me arrancavam a esse mundo feito de mim e das minhas amigas e da minha música e dos meus livros. A impaciência traduzia-se muitas vezes num insolente rolar de olhos que, confesso, ainda uso com muita frequência.

Hoje eu sei que era, realmente, antipática, assim como também sei que me era tremendamente difícil ser de outro modo porque tudo o mais era uma contrariedade, uma chatice e eu queria saltar fora, viver, forçar limites, ignorar o mundo; é que, sabes, eu fui aquela miúda há mais de trinta anos, mas juro - juro mesmo - que parece que foi ontem!

O que procuramos nos livros?

 

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Nunca, em circunstância alguma, diminuam uma obra de ficção, tentando transformá-la numa cópia fiel da vida real. Aquilo que nós procuramos na ficção não é tanto a realidade, mas sim a epifania da verdade.

Azar Nafisi, em Ler Lolita em Teerão.

 

Meias tintas

Neste Abril soalheiro a anunciar primavera e dias quentes, abro a janela de manhã para um cenário de ventania forte a fazer rodopiar uma chuva leve. Estranhamente, está quente, como acontece nas manhãs tropicais das ilhas. Cheira a terra e eu gosto disso; se fechar os olhos vem-me à cabeça uma imagem de muros de pedra cobertos de musgo, as escadas escorregadias da nossa casa na Fajã de Baixo. Aqui não se vê pedra em lado nenhum, para isso, tenho de ir a Sintra, onde em tantos recantos vislumbro um lampejo que me faz voltar a S. Miguel. Vou lá às vezes, matar saudades de muitas coisas.

Agora já não chove, mas ficou no ar uma humidade quente e boa.

Há dias, no noticiário, havia um alerta para elevadas concentrações de pólen atmosférico, ou como dizia o Senhor da Uber que me trouxe a casa, níveis de fechar a garganta de qualquer um e fritar o nariz de tristes alérgicos como ele. Os mesmos pólens que lhe encheram o carro com uma carapaça de pó leve que se misturou com a chuvinha da manhã, numa argamassa pouco apresentável para um motorista que se preze – não se ganha para as lavagens, dizia ele.

Eu, que não gosto de calores excessivos, nem de frios cortantes, viveria lindamente com estes dias de meias tintas, com leves camadas de roupa que se vestem e despem ao sabor das horas.

Habitat

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[imagem: Manuel Amado]

Sentamo-nos à mesa para almoçar. A janela recorta-nos uma imagem de árvores cheias - dois pinheiros e uma palmeira. O meu pai comenta com frequência: "gosto tanto deste quadro"; eu olho e percebo aquela tranquilidade silenciosa, um cenário natural que emoldura a refeição.

A empregada - uma brasileira bem disposta e franca que diz coisas que nos fazem rir -, comenta lá da cozinha que das seis codornizes acabadas de arranjar, só quatro tinham coração, "as outras são desalmadas", e eu quase me engasgo no copo de tinto.

Armada em filha pródiga que à casa dos pais (temporariamente) retorna, reencontro o meu quarto ainda assinalado com o meu nome na porta, olho à volta e reconheço os livros que me acompanharam durante anos, abro-os e descubro-lhes as páginas que sublinhei, os postais que lá deixei, os cantinhos dobrados para voltar à página que me encantou. São edições antigas, amareladas, usadas, absolutamente familiares.

Conheço a cor das paredes quando a manhã entra pelas frestas das portadas cor de laranja e deixo-me preguiçar no colchão que já foi meu, meia estremunhada, a identificar as pequenas coisas que fazem a vivência de um espaço que me é familiar mas onde já não encaixo, é como olhar com ternura para uma fotografia antiga.

O meu pai canta fados pela casa desde as primeiras horas do dia (como sempre fez), o elevador do prédio sussurra uma rota descendente, chinela-se pelo soalho e há um escorrer de água de um apartamento vizinho. No ar paira um cheiro a lareira e a torradas acabadas de fazer. Os meus avós olham-me do alto das estantes, há álbuns de arte empilhados em cima das colunas de som (à falta de lugar nas prateleiras), uma luz permanece sempre acesa na cozinha e outra na sala e, a meio da tarde, há um arco íris reflectido da janela que se baralha com o desenho do tapete de arraiolos.

Ainda que tentasse pintar um quadro desta casa, ele estaria sempre incompleto, é que uma casa nunca é só uma casa, são as mil e uma coisas de quem a vive.

Raízes

"Os Estados Unidos adoram a ideia da imigração, que é o fundamento do sonho americano - um pobre diabo que chega a estas paragens com uma mala de cartão pode tornar-se milionário -, mas detestam os imigrantes. Esse ódio, de que foram vítimas escandinavos, irlandeses, italianos, judeus, árabes e outros imigrantes, é pior contra as pessoas de cor, e em especial contra os hispânicos, porque são muitos e não há maneira de os deter".

 

In, A soma dos dias, Isabel Allende, 2007.

Gente com nome e ruas com nome de gente.

A rua onde vivo tem nome de varina, diz lá mesmo isso - Fulana de tal e, entre parêntesis, "varina".

Gosto tanto do nome da minha rua que sempre que me perguntam a morada, faço questão de salientar o ofício da senhora inscrito no marco de azulejo que assinala o início da estrada - Varina -, não é Presidente da República, da Junta ou do clube da bola, é mulher de trabalho que eu imagino arisca, brincalhona, sem papas na língua, uma saia rodada e um pregão rasgado. 

Quando eu era miúda em S. João do Estoril, havia uma outra Senhora que vendia peixe numa carrinha com um balcão de madeira e uma janela que se abria à freguesia; estacionava à entrada da praceta e atendia aí as clientes que já conhecia pelo nome. Não sei se esta inspirou nome de rua, mas lembro-me de a ver a escamar peixe com vigor, das lâminas prateadas a saltarem por todos os lados e de trazer de lá pescadinhas para serem fritas com rabo na boca e arroz de tomate - há que tempos que não como pescadinhas com rabo na boca, e se calhar, quando comia, não eram vendidas pela peixeira da carrinha, mas a memória é um bicho intrincado e caprichoso, lembra-se do que consegue e constrói o que lhe falha, numa amálgama indistinta, meio verdade, meio invenção.

Nesse tempo, o gás era entregue à porta por um gigante de sorriso afável que carregava as bilhas escadas acima e, para além dele, apareciam mensalmente o Senhor do Círculo de Leitores e o dos Bombeiros Voluntários a cobrar as quotas. 

Os sapatos arranjavam-se no Senhor António, um velhinho curvado que exercia o ofício numa toca escura de porta aberta para a marginal, forrada de sapatos e a cheirar a graxa e cabedal, a mercearia era do Sr. Mendes, a papelaria era do Sr. Bolota, o gás era encomendado no Sr. Pinheiro e muitos anos antes, havia ainda o Sr. Manuel que nos entregava o jornal em casa (arremessado para a varanda?).

É que o comércio era muito isto, tinha nome e cara de gente.

Já pareço as velhotas do anúncio, no meu tempo ...

 

 

Geografias

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A importância de termos lugares bons que nos salvam, não importa se são lugares mesmo, feitos de espaço e com localização no mapa; geografias há muitas e aquelas do coração podem levar-nos a caminhos de consolo tremendo. Há pessoas que são lugares, os melhores lugares da nossa história, voltar a elas é mergulhar em sorrisos íntimos de conforto, abraços que se dão para lá da ausência, estão sempre lá, mesmo quando já não estão. Voltamos a esses lugares porque sim, porque não, porque nim. São lugares cativos e são sempre os melhores, porque a partir deles vemos tudo e guardamos essa paisagem em fotogramas mentais a que voltamos mais tarde, num rewind de coisas boas. É assim uma espécie de cinematografia pessoal, com realização espontânea que tende a guardar instantes que até pareceram banais no momento em que os vivemos, mas que depois, vistos da plateia dos anos, são raros, espantosos, densos, saltam com uma banda sonora em crescendo e um close up de detalhes que nos surpreendem na nossa capacidade de memória.

 

Os miseráveis

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Estive em Paris no início deste ano, um rompante decidido à mesa de um jantar, carregado da sorte de o poder fazer.

No início de Janeiro, a cidade das luzes estava mais iluminada que nunca, convidativa, festiva, animada. Paris na rua, a qualquer hora e em qualquer bairro, com lojas abertas até horas tardias, cafés, restaurantes, museus, jardins, ruas, praças, igrejas. Paris fervilha e respira cultura, arte, livros. É uma cidade encantada, estonteante.

Desta vez, porém, já em Lisboa, quando me perguntam como estava Paris, dou por mim a falar de coisas muito contrastantes com as razões que me fazem querer lá voltar, muitas vezes, amanhã, se possível.

É que há coisas que nos entram pelos olhos adentro e ficam lá, a fazer cenário e Paris estava armada até aos dentes, havia policia militar em cada esquina, de metralhadora ao peito, colete anti bala, botas de tropa e farda de camuflado; não era um ou dois, eram às centenas, em todo o lado, em todos os monumentos, em todas as avenidas, no aeroporto, nos jardins, no metropolitano. Sentimo-nos estranhos, com o coração a hesitar entre a segurança do aparato dissuasor e a eminência de o ver entrar em acção. É uma cidade sitiada, a tentar ignorar a presença militar para se encontrar a si mesma.

Depois, do outro lado das armas, há a indigência ostensiva: vemos cair a noite e, com ela, encontramos famílias inteiras de refugiados a dormir no chão, pais e filhos dobrados debaixo de camadas de cobertores, os adultos a ladear as crianças que se entretêm com um qualquer brinquedo, enquanto uma chuva miúdinha e gelada lhes cai na cama improvisada.

Nas primeiras linhas do artigo da Clara Ferreira Alves na Revista do expresso desta semana, ela diz:  "Há miseráveis a mais nas nossas ruas. Nas ruas de Londres, Paris, Madrid, Bruxelas ... Lisboa". Li isto e pensei imediatamente: será que ela também viu as famílias de refugiados em Paris? Mais baixo, ela responde-me: "Numa rua de um bairro elegante de Paris vemos famílias inteiras, pai, mãe, filhos pequenos, a dormir nas lajes".

É uma miséria adicional a somar àquela outra, a caseira, feita de desempregados e toda a sorte abandonados que se acumulam pelos cantos e que a nossa sociedade, agora, chama de sem abrigo, como se isso mascarasse a miséria humana à nossa porta, já a roçar a invisibilidade aos nossos olhos.

Eu tive a sorte de poder ir a Paris, de bilhete comprado e hotel marcado, mas trago de lá um excesso de bagagem com o qual não contava - a imagem daquela família deitada no chão a duas ruas do meu hotel, não me larga a retina, por isso, sempre que ouço um louco qualquer a falar em fechar fronteiras como quem fecha os olhos e empurra a poeira para debaixo do tapete, a minha reacção é emocional, uma raiva a crescer com a loucura do mundo.

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