
Havia uma prisão académica em pleno recinto da universidade de Coimbra, as celas eram pequenas, húmidas e feitas de pedra, num espaço subterrâneo, logo abaixo da sumptuosa e elegante biblioteca. A pedagogia era outra e os desacatos na sala de aula eram punidos com o esqueleto lançado aos calabouços e não como uma repreensão escrita, reuniões de pais, processos contra professores e outras cenas modernas. A informação está em mau português, lapsus linguae, creio, mas as celas não deixam grande margem para dúvidas quanto ao poder disciplinar aplicado.

Porque a vida é, também ela, muitas vezes, um pouco bipolar, a precisar de drogas que adormeçam a fera e de emoções que a despertem das drogas e alguns tropeções e apostas múltiplas de alto risco que violam todas as regras das probabilidades mas que fazem todo o sentido quando se está naquele cenário que só nós é que vemos, um quadro pintado com as nossas cores e banda sonora que encontra o final improvável que nunca, mas nunca, havíamos desenhado no início. O filme é giro e não, não há guias para finais felizes, tudo se resume a meia dúzia de passos de dança!


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Porque o nosso reflexo tem sempre um lado avesso, o iceberg adormecido debaixo de água do qual só vemos os lábios, e o estranho é que é lindo à mesma!

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A árvore dos desejos está plantada no jardim do museu Peggy Guggenheim em Veneza, um Palácio digno do nome, em pleno grande canal, onde a própria viveu, rodeada de artistas e daquilo que eles de melhor faziam. É um museu admirável e vale bem a pena, perder uma tarde de gôndolas para entrar naquele espaço, onde a sala Jackson Pollock bate tudo. Visitei-o em Fevereiro, debaixo de um frio cortante, pelo que a árvore dos desejos, em plena mutação de folhagem, estava branca de papeis e neve. Não resisti a fotografa-la porque, tal como os chapéus, desejos há muitos e vão do banal - e universal - "eu quero é ser feliz", passando pelo temático "give peace a chance", a outros, bem mais concretos e direccionados. O conceito de Yoko Ono resvala o naif mas, na sua transformação diária, roça também a ternura, a alegria e o riso.


[Foto descaradamente roubada ao face de uma amiga]
Continuo a achar que as rugas dos anos nos dão uma perspectiva (tardia, talvez) mas oportuna, verdadeira e acutilante do que é realmente importante nesta vidinha. Não sei se já referi este texto aqui, mas volto hoje a ele porque, às vezes, é assim, as palavras certas aparecem simplesmente à nossa frente quando são precisas. O livro em questão é transversal - ou exterior - a todas as crenças, é humano, simplesmente - tão humano que podia ser triste, mas não é. Vejo isto como uma cábula, um post it vital a pendurar à frente do nariz, no ecran do computador ou no espelho da casa de banho. Espetar os olhinhos em cada alínea todos os dias, to-dos-os-di-as!

Há um terreno nas traseiras do meu prédio onde tudo cresce em desalinho. Dali sai uma árvore da borracha com a altura de dois andares, malmequeres amarelos que fecham as pétalas ao final do dia, dois cactos que se enrolam de forma estranha sobre si mesmos, ervas daninhas, urtigas e vegetação seca que albergam, certamente, animais infestados que prefiro nem imaginar e, ali junto à cerca, cresce, todos os anos, uma roseira que nos presenteia com este florir diário e abundante.

"Estas visitas espantosas, em que só se repara por sorte, só são bem recebidas e apreciadas quando a nossa atenção se desliga de nós próprios e do mundo que gira dentro de nós e se vira, como se de uma casa vazia se tratasse, para fora. Há um estado activo de recepção, de estarmos prontos para o que vier, sem termos nada marcado ou expectativa nenhuma.
Não se consegue ver a borboleta se estivermos à espera dela e resolvermos: "Agora vou estar aqui sentado, com a cabeça esvaziada, inteiramente distraído pelo que me rodeia, à espera que me apareça pela frente uma coisa maravilhosa".
Miguel Esteves Cardoso, em Como é linda a puta da vida.



Apresento-vos a Thorncrown Chapel, em Eureka Springs, Arkansas.É considerada um dos exemplos culminantes da arquitectura orgânica, uma filosofoa arquitectónica atribuída a Frank Lloyd Wright (veja-se a famosa casa da Cascata) que procura promover a harmonia entre o mundo natural e as estruturas habitacionais que criamos. A capela acima foi desenhada por um dos discípulos daquele arquitecto - E. Fay Jones - que utilizou o aço e o vidro para criar uma estrutura leve e translúcida que oferece uma vista panorâmica e serena a quem nela entra. Fay determinou que nenhum elemento de construção fosse maior do que aquilo que duas pessoas pudessem carregar pela floresta à mão.
Esta capela maravilhosa está, porém, em risco de perder o seu significado e ambiente pois uma empresa pretende construir uma linha de alta tensão que vai atravessar o Arkansas e que corta a mata e a floresta que a envolvem. Valores mais altos, dizem eles.

Há coisas que não são difíceis de prever e esta é uma delas. Conheci hoje este caso nas redes sociais mas acredito que o modelo se propagará por esse País fora. A troca de bens ou serviços pode parecer um retorno a tempos de economia medieval mas questiono-me se não se irá revelar a alternativa justa quando já ninguém puder pagar um psicólogo, um dentista, um cabeleireiro, um advogado ...
"Eu adorava estar doente com a minha mãe, talvez não a vomitar ou a sentir-me verdadeiramente mal, mas num estado de convalescença gradual. Adorava ficar deitada na cama especial e sentir na testa a mão que ela depois subia para os meus cabelos húmidos de suor para ver a febre. Adorava sentir as pernas dela a moverem-se perto de mim, ouvir a voz dela adoptar essa entoação especial destinada aos inválidos, terna e musical, que me fazia querer continuar doente, deitada para sempre no pequeno colchão, pálida, Romântica e patética, metade eu, metade actriz desfalecida, mas sempre seguramente orbitada pela minha mãe."
Siri Hustvedt, verão sem homens.
Às vezes lemos coisas tão simples que nos transportam em autenticas viagens no tempo.
Feliz dia da mãe.


"A primeira vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que a mulher, Luísa, o viu, o que não deixou de ser esquisito e porventura injusto, visto que ela era isso mesmo, sua mulher, e eu, em contrapartida, era uma desconhecida e nunca tinha trocado uma palavra com ele".
Os enamoramentos, Javier Marías.
"that voice in your head is not your conscience, is your ego".