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Outro Sentido

Outro Sentido

Diário visual das férias

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Há sempre aquela hora tardia em que o areal se esvazia e uma aragem mais fresca pede um casaco, em que as dunas se desfazem levemente em pequenas nuvens de areia arrastadas para a ria, em que a maré vaza e deixa a descoberto lagoas espelhadas e esquecidas. É a essa hora que aparecem as gaivotas em voos planantes de asas largas, a marcar o território que é delas ou a rasar as ondas à procura de alimento, é a essa hora que pousa um sossego de tela e as sombras ficam compridas e o mar se faz ouvir.

Essa, é a melhor hora.

A relevância das primeiras linhas de um livro

De acordo com o jornal que José folheou ao pequeno-almoço, no café perto de sua casa, aquele sábado seria o dia mais quente do ano até à data. A primavera de Lisboa tranvestia-se de verão e os seus habitantes mostravam os ombros e os dedos dos pés, deixavam.se aquecer pela transbordante luz branca, paravam a olhar a largura do rio, atravessavam a ponte de carro e estreavam-se nos areais atlânticos com sentido de merecimento - afinal, o inverno fora longo e espesso como nevoeiro no cais, tão untuoso que, naquela manhã de céu irrepreensivelmente liso, sem farrapos de nuvens ou uma suspeita de vento, pareceu a José que todos os seres da cidade saíam, por fim, da letargia mofenta da toca e que o sol inesperadamente forte antecipara as mudanças no metabolismo dos animais.

Hugo Gonçalves, in O caçador de Verão.

All the lonely people

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Leio aqui que a solidão aumenta em 26% o risco de mortalidade; já há estatísticas e percentagens que medem os riscos que correm aqueles que vivem esquecidos. Pergunto-me se o risco aumenta (ou diminui) para a solidão acompanhada, aquela que se alimenta de uma massa mais ou menos indiferenciada de rostos que nos são tão distantes quanto indiferentes, mas que habitam os dias de forma mais ou menos regular. Dizem que a solidão tem tantos riscos para a saúde quanto a obesidade, sendo certo que tantas vezes se cumulam as duas, pois é sabido que a comida de conforto faz muita companhia.

Eleanor Rigby era uma mulher que apanhava o arroz na porta das igrejas após os casamentos, era só e tinha sonhos que guardava num jarro perto da porta. O grupo de rapazes britânicos que a cantou, perguntava em refrão: Todas as pessoas sós, de onde vêm elas?

Ninguém nasce sozinho, a companhia do outro está impressa no processo que nos traz à vida, mas é nessa vida que nasce a distância, seja ela imposta de fora ou pelo próprio que se acantona na solidão.

Lembro-me da minha avó que vivia apavorada com a ideia de ir viver para um lar, longe daqueles que se habituou a ver ao acordar, longe dos espaços cujas esquinas sabia de cor, longe da sua história e do cenário e personagens que a compunham. Nunca foi, mas essa possibilidade era, para ela, sinónimo de esquecimento e solidão, de alheamento.

O mesmo estudo revela que muitos dos que estão sós, tendem a continuar sós, mesmo quando a vida lhes proporciona companhia e que, na origem desse isolamento, pode estar um determinado tipo de comportamento associado à falta de competências sociais, necessariamente agravado pelo não uso das mesmas ao longo do tempo. O absurdo é que estes, devido ao isolamento que se impuseram, têm, demasiadas vezes, melhor percepção dessas competências, só que bloqueiam quando as têm de exercer.

All the lonely people, são todos eles, os esquecidos, os inaptos, os diferentes, os distantes, os reservados, os abandonados, os incompreendidos, os evitantes. É daí que eles vêm, desse útero ansioso e cheio de medos que os coloca numa ilha rodeada de animais ferozes.

Where do they all belong? Essa é a pergunta cantada que se segue, a palavra chave que remata o refrão, pois é na relação de pertença que morre a solidão.

Sempre que o meu sobrinho Zé Maria desenha um animal ou um monstro, rodeia-o de um habitat, pois na cabeça do meu miúdo não faz qualquer sentido que um monstro viva no vazio. Nesse habitat podem existir muitos elementos, forças e até poderes mágicos, mas também há  outros monstros e bichos, que por ali andam, na terra, no mar ou debaixo de água. É assim aos olhos de uma criança de quatro anos, nada existe fora de um habitat, nada existe sem pertença, nada existe sem relação, nem mesmo os monstros, incluindo os especiais, que têm super poderes.

É, afinal (e também), na relação com o outro que nos definimos, e na ausência dessa relação, não temos azimute, não há referências, não há chão. Era afinal isso que a minha avó temia, o não reconhecimento de si mesma. Imagino o que seja viver assim, sem as referências de uma história, sem ligações que nos dêem consistência.

Todas as pessoas sós, pertencem-nos, saibamos nós ver a sua solidão e tenhamos nós alma para as alcançar.

Do enlevo

Nunca hesitava numa palavra. Expunha tudo com lucidez, numa linguagem admiravelmente escolhida e com tamanha autoridade que nos seus lábios as coisas claras tinham todo o sal de um epigrama.

Somerset Maugham, in O biombo chinês.

Deixa-me rir ...

Dá-se imensa ênfase à importância do humor no relacionamento moderno. Somos levados a crer que tudo correrá bem desde que nos consigamos fazer rir um ao outro, traduzindo-se um casamento bem sucedido, efectivamente, em cinquenta anos de comédia de improvisação.

David Nicholls, in Nós.