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Outro Sentido

Outro Sentido

Geografias

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A importância de termos lugares bons que nos salvam, não importa se são lugares mesmo, feitos de espaço e com localização no mapa; geografias há muitas e aquelas do coração podem levar-nos a caminhos de consolo tremendo. Há pessoas que são lugares, os melhores lugares da nossa história, voltar a elas é mergulhar em sorrisos íntimos de conforto, abraços que se dão para lá da ausência, estão sempre lá, mesmo quando já não estão. Voltamos a esses lugares porque sim, porque não, porque nim. São lugares cativos e são sempre os melhores, porque a partir deles vemos tudo e guardamos essa paisagem em fotogramas mentais a que voltamos mais tarde, num rewind de coisas boas. É assim uma espécie de cinematografia pessoal, com realização espontânea que tende a guardar instantes que até pareceram banais no momento em que os vivemos, mas que depois, vistos da plateia dos anos, são raros, espantosos, densos, saltam com uma banda sonora em crescendo e um close up de detalhes que nos surpreendem na nossa capacidade de memória.

 

Os miseráveis

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Estive em Paris no início deste ano, um rompante decidido à mesa de um jantar, carregado da sorte de o poder fazer.

No início de Janeiro, a cidade das luzes estava mais iluminada que nunca, convidativa, festiva, animada. Paris na rua, a qualquer hora e em qualquer bairro, com lojas abertas até horas tardias, cafés, restaurantes, museus, jardins, ruas, praças, igrejas. Paris fervilha e respira cultura, arte, livros. É uma cidade encantada, estonteante.

Desta vez, porém, já em Lisboa, quando me perguntam como estava Paris, dou por mim a falar de coisas muito contrastantes com as razões que me fazem querer lá voltar, muitas vezes, amanhã, se possível.

É que há coisas que nos entram pelos olhos adentro e ficam lá, a fazer cenário e Paris estava armada até aos dentes, havia policia militar em cada esquina, de metralhadora ao peito, colete anti bala, botas de tropa e farda de camuflado; não era um ou dois, eram às centenas, em todo o lado, em todos os monumentos, em todas as avenidas, no aeroporto, nos jardins, no metropolitano. Sentimo-nos estranhos, com o coração a hesitar entre a segurança do aparato dissuasor e a eminência de o ver entrar em acção. É uma cidade sitiada, a tentar ignorar a presença militar para se encontrar a si mesma.

Depois, do outro lado das armas, há a indigência ostensiva: vemos cair a noite e, com ela, encontramos famílias inteiras de refugiados a dormir no chão, pais e filhos dobrados debaixo de camadas de cobertores, os adultos a ladear as crianças que se entretêm com um qualquer brinquedo, enquanto uma chuva miúdinha e gelada lhes cai na cama improvisada.

Nas primeiras linhas do artigo da Clara Ferreira Alves na Revista do expresso desta semana, ela diz:  "Há miseráveis a mais nas nossas ruas. Nas ruas de Londres, Paris, Madrid, Bruxelas ... Lisboa". Li isto e pensei imediatamente: será que ela também viu as famílias de refugiados em Paris? Mais baixo, ela responde-me: "Numa rua de um bairro elegante de Paris vemos famílias inteiras, pai, mãe, filhos pequenos, a dormir nas lajes".

É uma miséria adicional a somar àquela outra, a caseira, feita de desempregados e toda a sorte abandonados que se acumulam pelos cantos e que a nossa sociedade, agora, chama de sem abrigo, como se isso mascarasse a miséria humana à nossa porta, já a roçar a invisibilidade aos nossos olhos.

Eu tive a sorte de poder ir a Paris, de bilhete comprado e hotel marcado, mas trago de lá um excesso de bagagem com o qual não contava - a imagem daquela família deitada no chão a duas ruas do meu hotel, não me larga a retina, por isso, sempre que ouço um louco qualquer a falar em fechar fronteiras como quem fecha os olhos e empurra a poeira para debaixo do tapete, a minha reacção é emocional, uma raiva a crescer com a loucura do mundo.

Oh what a wonderful world...

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Está frio. Diz que nevou no Algarve, em Tavira, tão próximo do local onde passo férias com temperaturas de verões quentes.

O mundo inteiro estava a precisar de um abraço quente neste momento.

Donald Trump é oficialmente Presidente dos Estados Unidos. O filho do Donald Trump faz-me lembrar a personagem do Joffrey Baratheon do Game of Thrones. A classe descontraída do casal Obama dói na despedida. Não estou optimista e vou ter de trabalhar para manter acesa em mim a tal da esperança, a fé nos homens.

Estive em Paris no início do ano, foi a terceira visita à capital francesa e a primeira vez que a vi engalanada de Natal - é um espectáculo alegre, descer os Champs Elysees iluminados em cada árvore e carregados de gente que se passeia debaixo de gorros, cachecóis, casacos e luvas ou que celebram a vida numa esplanada aquecida, numa feira de rua, numa igreja, nos cafés. Nunca vi tanta policia militar armada numa cidade. O acesso à torre Eiffel está vedado por arame e um apertado controlo de segurança. À noite, com temperaturas de gelar qualquer um, há famílias de refugiados a dormir em esquinas e passeios, deitam-se ali, simplesmente, sob camadas de cobertores, com os filhos no meio e os pais a ladear. Vi demasiadas. É de tolher o coração. Paris, linda, alegre, romântica, fria e em estado de alerta.

Entretanto, na televisão, há imagens diárias de campos de refugiados cobertos de neve por essa Europa fora, de gente enrolada em cobertores, a tremer de frio, alinhados em fila, à espera da ração do dia. Conheço imagens semelhantes mas têm 70 anos e não recordam uma época bonita da história da humanidade. A Cáritas apela à ajuda para tentar algum apoio, talvez morram menos, gelados, em pleno século XXI, na Europa!

No discurso de tomada de posse, o novo Presidente fala de proteccionismo, de mais fábricas, mais pontes, mais estradas, mais aeroportos, mais empregos, mais nacionalismos e mais muros a fazer fronteiras. Há uma multidão que o aplaude - há realmente gente que o aplaude - e ele tem um ar zangado, ele tem sempre um ar zangado. O eco do que ele diz está a ressoar pelo mundo, está a causar reacções, alastra. Uns quarteirões ao lado, há manifestações em curso, malta encapuçada a marchar, a virar caixotes do lixo e a partir algumas montras, a policia tenta encaminha-los à força de água, escoltas, carros. Também eles provocam reacções.

Penso nisso, no facto incontornável de que todas as palavras que dizemos, todos os gestos que são nossos, todas as posições que assumimos, têm, no momento em que os colocamos no mundo, uma consequência, um eco, uma mensagem que é passada para o espaço minúsculo que ocupam, é a nossa onda de choque concêntrica, construtiva ou demolidora. Nada é inócuo e tudo que fazemos ou omitimos não se limita a mostrar o que somos, mas edifica também uma ideia de mundo à nossa volta, tem um efeito gravitacional. Se muitos edificarem a indiferença, ela instala-se, se muitos edificarem a raiva, ela impõe-se, se muitos edificarem a exclusão, os muros crescem sem necessidade de tijolos que os tornem visíveis.

Quando Armstrong cantava o seu Wonderful world, ele dizia: The colors of the rainbow / So pretty in the sky / Are also on the faces / Of people going by / I see friends shaking hands / Saying: "How do you do?" / They're really saying / "I love you" -  faz-me pensar se, também ele, tinha essa ideia estranha e revolucionária de que a cara que fazemos, o bom dia que damos e a mão que estendemos têm esse poder contagiante de transformar o mundo!

Bem sei que a idade da inocência já lá vai, e que há que descer a cabeça lá do alto do arco iris para a colocar no planeta terra, mas precisamente por isso, quando acordo, todos os dias, e vou tomar café, quando atravesso a rua e me cruzo com um estranho, quando vou trabalhar e entro numa reunião, quando ligo o computador e vou às redes sociais, quando saio à noite e vou jantar com amigos, quando me enfio no carro e vou levar as crianças à escola, quando, em suma, faço o que faço e sou quem sou, eu estou a edificar mundo à minha volta.

A pergunta é, que mundo?

2017 Take off

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Ir ao ginásio de manhã. Arranjar as mãos uma vez por semana. Ter mais do que um iogurte no frigorífico. Beber dois litros de água por dia. Sair do escritório às sete. Entrar no escritório às dez. Ligar às amigas. Dormir uma sesta. Aprender a dizer não.

Não revirar os olhos quando o telefone toca. Pintar o cabelo. Fazer uma viagem por ano - ir aos Açores não conta como viagem, é pilar de felicidade. Não ter vontade de transformar em estátua de sal quem faz conversa de circunstância que não interessa nem ao menino Jesus. Rezar mais ao menino Jesus. Fazer tricot. Não cair em colapsos de insegurança se não foste o melhor que idealizaste. Tentar sempre ser o melhor que consegues. Estudar mais. Aprender a dizer não.

Fazer depilação definitiva. Aceitar o que não és. Gostar do que és. Ir para fora cá dentro. Ler os clássicos. Ler os modernos. Ir a museus. Procurar música nova para ouvir. Lavar o carro. Dormir sem Angelicalm. Definir o que é realmente urgente e dar resposta em verdadeira conformidade. Não testar limites. Fazer o passaporte com um propósito. Usar as escadas e não o elevador - são dois andares, caramba. Duas aulas de pilates por semana. Musculação. Cardio. Telefonar à mãe.

Não carregar a culpa do mundo. Fazer um puzzle. Escrever mais. Lacar as madeiras da casa e pintar as paredes. Arrancar os quadros e reordena-los. Só pôr o pé na balança uma vez por mês. Não pensar que a vida está a meio e desligar o tic tac na cabeça. Parar de olhar para trás e aceitar. Cortar no chocolate. Beber mais vinho. Cozinhar. Telefonar à mãe.

Dançar. Rir de coisas parvas até doer a barriga. Ir mais ao teatro. Fotografar. Ter flores em casa. Ir ao Mercado aos sábados de manhã. Voltar a nadar. Comprar creme de contorno dos olhos. Usar batom vermelho. Perdoar-te. Perceber que, na maioria das vezes, a malta hipócrita é só insegura. Não desprezar a malta hipócrita, reduzindo-a a pó.  Aprender uma coisa nova. Tomar a vacina da gripe. Desligar o ar condicionado. Lembrar aniversários. Retomar as temporadas da Companhia Nacional de Bailado. Fazer um PPR. Dar tempo aos teus. Compensar os dias. Aprender a dizer não.

Não te esqueças, amor.

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Ver o amor, assim, largado ao chão e esperar que não o seja numa rua de amargura. Tropeço nele, a caminho do trabalho, e reparo nas rodas e nos pés que lhe passam por cima, a fazer voar as folhas de outono.

Pergunto-me se o autor saiu de casa com uma lata de tinta só para fixar em letras grandes o amor que escasseia ao mundo ou se esperava realmente que ela acordasse de manhã e batesse o nariz no amor declarado, talvez da janela de um prédio vizinho ou no percurso de todos os dias.

Gosto disso, um lembrete à laia de post it mas com letras garrafais largadas no alcatrão, não vá ela esquecer-se ou perde-lo no caminho.

 

 

"Ando com saudades da beleza"

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Leio uma crónica do Arnaldo Jabor onde ele diz: "ando com uma fome de arte, ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza, paz (...)" e eu, que ando nisto, percebo-o.

O mundo anda feio, violento, desacreditado e corremos todos o risco de começar a banalizar a fealdade e resolver com um encolher de ombros os miseráveis poderes que nos governam. Há muito que deixei de acreditar em soberanias e encaro-as na perspectiva do mal menor; não creio que seja a única.

Acredito, isso sim, na força dos fazedores, dos que não se acomodam, dos que descruzam os braços, dos que fazem contracorrente, dos que não se limitam a viver vidas pequeninas feitas de prazeres próprios. Acredito na força desses milagreiros quotidianos, incapazes dessa coisa fácil que é a indiferença. Esses são os heróis, esses são os que fazem o mundo, esses são os que mudam o rumo, esses são os únicos capazes de plantar beleza nesse planeta e mudar-lhe o tom. Tento ser um deles, pertencer a esse clube, fazer coisas que dão sentido aos dias, que me fazem chegar ao fim da jornada com a noção sólida de "eu hoje fiz isso"; enraíza e é bom.

Ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza; ando a ouvir música nova, uma pitada de indie, que tem o seu quê de inocência à moda dos anos sessenta e qualquer coisa de luminoso, é boa como a comida de conforto mas não engorda, embala uma manhã de edredon e pequeno almoço na cama ou uma horinha de sol de inverno na praia mais próxima. Também ando a correr os meus álbuns de arte para encher os olhos, lavar a retina da violência televisiva. Beleza é fundamental, ora bolas.

Ando com saudade de tudo, e devo estar naquela meia idade em que se viaja para trás por dá cá aquela palha, e eu tenho a sorte de o meu rewind ser encantatório como um labirinto, fico lá, às voltas, a perder-me pela lagoa do fogo, por Verões em S. João do Estoril, por cantinhos em Sintra, pela estrada do Guincho, Évora na Páscoa, Manta Rota em Agosto, Paris. Pergunto-me se daqui a vinte anos terei lugares a que voltar e que sejam feitos deste momento de agora ... sim, terei, é seguro que terei, e com gente muito boa lá dentro.

I'll be the ghost in your smile (...),

I'm a mosquito on your lips saying grace,

you know you want it bad

driven by lust

and whatever is left from your motor skills

Esta malta da música indie deve fumar umas coisas e vive na boa, a ver belezura todos os dias, muito cool.

Dos livros

Livros, meu estimado tenente - sublinha. Meus ou de outros, tanto faz ... Basta ouvir a sua agradável conversa para saber que não lhe são alheios. E, voltando ao assunto de antes, ninguém pode ser sábio sem ter lido pelo menos uma hora por dia, sem ter biblioteca, por mais modesta que seja, sem professores aos quais respeitar, sem ser suficientemente humilde para formular perguntas e atentar com proveito nas respostas.

In, Homens Bons, Arturo Pérez-Reverte

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