Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Outro Sentido

Outro Sentido

Um solavanco na rodinha do hamster.

tumblr_mfox8ifhQL1r3olkxo1_500.jpg

Acontece, às vezes, que um qualquer lugar deste mundo nos arranca, à força, a paisagem que conhecíamos do espaço moldado da nossa janela. Por alguma razão que não ouso discernir, isso tem acontecido com frequência neste cenário desordenado que é o planeta terra. Lembro-me de um poema da Matilde Campilho que nos primeiros versos diz: "O mundo está absurdamente esquisito, já ninguém confia nas imposições dos perfeitos" e creio que todos sentimos isso, cada vez mais, a cada notícia de jornal, a cada passo dado na rua, a cada pausa que nos concedemos para pensar um pouco na ordem inversa da importâncias das coisas.

Paras um pouco para pensar nisso - está metade do mundo a pensar no futuro e a outra metade a dormir um sono profundo. Todos acordarão, no fuso horário que lhes couber, para uma alteração do panorama habitual. Ajustamo-nos a tudo, meio apáticos, meio efusivos, meio conformados, meio revoltados, meios dormentes, meio expectantes. Para além desses, há sempre aquelas células inquietas, verdadeiras teimosias de luz, são os loucos, aqueles que vivem no intervalo ténue entre o sono e a agilidade e que, simplesmente, persistem no amor, porque tudo o resto, é desarrumação.

"A esta hora na terra

é metade Carnaval, metade conspiração,

metade medo, metade fé,

metade folia, metade desespero

E, provavelmente, a esta hora

uma metade do mundo está dançando

e a outra metade dormindo,

há ainda outra metade limpando as armas

outra, limpando o pó das flores.

Mas por causa do que me ensinou o místico

eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado.

Alguém que esteja vivendo no intervalo ténue entre o sono e a agilidade.

Supondo que ele saiba perfeitamente que este começo de século

será nosso baptismo de voo para a persistência no amor"

 

Matilde Campilho, in Fevereiro.

Os anéis de saturno

Há uma música antiga que te embala a tarde chuvosa e houve uma manhã que não cumpriu o sol do feriado passado. Há uma amiga que te pede o ombro e, ao dá-lo, percebes que os ombros se cruzam, como as vidas, e que nessa linha invisível, há histórias escondidas que se entrelaçam em reflexos de espelho.

Há uma palavra que não disseste e que vive encalhada na tua garganta e há lugares sem chão a que voltas constantemente com sorrisos que sorris para dentro. Há um castelo lá no alto, há uma lagoa lá no fundo, há uma janela onde bate o sol, há uma piscina iluminada onde não mergulhaste, há uma praia de ondas fortes, há uma estrada comprida que te conhece desde menina e há mãos pequeninas que se agarram à tua até já não o serem.

Há uma saudade que irradia em muitas latitudes e que tu sacodes como quem enxota mosquito pois sabes que tens uma âncora melancólica à qual não queres ceder e, por isso, empinas o nariz, engoles uns pirolitos e enrolas um carrapito no alto do cocuruto, como quem diz a si mesma, embora lá.

Há uma oração que guardas e de que gostas muito, voltas a ela para que cada palavra se enraíze em ti e aí fique a repetir um eco de sílabas finais; a verdade é que acreditas em anunciações e sabes que elas te surpreendem nos dias. Lembras-te do desabafo provocatório de Woody Allen: Se quiseres fazer Deus rir, conta-lhe os teus planos, mas tu contas à mesma, contas-lhe tudo e ele não ri mas diz-te coisas importantes que te mudam o azimute.

E, regressando à música - que foi onde começaste -, há esta mania dos headphones que voltaste a usar freneticamente como se tivesses vinte anos e andasses de comboio todos os dias a caminho da faculdade e quando dás por ti estás a dançar Coldplay, a gaguejar Bowie (ch ch ch ch changes), a valsar Cohen ou a cantarolar a Rita Lee enquanto ela promete: por você vou roubar os anéis de Saturno.

 

A de Açor.

a de açor.jpg

Não creio que seja livro que satisfaça todos os palatos, mas este A de Açor, vencedor do Costa book of the year 2014, é um regalo. Gosto de histórias de gente verdadeira, gosto de biografias e de memórias e, particularmente, gosto de histórias de superação pessoal.

Helen MacDonald escreve tudo isso e conta-nos o processo que viveu para ultrapassar a morte do pai.

Em momentos fracturantes da nossa vida somos frequentemente atraídos pela ideia de fuga - para uma ilha deserta, para o campo, para um lugar de infância. Na verdade, não é o lugar em si que conta, é a distância, a lonjura daquele ponto onde ancora a dor e que, na nossa sabedoria popular, tem sido romanticamente traduzido por "longe da vista, longe do coração". E se é verdade que o afastamento nos ajuda a colocar as coisas em perspectiva, é igualmente verdade que quando a dor já se agigantou em nós, podemos precisar de algo mais - de um propósito, de um projecto, de uma razão.

Há uma época na vida em que esperamos que o mundo esteja sempre cheio de coisas novas. E depois chega o dia em que nos damos conta de que não vai ser assim. Percebemos que a vida vai ser uma coisa feita de buracos. De ausências. De perdas. De coisas que existiram e desapareceram. E também nos apercebemos de que temos de crescer à volta e entre as lacunas, embora possamos estender a mão na direcção das coisas e sentir esse entorpecimento tenso e luminoso do espaço onde se encontram as recordações.

A autora Helen MacDonald é uma apaixonada por aves de rapina desde criança - decidiu aos seis anos que queria ser falcoeira e aos oito, já tinha lido tudo o que havia para ler sobre o tema. É com esta idade que tropeça no livro "The Goshawk", de T. W. White, outro autor que se dedicou ao belicoso processo de treinar um açor e que falhou catastroficamente. São estas estas duas histórias, entrançadas entre si, que nos são agora contadas e, de certo modo, este livro é também a homenagem que a Autora presta a T.W. a White e à sua vida dupla e sombria.

"A arqueologia da dor não é ordenada", pelo que esta também não é a história de uma mulher que estava triste, comprou um açor, treinou-o e depois ficou de bem com a vida. Muito pelo contrário, este livro está cheio de arranques e de recúos, de memórias e de momentos presentes, de instantes luminosos e de esquinas sombrias, de humor e de angústia, de inseguranças e de conquistas e de uma adorável capacidade de rir de si mesma.

O Açor é - ficamos a saber - o pitbull das aves de rapina, a ave impossível de treinar e, como tal, o projecto perfeito para uma dor enorme, requer dedicação, perseverança, paciência e tempo, muito tempo.

A falcoaria é, por sua vez, uma actividade tipicamente masculina, a ela dedicam-se homens vestidos de turbante, de tweed, de chapéu de cowboy; homens que dão às suas aves nomes agressivos e auspiciosos para a actividade de caça que é visada.

Mas este é um livro escrito por uma mulher, apaixonada (obcecada?) pelo treino de aves de rapina e, como tal, este açor - uma fêmea - chama-se Mabel, do latim Amabilis - adorável!

Estas são as personagens sempre presentes: a autora, White e Mabel e sim, confundem-se, fundem-se mesmo, porque fugir da própria pele para as asas de um açor que voa lá longe, a planar sobre a copa das árvores, livre e distante, forte e agressivo, é tudo o que esta mulher estava a precisar - não ser ela, não estar presa à terra, presa ao chão onde tem de acordar e caminhar todos os dias para descobrir e lembrar o que se passa nesse plano rasteiro da vida. Em vez disso, prefere o açor, solto, salvo, distante e forte.

Mas esta é uma ave desenhada para matar, construída para apontar o azimute a uma presa e descer a pique sobre ela, cravar-lhe as garras e esperar que morra para lhe bicar a carne, por isso, a mulher que comprou um açor para fugir à morte, vê-se obrigada a olhar a morte de frente, a descer à terra, a pisa-la, a olha-la com tudo o que ela carrega, a sentir-se de novo, a recomeçar nesse plano onde a gravidade produz, em tudo, o seu efeito.

Agora eu compreendia o que aquilo era: uma mentira sedutora, mas perigosa. Estava furiosa comigo própria e com a minha certeza inconsciente de que esta era a cura de que precisava, As mãos são para serem seguradas por outras mãos humanas. Não se podem limitar a ser poleiros para aves de rapina. E a natureza não é uma panaceia para a alma humana; demasiado tempo no ar pode desgastá-la e reduzi-la a nada.

 

 

 

Aguenta coração.

Shelia Liu.jpg

Aguenta coração, onde te penduras toda, te enrolas toda e flutuas toda, entre válvulas, aurículas, ventrículos e sangue. Aguenta coração com tudo o que és, com tudo o que largaste, com tudo a que te entregas e com o mais que sentes. Aguenta coração, porque quem sente muito precisa de um coração forte, uma bomba potente para sugar e expelir a vida a cada golfada.

Sabes que a tua mãe tem um coração grande - não é só amorosamente grande, é mesmo física e clinicamente grande -, já o teu é pequenino, não aguenta o tudo que lhe colocas no colo, és tão exigente com ele como és com os músculos das pernas, com a força do ânimo, com a perseverança da fé, com a excelência do trabalho, com a elasticidade do tempo e com a capacidade de resposta à variedade da vida.

Por isso aguenta-te, porque a mulher que te carrega despeja para dentro de ti verdadeiras toneladas que nem sempre são recicláveis, sim, para além de coração, também és aterro e tens de o ser, porque os discos vertebrais já se queixam demasiado - os mariquinhas -, dizem-se esmagados, pasme-se, logo por ti, que do alto do teu metro e setenta e oito revelas um IMC de peso pluma. Não há pachorra.

Aguenta coração, porque verdade seja dita, não fora estas delicadezas da existência e até serias um coração levezinho, sem gorduras que te entupam a circulação, fumos tóxicos que te obscureçam a paisagem ou venenos de fast food que te atribulem o funcionamento. Nada disso, na verdade até és um coração sadio, com treino cardiovascular recorrente e saudavelmente alimentado, até te dou um copinho de tinto de vez em quando porque dizem os médicos que te faz bem - a ti deve fazer-te maravilhosamente, até começas a bombear música em vez de liquido vermelho e, quando dás por ti, estás aos saltos e cantarolar os Deolinda que são um entusiasmo recente.

Tem de acontecer, porque tem de ser
E o que tem de ser tem muita força
E sei que vai ser, porque tem de ser
Se é para acontecer, pois que seja agora.

Maravilha, não há coração que aguente.

Os voluntáros não são uma treta

a change may be just around the corner.jpg

Terminaste a semana num evento que promoveu um encontro entre empresários e instituições de solidariedade, que procurava construir pontes entre ambos para suprir necessidades reais de uma faixa de população crescente; percebes o quanto esta gente tem feito por quem não tem mais quem os ajude. Foi dito - e é verdade - que, não fora o trabalho de tantas associações e dos voluntários que as fazem viver, e estes anos teriam sido indizivelmente mais dramáticos. A maioria de nós não faz ideia - não faz mesmo - dos tentáculos de auxílio que tecem um tecido social silencioso de entreajuda, sem precedentes na história da nossa sociedade.

Compreendes, naturalmente, que o direito ao trabalho faz parte da estrutura da dignidade da vida humana, o trabalho é um direito legal que promove a estabilidade das famílias e da sociedade em que estas florescem, mas não podes deixar de lamentar declarações políticas tão infelizes como a frase recentemente proferida por um membro do governo, segundo a qual "o trabalho voluntário é uma treta". Se metade dos políticos que nos governam conhecesse realmente a realidade do voluntariado em Portugal, jamais teriam a infelicidade de certas palavras, contextualizadas ou não, associadas ou não a direitos fundamentais - não as diriam por elementar inteligência social, governativa e até política, mas a falha dela também já não te surpreende.

A verdade é que nunca tantos saíram dos seus lugares de conforto para fazer pelos outros, nunca tantos usaram o seu tempo livre, as suas horas de lazer, o seu tempo em família, os bens que têm, os dons com que nasceram, a formação profissional que adquiriram e os neurónios que treinaram, para se virarem - não para si mesmos - mas para os outros, havendo mesmo, de forma nada surpreendente, uma preocupação empresarial de inclusão desta visão no trabalho e na estrutura organizativa das empresas.

A um nível de célula social mais pequena, a solidariedade tem também um papel  fundamental, e educar os nossos filhos na consciência de que existem outros menos afortunados, fazendo-os parte dessas redes de apoio, é um traço importantíssimo e estrutural da educação alicerçante da nossa sociedade futura e isto não é, em nenhuma vertente possível, uma treta.

Let me guide you into the purple rain

37f6a8cb6bdac55878ffbc576b52cf85.jpg

Aqueles que me conhecem, sabem que Purple Rain do Prince é uma daquelas músicas que me define, talvez a par e passo com o Sultans of swing dos Dire Straits ou o I will always love you da Whitney Houston. São sonoridades totalmente diferentes que, porém, ficaram gravadas em mim, feito tatuagem; apoderei-me delas, com um sentido de posse emocional - são as minhas músicas e não me interessa se também o são de outros, sei que são minhas, tumultuosamente minhas, incontrolavelmente minhas, porque a música tem (sempre teve) esse poder de me comover, de me agitar, de me alegrar, de me entristecer ou, simplesmente, de me encher de uma qualquer emoção tremendamente forte que me atravessa para lá do corpo que se move sempre (um amigo dizia-me que eu era capaz de dançar ao som de pratos partidos).

Purple Rain é aquela música que começa a tocar e todos os olhos familiares se viram para mim, cúmplices, sabidos, íntimos, como que a dizer-me "olha, a tua música", e é, a minha música; uma música que dificilmente poderia ter acontecido neste século XXI, porque sendo intemporal, é também produto de uma época em que as músicas e os vídeos que as acompanhavam (na altura, chamávamos-lhes telediscos) contavam uma história, e eram longas (esta tem cerca de dez minutos) e tinham um clímax do qual, depois, se descia em notas longas que se iam apagando. No Purple Rain há uma história de reconciliações, e há um solo de guitarra arrasador do qual se descansa no final com um piano e cordas. É all in one, não lhe falta nada, intensamente perfeita.

Tenho poucos CDs the compilação, mas tenho o duplo do Prince -  The hits vol. 1 e 2 - e ouço-o com frequência por uma questão de sanidade, de necessidade de ligação a um tempo musical, e porque dançar freneticamente ao som de Kiss, when doves cry, peach ou 1999 faz bem a qualquer alma que se preze.

Aos poucos, perdem-se gigantes que nos ensinaram umas quantas coisas sobre música, e parece que há uma página que se vai virando, definitivamente, transformando o mundo para toda uma geração.

This is what it feels like, when the doves cry!

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.