Domingo, 20 de Julho de 2014

Filomena

Só hoje vi este monumental "Philomena" e, sabendo embora que já meio mundo falou dele – sendo certo e sabido que só esse  meio mundo o viu - é-me impossível ficar calada e nada dizer. É isto que acontece aos que escrevinham: aquilo que nos impacta, sai-nos pelos dedos.

Este, podia ser um filme sobre a revolta, a mágoa, a vingança, o rancor, a tristeza ou a vergonha. Podia ser um filme destinado a atear a controvérsia ou  a provocação religiosa. Podia ser ainda um filme piegas e melodramático, daqueles que arrastam a dor pela lama e que exploram a veracidade da história até ao tutano dilacerante das nossas emoções.

Mas este filme não é desses, sendo certo e sabido que a interpretação estrondosa de Judi Dench contribui bastante para o contraste temático e vivencial da história.

É sabido que a maldade vive neste mundinho e habita em nós - em todos nós - e pode, sob o estandarte do rigoroso princípio moral, devassar vidas e trucidar rumos. É sabido que o extremismo religioso - seja ele qual for - se alimenta dessa escuridão e procura, não raro, a desforra pessoal em vida alheia. É sabido que a rectidão ética é um caminho trabalhoso, muitas vezes íntimo e cheio de solavancos, é uma renda de bilros, linda de morrer mas difícil e facilmente substituível por máquinas modernas que tentam imitar o labor das mãos. A perseverança na construção do nosso eu pessoal é um tremendo desafio diário e requer toda a nossa dedicação. Em suma, este é um filme sobre esse dom monumental que é o perdão - o perdão mesmo, aquele que se dá de coração porque nasce cá dentro, porque foi semeado no sangue e esculpido em cada osso até à alma. Ora aí está um trabalho genuíno de fé - leia-se de esperança - e porque essa fé está escolhida na história que se conta, este é, também e ainda, um relato de construção cristã.

By Leonor às 22:58
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2014

As primeiras linhas de um livro.

 

"O meu filho e eu chamávamos-lhe professor. E o professor chamava ao meu filho Root. Porque tinha o alto do crânio tão direito como o símbolo da raíz quadrada".

By Leonor às 08:19
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Terça-feira, 15 de Julho de 2014

Ballerina Project no Instagram

Maravilhoso, o instagram do Ballerina Project.

 

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By Leonor às 09:16
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2014

Nocturno

No dia 13 de Abril de 1948, Susan Sontag escrevia no seu diário que "as ideias perturbam o equilíbrio da vida". Eu, tenho para mim, que as ideias perturbam o equilíbrio do sono, pois é à noite que me apodero da totalidade egoísta do silêncio, do espaço que não me me limita os gestos, do campo livre de onde saltam lembranças como pipocas. À noite teço conversas imaginárias que nunca terei, construo lógicas que vou rebater na lua seguinte e desconstruo as minhas próprias razões. À noite sou parda, invisível e muda e nessa coisa nenhuma, há uma luz que se acende e que coloca estradas de possibilidades no meu horizonte. À noite, tenho um cansaço imenso no corpo, um peso terrível nos olhos, uma lentidão de câmara lenta nas mãos e, no entanto, a minha cabeça gira a 75 rotações, a plantar coisas na retina, a semear representações nos imaginários que crio, a responder às perguntas que me coloco, a lembrar tudo - mas mesmo tudo -, nos detalhes insignificantes que o tempo se encarregou de fossilizar sem que eu perceba sequer porquê. A noite é má conselheira, dizem, mas faz óptima companhia.

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By Leonor às 01:51
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Segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Um dia de sol dá-nos alento para as coisas prosaicas da vida.

[Charles Courtney Curran, sombras]

By Leonor às 09:02
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Sou toda tua, coração.

[Travis Bedel ]

 

Sabes que o coração é só um músculo, não sabes? Às vezes arrancam-no do corpo, enfiam-no em caixas geladas e ele sobrevive, fora de nós, dentro de uma coisa plástica, cheia de gelo. É bom lembrar estas minudências da ciência, lembrar que, por exemplo, nos podem extirpar o coração, congela-lo e enxerta-lo noutro corpo, que não é o nosso, e ele continua a bater; um músculo, apenas, sem apego ao dono do qual foi desenraizado.

Reconheço que há corações gelados dentro da quentura de um corpo, imagino que ali só sobrevivam microrganismos e algumas ervas daninhas, talvez. São corações tristes, cheios de agruras e secretas aversões. Acho que esses corações são diferentes dos outros, acho que bombeiam lama em vez de sangue - sim, lama -, que quando é canalizada para as veias, transforma-as em troncos de esforço - retorcidas e disformes - e que depois alastram o lodo aos órgãos vizinhos - ao estômago, aos pulmões, à pele, aos mistérios labirínticos do cérebro. Imagina, um cérebro de lama, uma pele de lama, uma voz de lama.

Mas também acredito na força imprevisível da natureza que faz rebentar plantas nas arestas mais cortantes da junção de duas pedras, acredito nas flores do deserto (porque já as vi), acredito nos pedaços de relva que surgem no meio da neve a anunciar a primavera e acredito na beleza silenciosa das paisagens vazias, varridas por ventos glaciares.

Sim, também acredito nisso, acredito com todas as forças do meu coração (se calhar, acredito para lá delas), e eu sei que o meu coração também tem esquinas sombrias, não está imune à penumbra e, de vez em quando, lá sinto a lama a encaracolar-se pela aorta acima, a querer entupir veias, artérias, ventrículos e aurículas. É uma sensação terrível, essa, a de sentir essa coisa escura a subir por nós adentro, eu sei. Foi por isso que instalei um alarme - sabes o que dizem, casa arrombada, trancas à porta, e esse fel não o quero mais dentro de mim - quando ele me grita ao ouvido, eu faço marcha atrás, e toda a lama se dissolve no nada que é.

Às vezes, ainda me batem à porta, a quererem doutrinar-me o rancor, mas eu mando-os pastar para o vizinho de cima que faz uma barulheira danada a gritar com os filhos e com a mulher, pelo que cheira-me que deve comprar daquilo às paletes para sair mais barato.

Em bom rigor, é isto, o nosso coração é o que nós fazemos dele, é o uso que lhe damos e tu é que escolhes, se queres uma varanda castanha a escorrer humidade e porcaria ou uma cadeira ao sol rodeada de cor e luz. É claro que isto dá uma trabalheira danada e é um gasto de cif e esfregão que não tem fim, uma canseira, mas que hei-de eu fazer? Gosto de flores, pá!

By Leonor às 17:43
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Vendaval de madrugada.

(Para a Fernanda)

 

O relógio bateu o minuto vinte e oito das três da manhã e eu continuo a arrancar linhas ao sono para tentar chegar lá. Levanto-me, saco mais um livro da estante e continuo à procura de um sentido em páginas verticais. Não estou habituada a páginas verticais. A prosa é horizontal, escorrida, derramada, deitada. A prosa embala-nos e leva-nos com ela, é como um passeio, uma paisagem. Mas hoje, é o poema que me mantém acordada, ou pelo menos o poema em verso, pois ao que parece também o existe em prosa e, uma vez mais, não percebo porquê. O poema não é um passeio, é uma esquina inclinada, é uma montanha escarpada, uma gruta escura que me obriga a usar martelo, lanterna e cordas. Tenho um tio que se vai zangar comigo, eu sei, ele que anda a convidar-me à poesia - própria e alheia - desde que comecei a ler duas palavras seguidas. Mas perdoem-me os entendidos - não compreendo a verticalidade do poema, o corte da frase, a lógica da grafia inacabada que recomeça na linha seguinte, o ritmo. Se tal não bastasse, raramente assimilo um poema inteiro, parece que o poeta escreve para ele e só para ele e, nós, leitores mortais, temos de decifrar os mistérios insondáveis do que lhe vai na alma. Apetece-me extirpar partes soltas a poemas, bocados que se me colaram aos olhos porque, soltos, são únicos, mas inseridos no poema, perdem-se. Pudesse eu dissecar poemas e dizia-me já leitora de poesia. Ah, aquele fim do O'Neill, aquelas quatro linhas da Matilde, aquele primeiro verso de Tolentino, aquela ideia de Rilke, aquelas duas palavras de Hamilton, aquela pergunta de Sophia, aquele passo dançante de Vinicius. Mas não se pode gostar de poesia às fatias, pois não? Ou pode? O relógio aproxima-se perigosamente das seis da manhã e eu nisto. Lá fora um bêbado canta sozinho na noite e antes dele passaram os camiões do lixo a bombardear o silêncio. Assim de repente, talvez isto desse um poema, sei lá eu. Leio, algures, a palavra "overwhelming". Por mais que se tente, há palavras que não encontram tradução aproximadamente capaz, "overwhelming" é uma delas; gosto desta palavra e da forma como ela se enrola na boca, gosto mais da palavra do que do poema onde a encontrei. Sim, também há palavras únicas no português, a saudade e tal, e, sim, eu sei que não é a única, e sei porque tenho uma lista delas. Eu gosto de listas, faço listas de tudo e faço listas das palavras de que gosto. Gosto de listas, deve ser a única escrita vertical que compreendo.

By Leonor às 05:09
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Terça-feira, 1 de Julho de 2014

Traços

( Andorinhas - Benjamin Chee Chee - 1944-1977)

By Leonor às 13:07
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Sábado, 28 de Junho de 2014

A velha infância

 

Num dos seus muitos aforismos, Kafka diz que "quem possui a faculdade de ver a beleza não envelhece". Leio a frase e pergunto-me, afinal, que velha serei eu, se lá chegar, se a meia idade não der cabo de mim entretanto; se é que estou na meia idade, não sei já se ela acontece aos 30 ou aos 40, se é real, se é um tempo de dores nas costas, pequenos-grandes prazeres e uma plácida serenidade toda ela feita de estou-me nas tintas.

Costumo dizer que já nasci velha, sinto-me assim, muitas vezes, como se já tivesse muitos anos em cima, como se, desde cedo, as exaltações me passassem ao lado como um revirar de olhos. Devia achar que isto é mau, mas não acho, deve ser isso, a velhice.

Lembro uma conversa com um amigo de família que me contava da veneração e respeito que os chineses têm pelos seus anciãos, os mais novos tratam os mais velhos com deferência porque está entranhada no tecido social a noção de que os anos trazem sabedoria de vida, prudência, equilíbrio.

Mas a velhive traz também uma fragilidade que nos transporta à infância, não raro, à dependência, à necessidade de mimo, à birra e ao beicinho. No fim, voltamos ao princípio.

É sabido que este país não é para velhos e que a maioria deles vive por aí, aos caídos, mas eu não consigo deixar de me comover com as rugas marcadas, com o olhar condescendente, com as mãos torcidas e as costas curvadas. Sorrio à persistência com que os velhos evocam a alegria, o prazer, a ternura e não raro, o disparate de quem ganhou a autoridade de o estender a bom gosto.

Queira Deus que eu tenha a saúde e a dignidade de lá chegar assim, meio velha, meio criança, com a curiosidade a agitar-me a alma, mesmo que os óculos fundo de garrafa – se não a lupa – me obriguem a um esforço acrescido para olhar o mundo à minha volta, sabendo assumir a velhice num equilíbrio elegante entre o mau exemplo e o bom conselho, eu sei que já tive velhotas assim.

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By Leonor às 13:31
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2014

A relevância das primeiras linhas de um livro

"Estão quatro mulheres na sala. Destas mulheres é preciso saber antes de tudo que estão aqui por causa de um homem que cometeu um crime e que se por acaso se encontrassem na rua não se cumprimentariam".

Dulce Maria Cardoso, Campo de sangue.

By Leonor às 20:59
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Domingo, 22 de Junho de 2014

Chuvas de verão e um cheirinho bom a terra molhada ali na varanda.

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By Leonor às 11:08
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Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Escolha vintage de luxo, porque este senhor faz hoje 70 anos.

By Leonor às 13:27
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Terça-feira, 17 de Junho de 2014

A cor da força

[Kris Lewis]

 

E, de repente, o cinzento do céu que nos escureceu os olhos, ruboriza-se; abre-se a boca ao espanto e tudo assume a dimensão da esperança - contida que o seja, ou talvez não, na verdade, já nem interessa, porque cada segundo é uma conquista e cada conquista é um assombro.

De repente, há um milhafre que se atravessa à minha frente na A5, e olha que isto não é uma metáfora para poeta ver, era um milhafre mesmo, de asas largas a planar em cima do alcatrão; eu agarro-me ao volante, com vontade de esfregar os olhos porque há coisas que só acontecem nos filmes do David Lynch e não em percursos rotineiros de auto-estrada. Mas, logo de manhã, encontrei uma borboleta preta e amarela pousada na buganvília da varanda, devia ter percebido, logo ali, que este era um dia de possibilidades e expectativas.

 

O mero vislumbre de um pequeno milagre pode ter mais força que todas as certezas da ciência e esse impulso anímico dá cor a qualquer dia chuvoso.

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By Leonor às 19:09
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2014

Mais Muraliza.

By Leonor às 22:22
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Viagens na minha terra

Uma bela manhã de verão, passeio pelas ruas da Vila, a admirar os murais recentemente pintados no âmbito do Festival Muraliza (aconselho vivamente).

Numa esquina, dois pintores (com um ar muito hippie), terminam uma paisagem Cascalense, enquanto um fulano de calções e copo na mão - que depois esclareceu estar regressado dos Santos populares, curando a bebedeira com mais vodka -, vê passar duas estrangeiras muito louras e grita para o lado oposto da rua:

- Ladies, ladies, talk to me; are you hungry? Let's have lunch.

As ladies, olham uma para outra com cara de é-melhor-sairmos-daqui-quanto-antes, mas o nosso tuga insiste:

- Ladies, ladies, pay attention...

As ladies - moças novas e de vestido curto, continuam em frente. Eu tento concentrar-me na fotografia que vai ficando a meio com a risada.

O Tuga:

- Ladies, ladies, pay attention; you pay the attention, I pay the sushi!

As moças riêm, finalmente, eu desisto da fotografia, o Romeu, ispirado, continua:

- Do you see that big yellow ball in the sky? That's only the sun, but you are the light of my life!

Ergue o copo e brinda à vida, afinal, é feriado, são só onze da manhã, ainda o dia é uma criança.

Viva o Santo António, meus amigos!

By Leonor às 19:59
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Quinta-feira, 12 de Junho de 2014

Mitomania

Sabes que inventaste a tua história, sabes que a arquitectaste à tua volta, pedra a pedra, esquina a esquina,  passo a passo. Sabes que preferes as meias verdades ou as mentiras absolutas, mas precisas de umas e outras para te escudares. Crias o teu cenário, dás-lhe cores, datas, enredos e personagens, constróis diálogos e alinhavas acontecimentos trágicos e violentos, alternados de ternuras e proximidades que gostarias que o fossem. Crias grandes feitos, humildades, gestos nobres. Ergues esta muralha e escondes-te lá dentro. Sabes que se tocarem a trombeta em sete voltas em teu redor, ela cairá por si mesma e vives no pavor dessa ruína, mas não recuas, tudo menos o espelho que te dá, tão somente, o reflexo do que é, mesmo que o reflexo posa ser mais do que tu vês.

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By Leonor às 06:32
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Quinta-feira, 5 de Junho de 2014

Não me canso de ouvir esta entrevista maravilhosa de Matilde Campilho

RETRATOS | MATILDE CAMPILHO from clara cavour on Vimeo.

By Leonor às 21:23
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Domingo, 1 de Junho de 2014

Feliz dia da criança

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By Leonor às 14:12
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Quinta-feira, 29 de Maio de 2014

Heroínas dos tempos modernos

Leio na Porter uma entrevista à actriz Molly Ringwald em que a mesma é confrontada com a questão de saber o que é uma heroína dos tempos modernos. Dou por mim a pensar no assunto, procurando, tal como ela, fugir à resposta de identificar imediatamente as grandes mulheres que tenho a sorte de ter na minha vida, essas mulheres fortes, determinadas, focadas, de bom coração, sempre na alçada de mais e melhor, mulheres - de todas as idades e gerações - que me abençoam a existência e a acumulam de riquezas.

Tentei lembrar-me da heroína da minha infância - deverei tê-la tido, algures - mas não me recordo dela e, convenhamos, que a wonder woman com a sua coroa e fatinho sexy nunca me convenceu. Em menina, se alguma personagem literária assumiu, a meus olhos, contornos de heroína, terá sido, talvez, a Zé, dos cinco, toda ela Maria rapaz, corajosa e inconveniente.

Com o passar dos anos, fui construindo uma imagem mais definida de personalidades femininas relevantes, de início, muito guiada por quem me vestia a roupa e colocava o prato na mesa. Com efeito, a minha mãe, fruto de uma geração de marcadamente francófona, acabou por ter uma influência determinante na formação original de algumas ideias da minha cabeça; à medida que fui crescendo em estatura, fui também alcançando as prateleiras superiores das estantes de livros lá de casa e cedo me vieram parar às mãos os autores preferidos da minha mãe. Assim, se tivesse de escolher a minha primeira heroína dos tempos modernos, seria certamente Simone de Beauvoir, a menina bem comportada que tanto me marcou, precisamente, porque deixou de o ser, transformando-se numa mulher absolutamente singular e exigente no que à condição feminina dizia respeito, filósofa e escritora, era acima de tudo, uma mulher muito à frente do seu tempo e uma pensadora admirável, sedenta do que a vida tinha para lhe dar, questionando-se a cada instante e colocando no plano intelectual e emocional os detalhes da vida.

Numa aproximação crescente ao mundo das artes, apaixonei-me, irremediavelmente, por Frida Kahlo, pelas suas cores garridas, pelas indumentárias floridas e  de forte presença étnica, pelos seus amores mas, acima de tudo, pela forma como encarou a dor fisica tremenda resultante de um brutal acidente rodoviário  que lhe desfez a coluna, o pescoço, as costelas e uma perna que, no final da sua vida, acabou por lhe ser parcialmente amputada. Começou a pintar nesse estado desconstruido, deitada na cama, com a tela suspensa por cima dela. Pintou-se martirizada, na sua realidade, com uma espinha transformada em coluna romana rachada e o corpo cravejado de pregos a mostrar o que é a dor, pintou-se no sofrimento de não poder engravidar, pintou-se no amor por Diego Rivera e no desamor por Diego Rivera, mas pintou-se também numa altivez rica e profunda. Pintava-se a si mesma porque era a pessoa que melhor conhecia e pintava-se na sua dualidade de vida e morte, de alegria e dor, de amor e tristeza, de candura e insolência, de serenidade e explosão, de ingenuidade e revolução, de enraizamento à vida da terra em que nasceu e procura intelectual pelos tempos que a acolhiam. Em todos os sentidos possíveis, Frida Kahlo foi uma heroína, uma mulher que se fez mulher, nas palavras de Simone de Beauvoir. 

Há uns anos atrás - ainda pela mão da minha mãe - li os Diários de Etty Hillesum que me marcaram para a vida; se tivesse de escolher a heroína da minha fase adulta, seria certamente esta, pela espititualidade buscada e encontrada no cenário tremendo de um campo de concentração, pelo exemplo da imensidão de coração, da dádiva, da coragem, da perseverança que não se deixa contagiar pela maldade do mundo. Etty é a heroína em estado puro, toda ela mulher, toda ela positiva, toda ela esperança, toda ela querer.

Já mais recentemente, senti-me tocada com a história de Malala Yousafzai, uma heroína tão jovem, a lutar por algo que damos como adquirido no mundo ocidental mas que, para ela, nascida numa sociedade que menospreza a dignidade da mulher, o simples direito à educação é algo porque vale a pena arriscar a vida e a impossibilidade de regressar a casa. Malala sabe que educar é formar cidadãos e que cidadãos formados são uma ameaça a regimes opressores. Na sua caminhada, já a ouvimos dizer: "We realize the importance of our voice, when we are silenced"; assim é.

O que faz então uma heroína dos tempos modernos?

Provavelmente, aquilo que faz uma heroína de qualquer tempo: o foco, a verdade interior assumida como estandarte, o esforço, uma genuína e válida hierarquia de valores, a sede de vida, de originalidade, de presença, a coragem.

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By Leonor às 20:45
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Assinar, divulgar, não deixar cair no esquecimento é o pouco que podemos fazer.

Meriam Yehya Ibrahim, a cristã ortodoxa condenada à morte no Sudão, deu hoje à luz no corredor da morte, onde passou os últimos meses acorrentada. Na véspera os seus advogados tinham interposto recurso à sentença que lhe fora pronunciada pelo “crime” de apostasia.
Mais de meio milhão de pessoas em todo o mundo fizeram-se já ouvir em defesa de #Meriam, assinando a petição da Amnistia Internacional que insta à sua libertação imediata e incondicional. Mas é preciso manter a pressão sobre as autoridades sudanesas! Aqui fica o apelo da Amnistia Internacional para assinar a petição: http://bit.ly/Meriam_Ibrahim

By Leonor às 14:52
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