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Outro Sentido

Outro Sentido

Os voluntáros não são uma treta

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Terminaste a semana num evento que promoveu um encontro entre empresários e instituições de solidariedade, que procurava construir pontes entre ambos para suprir necessidades reais de uma faixa de população crescente; percebes o quanto esta gente tem feito por quem não tem mais quem os ajude. Foi dito - e é verdade - que, não fora o trabalho de tantas associações e dos voluntários que as fazem viver, e estes anos teriam sido indizivelmente mais dramáticos. A maioria de nós não faz ideia - não faz mesmo - dos tentáculos de auxílio que tecem um tecido social silencioso de entreajuda, sem precedentes na história da nossa sociedade.

Compreendes, naturalmente, que o direito ao trabalho faz parte da estrutura da dignidade da vida humana, o trabalho é um direito legal que promove a estabilidade das famílias e da sociedade em que estas florescem, mas não podes deixar de lamentar declarações políticas tão infelizes como a frase recentemente proferida por um membro do governo, segundo a qual "o trabalho voluntário é uma treta". Se metade dos políticos que nos governam conhecesse realmente a realidade do voluntariado em Portugal, jamais teriam a infelicidade de certas palavras, contextualizadas ou não, associadas ou não a direitos fundamentais - não as diriam por elementar inteligência social, governativa e até política, mas a falha dela também já não te surpreende.

A verdade é que nunca tantos saíram dos seus lugares de conforto para fazer pelos outros, nunca tantos usaram o seu tempo livre, as suas horas de lazer, o seu tempo em família, os bens que têm, os dons com que nasceram, a formação profissional que adquiriram e os neurónios que treinaram, para se virarem - não para si mesmos - mas para os outros, havendo mesmo, de forma nada surpreendente, uma preocupação empresarial de inclusão desta visão no trabalho e na estrutura organizativa das empresas.

A um nível de célula social mais pequena, a solidariedade tem também um papel  fundamental, e educar os nossos filhos na consciência de que existem outros menos afortunados, fazendo-os parte dessas redes de apoio, é um traço importantíssimo e estrutural da educação alicerçante da nossa sociedade futura e isto não é, em nenhuma vertente possível, uma treta.

Let me guide you into the purple rain

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Aqueles que me conhecem, sabem que Purple Rain do Prince é uma daquelas músicas que me define, talvez a par e passo com o Sultans of swing dos Dire Straits ou o I will always love you da Whitney Houston. São sonoridades totalmente diferentes que, porém, ficaram gravadas em mim, feito tatuagem; apoderei-me delas, com um sentido de posse emocional - são as minhas músicas e não me interessa se também o são de outros, sei que são minhas, tumultuosamente minhas, incontrolavelmente minhas, porque a música tem (sempre teve) esse poder de me comover, de me agitar, de me alegrar, de me entristecer ou, simplesmente, de me encher de uma qualquer emoção tremendamente forte que me atravessa para lá do corpo que se move sempre (um amigo dizia-me que eu era capaz de dançar ao som de pratos partidos).

Purple Rain é aquela música que começa a tocar e todos os olhos familiares se viram para mim, cúmplices, sabidos, íntimos, como que a dizer-me "olha, a tua música", e é, a minha música; uma música que dificilmente poderia ter acontecido neste século XXI, porque sendo intemporal, é também produto de uma época em que as músicas e os vídeos que as acompanhavam (na altura, chamávamos-lhes telediscos) contavam uma história, e eram longas (esta tem cerca de dez minutos) e tinham um clímax do qual, depois, se descia em notas longas que se iam apagando. No Purple Rain há uma história de reconciliações, e há um solo de guitarra arrasador do qual se descansa no final com um piano e cordas. É all in one, não lhe falta nada, intensamente perfeita.

Tenho poucos CDs the compilação, mas tenho o duplo do Prince -  The hits vol. 1 e 2 - e ouço-o com frequência por uma questão de sanidade, de necessidade de ligação a um tempo musical, e porque dançar freneticamente ao som de Kiss, when doves cry, peach ou 1999 faz bem a qualquer alma que se preze.

Aos poucos, perdem-se gigantes que nos ensinaram umas quantas coisas sobre música, e parece que há uma página que se vai virando, definitivamente, transformando o mundo para toda uma geração.

This is what it feels like, when the doves cry!

Gargalhadas e ventania

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O miúdo ri com gargalhadas que te fazem rir, são gargalhadas que riem das coisas poucas que são as melhores, é claro; ele ri por causa do número de vezes que conseguem atirar um balão ao ar sem ele cair no chão ou porque tu falas com ele com uma cara muito séria sobre coisas muito disparatadas. Ele ri à brava e chama por ti e aquilo ilumina o dia todo e aquece um Abril frio que falha a promessa de Primavera.

Esse Abril chegou cheio das águas mil do costume - April come she will, When streams are ripe and swelled with rain, diz a canção da geração anterior -, veio a tresandar a inverno quando tu já sonhas com um Maio ameno - May, she will stay resting in my arms again - um tempo mais suave e doce, mais quente. É que lá fora corre um vendaval de doidos apostado em desarrumar a rua toda - os caixotes de lixo largaram o lugar traçado no passeio e rumaram alcatrão abaixo, há vasos fugidos de varandas e pedaços de árvores pelos ares. 

"O vento sopra onde quer", ouviste isso hoje - o vento comparado à fé, um sopro sem forma, que despenteia ideias, não sabes de onde ele vem, nem para onde te empurra, mas sabes que está lá e que de repente te atravessa num arrepio que se entranha em desassossego, a desarrumar tudo por dentro. Esse vento é bom, é como aquela bola de pilates que o teu Personal Trainer te obriga a usar para fazeres uns abdominais em desequilibrio que te exercitam músculos que não sabias que tinhas mas que te fazem mais forte, ali onde é preciso, naquele centro que te sustenta a coluna vertebral, e é sabido o quão importante é ter uma boa coluna vertebral.

Mar calmo nunca fez bom marinheiro - não sabes quem disse isso, é uma daquelas coisas que apanhaste, algures, numa imagem na net -, o mar, tal como o vento de que ouviu falar Nicodemos, agita-te, obriga-te a procurar alicerces e equilibrios, a ajustar velas e a usares forças que descobres que tens. Lá, no fim da tempestade, estará o Mês de Maio, alegre e luminoso como a gargalhada de um miúdo a rir de coisas parvas. 

Como barro nas mãos de oleiro.

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Diz que a primavera chegou mas do lado de cá da janela não parece nada; é domingo de ramos e há uma música cantada após a comunhão que te comove sempre, é  um pedido de fortaleza que te enche inteirinha, até aos ossos e para lá deles, faz-te tremer cada fibra do corpo como as cordas da guitarra dedilhada que, logo ao primeiro acorde, te recolhem a cabeça ao peito e te obrigam a um fechar de olhos. Já sabes que vem dali um aperto, um sorriso mal disfarçado e uma lágrima rolada que limpas à socapa.

Gostas de ver aquela Igreja à cunha, como sempre está, gostas de ouvir o Pai nosso rezado como o ressoar de trovão, porque são muitas as vozes que o dizem, são tão diferentes os timbres que o rezam, e ele vem com uma força surpreendente, como se cada palavra dita tivesse um peso tremendo e batesse naquelas paredes com estrondo, violência.

Nem sempre és barro maleável nas mão de oleiro e sentes que obrigas muitas vezes ao esforço de cinzel, mas é precisamente nas tuas arestas mais difíceis que lhe pedes para não te largar, mesmo quando foges e crias distancia entre e ti e tudo, entre ti e tudo, entre ti e tudo, e depois ouves aquelas notas e aquela frase tremenda: "sozinho eu não posso mais / sozinho eu não posso mais viver", e sabes que aquilo é em ti o pilar, a primeira pedra que te define, a estrutura viva que te faz andar e nunca - mas nunca - sais só.

1º aniversário da Déjà Lu - porque é que valeu a pena?

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Faz agora um ano que abriu a livraria Déjà Lu, na Cidadela de Cascais, um primeiro piso a que se acede subindo umas escadas íngremes, facto que nos chegou a fazer recear que poucos se aventurariam naquele espaço tão bonito, dedicado aos livros já lidos e a uma causa muito especial.

O projecto da livraria nasceu e foi acarinhado na cabeça da minha querida amiga Francisca Prieto, em tudo e sempre apoiada pela minha querida prima Maria.

Eu estava lá no dia em que assinamos a escritura de constituição da associação, mas também no dia em que se começaram a tirar livros das caixas e a arruma-los nas estantes, e no dia em que inauguramos a loja e vestimos os aventais de voluntários pela primeira vez, e ao longo deste ano todo, uma vez por mês, num turno de meio dia, a vender livros aos muitos que visitaram a loja e que saem de lá de boca aberta com o que encontram e com livros embrulhados em pacotes de papel pardo, com um marcador da loja e uma rifa com a citação que calhar.

A Déjà Lu não é só uma livraria, é um sonho projectado durante muito tempo, acarinhado em todos os detalhes, em cada recanto, em cada livro que vai para uma estante ou para a mesa de destaque.

Já perdi a conta  ao número de pessoas que me pede para fotografar a loja - e podem, é claro que podem -, nós sabemos que ela é linda e até ajeitamos um livro ou outro para que a fotografia saia catita.

Por lá passaram este ano, David Grossman, Matilde Campilho, Anabela Mota Ribeiro, Laurinda Alves, José Rodrigues dos Santos, José António Tenente, Leonor Sillveira, Beatriz Batarda, Margarida Cardoso - e devem faltar mais, com certeza - e foram lá rádios e televisões e jornais e revistas, porque a Francisca e a Maria não param, um segundo que seja, e dedicam dias e horas e neurónios e muita criatividade a esta livraria tão especial.

As doações de livros cresceram, em quantidade e qualidade - que generosidade tremenda!

Os voluntários são muitos e dedicados, e sempre prontos para o que for necessário e, também nisto, a equipa teve sorte, pois todo o trabalho é trabalho voluntário, desde o armazém, à arrumação e limpeza da loja, passando pela venda dos livros. Uma bênção, esta malta toda. Insisto, como já fiz antes, que o projecto não é meu, mas adoptei-o e, por isso, avanço aqui um obrigado a todos.

O dia é importante, a Livraria faz um ano e está - musicalmente falando - alive and kicking!

Hoje estaremos por lá todos, com alguns padrinhos e em ambiente de festa, pelo que apareçam, é que se tudo isto não fosse já suficiente, hoje, oficialmente, cumpre-se a razão de tudo:- depois de um ano de trabalho, dedicação e entusiasmo, a livraria irá doar 20.000 € á Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21 e mais 2.000 € à Pais 21. Foi por isto, valeu a pena.

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