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Outro Sentido

Outro Sentido

2017 Take off

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Ir ao ginásio de manhã. Arranjar as mãos uma vez por semana. Ter mais do que um iogurte no frigorífico. Beber dois litros de água por dia. Sair do escritório às sete. Entrar no escritório às dez. Ligar às amigas. Dormir uma sesta. Aprender a dizer não.

Não revirar os olhos quando o telefone toca. Pintar o cabelo. Fazer uma viagem por ano - ir aos Açores não conta como viagem, é pilar de felicidade. Não ter vontade de transformar em estátua de sal quem faz conversa de circunstância que não interessa nem ao menino Jesus. Rezar mais ao menino Jesus. Fazer tricot. Não cair em colapsos de insegurança se não foste o melhor que idealizaste. Tentar sempre ser o melhor que consegues. Estudar mais. Aprender a dizer não.

Fazer depilação definitiva. Aceitar o que não és. Gostar do que és. Ir para fora cá dentro. Ler os clássicos. Ler os modernos. Ir a museus. Procurar música nova para ouvir. Lavar o carro. Dormir sem Angelicalm. Definir o que é realmente urgente e dar resposta em verdadeira conformidade. Não testar limites. Fazer o passaporte com um propósito. Usar as escadas e não o elevador - são dois andares, caramba. Duas aulas de pilates por semana. Musculação. Cardio. Telefonar à mãe.

Não carregar a culpa do mundo. Fazer um puzzle. Escrever mais. Lacar as madeiras da casa e pintar as paredes. Arrancar os quadros e reordena-los. Só pôr o pé na balança uma vez por mês. Não pensar que a vida está a meio e desligar o tic tac na cabeça. Parar de olhar para trás e aceitar. Cortar no chocolate. Beber mais vinho. Cozinhar. Telefonar à mãe.

Dançar. Rir de coisas parvas até doer a barriga. Ir mais ao teatro. Fotografar. Ter flores em casa. Ir ao Mercado aos sábados de manhã. Voltar a nadar. Comprar creme de contorno dos olhos. Usar batom vermelho. Perdoar-te. Perceber que, na maioria das vezes, a malta hipócrita é só insegura. Não desprezar a malta hipócrita, reduzindo-a a pó.  Aprender uma coisa nova. Tomar a vacina da gripe. Desligar o ar condicionado. Lembrar aniversários. Retomar as temporadas da Companhia Nacional de Bailado. Fazer um PPR. Dar tempo aos teus. Compensar os dias. Aprender a dizer não.

Não te esqueças, amor.

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Ver o amor, assim, largado ao chão e esperar que não o seja numa rua de amargura. Tropeço nele, a caminho do trabalho, e reparo nas rodas e nos pés que lhe passam por cima, a fazer voar as folhas de outono.

Pergunto-me se o autor saiu de casa com uma lata de tinta só para fixar em letras grandes o amor que escasseia ao mundo ou se esperava realmente que ela acordasse de manhã e batesse o nariz no amor declarado, talvez da janela de um prédio vizinho ou no percurso de todos os dias.

Gosto disso, um lembrete à laia de post it mas com letras garrafais largadas no alcatrão, não vá ela esquecer-se ou perde-lo no caminho.

 

 

"Ando com saudades da beleza"

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Leio uma crónica do Arnaldo Jabor onde ele diz: "ando com uma fome de arte, ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza, paz (...)" e eu, que ando nisto, percebo-o.

O mundo anda feio, violento, desacreditado e corremos todos o risco de começar a banalizar a fealdade e resolver com um encolher de ombros os miseráveis poderes que nos governam. Há muito que deixei de acreditar em soberanias e encaro-as na perspectiva do mal menor; não creio que seja a única.

Acredito, isso sim, na força dos fazedores, dos que não se acomodam, dos que descruzam os braços, dos que fazem contracorrente, dos que não se limitam a viver vidas pequeninas feitas de prazeres próprios. Acredito na força desses milagreiros quotidianos, incapazes dessa coisa fácil que é a indiferença. Esses são os heróis, esses são os que fazem o mundo, esses são os que mudam o rumo, esses são os únicos capazes de plantar beleza nesse planeta e mudar-lhe o tom. Tento ser um deles, pertencer a esse clube, fazer coisas que dão sentido aos dias, que me fazem chegar ao fim da jornada com a noção sólida de "eu hoje fiz isso"; enraíza e é bom.

Ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza; ando a ouvir música nova, uma pitada de indie, que tem o seu quê de inocência à moda dos anos sessenta e qualquer coisa de luminoso, é boa como a comida de conforto mas não engorda, embala uma manhã de edredon e pequeno almoço na cama ou uma horinha de sol de inverno na praia mais próxima. Também ando a correr os meus álbuns de arte para encher os olhos, lavar a retina da violência televisiva. Beleza é fundamental, ora bolas.

Ando com saudade de tudo, e devo estar naquela meia idade em que se viaja para trás por dá cá aquela palha, e eu tenho a sorte de o meu rewind ser encantatório como um labirinto, fico lá, às voltas, a perder-me pela lagoa do fogo, por Verões em S. João do Estoril, por cantinhos em Sintra, pela estrada do Guincho, Évora na Páscoa, Manta Rota em Agosto, Paris. Pergunto-me se daqui a vinte anos terei lugares a que voltar e que sejam feitos deste momento de agora ... sim, terei, é seguro que terei, e com gente muito boa lá dentro.

I'll be the ghost in your smile (...),

I'm a mosquito on your lips saying grace,

you know you want it bad

driven by lust

and whatever is left from your motor skills

Esta malta da música indie deve fumar umas coisas e vive na boa, a ver belezura todos os dias, muito cool.

Dos livros

Livros, meu estimado tenente - sublinha. Meus ou de outros, tanto faz ... Basta ouvir a sua agradável conversa para saber que não lhe são alheios. E, voltando ao assunto de antes, ninguém pode ser sábio sem ter lido pelo menos uma hora por dia, sem ter biblioteca, por mais modesta que seja, sem professores aos quais respeitar, sem ser suficientemente humilde para formular perguntas e atentar com proveito nas respostas.

In, Homens Bons, Arturo Pérez-Reverte

Mrs. Scrooge ou isto não é uma crónica de Natal.

 

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Não me saem, este ano, as crónicas de Natal, mas a árvore está feita e até lhe mudei o poiso; já paciência para o calvário das prendas, ainda não tive e só de pensar nisso, dá-me vontade de fugir. 

Li algures que, na Islândia, a tradição é trocar livros pelo Natal - há lá coisa mais linda? Se já importamos o Halloween, o trick or treat e o Papai Noel da Coca-Cola, podíamos importar a dita tradição islandesa, tão civilizada e culta. Mas não, anda tudo a invadir centros comerciais e arrancar cabelos e a trocar SMS do tipo "qual é o tamanho da roupa do teu filho?" Canseira!

À noite, há um cheirinho a lenha que se espalha pelas redondezas e a vila ilumina-se, festiva. Gosto disso, dá vontade de me encasacar e cirandar por aí.

Ainda ninguém falou da ceia de consoada, habitualmente, por esta altura, as tarefas estão distribuídas e todos sabem quem leva o quê. Este ano estou tramada porque a senhora que me fazia os papos de anjo recusou a encomenda e, por isso, cheira-me que terei de ser eu fazê-los, a menos que me troquem a incumbência natalícia.

Numa das casas de pronto a comer de que sou cliente assídua, descobri que se pode encomendar um peru sem peru; não, não é bem assim, ele há peru mas é quase todo recheio e depois colocam umas pernas assadas ao lado, sem aquela coisa seca e desengraçada do peito de peru que fica a fazer pratos de restos até à noite de fim de ano. Vou lançar a ideia mas acho que ninguém me vai ligar nenhum.

Gostava de ir à Missa do galo - todos os anos penso para comigo que gostaria de ir à Missa do galo -, mas nunca consigo, a família não tem quórum de fé que o permita e a tradição é que à meia noite deita-se o menino nas palhinhas e vai-se para a varanda com tampas de panela e colheres de pau chamar o Pai Natal que, entretanto, toca à campainha e deixa um enorme saco de prendas à porta, antes de se evaporar pelo elevador abaixo. Houve um ano em que ele não desapareceu e ouviram-se umas vozes pequeninas a comentar que o Pai Natal era muito parecido com o Tio António, desde aí, ele deixa o saco mas ninguém lhe vê a barba.

Não me importava, ainda, que as festividades se resumissem ao dia 24, e que o 25 fosse calmamente passado com missa de Natal e tranquilidade, mas também não dá.

Há muito que tenho ganas de um Natal à margem, mas sucumbo ao amor pela família e à lembrança de Natais passados e das minhas avós e dos meus tios e, claro, aos miúdos em bando, de olhinho arregalado e expectante de ouvir o nome pronunciado com um embrulho que lhes é atirado para as mãos no ar, e à folia em redor da mesa e, sobretudo, àquele instante - que é o melhor da noite -, quando a sala da casa da minha mãe é uma bagunça de papel e fitas pelo chão e nós voltamos todos para a mesa, para aconchegar o peru com uma fatia de bolo rei e um chá ou um copo de tinto. 

Manifesto pessoal.

Uma tarte de cogumelos, uma tarte de tomate com oregãos, um frango de caril, filetes com arroz de tomate, feijoada de chocos, frango com coentros, lulas à americana, coelho na púcara, legumes gratinados, sopa de ervilhas com coentros. Isto deve arrumar uma semana de refeições sem que eu tenha de agarrar numa colher de pau. Valha-me essa grande invenção que é o pronto a comer caseiro e que me livrou dos grilhões da cozinha. Há muito que perdi o ânimo culinário que alimentou o meu passado de mulher casada. Aí, qual sonho do lar, eu cozinhava favas à portuguesa, arroz de pato e alcatra à moda terceira enquanto o diabo esfrega um olho. Hoje, tenho de mentalizar-me para fazer sopa na Bimby ou, como diz o meu pai, "estragaste-te toda". A verdade, porém, é que nesta existência maculada pela inexperiência culinária e a mais completa falta de interesse em tal, sou infinitamente mais feliz - enquanto o puder ser -, e isto de ter duas casas de bom pronto a comer nas redondezas, foi dos milagres genuínos que me aconteceram na vida.

Vivam as ligeirezas mundanas que nos facilitam os dias e que são variadas e assumem muitas formas - viva o Angelicalm, viva o Sinutab, viva a opção do MEO que permite gravar séries e revê-las em dose contínua ao fim de semana de manhã, viva o serviço de homebanking, via a engomadoria que se instalou no prédio ao lado, viva o jantar à segunda feira em casa da mãe, viva o continente online, viva o spotify, viva o instagram, viva o botão de silenciar o telemóvel (mega viva), viva o alerta de aniversários do Facebook, viva os jornais online, viva a wook, viva o chocolate Lindt flor de sal, viva tardes de chuva em casa e viva o dia em que decidi ter um tapete amarelo na sala - sim amarelo -, viva as gargalhadas entre amigos e os disparates via whatsapp.

É que isto de cá andar não fica mais fácil com os anos e se vos impingiram essa tanga, aviso já que é mesmo isso - uma grande tanga -, mas se formos construindo o nosso kit de primeiros socorros, isto fica bem melhor.

Cada qual procura o seu, há quem recorra ao jogging, a um copo de bom tinto ao final do dia, a um xanax na mala, a música a bombar a caminho de casa, aula de bike, aula kick boxing, aula de zumba, aula de yoga, tricot, crochet, puzzle, costura, bicicleta, prancha de surf, há até, pasme-se, quem se enfie na cozinha feliz e contente a cozinhar para um batalhão.

Eu cá, enfiei nove refeições feitas no congelador e respirei logo muito melhor.

E se fosses tu?

Eu, que tenho medo de tudo, desde baratas a aviões, estou convencida de que estava enfiada debaixo de uma mesa quando Deus distribuiu a coragem e, por isso,  quando ouço testemunhos feitos dessa matéria, arregalo os olhos de admiração e tento expandir o coração para lá do espaço que o contém.
As histórias que a irmã Guadalupe tem para contar são reais e feitas de gente do nosso tempo, de jovens, de crianças e de famílias inteiras que vivem diariamente o indizível sem se arredarem do quotidiano possível, sem negarem uma fé que constitui sentença de morte, e mantendo, ainda assim, um sorriso no rosto.
A história é longa mas tem de ser ouvida, até porque mostra bem que aquilo que nos chega já filtrado pela comunicação social não é nunca a verdade toda, mas sim uma versão que nos protege no conforto do nosso sofá ocidental.
Tive, há uns dias, a oportunidade de ir ouvir a irmã Guadalupe ao vivo e, no entanto, não fui, porque já conhecia os contornos deste relato e sei o quanto isto me abala - nunca aprendi a não sofrer com os outros e visto-lhes a pele quando me confrontam com estas vidas - mas volto a elas porque o mais importante é reconhecer a sua existência, é mostra-las e não virar a cabeça como quem enxota o que nos é incómodo e desinstala, não há outra reação possível ao que se segue. 
 

A idade da indecência

 

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Eu agora faço análise, assim mesmo, como as brasileiras, que soa muito melhor: eu faço análise e aulas de pilates à hora do almoço. A minha mãe nunca fez análise e ainda criou dois filhos, mas eu não sou, definitivamente, a minha mãe.

Eu ando para aqui a atirar pedaços de vida ao ar e a tentar agarra-los ao mesmo tempo, como uma uma malabarista maltrapilha, em cima de uma corda muito bamba, pendurada lá no alto desse circo que é a vida. Tenho um show diário em horário fixo, das oito às oito, e a coisa não tem corrido mal, raramente deixo cair uma bola ao chão e, nas raras ocasiões em que isso acontece, eu vou lá apanha-la, com um pé, graciosa, super difícil, super show, parece que faz parte do número.

Lá de cima, na minha corda, eu vejo tudo - o antes, o agora e o depois (como o Caetano) - e o meu circo está muito diferente.

O antes era bom, era a idade da inocência em que eu resolvia tudo com chocolate e uma pista de dança. Nesse tempo, para aplacar as minhas angustias, o meu pai tentatava ensinar-me que a vida era feita de "setenta por cento de chatices e de trinta por cento de coisas boas", e que o importante era aprender com as primeiras e aproveitar as segundas. Para compensar, houve um dia que ele regressou de viagem com um Toblerone de meio quilo debaixo do braço; eu comi-o numa tarde e fiquei feliz por uns dias. O chocolate era como os pozinhos de perlimpimpim, tornava tudo mais doce e, quando o chocolate não chegava, a pista de dança resolvia. Na idade da inocência era fácil deslindar a vida e, no dia seguinte, o mundo acordava, igual a ele mesmo, a girar sobre o seu eixo, sossegadito, pelo menos, na extensão tranquilizadora do meu País e respectiva vizinhança.

Agora já não é assim, eu acordo de manhã e acho que o mundo perdeu o seu eixo - é que acho mesmo -, há dois dias a lua estava enorme e isso não pode ser coisa boa. Anda tudo a respirar o sobressalto do abismo - numa manhã o mundo está uma coisa e, na manhã seguinte, está outra oposta. O planeta está de pernas para o ar e o meu circo também, o que não é nada auspicioso para quem anda lá nas alturas, a equilibrar os pés numa corda agitada com ansiedades, desafios, cautelas, preocupações, ordenados para pagar, impostos para gerir, prazos para cumprir, gente que eu não entendo, egos que eu não suporto, trânsito, poluição, desencanto, sarilhos, irritações, falta de sono, dores nas costas, nos joelhos, na barriga.

Meu circo está diferente e eu tornei-me mais cautelosa. Agora, tenho uma rede enorme a flutuar debaixo dos pés, não vá o diabo tecê-las. Nessa rede, eu pus a família, a fé, as amigas, os livros, o mar, uma caixa de Angelicalm e uma tirinha de Diazepan, o voluntariado, a minha casa, as minhas plantas, o meu Moleskine, as aulas de pilates e sessões de análise (olha o Brasiu).  É isso que me salva da insanidade, é aí que eu encontro os pontos cardeais que me orientam e se cair, eu caio nessa rede, mesmo que o circo venha todo atrás.

Estou nessa idade, na velha infância que perdeu a inocência mas que vive na indecência generalizada.

O meu pai nunca mais me ofereceu um Toblerone, o que está mal; o chocolate ainda resolve muita coisa.

 

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