Terça-feira, 16 de Setembro de 2014

The New Yorker

 

Sempre fantásticas, actuais, inovadoras e surpreendentes, as capas do The New Yorker.

Seguir o link da imagem para mais informação sobre a ilustração e o ilustrador.

By Leonor às 10:16
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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Americanah

"Porque é que as pessoas perguntavam «sobre o que é?» como se um romance tivesse de ser só sobre uma coisa?"*

É verdade - é tão verdade - e convenhamos, quão fraquinho e pobre, é o romance que o seja só sobre uma coisa.

Americanah não é só um romance sobre a raça, ainda que seja bastante um romance sobre a raça, mas, ao atravessar esse campo, Chimamanda Ngozi Adichie, semeia outros temas, como o sonho, a ambição, o amor, o desejo de se ser mais, a estranheza de se ser estrangeiro, o crescimento, a subtileza frágil e espinhosa dos sentimentos, as culturas, a identidade. 

Será que sorrimos ao olhar para o nome da autora inscrito na capa do livro? Tivemos de o ler duas vezes e pensamos com os nossos botões, «que nome tão africano?» Surpreendemo-nos com a beleza da fotografia da contracapa e exclamamos «que preta bonita?». E nós, portugueses do século XXI, que agora conhecemos a necessidade de deixar para trás um país que afoga os nossos sonhos em desesperança, será que sabemos realmente o que é sentirmo-nos estrangeiros?

Este, é um livro que nos arranca à forma confortável como olhamos e sentimos a humanidade e a identidade. Que lugar tão liberalmente comum, esse, de responder que «não há raças e que a única raça é a raça humana»; tão politica, social e intelectualmente correcto. Mas será verdade? A autora relata com uma lucidez implacável o facto de nunca ter sentido a questão da raça, até ter saído da sua terra natal, do mesmo modo que nunca mais a voltou a sentir a partir do momento em que regressou. Que estranha universalização é esta afinal? Será que o contrário é também verdade? Pergunto-o honestamente - porque é impossível não o fazer depois de ter lido este livro - será que nós, brancos, carregamos em nós, nos confins do nosso código genético, algo que nos faz sentir superiores ao ponto de não descobrirmos a raça branca no momento em que temos de viver num país de negros? Não sei, não tenho resposta para isto e confesso, jamais, em momento algum, considerei existir em mim um grão sequer de racismo.

É atordoante pensar estas questões, sentir os alicerces daquilo que nos define a tremer um pouco.

Lembro-me de, há uns anos, me ter cruzado num casamento com um preto especialmente bonito. Achei-o deslocado e, com toda a ligeireza da boa vontade, fui meter conversa para o integrar numa mesa. Foi ele que me mostrou, com elegante condescendência, que não precisava de mim para nada, que estava ali, tal e qual como eu, e, com uma presença serena e uma nada subtil cabeça de rastas, arrasou o mulherio da festa. Lembrei-me, várias vezes, desta situação ao ler este livro. 

Vivemos tempos de globalização e, no entanto, estas questões estão pouco resolvidas nesse cenário. Quem sai do seu País Natal, começa por sentir a solidão da deslocação, depois, há o desejo de integração e, finalmente, no fim da linha, há, quase sempre, a estranheza do regresso, quando a experiência estrangeira já modificou a identidade que era.

Este é um livro enorme que fala ainda de amor, que se assemelha um pouco a essa sensação de se estar em casa, na pele certa, no dialecto correcto, no País de origem que nos enlaça no silêncio de um reconhecimento íntimo, que se coloca na vida daquele modo que reconhecemos como nosso, que nos conhece as ruas, as esquinas, o tempo e que nos diz "entra" e nós entramos, porque ali não há fronteiras.

 

(*Americanah)

By Leonor às 22:16
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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Escrever ou desenhar a natureza na própria poluição, é uma mensagem muito forte!

By Leonor às 09:16
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

Setembro

 

[Imagem, ontem, em Lisboa, via Instagram]

Eu gosto do mês de Setembro; é o mês que marca o final das férias e, quase sempre -dizem que este ano não será assim - a época em que, aos poucos, os dias vão refrescando. É também o mês em que regresso ao trabalho, alegadamente, mais descansada e com a cabeça arejada. Este ano, o mês de Setembro começou com a minha única e fundamental plataforma de trabalho, o Citius - que, para quem não sabe, é site que nos permite entregar e receber notificações judiciais - sem funcionar durante uns dias e a funcionar mal nos restantes. Não me queixei.

Setembro é também o mês em que me dão ataques de renovação generalizada: da casa, da secretária, do guarda roupa, do corte de cabelo, das rotinas anuais, dos horários de trabalho. Ando a "iogar" como se a minha vida dependesse disso (depende?), ando a controlar o meu horário diário de forma espartana - de ora em diante, acabaram-se dias desorganizados que me obrigam a sair do escritório depois - ou a caminho - da hora do jantar (eu sei que o inferno está cheio de boas intenções, mas não me estraguem o balanço, sim?).

Setembro é ainda o mês em que decido que vou dar asas à criatividade em alguma coisa, mesmo que ainda não saiba qual ela seja; é uma forma de não enlouquecer com o cinzentismo dos meses que se seguem e a rotina dos dias. Ando a pensar em tudo, desde colagens, a temas de escrita e até o tricot - para as meninas que ainda não agarraram nas revistas com as tendências de Outono/Inverno, aqui fica o alerta: as malhas estão em grande, e as sobreposições, e um revival dos anos 60/70, e os veludos, e o verde tropa, e o vermelho (no tom maroon), e as botas altas, e o pêlo, e os sapatinhos ao estilo Mary Jane e, the last, but not the least, os chapéus largos (uma vez mais, à maneira dos anos 60). Pronto está tudo, escusam de comprar a revistinha da moda.

O Instagram é o meu novo vício e não há desafio fotográfico em que não participe. Decidi também fazer um mood board, tenho saudades desse placard de cortiça sempre pendurado ao lado da minha secretária em casa e cheio de imagens que me agradam. Acho que tive um quadro desses durante todos os anos em que vivi em casa dos meus pais e decidi voltar, em suma, está-me a dar um ataque teenager, mas que se dane, deve ser uma daquelas cenas dos quarentas.

Eu e a minha sobrinha começamos a escrever postais uma à outra de cada vez que saímos da nossa Vila; acho que vou alargar a ideia a umas quantas amigas e surpreendê-las com um postaleco de vez em quando, daqueles com imagens turísticas e selo carimbado no canto superior direito.

E é isto, ou talvez não, e ainda haja mais qualquer coisa, mas para iniciar este mês marcante, não está mal.

Escusado será dizer que marimbo completamente nas resoluções de ano novo; Setembro é que é.

By Leonor às 12:43
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Sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

Bom dia

By Leonor às 11:12
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Segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Querido mês de Agosto

Neste mês de Agosto descobri que há mais Algarve para além da praia e que, largado o areal e abraçada a serra - qualquer delas, tanto faz - há dias lentos que se gozam entre casas caiadas de azul e branco, rios de canaviais (chamam-lhes praias pluviais) e barragens isoladas de cores e transparências inesperadas. Há restaurantes onde nos recebem como se estivéssemos em casa e onde se almoça ao lado das cozinheiras que nos confessam que o prato do dia saiu uma belíssima feijoada porque havia que "aproveitar uns restos de carne que para ali havia". Abençoada interioridade onde não chegam as normas da ASAE. Numa outra aldeia, toda ela branca de luz e paz, entra-se na Igreja se se for buscar a chave à Sra. que está à entrada do museu da água, o que até vale a pena porque o pequeno altar dourado e recentemente restaurado é encantador e o baptistério tem um uma rústica ânfora de barro - a fazer as vezes de pia baptismal - à frente de um S. João Baptista lindo que só ele. Mais abaixo, almoça-se à sombra de um alpendre fresquinho com vista até onde a serra deixa. Na mesa ao lado, um casal de estrangeiros pede um bocadinho de água para o cão sentado debaixo da mesa e lá vem uma tigela cheia de água fresquinha que ali bicho também é cliente. No final, pede-se a conta e o dono do restaurante - outrora carpinteiro de profissão e agora cozinheiro, agricultor, relações públicas, empregado de mesa e dono do espaço -, olha para nós de soslaio e diz que "isso" - leia-se: dois pratos, jarro de vinho branco, garrafa de água, melão e digestivo - "dá mais ou menos 22 Euros que os Senhores nunca cá vieram e eu quero é que voltem". É assim, lá para dentro desse outro Algarve.

Mais para o lado do Guadiana, a estrada ladeia a água e a vizinha Espanha na margem oposta; há embarcações ancoradas e caiaques, escavações romanas por todos os lados e velhos sentados à sombra a conversar em portinhol, que ali vale tudo. E se uma pessoa se perde no meio daqueles montes e o GPS se baralhar nas estradas que o satélite nunca se dignou a descobrir, há sempre a velhota de avental de flores e chapéu preto na cabeça grisalha, que rasga um sorriso desdentado e lá nos indica as esquerdas e as direitas com as mão engelhadas, rematando com um "e se se perderem, gritem que eu vou lá acudi-los". Não nos perdemos, mas andamos por ali, muitas vezes à procura do marco da estrada - a sério, há quanto tempo não procuram um marco de estrada? Daqueles feitos de pedra a dizer EN - com muitas paragens para fotografias, para ouvir aquele nada que se ouve onde nada se passa ou para trincar uma sandwich de farnel, enquanto se refrescam os pés na barragem. As voltas são tantas que o sinal do combustível vai acusando sede, só que no quartel dos bombeiros avisam-nos logo que o posto mais próximo nunca tem gasóleo, mas podemos tentar. Chegados à bomba, baixamos o vidro e um homem bonacheirão, sem pedir licença, pendura os braços na janela e pergunta sem rodeios: "então, contem lá, há gasóleo para quantos quilómetros?". Desatamos a rir, e ficamos a saber que uma vez ele resolveu seguir a volta a Portugal com problema idêntico, mas o carro lá lhe fez o favor de só parar à porta de um amigo para dali não mais sair. Parece que há bomba com gasóleo garantido dali a 20 km de estrada e um restaurante mesmo em frente que até se recomenda, pelo que dois problemas se resolvem de uma vez só. Lá no alto há parques eólicos que não acabam e ainda encontramos uma larga extensão de painéis solares que devem alimentar muita energia nas redondezas.

Vale a pena, este outro Algarve feito de gente boa cá da terra que não tem nada a ver com o turista de praia e noites dançantes, mas que nos abre um sorriso e uma paisagem surpreendente e as portas das Igrejas e dos castelos medievais, e há lagoas escondidas e terras floridas com lojas artesanais arrancadas às telas de cinema.

Se o Algarve podia ser só praia? Podia, mas eu juro que não era a mesma coisa.

By Leonor às 21:15
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Quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Gisèle

As férias têm sido óptimas e diferentes e, agora que estão a terminar, a isso voltarei dentro de dias. Antes disso, porém, tropecei nesta página, nesta mulher, nestes incríveis cem anos de vida e de arte, nesta casa mágica. Não é para todas, isto de ter longa vida e não saber estrelar um ovo!

Vale a pena fazer clic nas imagens para descobrir os segredos atrás de cada detalhe fotografado.

By Leonor às 21:30
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Domingo, 27 de Julho de 2014

Indo, pois, de férias e esperando dar notícias de quando em vez, sim?

[Eric Zener]

By Leonor às 08:18
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Jews and arabs refuse to be enemies

É a página de Facebook do momento e dá voz a uma campanha criada por Abraham Gutman, estudante israelita a viver em Nova Iorque, e por uma amiga síria, Dania Darwish.A página já tem mais de dezasseis mil seguidores e partilha fotografias de árabes e judeus que destacam o carácter humanitário do conflito, usando a “hashtag” #jewsandarabsrefusetobeenemies.

 

By Leonor às 10:54
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Domingo, 20 de Julho de 2014

Filomena

Só hoje vi este monumental "Philomena" e, sabendo embora que já meio mundo falou dele – sendo certo e sabido que só esse  meio mundo o viu - é-me impossível ficar calada e nada dizer. É isto que acontece aos que escrevinham: aquilo que nos impacta, sai-nos pelos dedos.

Este, podia ser um filme sobre a revolta, a mágoa, a vingança, o rancor, a tristeza ou a vergonha. Podia ser um filme destinado a atear a controvérsia ou  a provocação religiosa. Podia ser ainda um filme piegas e melodramático, daqueles que arrastam a dor pela lama e que exploram a veracidade da história até ao tutano dilacerante das nossas emoções.

Mas este filme não é desses, sendo certo e sabido que a interpretação estrondosa de Judi Dench contribui bastante para o contraste temático e vivencial da história.

É sabido que a maldade vive neste mundinho e habita em nós - em todos nós - e pode, sob o estandarte do rigoroso princípio moral, devassar vidas e trucidar rumos. É sabido que o extremismo religioso - seja ele qual for - se alimenta dessa escuridão e procura, não raro, a desforra pessoal em vida alheia. É sabido que a rectidão ética é um caminho trabalhoso, muitas vezes íntimo e cheio de solavancos, é uma renda de bilros, linda de morrer mas difícil e facilmente substituível por máquinas modernas que tentam imitar o labor das mãos. A perseverança na construção do nosso eu pessoal é um tremendo desafio diário e requer toda a nossa dedicação. Em suma, este é um filme sobre esse dom monumental que é o perdão - o perdão mesmo, aquele que se dá de coração porque nasce cá dentro, porque foi semeado no sangue e esculpido em cada osso até à alma. Ora aí está um trabalho genuíno de fé - leia-se de esperança - e porque essa fé está escolhida na história que se conta, este é, também e ainda, um relato de construção cristã.

By Leonor às 22:58
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2014

As primeiras linhas de um livro.

 

"O meu filho e eu chamávamos-lhe professor. E o professor chamava ao meu filho Root. Porque tinha o alto do crânio tão direito como o símbolo da raíz quadrada".

By Leonor às 08:19
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Terça-feira, 15 de Julho de 2014

Ballerina Project no Instagram

Maravilhoso, o instagram do Ballerina Project.

 

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By Leonor às 09:16
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2014

Nocturno

No dia 13 de Abril de 1948, Susan Sontag escrevia no seu diário que "as ideias perturbam o equilíbrio da vida". Eu, tenho para mim, que as ideias perturbam o equilíbrio do sono, pois é à noite que me apodero da totalidade egoísta do silêncio, do espaço que não me me limita os gestos, do campo livre de onde saltam lembranças como pipocas. À noite teço conversas imaginárias que nunca terei, construo lógicas que vou rebater na lua seguinte e desconstruo as minhas próprias razões. À noite sou parda, invisível e muda e nessa coisa nenhuma, há uma luz que se acende e que coloca estradas de possibilidades no meu horizonte. À noite, tenho um cansaço imenso no corpo, um peso terrível nos olhos, uma lentidão de câmara lenta nas mãos e, no entanto, a minha cabeça gira a 75 rotações, a plantar coisas na retina, a semear representações nos imaginários que crio, a responder às perguntas que me coloco, a lembrar tudo - mas mesmo tudo -, nos detalhes insignificantes que o tempo se encarregou de fossilizar sem que eu perceba sequer porquê. A noite é má conselheira, dizem, mas faz óptima companhia.

Shortcut:
By Leonor às 01:51
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Segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Um dia de sol dá-nos alento para as coisas prosaicas da vida.

[Charles Courtney Curran, sombras]

By Leonor às 09:02
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Sou toda tua, coração.

[Travis Bedel ]

 

Sabes que o coração é só um músculo, não sabes? Às vezes arrancam-no do corpo, enfiam-no em caixas geladas e ele sobrevive, fora de nós, dentro de uma coisa plástica, cheia de gelo. É bom lembrar estas minudências da ciência, lembrar que, por exemplo, nos podem extirpar o coração, congela-lo e enxerta-lo noutro corpo, que não é o nosso, e ele continua a bater; um músculo, apenas, sem apego ao dono do qual foi desenraizado.

Reconheço que há corações gelados dentro da quentura de um corpo, imagino que ali só sobrevivam microrganismos e algumas ervas daninhas, talvez. São corações tristes, cheios de agruras e secretas aversões. Acho que esses corações são diferentes dos outros, acho que bombeiam lama em vez de sangue - sim, lama -, que quando é canalizada para as veias, transforma-as em troncos de esforço - retorcidas e disformes - e que depois alastram o lodo aos órgãos vizinhos - ao estômago, aos pulmões, à pele, aos mistérios labirínticos do cérebro. Imagina, um cérebro de lama, uma pele de lama, uma voz de lama.

Mas também acredito na força imprevisível da natureza que faz rebentar plantas nas arestas mais cortantes da junção de duas pedras, acredito nas flores do deserto (porque já as vi), acredito nos pedaços de relva que surgem no meio da neve a anunciar a primavera e acredito na beleza silenciosa das paisagens vazias, varridas por ventos glaciares.

Sim, também acredito nisso, acredito com todas as forças do meu coração (se calhar, acredito para lá delas), e eu sei que o meu coração também tem esquinas sombrias, não está imune à penumbra e, de vez em quando, lá sinto a lama a encaracolar-se pela aorta acima, a querer entupir veias, artérias, ventrículos e aurículas. É uma sensação terrível, essa, a de sentir essa coisa escura a subir por nós adentro, eu sei. Foi por isso que instalei um alarme - sabes o que dizem, casa arrombada, trancas à porta, e esse fel não o quero mais dentro de mim - quando ele me grita ao ouvido, eu faço marcha atrás, e toda a lama se dissolve no nada que é.

Às vezes, ainda me batem à porta, a quererem doutrinar-me o rancor, mas eu mando-os pastar para o vizinho de cima que faz uma barulheira danada a gritar com os filhos e com a mulher, pelo que cheira-me que deve comprar daquilo às paletes para sair mais barato.

Em bom rigor, é isto, o nosso coração é o que nós fazemos dele, é o uso que lhe damos e tu é que escolhes, se queres uma varanda castanha a escorrer humidade e porcaria ou uma cadeira ao sol rodeada de cor e luz. É claro que isto dá uma trabalheira danada e é um gasto de cif e esfregão que não tem fim, uma canseira, mas que hei-de eu fazer? Gosto de flores, pá!

By Leonor às 17:43
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Vendaval de madrugada.

(Para a Fernanda)

 

O relógio bateu o minuto vinte e oito das três da manhã e eu continuo a arrancar linhas ao sono para tentar chegar lá. Levanto-me, saco mais um livro da estante e continuo à procura de um sentido em páginas verticais. Não estou habituada a páginas verticais. A prosa é horizontal, escorrida, derramada, deitada. A prosa embala-nos e leva-nos com ela, é como um passeio, uma paisagem. Mas hoje, é o poema que me mantém acordada, ou pelo menos o poema em verso, pois ao que parece também o existe em prosa e, uma vez mais, não percebo porquê. O poema não é um passeio, é uma esquina inclinada, é uma montanha escarpada, uma gruta escura que me obriga a usar martelo, lanterna e cordas. Tenho um tio que se vai zangar comigo, eu sei, ele que anda a convidar-me à poesia - própria e alheia - desde que comecei a ler duas palavras seguidas. Mas perdoem-me os entendidos - não compreendo a verticalidade do poema, o corte da frase, a lógica da grafia inacabada que recomeça na linha seguinte, o ritmo. Se tal não bastasse, raramente assimilo um poema inteiro, parece que o poeta escreve para ele e só para ele e, nós, leitores mortais, temos de decifrar os mistérios insondáveis do que lhe vai na alma. Apetece-me extirpar partes soltas a poemas, bocados que se me colaram aos olhos porque, soltos, são únicos, mas inseridos no poema, perdem-se. Pudesse eu dissecar poemas e dizia-me já leitora de poesia. Ah, aquele fim do O'Neill, aquelas quatro linhas da Matilde, aquele primeiro verso de Tolentino, aquela ideia de Rilke, aquelas duas palavras de Hamilton, aquela pergunta de Sophia, aquele passo dançante de Vinicius. Mas não se pode gostar de poesia às fatias, pois não? Ou pode? O relógio aproxima-se perigosamente das seis da manhã e eu nisto. Lá fora um bêbado canta sozinho na noite e antes dele passaram os camiões do lixo a bombardear o silêncio. Assim de repente, talvez isto desse um poema, sei lá eu. Leio, algures, a palavra "overwhelming". Por mais que se tente, há palavras que não encontram tradução aproximadamente capaz, "overwhelming" é uma delas; gosto desta palavra e da forma como ela se enrola na boca, gosto mais da palavra do que do poema onde a encontrei. Sim, também há palavras únicas no português, a saudade e tal, e, sim, eu sei que não é a única, e sei porque tenho uma lista delas. Eu gosto de listas, faço listas de tudo e faço listas das palavras de que gosto. Gosto de listas, deve ser a única escrita vertical que compreendo.

By Leonor às 05:09
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Terça-feira, 1 de Julho de 2014

Traços

( Andorinhas - Benjamin Chee Chee - 1944-1977)

By Leonor às 13:07
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Sábado, 28 de Junho de 2014

A velha infância

 

Num dos seus muitos aforismos, Kafka diz que "quem possui a faculdade de ver a beleza não envelhece". Leio a frase e pergunto-me, afinal, que velha serei eu, se lá chegar, se a meia idade não der cabo de mim entretanto; se é que estou na meia idade, não sei já se ela acontece aos 30 ou aos 40, se é real, se é um tempo de dores nas costas, pequenos-grandes prazeres e uma plácida serenidade toda ela feita de estou-me nas tintas.

Costumo dizer que já nasci velha, sinto-me assim, muitas vezes, como se já tivesse muitos anos em cima, como se, desde cedo, as exaltações me passassem ao lado como um revirar de olhos. Devia achar que isto é mau, mas não acho, deve ser isso, a velhice.

Lembro uma conversa com um amigo de família que me contava da veneração e respeito que os chineses têm pelos seus anciãos, os mais novos tratam os mais velhos com deferência porque está entranhada no tecido social a noção de que os anos trazem sabedoria de vida, prudência, equilíbrio.

Mas a velhive traz também uma fragilidade que nos transporta à infância, não raro, à dependência, à necessidade de mimo, à birra e ao beicinho. No fim, voltamos ao princípio.

É sabido que este país não é para velhos e que a maioria deles vive por aí, aos caídos, mas eu não consigo deixar de me comover com as rugas marcadas, com o olhar condescendente, com as mãos torcidas e as costas curvadas. Sorrio à persistência com que os velhos evocam a alegria, o prazer, a ternura e não raro, o disparate de quem ganhou a autoridade de o estender a bom gosto.

Queira Deus que eu tenha a saúde e a dignidade de lá chegar assim, meio velha, meio criança, com a curiosidade a agitar-me a alma, mesmo que os óculos fundo de garrafa – se não a lupa – me obriguem a um esforço acrescido para olhar o mundo à minha volta, sabendo assumir a velhice num equilíbrio elegante entre o mau exemplo e o bom conselho, eu sei que já tive velhotas assim.

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By Leonor às 13:31
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2014

A relevância das primeiras linhas de um livro

"Estão quatro mulheres na sala. Destas mulheres é preciso saber antes de tudo que estão aqui por causa de um homem que cometeu um crime e que se por acaso se encontrassem na rua não se cumprimentariam".

Dulce Maria Cardoso, Campo de sangue.

By Leonor às 20:59
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Domingo, 22 de Junho de 2014

Chuvas de verão e um cheirinho bom a terra molhada ali na varanda.

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By Leonor às 11:08
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