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Outro Sentido

Outro Sentido

A Hora do conto - sábados 12:30, na Livraria Déjà Lu

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Voltamos, neste sábado, às 12:30, à hora do conto na Livraria Déjà Lu, desta feita, com uma nova voluntária contadora de histórias. Venham de lá com a miudagem porque há enredos empolgantes de fadas, príncipes, princesas, dragões, animais que falam e muitos meninos especiais. Não raro, aparece uma marioneta e folhas e lápis de cor e fazem-se perguntas e há respostas em coro  - e outras nem tanto -, mas vale a pena, vale mesmo a pena.

Até lá, sim?

[A Livraria Déjà Lu, fica na Cidadela de Cascais, por cima do Restaurante Taberna da Praça e, por ali, vendem-se livros em segunda mão de excelente qualidade e variedade e 100% das receitas revertem a favor da Associação dos portadores de trissomia 21; e a livraria é tão gira e tem coisas tão boas, já tinha dito?] #dejalu

Please, mind the gap.

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[@CCB]

E de repente, o tempo engole-me, e eu volto a esse ciclo de rapidez com os dias a atravessarem-me, quase imperceptíveis. Creio que o Kundera fala disso, a ideia de que a rapidez é directamente proporcional ao esquecimento, percebe-se que assim é, quando se vive a mil e dou por mim a encher os dias com coisas feitas e largadas, cumpridas e despachadas e passa-se à seguinte.

Vem isto depois de um fim de semana em que tive o meu sobrinho de quatro anos lá em casa; fomos ao Oceanário, o tio levou-o ao parque, almoçamos no Burger King e jantamos salmão com batatinhas assadas porque peixinho é muita bom. E depois ele foi embora, para casa das avós, e a casa - a minha - ficou vazia, o tempo ficou vazio; os sofás ficaram vazios, até as gargalhadas ficaram subitamente suspensas. É impressionante o quanto uma criança enche tudo, o espaço, o tempo, as refeições, o carro e até as noites que se tornam um pouco vigília.

Entretanto fui ao CCB ouvir o Rodrigo Leão interpretar o último álbum com o sugestivo nome de A vida secreta das máquinas. Mantém-se a musicalidade do Rodrigo Leão, mas encontramos a presença das máquinas na percussão salpicada aqui e acolá, a remeter para roldanas, para o batimento de um tear, para o movimento repetido de uma fábrica. É maravilhoso descobrir esse imaginário na composição musical, maravilhoso e genial.

Interregnos precisam-se, para lembrar que o tempo está lá.

A norte.

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Estou num décimo sexto andar de um Hotel do Porto e eu não gosto de décimos sextos andares de coisa nenhuma. Para mim, qualquer andar acima do segundo é uma vertigem insinuante, daquelas que nos fazem percorrer um arrepio de desequilíbrio nas costas à mera ideia de uma janela. Tentei, à mesma, porque quando olhada de um décimo sexto andar, a cidade apresenta-se na sua extensão e cor. Consegui a foto, meia a tremer, na certeza de que o telemóvel se ia esborrachar do décimo sexto andar abaixo.

A sala de jantar estava cheia - agora percebi porque é que me instalaram nas alturas -, estrangeiros e mais estrangeiros, espalhados por muitas mesas numeradas, a conversarem entre si em línguas diferentes mas, aparentemente, a compreenderem-se lindamente. Lembro-me do episódio bíblico do dia de Pentecostes em que os apóstolos, sob o efeito do espírito santo, discursam em muitas línguas e pleno entendimento.

No final do jantar, olho para a mesa das sobremesas e dou por mim a discorrer sobre os tipos sócio-culturais atribuídos a cada povo, ao mesmo tempo que agarro no meu prato e me coloco atrás das mesas à espera de uma vaga. Uma alemã alta e evidentemente perdida com os bárbaros costumes latinos, aproxima-se e pergunta-me em alemão - que eu, por acção de que espírito santo, não sei, mas percebi - de que lado afinal começa a fila. Eu sorrio, e digo-lhe em inglês que pode escolher. Entretanto um francês, sem qualquer noção de ordem ou fila, irrompe pelo meio e serve-se de torta de laranja e morangos. Um português grita para a mulher que há arroz doce, serve-se, deixa a colher escorregar para dentro da travessa que fica a ensopar no doce do arroz; encolhe os ombros, deixa-a lá. Uma velhota inglesa, sem pestanejar ou olhar sequer para o tuga, retira a colher, entrega-a à empregada, sai da fila e vai buscar uma colher lavada que coloca na travessa de arroz doce para depois se servir, frugalmente, de salada de frutas. Eu escolhi o arroz doce com a colher lavada e duas fatias de laranja; acho que entrei pelo meio da fila. Ah, Chica esperta!

 

 

Começar a semana

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Começar a semana com uns quantos links inspiradores e um mural lisboeta capaz de colorir qualquer dia - Na Expo.

Boa semana!

 

A relevância das primeiras linhas de um livro

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Não era uma ferramenta como as outras. Era feita de material de qualidade superior e o aprendizado do seu ofício muito mais longo e difícil. Para não falar no uso que dela fazia  seu portador. Ele conhecia todas as técnicas do utensílio, era capaz de executar as manobras mais difíceis - a in-quartata, a passata sotto - com inigualável habilidade, mas usava-o para escrever a letra P, apenas isso, escrever a letra P no rosto de algumas mulheres.

 

Rubem Fonseca, in A grande arte.

Listagem

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E eu que gosto tanto de listas e tenho cadernos cheios delas e, nos últimos tempos, devoro tudo o que esta mulher escreveu e, às listas que já tenho, acrescento outras inspiradas por ela, e encho cadernos com colunas verticais e escrevo diários, vários diários: um diário de preces, um diário de vida, um diário de instantes, um diário de imagens, um diário de palavras; listas e mais listas. It's a Susan Sontag kind of love.

Days are numbers

Houve uma vez que eu fui daqui para a Alemanha de autocarro. Tinha quinze anos e ia passar as férias de verão a casa de uma família que não conhecia e que estava lá, em Wolfsburg, à minha espera. A viagem era longa e eu nunca fui de fazer conversa com o vizinho do lado. Os silêncios sempre foram a minha praia e neles sempre couberam todas as coisas inacreditáveis que me passam pela cabeça e que, naquele tempo, faziam de mim heroína sobrevivente de um cenário catastrófico de fim do mundo. Todo o caminho, daqui até àquela terra com nome esquisito, eu acumulei histórias e saudades, medos e vitórias, fotografias em negativos que ainda guardo e um diário de viagem com uma letra redonda que implicava bolas em cima dos ii.

E porque nenhuma história se conta sem banda sonora, eu levava nos meus headphones uma única cassete gravada manhosamente em casa na semana anterior. Nela, tocava um álbum que tinha acabado de ouvir e pelo qual me havia apaixonado porque tinha qualquer coisa que me transportava para lá de sei lá onde (ou o quê) - ainda hoje não sei -, mas quando ouço isto, há qualquer coisa em mim que plana.