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Outro Sentido

Outro Sentido

A de Açor.

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Não creio que seja livro que satisfaça todos os palatos, mas este A de Açor, vencedor do Costa book of the year 2014, é um regalo. Gosto de histórias de gente verdadeira, gosto de biografias e de memórias e, particularmente, gosto de histórias de superação pessoal.

Helen MacDonald escreve tudo isso e conta-nos o processo que viveu para ultrapassar a morte do pai.

Em momentos fracturantes da nossa vida somos frequentemente atraídos pela ideia de fuga - para uma ilha deserta, para o campo, para um lugar de infância. Na verdade, não é o lugar em si que conta, é a distância, a lonjura daquele ponto onde ancora a dor e que, na nossa sabedoria popular, tem sido romanticamente traduzido por "longe da vista, longe do coração". E se é verdade que o afastamento nos ajuda a colocar as coisas em perspectiva, é igualmente verdade que quando a dor já se agigantou em nós, podemos precisar de algo mais - de um propósito, de um projecto, de uma razão.

Há uma época na vida em que esperamos que o mundo esteja sempre cheio de coisas novas. E depois chega o dia em que nos damos conta de que não vai ser assim. Percebemos que a vida vai ser uma coisa feita de buracos. De ausências. De perdas. De coisas que existiram e desapareceram. E também nos apercebemos de que temos de crescer à volta e entre as lacunas, embora possamos estender a mão na direcção das coisas e sentir esse entorpecimento tenso e luminoso do espaço onde se encontram as recordações.

A autora Helen MacDonald é uma apaixonada por aves de rapina desde criança - decidiu aos seis anos que queria ser falcoeira e aos oito, já tinha lido tudo o que havia para ler sobre o tema. É com esta idade que tropeça no livro "The Goshawk", de T. W. White, outro autor que se dedicou ao belicoso processo de treinar um açor e que falhou catastroficamente. São estas estas duas histórias, entrançadas entre si, que nos são agora contadas e, de certo modo, este livro é também a homenagem que a Autora presta a T.W. a White e à sua vida dupla e sombria.

"A arqueologia da dor não é ordenada", pelo que esta também não é a história de uma mulher que estava triste, comprou um açor, treinou-o e depois ficou de bem com a vida. Muito pelo contrário, este livro está cheio de arranques e de recúos, de memórias e de momentos presentes, de instantes luminosos e de esquinas sombrias, de humor e de angústia, de inseguranças e de conquistas e de uma adorável capacidade de rir de si mesma.

O Açor é - ficamos a saber - o pitbull das aves de rapina, a ave impossível de treinar e, como tal, o projecto perfeito para uma dor enorme, requer dedicação, perseverança, paciência e tempo, muito tempo.

A falcoaria é, por sua vez, uma actividade tipicamente masculina, a ela dedicam-se homens vestidos de turbante, de tweed, de chapéu de cowboy; homens que dão às suas aves nomes agressivos e auspiciosos para a actividade de caça que é visada.

Mas este é um livro escrito por uma mulher, apaixonada (obcecada?) pelo treino de aves de rapina e, como tal, este açor - uma fêmea - chama-se Mabel, do latim Amabilis - adorável!

Estas são as personagens sempre presentes: a autora, White e Mabel e sim, confundem-se, fundem-se mesmo, porque fugir da própria pele para as asas de um açor que voa lá longe, a planar sobre a copa das árvores, livre e distante, forte e agressivo, é tudo o que esta mulher estava a precisar - não ser ela, não estar presa à terra, presa ao chão onde tem de acordar e caminhar todos os dias para descobrir e lembrar o que se passa nesse plano rasteiro da vida. Em vez disso, prefere o açor, solto, salvo, distante e forte.

Mas esta é uma ave desenhada para matar, construída para apontar o azimute a uma presa e descer a pique sobre ela, cravar-lhe as garras e esperar que morra para lhe bicar a carne, por isso, a mulher que comprou um açor para fugir à morte, vê-se obrigada a olhar a morte de frente, a descer à terra, a pisa-la, a olha-la com tudo o que ela carrega, a sentir-se de novo, a recomeçar nesse plano onde a gravidade produz, em tudo, o seu efeito.

Agora eu compreendia o que aquilo era: uma mentira sedutora, mas perigosa. Estava furiosa comigo própria e com a minha certeza inconsciente de que esta era a cura de que precisava, As mãos são para serem seguradas por outras mãos humanas. Não se podem limitar a ser poleiros para aves de rapina. E a natureza não é uma panaceia para a alma humana; demasiado tempo no ar pode desgastá-la e reduzi-la a nada.

 

 

 

Aguenta coração.

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Aguenta coração, onde te penduras toda, te enrolas toda e flutuas toda, entre válvulas, aurículas, ventrículos e sangue. Aguenta coração com tudo o que és, com tudo o que largaste, com tudo a que te entregas e com o mais que sentes. Aguenta coração, porque quem sente muito precisa de um coração forte, uma bomba potente para sugar e expelir a vida a cada golfada.

Sabes que a tua mãe tem um coração grande - não é só amorosamente grande, é mesmo física e clinicamente grande -, já o teu é pequenino, não aguenta o tudo que lhe colocas no colo, és tão exigente com ele como és com os músculos das pernas, com a força do ânimo, com a perseverança da fé, com a excelência do trabalho, com a elasticidade do tempo e com a capacidade de resposta à variedade da vida.

Por isso aguenta-te, porque a mulher que te carrega despeja para dentro de ti verdadeiras toneladas que nem sempre são recicláveis, sim, para além de coração, também és aterro e tens de o ser, porque os discos vertebrais já se queixam demasiado - os mariquinhas -, dizem-se esmagados, pasme-se, logo por ti, que do alto do teu metro e setenta e oito revelas um IMC de peso pluma. Não há pachorra.

Aguenta coração, porque verdade seja dita, não fora estas delicadezas da existência e até serias um coração levezinho, sem gorduras que te entupam a circulação, fumos tóxicos que te obscureçam a paisagem ou venenos de fast food que te atribulem o funcionamento. Nada disso, na verdade até és um coração sadio, com treino cardiovascular recorrente e saudavelmente alimentado, até te dou um copinho de tinto de vez em quando porque dizem os médicos que te faz bem - a ti deve fazer-te maravilhosamente, até começas a bombear música em vez de liquido vermelho e, quando dás por ti, estás aos saltos e cantarolar os Deolinda que são um entusiasmo recente.

Tem de acontecer, porque tem de ser
E o que tem de ser tem muita força
E sei que vai ser, porque tem de ser
Se é para acontecer, pois que seja agora.

Maravilha, não há coração que aguente.

Os voluntáros não são uma treta

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Terminaste a semana num evento que promoveu um encontro entre empresários e instituições de solidariedade, que procurava construir pontes entre ambos para suprir necessidades reais de uma faixa de população crescente; percebes o quanto esta gente tem feito por quem não tem mais quem os ajude. Foi dito - e é verdade - que, não fora o trabalho de tantas associações e dos voluntários que as fazem viver, e estes anos teriam sido indizivelmente mais dramáticos. A maioria de nós não faz ideia - não faz mesmo - dos tentáculos de auxílio que tecem um tecido social silencioso de entreajuda, sem precedentes na história da nossa sociedade.

Compreendes, naturalmente, que o direito ao trabalho faz parte da estrutura da dignidade da vida humana, o trabalho é um direito legal que promove a estabilidade das famílias e da sociedade em que estas florescem, mas não podes deixar de lamentar declarações políticas tão infelizes como a frase recentemente proferida por um membro do governo, segundo a qual "o trabalho voluntário é uma treta". Se metade dos políticos que nos governam conhecesse realmente a realidade do voluntariado em Portugal, jamais teriam a infelicidade de certas palavras, contextualizadas ou não, associadas ou não a direitos fundamentais - não as diriam por elementar inteligência social, governativa e até política, mas a falha dela também já não te surpreende.

A verdade é que nunca tantos saíram dos seus lugares de conforto para fazer pelos outros, nunca tantos usaram o seu tempo livre, as suas horas de lazer, o seu tempo em família, os bens que têm, os dons com que nasceram, a formação profissional que adquiriram e os neurónios que treinaram, para se virarem - não para si mesmos - mas para os outros, havendo mesmo, de forma nada surpreendente, uma preocupação empresarial de inclusão desta visão no trabalho e na estrutura organizativa das empresas.

A um nível de célula social mais pequena, a solidariedade tem também um papel  fundamental, e educar os nossos filhos na consciência de que existem outros menos afortunados, fazendo-os parte dessas redes de apoio, é um traço importantíssimo e estrutural da educação alicerçante da nossa sociedade futura e isto não é, em nenhuma vertente possível, uma treta.

Let me guide you into the purple rain

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Aqueles que me conhecem, sabem que Purple Rain do Prince é uma daquelas músicas que me define, talvez a par e passo com o Sultans of swing dos Dire Straits ou o I will always love you da Whitney Houston. São sonoridades totalmente diferentes que, porém, ficaram gravadas em mim, feito tatuagem; apoderei-me delas, com um sentido de posse emocional - são as minhas músicas e não me interessa se também o são de outros, sei que são minhas, tumultuosamente minhas, incontrolavelmente minhas, porque a música tem (sempre teve) esse poder de me comover, de me agitar, de me alegrar, de me entristecer ou, simplesmente, de me encher de uma qualquer emoção tremendamente forte que me atravessa para lá do corpo que se move sempre (um amigo dizia-me que eu era capaz de dançar ao som de pratos partidos).

Purple Rain é aquela música que começa a tocar e todos os olhos familiares se viram para mim, cúmplices, sabidos, íntimos, como que a dizer-me "olha, a tua música", e é, a minha música; uma música que dificilmente poderia ter acontecido neste século XXI, porque sendo intemporal, é também produto de uma época em que as músicas e os vídeos que as acompanhavam (na altura, chamávamos-lhes telediscos) contavam uma história, e eram longas (esta tem cerca de dez minutos) e tinham um clímax do qual, depois, se descia em notas longas que se iam apagando. No Purple Rain há uma história de reconciliações, e há um solo de guitarra arrasador do qual se descansa no final com um piano e cordas. É all in one, não lhe falta nada, intensamente perfeita.

Tenho poucos CDs the compilação, mas tenho o duplo do Prince -  The hits vol. 1 e 2 - e ouço-o com frequência por uma questão de sanidade, de necessidade de ligação a um tempo musical, e porque dançar freneticamente ao som de Kiss, when doves cry, peach ou 1999 faz bem a qualquer alma que se preze.

Aos poucos, perdem-se gigantes que nos ensinaram umas quantas coisas sobre música, e parece que há uma página que se vai virando, definitivamente, transformando o mundo para toda uma geração.

This is what it feels like, when the doves cry!

Gargalhadas e ventania

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O miúdo ri com gargalhadas que te fazem rir, são gargalhadas que riem das coisas poucas que são as melhores, é claro; ele ri por causa do número de vezes que conseguem atirar um balão ao ar sem ele cair no chão ou porque tu falas com ele com uma cara muito séria sobre coisas muito disparatadas. Ele ri à brava e chama por ti e aquilo ilumina o dia todo e aquece um Abril frio que falha a promessa de Primavera.

Esse Abril chegou cheio das águas mil do costume - April come she will, When streams are ripe and swelled with rain, diz a canção da geração anterior -, veio a tresandar a inverno quando tu já sonhas com um Maio ameno - May, she will stay resting in my arms again - um tempo mais suave e doce, mais quente. É que lá fora corre um vendaval de doidos apostado em desarrumar a rua toda - os caixotes de lixo largaram o lugar traçado no passeio e rumaram alcatrão abaixo, há vasos fugidos de varandas e pedaços de árvores pelos ares. 

"O vento sopra onde quer", ouviste isso hoje - o vento comparado à fé, um sopro sem forma, que despenteia ideias, não sabes de onde ele vem, nem para onde te empurra, mas sabes que está lá e que de repente te atravessa num arrepio que se entranha em desassossego, a desarrumar tudo por dentro. Esse vento é bom, é como aquela bola de pilates que o teu Personal Trainer te obriga a usar para fazeres uns abdominais em desequilibrio que te exercitam músculos que não sabias que tinhas mas que te fazem mais forte, ali onde é preciso, naquele centro que te sustenta a coluna vertebral, e é sabido o quão importante é ter uma boa coluna vertebral.

Mar calmo nunca fez bom marinheiro - não sabes quem disse isso, é uma daquelas coisas que apanhaste, algures, numa imagem na net -, o mar, tal como o vento de que ouviu falar Nicodemos, agita-te, obriga-te a procurar alicerces e equilibrios, a ajustar velas e a usares forças que descobres que tens. Lá, no fim da tempestade, estará o Mês de Maio, alegre e luminoso como a gargalhada de um miúdo a rir de coisas parvas. 

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