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Outro Sentido

Outro Sentido

Os combatentes

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Um bootcamp de treino militar pode ensinar-nos que não estávamos preparados para aquela experiência, que é muito mais dura e difícil do que havíamos previsto. Mas pode ensinar-nos também a sobreviver e a aceitar que vamos ao colchão, mas que nos temos a nós e aos outros para nos levantarmos e recomeçar, não da mesma forma, mas mais bem preparados.

Um filme sobre a descoberta do amor - mesmo improvável - e o começo da vida, ou talvez a vida toda, que é quase sempre assim, recomeços, uns atrás dos outros, sempre mais bem treinados do que antes, porque, é sabido, nada nos ensina melhor do que o erro.

Encontros

Vi-o naquele instante em que já passámos por alguém e, de repente, percebemos que esse alguém nos é familiar. Estava curvado, sentado num muro baixo, à frente de uma repartição pública. Nunca se nota em alguém curvado, sentado à frente de uma repartição pública. Parei a marcha rápida em que vivo e sentei-me ao seu lado. Estava a tratar de tretas; está-se sempre a tratar de tretas nas repartições públicas; neste caso, uma treta que talvez lhe valesse uns Euros miseráveis ao final do mês; dali a uns meses. A linha dobrada do seu corpo era isso também, a quase derrota, a vergonha, o desamor, a solidão.

Desenhei-lhe duas ou três luzes ao fundo do túnel, percebi que eram ténues, mas espero que ele as tenha vislumbrado, ainda assim, com aqueles olhos claros a controlar duramente uma lágrima. Não se vitimizou, olhou o chão da calçada e assumiu as fraquezas que lhe travavam o futuro e ancoravam a um passado irrecuperável.

Eu, ao seu lado, só lhe vi uma humildade profundamente humana - e que coragem é preciso para se ser humilde -, aquele instante em que o mundo deixa de girar no seu eixo e somos obrigados a ficar quietos, silenciosos, com tempo - muito tempo - para olhar para dentro e vermos, afinal, o que lá está. Tudo muda quando a vida pára e ficamos a sós connosco, sem outro cenário que não seja o interior. A maioria foge a sete pés, procura o que necessário for para que tudo rode novamente à rotação habitual. Mas, de vez em quando, surge um bravo que enfrenta o monstro, que cruza as mãos, que dobra as costas, que treme os dedos e que segura as lágrimas públicas, mas que olha, aguenta o espelho, revê, estilhaça-se e refaz o puzzle, reconhece, honestamente, para si, aquilo que é e o que não é. Normalmente, é este que renasce das próprias cinzas, como só os seres singulares e mitológicos conseguem, um dia, abre as asas e recomeça, não o mesmo, mas outro.

Livros, Livros e mais livros

No dia mundial do Livro O OBSERVADOR deixa esta lista bem recheada e sobre a qual posso dizer o seguinte: Os dois primeiros da lista estão lá muitíssimo bem, subscrevo a preferência. O 3º não li mas está na calha. Quanto ao 4º ainda não me decidi. O 5º, o 6º e o 7º acabaram de cair na wishlist. O 8º é bom há muitos anos e faz parte dos melhores de sempre. O 9º não me apetece. O 10º, se verá. Quanto ao 11º e ao 12º, creio que preciso de uma pausa. 13º, wishlist. 14º, lindo e lido. 15º, not my style. 16º, wishlist.

A acrescentar? A Rosa Cândida, de Audur Ava Olafsdottir; A breve e assombrosa vida de Oscar Wao, de Junot Diaz, Stoner, de John Williams e A lebre com olhos de âmbar, Edmund Waal.

O meu momento Nora Ephron

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Há uma crónica maravilhosa da Nora Ephron intitulada I remember nothing, aliás, a crónica acabou por ser o texto introdutório de um livro bastante espirituoso - I remember nothing and other reflections - que recomendo vivamente. 

Vem isto à baila porque, desde que li o livro, não passa uma semana na minha vida sem que eu diga para mim mesma: Yeah, Nora, you're right, I remember nothing (eu faço estas coisas, falo com os autores e as personagens dos livros que leio, é uma cena algo esquizofrénica mas é também muito terapêutica).

A minha prima Catarina fez anos no domingo e eu, moça previdente, fui comprar-lhe o presente de aniversário no sábado. Mais previdente ainda, liguei à minha cunhada a perguntar se estaria interessada em oferecer um presente conjunto. Ela estava. Encontrei uma túnica muito gira e muito hippie - acho que agora se diz boho -, fotografei e enviei SMS à co-ofertante que respondeu a dizer que concordava. Mandei embrulhar, colocar talão de troca lá dentro (muito previdente) e saí dali, satisfeita, de saquinho na mão. Passei por outra loja e resolvi experimentar uns trapinhos de meia estação de que estou a precisar urgentemente mas que só vou comprar no mês que vem. Serviam todos, guardei-os na lista de compras a fazer que não irei cumprir; enfiei-me no carro e fui embora.

No dia seguinte, pronta e despachada para a festa, estive meia hora a virar a casa do avesso à procura do presente e nada; depois, mais vinte minutos a virar o carro do avesso e népia. Fui para a festa com o discurso: eu juro que comprei e logo que o encontre eu trago. Já ninguém se espanta! A minha prima sorriu e deu-me duas semanas para encontrar o saquinho.

Hoje fui ao Shopping, pouco esperançada, e perguntei nas duas lojas se não havia por lá ficado um embrulho assim e assado. Estava lá, de facto, na segunda loja. Valha-me Santa Engrácia, só precisei de 24 horas.

Numa outra ocasião, entrei numa bomba de gasolina, pedi 60 € de gasóleo para a bomba três, paguei (claro), pedi factura, saí, enfiei-me no carro e fui embora; sem meter o gasóleo no dito, naturalmente.

Já o dia-a-dia do meu despistanço, passa por coisas mais prosaicas como esquecer-me dos óculos de sol no frigorifico, as chaves de casa no escritório ou o telemóvel em todo o lado (odeio este fulaninho comunicativo).

Tenho todo um cardápio de histórias destas na minha existência, às quais deverei acrescentar, ainda, a minha total inabilidade para me lembrar de um único aniversário - seja de quem for -, de nomes de pessoas, de fisionomias pouco frequentes, ou de direcções.

Nora, amiga, estou lá!

Não me venham com a conversa de que tenho de criar mecanismos de defesa para ultrapassar estas aventuras; primeiro, porque eu fico com vontade de vos esborrachar os mecanismos pela cabeça abaixo (sim, estou a ser simpática), segundo, porque eu vou esquercer-me do mecanismo com a mesma rapidez com que me esqueci daquela anedota com que me ri a bandeiras despregadas há uma hora atrás.

O meu irmão e a minha cunhada não padecem deste mal em tão grande escala, mas como inventam competições na cabeça de um tinhoso (credo, espero que não), têm frequentemente aquele momento enervante a meio de um jantar de família, em que um diz qualquer coisa como: sabes aquele actor que fez aquele filme que se passa na segunda guerra e ele era pianista ... e depois estão à volta daquilo durante uma data de tempo, e mesmo depois de já ninguém se lembrar do tema, há um - normalmente a minha cunhada - que grita de repente: Adrian Brody! E depois faz a dança da vitória, enquanto o meu irmão se rói por dentro. Eu já nem tento competir, claro.

Há um instante da crónica da Nora Ephron em que ela quer falar de uma determinada bebida, aquela que é feita com hortelã picadinha, sabem? Pois, vocês talvez saibam mas ela não se lembrava, e por isso, interrompe o texto e diz que vai ali ao Google e já volta. O parágrafo seguinte diz apenas: The mojito!

O texto em questão conclui que o nosso momento de esquecimento senil, foi substituido pelo nosso momento de pesquisa Google, o que é muito menos deprimente, ou talvez não, porque a mim já me aconteceu ir ao Google procurar aquele filme que tinha aquela actriz cujo nome não me lembrava, que contracenava com aquele actor cujo nome estava debaixo da língua e que era realizado por aquele tipo espectacular que fez filmes de cowboys mas que agora é realizador e que uma vez disse numa entrevista que havia um tipo em Portugal realizava aos cem anos e que ele queria fazer o mesmo, aquele, sabem? Eu não sabia e fiquei no estado deploravel de não ter sequer o que googlar, sendo certo que isto virou um verbo na minha existência, claro, googlar; entretanto baptizei todos estes maravilhosos momentos da minha vida como os meus momentos Nora Ephron. Chique, não?

A Hora do conto - sábados 12:30, na Livraria Déjà Lu

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Voltamos, neste sábado, às 12:30, à hora do conto na Livraria Déjà Lu, desta feita, com uma nova voluntária contadora de histórias. Venham de lá com a miudagem porque há enredos empolgantes de fadas, príncipes, princesas, dragões, animais que falam e muitos meninos especiais. Não raro, aparece uma marioneta e folhas e lápis de cor e fazem-se perguntas e há respostas em coro  - e outras nem tanto -, mas vale a pena, vale mesmo a pena.

Até lá, sim?

[A Livraria Déjà Lu, fica na Cidadela de Cascais, por cima do Restaurante Taberna da Praça e, por ali, vendem-se livros em segunda mão de excelente qualidade e variedade e 100% das receitas revertem a favor da Associação dos portadores de trissomia 21; e a livraria é tão gira e tem coisas tão boas, já tinha dito?] #dejalu

Please, mind the gap.

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[@CCB]

E de repente, o tempo engole-me, e eu volto a esse ciclo de rapidez com os dias a atravessarem-me, quase imperceptíveis. Creio que o Kundera fala disso, a ideia de que a rapidez é directamente proporcional ao esquecimento, percebe-se que assim é, quando se vive a mil e dou por mim a encher os dias com coisas feitas e largadas, cumpridas e despachadas e passa-se à seguinte.

Vem isto depois de um fim de semana em que tive o meu sobrinho de quatro anos lá em casa; fomos ao Oceanário, o tio levou-o ao parque, almoçamos no Burger King e jantamos salmão com batatinhas assadas porque peixinho é muita bom. E depois ele foi embora, para casa das avós, e a casa - a minha - ficou vazia, o tempo ficou vazio; os sofás ficaram vazios, até as gargalhadas ficaram subitamente suspensas. É impressionante o quanto uma criança enche tudo, o espaço, o tempo, as refeições, o carro e até as noites que se tornam um pouco vigília.

Entretanto fui ao CCB ouvir o Rodrigo Leão interpretar o último álbum com o sugestivo nome de A vida secreta das máquinas. Mantém-se a musicalidade do Rodrigo Leão, mas encontramos a presença das máquinas na percussão salpicada aqui e acolá, a remeter para roldanas, para o batimento de um tear, para o movimento repetido de uma fábrica. É maravilhoso descobrir esse imaginário na composição musical, maravilhoso e genial.

Interregnos precisam-se, para lembrar que o tempo está lá.