Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Outro Sentido

Outro Sentido

Raízes

IMG_20160723_234842.jpg

[Lagoa das Furnas, S. Miguel]

Criaste em S. Miguel raízes profundas e cheias de nódulos que se fazem, muitas vezes, presentes. Não consegues explicar ao certo porquê, mas sabes que não tem apenas a ver com o facto de ali teres vivido uma infância feliz, é mais do que isso, é como se o espaço da Ilha encontrasse em ti uma coerência íntima, um isolamento distante que também é teu, que não te assusta, atrai-te como uma vertigem de temperamento.

 

 

"Amar uma ilha"

IMG_20160725_184018.jpg

Passei uma parte das minhas férias na minha querida - e saudosa - ilha de S. Miguel.

Levei comigo este livro da Helena Marques que me fez a melhor das companhias e onde se contam dez histórias de ilhas e das pessoas que nelas se encontram; pessoas como eu, que estava em S. Miguel de visita, depois de ter vivido em S. Miguel na infância; pessoas como eu, que são um pouco ilhas também.

Na contracapa pode ler-se: "Ilhas contadas fala de pessoas e ilhas, de pessoas em ilhas que visitam ou onde vivem. E essa particularidade - visitar ou residir - estabelece toda a diferença no olhar, nas percepções e nos estímulos. Amar uma ilha é um verbo com dois tempos, o breve e o longo, o da passagem e o da permanência. E cada tempo tem o seu segredo e o seu tesouro" - eu percebo isto até à medula.

Deadline

IMG_20160705_223121.jpg

Regresso de férias a pensar o que fazer desta página. Pensei dar-lhe vários destinos - outros sentidos, enfim -, incluindo aquele que conduz à porta de saída (mais ou menos airosa). Tenho tantas coisas em mãos que me sobra pouco desse luxo que é o tempo para criar algo que, abrandando os meus dias, possa ter um efeito semelhante desse lado.

Esse foi, afinal, o propósito originário - suavizar o meu quotidiano, imprimir-lhe uma marca positiva, uma nota de doçura, um caminho de expectativa. Era um pouco como abrir a janela logo de manhã e levar uma chapada de ar frio para abrir a pestana ou receber o afago de um dia sereno para embalar a preguiça. Era bom e mesmo quando os dias se mostravam mais amargos, era também aqui que, muitas vezes, lhes dava a volta.

E depois deixou de ser, e para não ser o que não devia, caiu o pano do silêncio.

Passei um mês a ponderar o ponto final, mas há um aguilhão que me diz que vou ter saudades, por isso, decidi dar-lhe mais um tempo, reformata-lo um pouco, apoiar-me, se necessário, em algumas bengalas, recorrer mais à fotografia porque um mood board é também uma presença constante da minha existência.

Vamos a ver se lhe damos novo fôlego. Seis meses, à experiência, vá.

Os telhados da vizinha

by Hoda Rostami.jpg

As vizinhas e as galinhas e as galinhas das vizinhas e os vidros dos telhados das vizinhas e os estendais, é claro, os estendais das vizinhas onde se descobrem indecorosas nódoas nos melhores panos da vizinhança e todo o provincianismo de aldeia que alimenta a nossa cultura social e para a qual já não há pachorra. Rejubila-se no escândalo alheio, chafurda-se na falta do outro e esconde-se a falta própria, tão semelhante ou pior ainda, e se nada se encontra na vizinha que seja digno de miséria, vasculham-se as vergonhas ancestrais que servem também para alimentar palatos habituados à regularidade do líquido mais carrascão. Mexerico aqui, enredo acolá e a boa da vizinha tem de aguentar tudo e dar a outra face, e Deus nos livre se lhe salta a tampa e faz voar o microfone insolente e despudorado para o alguidar mais próximo, que logo aí perde a face e a postura e a autoridade. Pequeninos, nós, que damos palco, plateia e holofotes às vizinhas intriguistas, aos repórteres da aldeia da roupa suja que, convenhamos, se não tivessem audiência, também não tinham voz.

Um solavanco na rodinha do hamster.

tumblr_mfox8ifhQL1r3olkxo1_500.jpg

Acontece, às vezes, que um qualquer lugar deste mundo nos arranca, à força, a paisagem que conhecíamos do espaço moldado da nossa janela. Por alguma razão que não ouso discernir, isso tem acontecido com frequência neste cenário desordenado que é o planeta terra. Lembro-me de um poema da Matilde Campilho que nos primeiros versos diz: "O mundo está absurdamente esquisito, já ninguém confia nas imposições dos perfeitos" e creio que todos sentimos isso, cada vez mais, a cada notícia de jornal, a cada passo dado na rua, a cada pausa que nos concedemos para pensar um pouco na ordem inversa da importâncias das coisas.

Paras um pouco para pensar nisso - está metade do mundo a pensar no futuro e a outra metade a dormir um sono profundo. Todos acordarão, no fuso horário que lhes couber, para uma alteração do panorama habitual. Ajustamo-nos a tudo, meio apáticos, meio efusivos, meio conformados, meio revoltados, meio dormentes, meio expectantes. Para além desses, há sempre aquelas células inquietas, verdadeiras teimosias de luz - são os loucos, aqueles que vivem no intervalo ténue entre o sono e a agilidade e que, simplesmente, persistem no amor, porque tudo o resto, é desarrumação.

"A esta hora na terra

é metade Carnaval, metade conspiração,

metade medo, metade fé,

metade folia, metade desespero

E, provavelmente, a esta hora

uma metade do mundo está dançando

e a outra metade dormindo,

há ainda outra metade limpando as armas

outra, limpando o pó das flores.

Mas por causa do que me ensinou o místico

eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado.

Alguém que esteja vivendo no intervalo ténue entre o sono e a agilidade.

Supondo que ele saiba perfeitamente que este começo de século

será nosso baptismo de voo para a persistência no amor"

 

Matilde Campilho, in Fevereiro [excerto].

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

The New Yorker

Frida Kahlo

Small things

Wise Words

canto de leitura

Your house

Flower Power

Odeio o acordo ortográfico

License

Licença Creative Commons
obra licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.