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Outro Sentido

Outro Sentido

Ballet em família

Maravilhosa iniciativa e um fantástico programa para sábados de manhã em família. Não é aqui - infelizmente - é em Nova Iorque, com a dança e a música explicada aos mais pequenos, dançada e orquestrada para eles.
Como tudo o mais na vida, gostar de uma forma artística também se aprende. Ver pedaços de bailados, dos mais diferentes géneros, com a música no palco e a orquestra no seu lugar, um coreógrafo e bailarino que avança naquilo que pode ser ensinado, atraindo e desmistificando; apreciar os figurinos e apreender instintivamente o papel que eles têm no conjunto da representação, perceber a beleza, a harmonia e a dificuldade de cada passo, de cada gesto, de cada elevação, de cada salto. A arte é uma forma de embelezar a existência e, dentro dela, a dança é magia pura.

Fim de semana cinéfilo. Recomenda-se este combóio nocturno para Lisboa.

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Deixamos algo de nós para trás, ao deixarmos um lugar; permanecemos lá, apesar de termos partido, e há coisas em nós que só reencontramos lá voltando. Viajamos ao encontro de nós, ao irmos a um lugar onde vivemos uma parte da vida, por muito breve que ela tenha sido. Mas, ao irmos a nós, confrontamos a nossa solidão, e não é certo que tudo o que fazemos é devido ao medo da solidão? Não é por ele  que renunciamos a tudo de que sentiremos a falta no fim das nossas vidas?

...

E por falar em David Bowie ...

Absolute begginers

Tinha razão Mr. Bowie quando cantava "we are absolute begginers", porque somos, sempre, em qualquer estádio da nossa existência. Retornamos à nossa pequenez insegura sempre que a vida nos leva ao colchão ou, simplesmente, nos apanha de surpresa.  Eternos principiantes, sempre que sofremos, sempre que amamos tudo de novo, sempre que damos um passo no desconhecido. Achamos que os anos nos trazem a experiência, o estofo, a capacidade visionária da antecipação, até nos vermos reflectidos na nossa própria arrogância, a tal que devíamos ter perdido no caminho da juventude, quando o mundo nos girava na palma da mão. Ah, vaidade e tempo que passa! Seremos sempre meninos de escola, aos dez e aos quarenta, na verdade, só muda o puzzle, que parece que tem cada vez mais peças, a maioria das quais deve andar perdida, algures, debaixo de um móvel poeirento carregado de livros e fotografias (ao menos isso). Lembro-me tantas vezes da minha avó a suspirar: "ah, se eu voltasse a ter vinte anos ...". Não, nunca faríamos as mesmas coisas se voltássemos a ter vinte anos, ou trinta, ou quarenta. Aos oitenta, a minha avó era uma principiante, foi apanhada na curva da velhice e não sabia o que fazer com ela; à falta de melhor, resmungava com a mulher de vinte e trinta que já não era, na verdade, resmungava com muita coisa e, pelo meio, era pequenina, mimada e mimosa, e apoiava-se na bisneta para ir para a mesa, que lhe dava a mão com uma ternura comovente e dizia que a Bé precisava de ajuda porque era velhinha, e a Bé, que era velhinha e pequenina, aprendia a aceitar que já não ia do sofá à mesa sem o apoio de uma mão. Valham-nos as mãos que nos rodeiam e que são a nossa tábua de salvação, apontam caminho, amparam, suavizam, relaxam e ordenam. Que sorte, termos essas mãos por perto, estendemos a nossa e vêm de lá as outras.

 

 

 

Associção Déjà Lu - Livraria solidária

Aqui fica a entrevista da minha querida amiga Francisca Prieto, a apresentar ao mundo um projecto de que me orgulho tanto de estar próxima.

Senhoras e Senhores, vem aí a loja aberta da Déjà Lu, Livraria Solidária (é seguir o Link).

CR

Não gosto de bola, não gosto do mundo da bola e não gosto das clubices da bola.

Ainda assim, hoje estou orgulhosa pelo CR, esse homem que cumpriu um dom com trabalho, perseverança, disciplina e foco. Não é fácil ser-se criança e largar casa e mãe para treinar na incerteza de pouco mais do que uma convicção e muita vontade. Acreditou. Lutou. Venceu. Mereceu.

Detalhes

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[Rapariga com um livro, Pietro Rotari - detalhe]

Uma terra sem histórias para contar

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Sou, é sabido, uma convicta menina da linha . Vivi entre S. João do Estoril e Cascais quase toda a minha vida, com uma rápida - mas muito feliz - interrupção açoriana. Gosto desta terra virada para o mar e, mesmo quando acho que seria feliz na minha querida Lisboa, fica-me sempre a hesitação de saber se seria realmente capaz de ali assentar arraiais. Já lá vão muitos anos desta vivência feita de paredão, estrada do Guincho, baía, dunas, praias, ciclovia, marina e ventania e, se estas são as razões de raiz deste viver, outras há que cresceram com aquilo que o tempo trouxe de bom ao Concelho. Durante vários anos, Cascais, foi um caldeirão fervilhante de cultura e animação; a agenda cultural era mensalmente distribuída pelas caixas do correio e vinha gorda de iniciativas, exposições, concertos, conferências, workshops, visitas guiadas e muito mais. Dava gosto saber que aqui, só não tinha uma vida cultural intensa quem não quisesse. Neste contexto, a casa das histórias Paula Rego foi, certamente, a cereja em cima do bolo. Neste edifício cor de rosa com a assinatura do arquitecto Souto Moura, vimos inaugurar um espaço museológico de excelência, onde nos foram apresentadas algumas das mais emblemáticas obras da pintora, expostas com a inteligência de uma equipa que com elas soube, de facto, contar uma história. Eu, que pouco conhecia da obra de Paula Rego, enamorei-me de muitos dos seus quadros, de tantas vezes que tive a sorte de os olhar. Mas - e infelizmente há um "mas" nesta história -, à boleia dos cortes orçamentais que a cultura sofreu neste País, construiu-se no meu Concelho, a ideia de que essa cultura é dispensável, ainda que tivesse - e tinha, indiscutivelmente - a capacidade de lhe trazer muitos milhares de turistas e de ser intensamente usufruida pelos da casa. A agenda cultural desapareceu e, com ela, a capacidade difusora de informação do que se passava. Depois, foi ver a vida do concelho esmorecer, na ausência de concertos musicais, de exposições, de conferências, enfim, de tudo. 

Este fim de semana, estive na casa das histórias Paula Rego para visitar a actual exposição que associa alguns dos desenhos (e pouquíssimos quadros) da pintora, ao artista Bordalo Pinheiro, e saí de lá com um triste sentimento de desolação! Quem viu este museu aquando da sua nascença, não pode deixar de se sentir tolhido de desgosto ao vê-lo agora - pobre, frio, com o percurso expositivo interrompido por duas salas fechadas que obrigam o visitante a fazer marcha atrás, e sem fio condutor de história alguma. As obras da pintora que dá nome à casa são escassíssimas e nada dos grandes quadros que tivemos o privilégio de contemplar - desapareceram as bailarinas, o anjo, o amor, ou o entre as mulheres. Se tal não bastasse, e porque o museu foi pensado e construído para o ser de grande nível, em tempos, saíamos do mesmo e entravamos na loja, onde nos apetecia arrebanhar as prateleiras, de tão ricas de oferta de qualidade. Agora, porém, estão vazias, com o refugo do que ainda não foi comprado. É, acreditem, uma dor de alma e um triste sinal do que se vai passando nesta terra, a somar à piroseira das luzes natalícias ou à ausência de festa de final de final de ano que tanta gente trazia ao Concelho. Sobra-nos, é certo, o mar e o sol, nesses, ao menos, não há cortes de orçamento e administrações incapazes e sem a menor percepção do que é essencial a esta casa.

Voltando aos clássicos desta casa - Ballerina Girl

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2015

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(Foto: ontem, no Príncipe Real) 

Fez-se uma pausa. Era necessária depois de um Dezembro de festividades e muita escrita. O ano começou em paz e tranquilo. Nada mudou de forma radical, para além do número do ano do calendário que nos rege, fora isso, mais um dia que se seguiu ao anterior. Há muito que não dou grande importância à coisa; penso-a na exacta medida do decurso do tempo e é aí que está a sua relevância. Por isso, gosto de iniciar o ano sem planos, sem resoluções, sem grandes festividades mas com a consciência clarividente da passagem do tempo, é essa que me faz olhar - sempre e mais - cada dia com uma gratidão tremenda e uma vontade férrea de fazer o melhor que consigo com o (tal) tempo que me é dado.

É essa a bússola do meu ano novo, viver cada dia, para cada dia, com tudo o que cabe e encontro nele; de tal forma que, em cada um dos 365 dias que me sobram até ao ano seguinte, eu consiga acrescentar algo mais ao que sou, ao que penso, ao que sei, ao que experienciei, ao que dei, ao que recebi, ao que partilhei, ao que senti, ao que sofri, ao que vi, ao que li, ao que cresci, ao que amei.

Venha de lá 2015. A todos, um bom ano.