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Outro Sentido

Outro Sentido

Do amor aos livros

biblio.jpg

Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequido como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de prateleira e segurava-o um instante com as suas mãos grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, da capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os seus dedos hirtos virando páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitados, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.

John Williams, in Stoner.

Gente grande

de coração

Soubeste hoje de três crianças que saíram da escola a pé para casa e que, pelo caminho, se deparam com um homem enfiado dentro de um contentor de lixo, a separar montes do que se poderia aproveitar, entre restos de comida e de vida alheia.

As crianças perguntaram-lhe se ele estava com fome - assim mesmo e sem rodeios, que os miúdos não filtram as minudências que a nós adultos, nos fazem dobrar as palavras - e perante a envergonhada resposta afirmativa, esvaziaram as três lancheiras que tinham nas respectivas mochilas e estenderam-lhe sandes, iogurtes e bolachas não lanchados. Depois, disseram boa tarde, e continuaram caminho.

Às vezes, no final de um dia de trabalho demasiado longo para ser verdade, há qualquer coisa que te retempera a crença na humanidade e a ideia de que, talvez, aqui e ali, ainda haja alguém a fazer alguma coisa de certo no mundo.

A ausência deste gesto para com um desconhecido, teria sido desculpável pelo receio, pela timidez ou pela insegurança, mas o facto de tudo isto se vergar à impossibilidade da indiferença, é revelador de um impulso interior mais forte.

A misericórdia é uma palavra longa e elaborada, mas às vezes ela cria raízes profundas dentro daqueles que aprendem a trata-la por tu.

Equinócio de Outono

Faroe Islands.jpg

Entra hoje o Outono nos dias do calendário, a acompanhar semanas de trabalho que já fizeram esquecer as férias. Não é coisa que te assuste, pois gostas da alternância das estações e gostas do Outono, com os seus vários tons de amarelo e dias que vão encurtando, apesar de o sol se fazer sentir ainda, numa teimosia  hesitante que já não aquece, mas ilumina.

Deparaste-te ontem com uma imagem das ilhas Faroe, da aldeia de Elduvík, em particular. A legenda dizia que a povoação gozava os últimos raios de sol directo até que este se esconda, por largos meses, atrás das montanhas. A fotografia é linda, como aliás, o devem ser as ilhas, mas isto mostra a sorte que temos, nós portugueses, neste canto da Europa, à beira mar plantado. Temos Outonos e Invernos, é certo, mas temos também um sol luminoso que se mostra presente o ano inteiro, resguardando-nos de prolongadas hibernações sombrias.

Não tarda, o chão das ruas por onde passas habitualmente, estará atapetado de folhas, o céu mostrar-se-á, por vezes, carregado de nuvens e aparecerá, também, aquela primeira chuva que traz com ela um cheiro bom a terra molhada que gozas com a satisfação de alguma coisa que reconheces e que associas a recomeços, mas nunca terás dias de escuridão completa pela ausência do astro rei.

Venha de lá este Outono e, com ele, dias diferentes, com todas as coisas novas que fazemos por causa deles.

Quimeras mil

Christian Schloe, Portrait of a heart.jpg

Há uns dias ouviste uma conferência em que o escritor Arturo Pérez-Reverte dizia que não escrevia sobre amor porque só se dedicava a temas em que acreditava (era isto, mais coisa menos coisa), mas, logo de seguida, enaltecia uma forma de amor que se reconduzia à amizade feita da procura do outro e, acima de tudo, à lealdade. Na verdade, ser-se leal nos momentos em que é difícil sê-lo, será, porventura, um dos pódios do amor. O mesmo Pérez-Reverte foi convidado a listar palavras essenciais da sua existência, e lá elencou umas quantas absolutamente estruturais, mas o "amor" ficou de fora.

Já ao Vergílio Ferreira, quando lhe disseram que o que melhor sabia escrever eram histórias de amor, ele respondeu: «Mas o impossível foi o que sempre mais me fascinou» e, possível ou não, a Elis Regina, mulher arrebatada e arrebatadora lá cantava: "és fascinação, amor".

Leste algures que, para os Gregos, o amor, em todas as suas formas, era de inspiração divina e que esta nem sempre vinha na forma de uma bênção, já que o erotismo podia ser infligido como um castigo dos Deuses, sujeitando-nos a períodos da mais deliciosa loucura, capaz de virar de pernas para o ar a paz da nossa existência.

Tu, que te vês grega para atinar com estes assuntos, andas a tentar desembaraçar esta meada desde a primeira vez que te subiu o coração à garganta, sendo certo que continuas a ser tão principiante como o eras então.

 

Habitat

VFacaia

Há uma casa que abriga uma piscina muito escura, rodeada de um jardim que se vai plantando. Costumas lá ir por alturas de Setembro, para fechar o verão e reunir gente querida de um ramo familiar já muito desramado. Estende-se uma mesa comprida de pratos e travessas, espalham-se cadeiras e toalhas na relva e aproveita-se a tarde para os últimos mergulhos da estação.

À tua volta, há canteiros de alfazema, pequenos buxos, cactos e sardinheiras em vasos de barro. Há também uma figueira, dois limoeiros, uma trepadeira que sobe por um alpendre acima e um baloiço. Olhas frequentemente para aquele espaço a pensar que deve ser relaxante cuidar de um jardim - plantar por estaca ou a semente, podar árvores, regar, escolher sombras para viveiros e cantos abrigados para plantas mais frágeis, sujar as mãos de terra, aproveitar o silêncio circundante e gozar a satisfação de ver alguma coisa crescer, num ritmo de paciência.

De entre as muitas imagens fotográficas que coleccionas obsessivamente, tens bastantes dedicadas a paisagens de vegetação densa, mas também outras, em que se desenham varandas e terraços escondidos atrás de vasos de plantas e trepadeiras fortes. Já havias notado em ti esta propensão, capaz de te fazer parar debaixo de uma árvore gigantesca que te deixa perplexa na sua presença de sombra larga. Quantas vezes isto já aconteceu. Gostas destes cenários e gostas de te encontrar dentro deles. São Miguel é isto, como o é também a ilha das Flores com as suas lagoas e cascatas rodeadas de hortênsias e verde, a serra de Sintra num emaranhado de troncos e musgo; todos eles, lugares de encantamento pessoal.

Se alguma coisa te falta - de entre aquelas que se podem adquirir a troco de moeda -, um jardim, é muito provavelmente, uma delas, um pequeno mundo verde que te feche lá dentro. Uma ilha, serás sempre uma ilha.

 

PINGUE PONGUE ... em Cascais.

Ping Pong.png

 O Pingue Pongue é um programa de rádio da Matilde Campilho e  do Tomás Cunha Ferreira que passa na Antena 3, aos Domingos à noite, e que me tem feito uma companhia regular, seja na transmissão em directo, seja na audição tardia do podcast. Este, é um programa com cheirinho a outrora, em que a Matilde e o Tomás nos falam ao ouvido, baixinho, como se faz à noite para não acordar o vizinho ou para contar coisas importantes em confidência. O Pingue Pongue tem esse ambiente de escurinho do cinema e é pelas vozes bonitas daqueles dois que ouvimos as histórias por trás das canções ou somos lançados num voo planado de palavras que circundam um tema e que, num desenrolar de meada, ligam uma música à outra, com paragem obrigatória num poema falado pela voz dos donos da casa ou numa gravação velhinha de autor a saltar as linhas do vinil e um ruído a preto e a branco. Os convidados são muitos e variados, mas arriscar-me-ia a dizer que o Caetano, o Bowie e o Cohen têm lugar cativo, a esses, quase lhes vejo a cadeira lá no estúdio, mas são tantos os intérpretes, as gerações e os continentes que atravessamos a cada Domingo que, à conta do Pingue Pongue, tenho o telemóvel recheado de música nova.

É aos Domingos, repito, Antena 3, às 23:00, para acalentar a semana e também será neste sábado, dia 17, aqui em Cascais, às 22:00, no Pestana Cidadela pousada & Art District, Pingue Pongue, ao vivo e a cores.

Eu vou.

 

 

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