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Outro Sentido

Outro Sentido

Manifesto pessoal.

Uma tarte de cogumelos, uma tarte de tomate com oregãos, um frango de caril, filetes com arroz de tomate, feijoada de chocos, frango com coentros, lulas à americana, coelho na púcara, legumes gratinados, sopa de ervilhas com coentros. Isto deve arrumar uma semana de refeições sem que eu tenha de agarrar numa colher de pau. Valha-me essa grande invenção que é o pronto a comer caseiro e que me livrou dos grilhões da cozinha. Há muito que perdi o ânimo culinário que alimentou o meu passado de mulher casada. Aí, qual sonho do lar, eu cozinhava favas à portuguesa, arroz de pato e alcatra à moda terceira enquanto o diabo esfrega um olho. Hoje, tenho de mentalizar-me para fazer sopa na Bimby ou, como diz o meu pai, "estragaste-te toda". A verdade, porém, é que nesta existência maculada pela inexperiência culinária e a mais completa falta de interesse em tal, sou infinitamente mais feliz - enquanto o puder ser -, e isto de ter duas casas de bom pronto a comer nas redondezas, foi dos milagres genuínos que me aconteceram na vida.

Vivam as ligeirezas mundanas que nos facilitam os dias e que são variadas e assumem muitas formas - viva o Angelicalm, viva o Sinutab, viva a opção do MEO que permite gravar séries e revê-las em dose contínua ao fim de semana de manhã, viva o serviço de homebanking, via a engomadoria que se instalou no prédio ao lado, viva o jantar à segunda feira em casa da mãe, viva o continente online, viva o spotify, viva o instagram, viva o botão de silenciar o telemóvel (mega viva), viva o alerta de aniversários do Facebook, viva os jornais online, viva a wook, viva o chocolate Lindt flor de sal, viva tardes de chuva em casa e viva o dia em que decidi ter um tapete amarelo na sala - sim amarelo -, viva as gargalhadas entre amigos e os disparates via whatsapp.

É que isto de cá andar não fica mais fácil com os anos e se vos impingiram essa tanga, aviso já que é mesmo isso - uma grande tanga -, mas se formos construindo o nosso kit de primeiros socorros, isto fica bem melhor.

Cada qual procura o seu, há quem recorra ao jogging, a um copo de bom tinto ao final do dia, a um xanax na mala, a música a bombar a caminho de casa, aula de bike, aula kick boxing, aula de zumba, aula de yoga, tricot, crochet, puzzle, costura, bicicleta, prancha de surf, há até, pasme-se, quem se enfie na cozinha feliz e contente a cozinhar para um batalhão.

Eu cá, enfiei nove refeições feitas no congelador e respirei logo muito melhor.

E se fosses tu?

Eu, que tenho medo de tudo, desde baratas a aviões, estou convencida de que estava enfiada debaixo de uma mesa quando Deus distribuiu a coragem e, por isso,  quando ouço testemunhos feitos dessa matéria, arregalo os olhos de admiração e tento expandir o coração para lá do espaço que o contém.
As histórias que a irmã Guadalupe tem para contar são reais e feitas de gente do nosso tempo, de jovens, de crianças e de famílias inteiras que vivem diariamente o indizível sem se arredarem do quotidiano possível, sem negarem uma fé que constitui sentença de morte, e mantendo, ainda assim, um sorriso no rosto.
A história é longa mas tem de ser ouvida, até porque mostra bem que aquilo que nos chega já filtrado pela comunicação social não é nunca a verdade toda, mas sim uma versão que nos protege no conforto do nosso sofá ocidental.
Tive, há uns dias, a oportunidade de ir ouvir a irmã Guadalupe ao vivo e, no entanto, não fui, porque já conhecia os contornos deste relato e sei o quanto isto me abala - nunca aprendi a não sofrer com os outros e visto-lhes a pele quando me confrontam com estas vidas - mas volto a elas porque o mais importante é reconhecer a sua existência, é mostra-las e não virar a cabeça como quem enxota o que nos é incómodo e desinstala, não há outra reação possível ao que se segue. 
 

A idade da indecência

 

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Eu agora faço análise, assim mesmo, como as brasileiras, que soa muito melhor: eu faço análise e aulas de pilates à hora do almoço. A minha mãe nunca fez análise e ainda criou dois filhos, mas eu não sou, definitivamente, a minha mãe.

Eu ando para aqui a atirar pedaços de vida ao ar e a tentar agarra-los ao mesmo tempo, como uma uma malabarista maltrapilha, em cima de uma corda muito bamba, pendurada lá no alto desse circo que é a vida. Tenho um show diário em horário fixo, das oito às oito, e a coisa não tem corrido mal, raramente deixo cair uma bola ao chão e, nas raras ocasiões em que isso acontece, eu vou lá apanha-la, com um pé, graciosa, super difícil, super show, parece que faz parte do número.

Lá de cima, na minha corda, eu vejo tudo - o antes, o agora e o depois (como o Caetano) - e o meu circo está muito diferente.

O antes era bom, era a idade da inocência em que eu resolvia tudo com chocolate e uma pista de dança. Nesse tempo, para aplacar as minhas angustias, o meu pai tentatava ensinar-me que a vida era feita de "setenta por cento de chatices e de trinta por cento de coisas boas", e que o importante era aprender com as primeiras e aproveitar as segundas. Para compensar, houve um dia que ele regressou de viagem com um Toblerone de meio quilo debaixo do braço; eu comi-o numa tarde e fiquei feliz por uns dias. O chocolate era como os pozinhos de perlimpimpim, tornava tudo mais doce e, quando o chocolate não chegava, a pista de dança resolvia. Na idade da inocência era fácil deslindar a vida e, no dia seguinte, o mundo acordava, igual a ele mesmo, a girar sobre o seu eixo, sossegadito, pelo menos, na extensão tranquilizadora do meu País e respectiva vizinhança.

Agora já não é assim, eu acordo de manhã e acho que o mundo perdeu o seu eixo - é que acho mesmo -, há dois dias a lua estava enorme e isso não pode ser coisa boa. Anda tudo a respirar o sobressalto do abismo - numa manhã o mundo está uma coisa e, na manhã seguinte, está outra oposta. O planeta está de pernas para o ar e o meu circo também, o que não é nada auspicioso para quem anda lá nas alturas, a equilibrar os pés numa corda agitada com ansiedades, desafios, cautelas, preocupações, ordenados para pagar, impostos para gerir, prazos para cumprir, gente que eu não entendo, egos que eu não suporto, trânsito, poluição, desencanto, sarilhos, irritações, falta de sono, dores nas costas, nos joelhos, na barriga.

Meu circo está diferente e eu tornei-me mais cautelosa. Agora, tenho uma rede enorme a flutuar debaixo dos pés, não vá o diabo tecê-las. Nessa rede, eu pus a família, a fé, as amigas, os livros, o mar, uma caixa de Angelicalm e uma tirinha de Diazepan, o voluntariado, a minha casa, as minhas plantas, o meu Moleskine, as aulas de pilates e sessões de análise (olha o Brasiu).  É isso que me salva da insanidade, é aí que eu encontro os pontos cardeais que me orientam e se cair, eu caio nessa rede, mesmo que o circo venha todo atrás.

Estou nessa idade, na velha infância que perdeu a inocência mas que vive na indecência generalizada.

O meu pai nunca mais me ofereceu um Toblerone, o que está mal; o chocolate ainda resolve muita coisa.

 

Girl Power.

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No percurso de aprendizagem social e no despertar de questões cívicas, nós somos o resultado do meio em que crescemos e, por isso, é natural que haja temas que nos são próximos e outros nem tanto, consoante a vivência que tivemos. Ora, eu tenho a sorte de ter crescido numa família em que as mulheres sempre tiveram - e ainda têm - uma presença forte e alicerçante. Se tantas vezes falo das minhas avós, não o faço apenas por uma aconchegante saudade, faço-o também movida por uma sólida admiração, fundada na consciência da sua força e coragem perante a adversidade. Talvez por isso, falar de feminismo, nunca tenha sido o prato do dia à mesa do jantar, simplesmente porque a presença feminina sempre se impôs com natural, reconhecido e incontestado mérito.

Ora, isto justifica que já muito tarde eu tenha acordado para as questões de género e mais tarde ainda tenha despertado para a necessidade efectiva de as mesmas serem debatidas e colocadas debaixo dos holofotes. Hoje, eu, neta de minhas avós, vivo num mundo de conquistas no que aos direitos das mulheres diz respeito e, simultaneamente, num mundo em que se torna necessário, todos os dias, impor essas conquistas como um lembrete persistente.

Já perdi a conta ao número de vezes em que sou profissionalmente confrontada com comentários sexistas de toda a sorte e creio que não há semana que passe sem que uma amiga me venha com mais uma história de sofrível paternalismo machista, não raro, a roçar - ou ultrapassar - a mais rude boçalidade. Às vezes, dá-nos para rir, outras vezes para responder, outras ainda, para manipular o ego desses homens que encontram na humilhação do outro, a âncora da sua imaginária superioridade. Não são muitos, é certo, a maioria respeita e admira as mulheres que os acompanham, mas há demasiados ainda que encontram no jocoso tratamento desdenhoso, uma forma de violência de género que, muitas vezes, nem identificam como tal. Numa sala de reuniões ou numa sala de Tribunal, já vi mulheres a serem comparadas a tudo, desde burros de carga a sacos de pancada, de sacos de farinha a caixas de Pandora, de histéricas a demónios sinuosos e porque esta é a realidade do mundo dito civilizado deste século XXI, temos um candidato a Presidente a gabar-se de "grabing them by the pussy" só porque é uma estrela e pode.

Assim, aquilo que, para mim, nunca foi um tema da minha formação pessoal, surge, na meia idade, como uma tecla que insisto em tocar. É por isso que celebro e honro cada mulher que arrisca a felicidade para não ceder à chantagem do companheiro que a ameaça, usando para isso a cartada cruel dos filhos ou a força de um punho fechado, ou as mulheres que comprometem um percurso profissional para não ceder ao assédio sexual de um patrão, as mulheres que saem altivas e dignas de divórcios em que foram usadas e mentidas, as mulheres que se viram para o seu interlocutor para o lembrar que a cara delas está acima do pescoço e não na linha do decote, as mulheres que viram costas à imposição de um dress code e que se apresentam femininas e mulheres que são. É por isso que honro mulheres como Malala Yousafzai cuja história conhecemos, ou Shamim Akhtar uma paquistanesa que desafiou a ordem local e é condutora de veículos pesados, ou Nadia Murad uma activista Yazidi que foi feita escrava pelo auto proclamado estado Islâmico e que, conseguindo escapar, não se escondeu no medo, antes dando a cara pela luta contra as atrocidades do monstro, ou Darya Safai, a mulher iraniana que nestes Jogos Olímpicos foi notícia por hastear uma bandeira que simbolizava a luta pelo direito das mulheres iranianas de entrarem num estádio, ou as anónimas raparigas indianas que passaram a viajar de autocarro em grupos para se defenderem ruidosa e ostensivamente dos homens que as assaltam sexualmente. Estas são as nossas heroínas quotidianas, mulheres do nosso século que usam capas invisíveis e que têm super poderes que só existem dentro delas, são as bruxas das fogueiras que queimaram soutiens e que ainda hoje conjuram as forças do mundo. Destas, lembro, por último, as mulheres curdas que formam  milícias militares para combater terroristas misóginos e extremistas que as temem para lá da morte, porque no entendimento distorcido da sua ideologia, um homem que tenha sido morto por uma mulher perde o seu lugar no Paraíso das virgens, é que muitas vezes é assim - Karma is not a bitch, it's a woman!

Dia de finados

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Fui uma única vez a um cemitério em dia de finados.

Era muito miúda e entregaram-me a tarefa de limpar a campa de alguém que nunca havia conhecido, mas eu limpei-a, dedicadamente, com uma amiga, um balde de água e duas vassouras. Lembro-me de o fazer com esmerado cuidado e empenho, lembro-me de o fazer como dádiva e com um profundo sentido de respeito, lembro-me de o fazer sem vislumbre de tristeza, mas atravessada por uma enorme ternura. No final do trabalho, aquela campa estava brilhante no seu mármore branco e eu levei um raspanete pelo lodaçal que a rodeava. Não liguei, achei que aquele morto, naquele dia estaria a olhar-me lá de cima, feliz e com uma gargalhada rasgada no rosto. Vi-o assim, mesmo.

Depois disso, voltei a cemitérios apenas com água nos olhos e, por umas quantas vezes, quase chorei um lodaçal semelhante, entretanto, nos dias que vão passando, falo muitas vezes com esses meus que já cá não estão, com as minhas avós em particular, ouço o que elas têm para me dizer, respondo-lhes e digo-lhes coisas de saudades. Às vezes, elas também me dão raspanetes, mas eu não ligo, acho que elas são sábias e que estão a olhar-me lá de cima, felizes e com sorrisos no rosto. Vejo-as assim, mesmo.

 

 

 

 

 

You got a fast car.

Estudávamos em Lisboa e saboreávamos as primeiras dentadas de liberdade; íamos às aulas - quando íamos -, e éramos os reis e as rainhas das mesas do Bar. Jantávamos em casa uns dos outros porque podíamos, porque era uma forma de estarmos sós - mas juntos -, insolentes e cúmplices. Sonhávamos com futuros variados e resolvíamos injustiças com a jovem arrogância de uma penada. Trocávamos músicas e livros, falávamos mal de muitos professores e bem de alguns, andávamos de comboio, de autocarro, de metro e ocupávamos lugares ao molho, com ruído, casacos, manuais, códigos, mochilas e castanhas assadas em cones de papel que se partilhavam entre todos. Não se estudava uma linha, isso ficava para fazer em casa, mas bebiam-se umas cervejas, cozinhava-se muito (às vezes bem), bebia-se ainda mais. Rebolávamos a rir, pelos sofás, pelas cadeiras, pelo chão. Também dormíamos ao molho, pelos sofás, pelas cadeiras, pelo chão. Provocávamo-nos incessantemente, eles contra elas, elas contra eles, eles contra eles, elas contra elas, uns contra os outros, uns na direcção dos outros, alguns irremediavelmente, até hoje. Éramos todo poderosos e não vacilávamos nesse poder, subversivos e irmãos de sangue, parvos, adoravelmente parvos, e ouvíamos Tracy Chapman, lembro-me de andarmos todos a ouvir Tracy Chapman e a cantar o fast car em coro - And I had a feeling that I belonged /  I had a feeling I could be someone, be someone, be someone.

 

Os elementos & os Açores – um bailado sobre o basalto.

Na sua página de facebook, o escritor Joel Neto publicou este video e texto do respectivo autor. É impossível não partilhar.

Os elementos & os Açores – um bailado sobre o basalto. Um filme do meu amigo Filipe Tavares.

«Segunda Feira, 23 de Outubro de 2016. Há chuva e vento para todos e a previsão anuncia ondas que podem atingir os 18 metros. Agarro a câmara e saio de casa na esperança de captar boas imagens da tempestade. Visito a “Concha”, a escultura do projeto LAPA - Land Art Project Azores, construída no calhau da praia de Santa Bárbara na Ribeira Grande. Deparo-me com um cenário absolutamente mágico, parece um sonho. Na fúria da tempestade encontrei a dança, a espuma voa e dá forma ao vento, reduzo o tempo e gravo a 400 imagens por segundo, assim posso apreciar o bailado que a natureza esconde. O bom tempo do mau tempo é lento. Filipe Tavares»

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